Arquivos mensais: Junho 2005

→ 30/06/2005 @13:03

Contra todas as possibilidades, o mar estragou a foto

→ 30/06/2005 @1:06

Entre irmãos

Evocar os tempos em que o luso-brasileiro Deco foi contestado na selecção nacional lembrou-me a questão das rivalidades e uma conversa muito interessante que mantive há uns bons aninhos. Foi no ano em que o grande Frank Zappa deu os célebres concertos de Barcelona: nunca mais me hei-de esquecer porque afinal estive tão perto do mestre e nunca mais se proporcionou a oportunidade de o ver ao vivo.
Estava num comboio a caminho de Madrid, eram quatro da manhã, não conseguia dormir e acabei por ficar na palheta com um espanhol que também sofria de insónias. Demos por nós a cavaquear sobre a típica rivalidade entre portugueses e espanhóis.
O tema das relações com neutros hermanos era mais sensível do que alguns podem imaginar. No fim-de-semana em que fui para Madrid, o El País tinha publicado uma reportagem que escandalizara Portugal: o jornalista andou por cá a fazer o retrato do país e as suas conclusões não tinham sido muito agradáveis para nós. Entre outros ultrajes ao panteão nacional, escreveu que Portugal, comparado com Espanha, era um país de campónios; manifestou a sua surpresa por existirem tantas campanhas de solidariedade que serviam apenas para colmatar as falhas do Estado e chamou-nos um país de Pirilampos Mágicos. Sobre as relações com Espanha, criou uma metáfora: Portugal e Espanha vivem de costas um para o outro, não como estranhos, mas como dois irmãos prontos para iniciar um duelo.
Esta reportagem foi publicada em duas partes, mas a segunda nunca chegou cá porque Cavaco Silva, então Primeiro-Ministro, ficou ofendido e foi fazer queixinhas ao colega González. O chinfrim diplomático português foi tal que, por pressão do Governo Espanhol, o El Pais decidiu suspender a publicação da restante reportagem em Portugal para evitar mais chatices. É preciso ver que, na altura, com o dinheiro fresquinho a correr da Europa, andávamos todos a navegar num caudal consumista demasiado rápido para as nossas pobres naus. Mais tarde ou mais cedo, como nos filmes, o rio acaba numa cascata enorme e lá ficamos nós a lutar para não cair por ali abaixo. Supostamente deveríamos ter usado esse dinheiro para aumentar a nossa capacidade produtiva, mas o que se verifica agora é que estamos cada vez mais transformados numa nação de prestadores de serviços.
Não admira que, assim que ultrapassei a fronteira, tenha imediatamente sentido que a apreciação do jornalista espanhol estava correcta. Bastava olhar pela janela e ver as diferenças entre campos semi-cultivados e planícies industrializadas. O tipo do comboio não tinha lido a reportagem e não se pronunciou, mas discordou da imagem dos irmãos em duelo.
- Mira. Deixa-me contar-te como é que os espanhóis realmente vêem os portugueses – começou ele. – Estás a ver o Paulo Futre? Grande jogador! Pois ele agora é o capitão da equipa do Atlético de Madrid. Sabes o que dizemos disso?
- Não.
- Dizemos assim: hijo da puta, o cabron do português, então já se viu ser capitão de uma equipa espanhola!? A gente refila, entendes? Mas deixamo-lo ser capitão.
Fiquei calado, sem perceber onde ele queria chegar.
- Supõe tu agora que, em vez de ser um português, o Futre é um jogador inglês. Nós não lhe chamamos hijo da puta nem cabron, nada disso; mas capitão de uma equipa espanhola? – Ele levantou a voz e espetou um dedo no ar, como se estivesse a fazer um discurso ou a resumir cinco ressabiados séculos de História. – Capitão de uma equipa espanhola é que também nunca podia ser, que a gente não deixava! Foda-se! Isso é que era bom!

→ 29/06/2005 @16:21

Deco

Bem sei que o assunto já tem barbas porque Deco, o luso-brasileiro, esse estupendo jogador de futebol, já é aceite pela maioria como um dos nossos. Questão arrumada.
Mas ainda me lembro de quando o assunto ocupava as conversas nos cafés: ele sente-se como tuga ou não? É legítimo que represente os superiores interesses da selecção nacional? É sincero? Sente a bandeira? Trocou a feijoada à brasileira pelo cozido à portuguesa? Devemos acreditar nisso?
Ainda antes de ter feito o primeiro jogo já eu sabia que o homem é um portuga típico e ia integrar-se bem: por exemplo, não sabia cantar o hino nacional e tinha uma vaga ideia do que foi o 25 de Abril.
Fiquei definitivamente convencido quando vi uma reportagem na televisão a propósito do regresso da equipa do FC Porto da Grécia, após mais um daqueles jogos de arromba. A equipa tinha acabado de chegar ao aeroporto. Adeptos e jornalistas rodeavam os atletas. A polémica sobre a naturalização de Deco já estava no auge e os jornalistas faziam um verdadeiro cerco ao jogador para lhe arrancar uma declaração sobre o assunto.
A forma como os jornalistas aproximam o microfone da cara das pessoas faz-me lembrar aquelas mães que tentam enfiar, à força, uma colher de sopa na boca das pobres crianças. Podem imaginar a cena, não é? O homem ia sorrindo com paciência de santo, não desviava a cara ostensivamente, mas também não dava muita conversa.
Às tantas, o cerco de repórteres e adeptos apertou-se ainda mais: os microfones, holofotes, os gajos histéricos a gritar-lhe aos ouvidos, as palmadinhas ortopédicas nas costas, enfim, Deco sentiu-se tão apertado, tão apertado, mas tão apertado, que perdeu o sorriso diplomático, marimbou-se para as câmaras, olhou de soslaio para trás e disse:
- Eeeeh lá fôooooda-sssse! Cheguem-se pra lá, caralhuuuu!
Para mim foi o suficiente. Só um portuga é que reage assim quando está apertado. Como é que, depois disto, as pessoas ainda puderam pensar que Deco não devia estar na selecção? É isso aí, bicho! Manda mais, cumpadi Deco! Afinal sempre foste dos nossos, caralhuuuu!

→ 27/06/2005 @18:03

Xadrez Jedi, de Tood Laffler

→ 23/06/2005 @1:52

Floreados

Foste tu que aqui vieste em busca de aconselhamento sexual? Pois olha, pá, não és o único. Escusas de te esconder. Eu não digo nada a ninguém. O Google é um chibo, já se sabe, mas aqui o teu anonimato está garantido. Deste blogue a tua busca não passa. Dás uma volta por aqui ou, se preferires, vais-te já embora.
Estou a ficar batido nestas coisas, sabes? As pessoas vêm cá parar pelos motivos mais extraordinários – e o teu, como deves calcular, apesar de ser pessoal e intransmissível, é dos mais vulgares. Chegaste a este blogue escrevendo a pergunta “Como satisfazer uma mulher na cama?” Nobre e doce questão, devo acrescentar.
Quem se preocupa em querer satisfazer uma mulher na cama, como tu, devia afastar-se um bocadinho dos computadores. Não me interpretes mal: são excelentes para obter informação, mas não prestam para nada quando se trata de fazer-nos pensar.
Olha, imagina a tua masculinidade como uma flor. É verdade, pá, leste bem: uma flor. As flores são geralmente leves como um sonho, macias como um gesto e alegres como uma criança. São sustentadas pela caule, que se divide em galhos e ramos. A caule tem de ser rígida e flexível, de forma a proteger a flor e, ao mesmo tempo, permitir que ela cresça, em ti e na rapariga com quem te queres deitar. Se te imaginares como uma descomplexada combinação de todas essas coisas, estarás transformado numa flor completa ou, por outras palavras, num homem. Depois, sem forçar, sem precipitações, na noite certa, simplesmente ofereces-te. Verás que, por mais inexperiente que sejas, serás sempre uma experiência satisfatória. (E se tudo isto te pareceu uma bizarra aula de botânica, bem, olha, desculpa, a culpa é minha, não me expliquei lá muito bem.)

Mas não te vás embora ainda. Já que estás aqui, digo-te que estou farto das malandrices deste Google. Sim, considera isto um desabafo. Não me deixa o pobre blogue em paz! Tu nem imaginas a quantidade de malta que vem aqui parar à procura de gajas nuas e de sexo. Se eu fosse acreditar em tudo o que diz o Google, já tinha aqui a Marisa Cruz ou a Elsa Raposo a fazer uma dança do ventre em cima do meu disco rígido.
Os pornógrafos (e os jogadores de póker, já agora) aqui não se safam. Esta merda é sobre informática. Tão a ver o banner lá em cima? Pois. É fácil de perceber que sou um bocadinho maluco por computadores, mas nem por sombras os considero assim tão sensuais. Bem, talvez os Mac possam ter uma certa carga sensual. Quanto a mim, são como as ancas femininas nas garrafas de Coca-Cola: truques, meninos, truques com o objectivo de vos fazer desejar deitar-lhes a mão. Há também quem considere os Mac um bocado apaneleirados, mas isso não é motivo para lhes retirar sensualidade. Há gostos para tudo e, quando se trata de invocar paneleirices alheias, esse género de gosto discute-se, e geralmente com uma murraça nos cornos. Quem tem cu tem medo, não é? Não foram os portugas que inventaram esta expressão?

Olha, pá, boa sorte. E lembra-te da flor, não sejas maricas.

→ 21/06/2005 @16:53

Falso anúncio da Puma

Puma é feraPuma é fera

Não é a primeira vez que a publicidade sugere imagens sexualmente apelativas para vender um produto, mas aqui o grau de sugestão é demasiado alto: subiu dos ténis directamente para a braguilha. Just for the record: são falsos, estes anúncios. Nem sequer são imagens reais manipuladas por um software de edição de imagem, são mesmo falsos. E ninguém sabe quem os fez. Há quem diga que foi alguém da Adidas, só para chatear um bocadinho os rivais, mas ninguém acredita nisso, incluindo a Puma.

O que se sabe é que o aparecimento destes anúncios na Internet (e o seu sucesso imediato) irritaram a empresa. Numa mensagem enviada aos media, desmarcou-se de um trabalho «não-autorizado», onde «a nossa marca é ilegalmente associada a um comportamento sexualmente sugestivo». A empresa prometeu também «investigar as circunstâncias» em que a imagem caiu na net, de forma a decidir um eventual «processo judicial» contra os autores.

→ 16/06/2005 @15:52

Supernova

Se tiveste o privilégio de ficar de papo para o ar numa noite límpida de Verão, longe das cidades poluídas, talvez a existência de Deus tenha feito sentido para ti: ainda que por breves momentos, terás ficado pequenino sob tanto céu, em paz, como se realmente Deus aconchegasse o espírito dos homens com um cobertor de estrelas e murmurasse: “Dorme sem medo, meu filho; na imensa escuridão do Universo há sempre Luz.”
Infelizmente o cobertor é demasiado curto. Se queres proteger o peito do frio, ou da escuridão do frio, acabas sempre por destapar os pés – e vice-versa.
Tive as minhas primeiras suspeitas ainda no planeta Terra, onde nasci e cresci; confirmei-as em absoluto quando cheguei ao fim de uma expedição de 10 mil anos/luz rumo ao que chamamos, desde tempos igualmente longínquos, a constelação de Cassiopeia.
Não é preciso seres astronauta para saberes que o céu, escuro ou luminescente, é um dos locais mais perigosos para o ser humano: se não estás protegido dentro de um fato ou de uma nave, morres. Mas não é isso que me preocupa: na vida por vezes optamos pelo caminho mais difícil e perigoso, e depois acabamos por descobrir que era o melhor. Por que razão seria diferente o caminho que conduz ao Criador?
Mas isto ultrapassa tudo o que eu estava preparado para aceitar.
Não deixa de ser irónico que um tipo suba aos céus para descobrir que o mais provável é Deus não existir; mas vejo agora que pode até ser pior: as provas irrefutáveis de que precisávamos para entender o que se passou aqui, neste canto inóspito do Universo, mostram que Deus, afinal, e na melhor das hipóteses, não passa de um brincalhão.
Fizemos a viagem a Cassiopeia porque os nossos radiotelescópios construídos na cintura de Keppler, nas fronteiras do nosso Sistema Solar, tinham descoberto indícios da existência de vida inteligente num planeta rochoso situado a 10 mil anos/luz de distância. O planeta Esperança (ainda hoje não sei quem foi o infeliz a baptizá-lo assim) era um objecto semelhante à Terra, tanto em tamanho como na distância em relação ao Sol. Descobriram-se vestígios de padrões geométricos na superfície que revelavam grandes cidades e monumentos. Mas não havia Sol, emissões rádio ou qualquer outro tipo de actividade que indicasse vida.
Ficámos horrorizados quando descobrimos que era demasiado tarde.
Qualquer que tivesse sido a civilização que florescera no planeta, há muito que desaparecera para sempre, queimada na fúria de um Sol em explosão, uma supernova. Milhões de seres, provavelmente mais antigos e inteligentes que nós, provavelmente com sonhos e aspirações como nós, morreram vítimas de uma estrela caída em colapso, uma estrela que explodiu e espalhou a sua massa de biliões de graus de temperatura nos corpos celestes em redor, aniquilando todas as formas de vida. O que restava dela era um pequeno núcleo central – podíamos vê-lo em cores reais nos visores da nave –, incrivelmente denso, gelado e sombrio, mera estrela de neutrões, um cadáver.
Os dados não mentiam: a civilização tinha sido aniquilada pela explosão da estrela SN1572, assim chamada por ter sido observada pela primeira vez em 1572 por um astrónomo chamado Tycho Brahe.
Esta é a verdade. Não posso deixar de me sentir culpado por estar aqui. Devíamos abandonar este sistema para sempre, não devíamos sequer tentar descer à superfície do planeta, como está planeado. Não existem locais seguros no Universo, mas se partíssemos deixaríamos de profanar este planeta sagrado.
Teremos sido assim tão ingénuos, deitados naquelas noites límpidas de Verão, observando as estrelas aconchegados pela sensação de que, perante a imensidão do Universo, a ideia de Deus até fazia todo o sentido? Sabemos agora – pelos dados astronómicos que consultámos – que a explosão da supernova que aniquilou a civilização do planeta Esperança foi vista na Terra no dia em que Cristo nasceu. Era uma luz brilhante, diziam, tão brilhante que se tornou visível de dia, a mesma luz que guiou os três Reis Magos a Belém.

Adenda: para meu embaraço, descobri que o grande Arthur C. Clarke já se lembrara de associar a explosão de uma supernova à luz da estrela que guiou os Reis Magos a Belém. Fê-lo num conto muito famoso publicado há imenso tempo, intitulado A Estrela, mas de que só agora tive conhecimento. Sinto-me como um músico amador tentando recriar no saxofone um solo de John Coltrane, mas mesmo assim vou manter o texto porque, sinceramente, não o considero um plágio.

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