Todos temos filmes que nunca mais esquecemos – às vezes por os acharmos de grande qualidade, outras por os associarmos a momentos importantes da nossa vida. Ocasionalmente, pelas duas razões. Sem mais delongas, seguem-se cinco dos filmes que nunca esquecerei na vida — e porquê.
The Shining


É um clássico de terror do mestre Kubrik, mas durante uns tempos foi a melhor maneira que arranjei para explicar por que razão o cinema era uma coisa muito fixe. As caretas artísticas do Jack Nicholson, a música, os planos, os travellings, a montagem, tudo isso os desgraçados e desgraçadas sentados a meu lado teriam de reparar, quer quisessem ou não. Rituais massivos de conversão? Bons tempos!
Encontros Imediatos do Terceiro Grau


O meu primeiro contacto a sério com extraterrestres! Como poderia eu esquecer a criança apontando para uma nave espacial no céu exclamando «Olha, gelados!», a conversa sinfónica com os ET’s — não falando da tremenda (diria: astronómica) dor de cabeça com que fiquei depois de sair do cinema? Ah, ganda Spielberg, que nessa altura ainda te achava o suprassumo da costeleta cinematográfica.
E este foi o primeiro filme em que fui autorizado pelos meus pais a ver sem supervisão. Vi-o num cinema no Estoril há muito desaparecido, o Oxford, famoso por ter cadeiras tão confortáveis que metade das pessoas nas sessões da meia-noite acabava por adormecer.
Vem e Vê — Requiem para um Massacre

O melhor filme de guerra que vi na vida não foi o excelente Apocalypse Now (Francis Coppola), Nascido Para Matar (Kubrick), Platoon (Oliver Stone) ou o mítico Iron Cross (Sam Peckinpah). O melhor de todos foi um filme soviético de Elem Klimov que infelizmente muitos desconhecem: Vem e Vê — Requiem Para um Massacre.
Quando o vi pela primeira vez foi em vésperas de ir para a tropa e é difícil descrever o impacto que me causou. O filme é um relato da invasão da Bielorrússia pelas tropas nazis durante a II Guerra Mundial, e das atrocidades cometidas contra os aldeões e os partizans que pegaram em armas para defender as terras. À superfície, retrata a guerra como algo obsceno e hediondo. Mas esteticamente é tão belo que, às tantas, a violência parece irromper do filme como uma chama glorificadora, queimando a face de quem está a assistir. (Trailer)
Asas do Desejo

Se nunca viram este filme vejam-no, por favor. Belíssimo e emocionante, um dos meus filmes de cabeceira. E não se deixem enganar pela pindérica adaptação que Hollywood fez uns anos mais tarde com o Nicholas Cage… Refiro-me ao original alemão, filmado numa Berlim ainda dividida ao meio pelo Muro e repleta de anjos da guarda — alguns flutuando estoicamente nas nossas consciências, outros sucumbindo ao amor e caindo à Terra.
Em vídeo: um «falso» teledisco dos Radiohead com as imagens deste filme extraordinário.
Solaris

A história de uma estação espacial orbitando o planeta Solaris, onde o único ser vivo é um oceano inteligente, é a mais conhecida do escritor de ficção científica Stanislav Lem e foi adaptada por Andrei Tarkovski em 1972 (não gosto muito da versão de Steven Soderbergh, de 2002).
A forma como esse oceano interage com os cientistas que o tentam estudar reflete a visão de um encontro com uma existência poderosa e quase inatingível, capaz de tocar a alma dos cientistas sem relevar qualquer tipo de moralidade ou juízo humano. A um dos cientistas faz surgir um amor perdido: a mulher falecida há muito, agora uma réplica perfeita, espelho da sua própria memória, mas imortal e auto-consciente, dotada de uma força e resistência sobre-humanas.
Essas réplicas têm uma existência boa ou má? Qual a sua finalidade? A resposta não se encontra ao alcance dos conceitos humanos — e é essa ausência de resposta com sentido moral que, a pouco e pouco, vai enlouquecendo toda a tripulação.
A vossa lista de filmes inesquecíveis
Reduzir esta lista a cinco filmes é cruel, claro – podia ter incluído o Magnolia, os dois primeiros Padrinhos, Era Uma Vez na América, A Árvore da Vida ou Cidade de Deus, entre muitos outros – o que não faltam são bons filmes e temos uma caixa de comentários pronta a receber mais obras para a lista dos inesquecíveis.
Sendo assim, meus caros, digam lá quais os filmes que nunca mais conseguiram esquecer?