Lembro-me constantemente do filme de Copolla – Apocalypse Now – quando tento perceber os homens que sequestraram quatro aviões comerciais, lançando dois contra as torres do World Trade Center e matando milhares de inocentes. Ao contrário do que Bush quer fazer passar, o mundo não é a preto e branco: não é um simples good versus evil, tem vários tons de cinzento. Se alguém quiser der um tiro nos cornos ao Bin Laden por causa do envolvimento dele nos acontecimentos do 11 de Setembro, compreendo as motivações; se outra pessoa, e pelos mesmos motivos – morte de inocentes – quiser fazer o mesmo em relação a Bush, compreendo as motivações. Existiram momentos em que não consegui segurar as lágrimas, comovido com tamanha destruição e dor. Mas neste paÃs tranquilo em que vivemos, livre de bombardeamentos, opressões e humilhações, estaremos em condições de fazer julgamentos morais seja sobre quem for? Os cemitérios estão repletos de cadáveres de inocentes – e nem todos são americanos.
Os assassinos do 11 de Setembro são marionetas da Al-Qaeda. Os soldados norte-americanos no Iraque são marionetas de Bush. De um lado, uma organização que deseja dominar religiosamente o mundo, transformando-o numa ditadura de fundamentalistas islâmicos; do outro, um presidente conservador e cristão que utiliza os ataques ao World Trade Center como uma desculpa para dominar os recursos energéticos do Médio Oriente.
Apocalypse Now, para mim, é a chave para compreender os terroristas do World Trade Center. Ao capitão Willard (Martin Sheen), o comando militar americano confia uma missão importante: viajar a uma região inóspita do Cambodja para assassinar o coronel Walter E. Kurtz (Marlon Brando), um brilhante militar mas cujas acções se tornaram incontroláveis. Enlouqueceu. O próprio Kurtz fornece uma pista a Willard para explicar as razões da sua loucura que o levaram a adoptar tácticas sangrentas, desumanas e brutais contra os inimigos Vietcongs.

«Horror», diz Kurtz.
«O horror tem uma face. E tens de fazer do horror um amigo. O horror e o terror moral devem ser os teus amigos. Se não o forem, então serão inimigos a temer. Verdadeiros inimigos. Eu lembro-me quando estava nas Forças Especiais. Fomos a um campo inocular as crianças contra a Poliomielite. Já tÃnhamos abandonado o campo quando um velhote veio a correr atrás de nós, a chorar. Voltámos ao campo e os vietcongs tinham decepado todos os braços inoculados. Estavam reunidos num monte, um monte de bracinhos de criança.
E eu chorei que nem uma avózinha. Fiquei desesperado, sem saber o que fazer. Mas quero recordar o que vi. Nunca vou querer esquecê-lo. Até que me apercebi, como se fosse uma bala de diamante a trespassar-me o cérebro. E pensei: Meu Deus. O génio daquilo. O génio. A força de vontade para o fazer. Perfeita, genuÃna, completa, cristalina, pura. Compreendi então que eles eram mais fortes que nós. Eles não eram monstros, mas homens como nós, homens que lutavam com paixão, com famÃlias, mas que tinham a coragem de fazer aquilo».