
Há alguns anos, bastantes até, entrevistei o José Duarte.
O Jazzé Duarte, como gosta de ser chamado, é um dos grandes especialistas do jazz em Portugal. Não é o maior, porque esse sempre foi o falecido Luiz Villas-Boas, mas é o mais conhecido do grande público.
Eu estava preparado para falar com o Jazzé Duarte, mas o Jazzé Duarte não estava nada preparado para me ouvir falar.
Não sei se estão a ver, quando fui a casa dele para o entrevistar tinha acabado de descobrir o jazz e andava apaixonado por este estilo de música. Acreditem, esta fase é mais problemática do que aquela em que começa a crescer-nos borbulhas na cara. Um tipo em lua de mel com o jazz pode transformar-se num indivíduo muito obstinado e fazer coisas que só faria se tivesse perdido o juízo dentro do piano da Carla Bley - precisamente o que me aconteceu a mim.
Só para terem uma ideia: cheguei a pedir um empréstimo ao banco para comprar todos os CD que cobiçava. Quando três ou quatro dias depois a massa caiu na conta, corri as discotecas a sacar pilhas de CD como se fossem torrentes de MP3. Para mim nem era uma questão de saber quantos podia eu comprar, mas quantos conseguiria carregar sem parecer um contrabandista.
De modo que quando cheguei a casa dele e o homem me fez passar por um enorme corredor com milhares e milhares de CD e discos de jazz nas prateleiras, tive de forçar as minhas pernas a dar meia-dúzia de passos em direcção ao escritório onde a entrevista se realizaria. Quando finalmente lá cheguei, descobri novo conjunto de prateleiras contendo pelo menos uns mil e quinhentos CD.
«Estes são os meus preferidos», disse ele, radiante por me mostrar a sua biblioteca de Babel. «Por isso é que estão aqui.» Por pouco eu não dizia «Foda-se» em voz alta.
É verdade, havia outro pormenor muito significativo: naquela altura a Internet era uma miragem para a maioria das pessoas. Eu nem sequer tinha computador. Conhecer pessoalmente um tipo como o Jazzé Duarte significava ter um Google à disposição. Ele bem tentava ser entrevistado, mas o que eu fazia era escrever nomes no campo de busca que lhe via escarrapachado na testa: Miles, Coltrane, Keith Jarrett, Charlie Parker, Billie Holiday, todos esses músicos maravilhosos que acabara de descobrir e sobre os quais conhecia tão pouco. Pobre homem.
Eu sou um caso perdido, mas do Jazzé não quero que fiquem com a impressão errada: foi paciente e ter-se-á sentido rejuvenescido pelo meu entusiasmo. Ao princípio deixou-me falar e gesticular à vontade, ouvindo-me com uma expressão de Buda embevecido. Ficou ali sentado com as pernas esticadas e as mãos pousadas sobre a pança. Às tantas, cometeu um erro.
«O jazz é a melhor música do mundo», dizia eu pela décima vez nessa tarde. «Mas tenho pena de não ter tido oportunidade de ver esses músicos ao vivo. Nunca poderei ver o John Coltrane tocar, só poderei ouvi-lo.»
«O Coltrane? Bem…» Levantou-se com um sorriso matreiro e abriu as portas de um enorme armário. Vi então centenas e centenas de cassetes VHS com concertos de Coltrane, claro, de todos os outros músicos que conhecia e adorava, e de muitos mais que ainda não ouvira, quanto mais ver: Monk, Eric Dolphy, Charles Mingus, por aí fora. Poupo-vos a uma descrição mais pormenorizada da minha reacção. Digo-vos apenas que a expressão da minha cadela quando percebe que vai ser alimentada me faz sentir uma sensação de déjà-vu.
Bem, a entrevista acabou por ser feita e correu de forma excepcionalmente profissional, dadas as circunstâncias. Estava na altura de abandonar a mina do Salomão do jazz.