
Ó grande mestre, na sua infinita sapiência e generosidade, pode partilhar connosco, ávidos leitores, as suas últimas descobertas na blogosfera?
Calma. Também não é preciso exagerar. Mestre é suficiente. Não gosto que me coloquem num pedestal. Quando o senhor vai à casa-de-banho não larga caganitas de mármore, não é? Eu por enquanto também não. Posso dizer-lhe que conheci um blogue – Maria da Lua – muito interessante. Por lá se contam as atribulações de uma lisboeta a viver em Londres. Eu gosto. Está escrito de forma engraçada. Adoro a forma como a autora utiliza as vírgulas. Sabe, as vírgulas estão para as frases como a bateria está para o jazz: impõem o ritmo, mas também o questionam. Aprecio também no Maria da Lua a mistura entre português e inglês nas mesmas frases: parece caótica, essa tal mistura, mas aquilo está pensado para provocar o riso ou colorir a narrativa. A propósito, gosto bastante de outro blogue – o gi-gi net.
Por causa das vírgulas, também, ó mestre?
Não, embora tenha a ver com uma questão de ritmo. A autora utiliza frases curtas e pontos finais e parágrafos como se estivesse a usar pontos de exclamação. Este estilo de post não tem tanto a ver com o jazz, mas lembra-me mais o ba-na-na-nã inicial da nona sinfonia de Beethoven. Tipo ba-na-na-nã, um post, ba-na-na-nã, dois posts. E por aí fora. Eu gosto.
Ba-na-na-nã, mestre? Poderia chamar-se Sinfonia da Banana, assim!
Depressa! Alguém que me faça cócegas para ver se eu consigo rir! É um assunto urgente!
Oiça, meu caro. A próxima vez que quiser dizer uma piadinha gasta avise-me primeiro, está bem? Aproveito para ir tomar um café ou coisa assim. Além disso, o gi-gi.net tem uma imagem de umas cerejas, não tem lá bananas nenhumas.
Conhece algum blogue que use pontos de exclamação?
Conheço alguns, mas não me agradam particularmente – a maior parte são de desporto ou política. Esticam um furioso dedo no ar quando escrevem – e isso não é bem a mesma coisa. Prefiro associar o uso do ponto de exclamação à expressão de sentimentos como a exaltação, a alegria, o deslumbramento. Infelizmente leio mais frases do género Sporting! Sporting! Soares ainda é fixe! Parte a Louçã toda! Cavaco! Cavaco! Porto! Porto! É penalti, caralho!
Já não se fazem pontos de exclamação como antigamente.
Um texto sem vírgulas é um texto sem ritmo?
Considere estas palavras de um enfant terrible da nossa literatura, o Bocage: «Ó dama por quem me aflijo/Por ventura consintais/Que eu introduza o com que mijo/No por onde vós mijais?» Dependendo da reacção da dama, o ritmo pode vir a intensificar-se.
Veja também esta moda de blogues voyers, por exemplo. Começou pelo frigorífico (as pessoas partilhando de livre vontade o futuro conteúdo dos seus estômagos) e agora já mostram mãos, boca, olhos, dedos médios, enfim, andam por ali às voltas. Deve ser por isso que existe o termo blogosfera: há blogues esféricos, redondos, quadrados, há blogues que não têm ponta por onde se pegue e há os que andam por aí às voltas. Não me admira que um dia destes surja o Blogue do Com que Mijo.
Temos tempo só para mais uma pergunta. Na sua opinião, quem é o blogger mais inteligente da blogosfera?
O Burro, claro, embora ele não tenha consciência disso.
Porquê?
Bem, porque é burro!