Arquivos mensais: Setembro 2005

→ 29/09/2005 @11:24

A arte de Natascha

Natascha Roeoesli, nascida na Suíça em 1975, amante de pintura, desenho, animação 3D, mitos, estações do ano e gatos, é a única filha de um casal de fotógrafos. Como a própria diz, “tive a sorte de herdar a paixão dos meus pais pela criatividade e comecei a desenhar ainda antes de aprender a andar. Tive uma espécie de overdose de belíssimas fotografiasâ€. Descobriu as artes digitais há dois anos – desde então, tem-se dedicado a aprender tanto quanto possível, pintando os seus contos de fadas povoados de estranhas criaturas. “Sempre fui uma criança que olhava para a floresta e imaginava que criatura especial poderia surgir quando os seres humanos não estivessem a olhar. E ainda hoje acredito que existem coisas que nenhum olho humano jamais viuâ€. Para além do portefólio, no site da artista há wallpapers e avatars que podem ser livremente descarregados.

→ 26/09/2005 @22:11

Estudos para todos os gostos

Periodicamente assistimos à disponibilização de estudos que ora defendem que o custo de manutenção de plataformas Linux é mais caro de que plataformas Windows, ora assistimos a estudos em sentido contrário.
O sentido dos estudos costuma depender de quem apoia os mesmos. Esta volatilidade não significa que os estudos são pouco fundamentados ou parciais, mas muitas vezes reflecte os pontos em que o estudo incidiu. Por exemplo, foi recentemente divulgado o estudo TCO For Application Servers: Comparing Linux With Windows And Solaris do Robert Frances Group. Nesse estudo defende-se que adquirir, implantar e manter um servidor Linux é 40% mais barato do que Windows e 54% do que Solaris em máquinas Sparc. Este estudo foi patrocinado pela IBM.
Existem ainda os estudos que analisam a penetração de cada SO. A IDC divulgou este mês, Setembro de 2005, os dados principais de um estudo sobre a utilização de Linux em Portugal. A tendência geral parece ser para o crescimento do Linux no mercado português. Segundo o estudo, “quase 10% das organizações nacionais já utilizam Linux, com destaque para a Administração Pública que apresenta uma taxa de utilização de quase 30%â€. O estudo afirma ainda que organizações com 10 ou mais colaboradores e ao nível de servidores, existe uma taxa de utilização de 5% em 2005 contra 2% em 2004.

A imagem incluída significa que esta crónica e as seguintes estarão sob licença “CCâ€. Ou seja, que pode reproduzir o texto, modificá-lo e distribuí-lo.

→ 21/09/2005 @2:25

Nefertiti dilema

Busto de NefertitiInicio este post sem saber como o vou acabar – e até faz sentido que seja assim, porque tem a ver com a vida e a morte, e o minúsculo espaço existente entre um acontecimento e outro. É também sobre a surpresa por verificar que tantas coisas podem caber nesse espaço tão pequenino.
Isto vem a propósito de uns programas sobre o Antigo Egipto que tenho visto no Discovery. Portanto, se estão sem pachorra para as minhas deambulações, pirem-se.
Não sei como acaba este texto, mas sei que tem o seu início há mais de 3000 anos, período em que nasceu uma das mulheres mais belas dessa época – Nefertiti, rainha do Egipto, mulher de Akhenaton, faraó da 18ª Dinastia que ousou romper com os antigos deuses e instituiu o monoteísmo durante o seu reinado. Um verdadeiro escândalo para a época.
Nefertiti – cujo nome significa “A bela mulher chegou†– teria sido capa da Caras, se a revista tivesse existido naquele tempo (mais um ponto a favor dos egípcios!). Ela foi a principal apoiante e instigadora do estabelecimento do novo culto ao Deus do Sol, Ãton.
O faraó adorava-a. Para ele, Nefertiti era o paraíso na Terra. Mandou erguer colunas na sua cidade onde eram escritas palavras através das quais tentava descrever a sua apaixonada visão da esposa: “Expressão de lealdade, possuidora de alegria, presenteada com o talento de ouvir, voz que traz alegria, rainha de todas as graças, ricamente dotada de amor, portadora da felicidade do governante de duas terrasâ€. Que mais pode querer um homem, seja ele um faraó nascido há mais de três mil anos ou um idiota com insónias escrevendo um texto às duas da manhã?
O Antigo Egipto fascina-me. Não é tanto por causa das múmias, pirâmides ou faraós, mas pelo facto das histórias e sentimentos de seres humanos como nós se terem preservado ao longo dos tempos. Ao preservar o corpo, por razões religiosas, os egípcios acabaram por preservar memórias individuais.
A propósito de múmias: ao contrário do que se pensa, as pirâmides não foram erguidas por escravos. Eram pessoas contratadas que recebiam salário e cumpriam um horário de trabalho. E até tinham direito a meter baixa. Um dos registos descobertos mostra que um trabalhador faltou um determinado dia ao trabalho com a justificação de que tinha de fazer uma “urgente oferenda aos deusesâ€. Duvido que essa desculpa funcionasse com os patrões actuais, mas para a época era uma justificação tão válida como ter 40 graus de febre (ou ser amigo de infância do médico).
Talvez o que me fascina no Antigo Egipto seja o facto de ficar a saber de pormenores do dia-a-dia de seres humanos que viveram há milhares de anos. Coscuvilhice além-túmulo, bem sei, mas não é só isso. Há qualquer coisa de muito estranho na forma como nós, seres vivos, evoluímos a ponto de ter consciência da própria morte: se somos crentes e acreditamos no além, é um milagre; se somos ateus ou agnósticos, é uma puta duma maldição. Estamos condenados a atingir a imortalidade se conseguirmos sobreviver como espécie, mas nunca como indivíduos. Isto é tramado porque, afinal de contas, não queremos ser sempre formigas. De vez em quando sabe bem curtir a vida como uma cigarra e contemplar a eternidade.
Imaginem a quantidade de blogues que existem e no que lhes acontecerá num futuro muito distante, tão distante como aquele que nos separa do faraó e da sua adorável rainha Nefertiti. Não pensem que estou a ser mórbido, nada disso; estou apenas a deixar-me levar pela imaginação. Poderão estes blogues, um dia, servir como testemunhos de como se vivia e pensava neste planeta há mais de 3000 anos? Se todas estas palavras que circulam agora no ciberespaço, boas ou más, profundas ou superficiais, puderem ser preservadas numa espécie de Museu da Internet, que pensarão de nós essas pessoas do futuro? Até que ponto conseguirão identificar-se connosco? Que histórias retirarão?
E olhem, pronto, acabei o texto. Ou se calhar não. Acabei eu. Mas o texto é capaz de continuar.

→ 20/09/2005 @17:39

My name is Raymond. Eric S.

Estarei sempre grato ao auto-intitulado guru’Nix Eric S. Raymond.

Escreveu um artigo muito conhecido – A Catedral e o Bazar – através do qual mostrou, com graça e acutilância, as diferenças entre modelos de desenvolvimento de software aberto e proprietário. Reza a lenda – e daí a minha gratidão – que foi a leitura de A Catedral e o Bazar que motivou a Netscape a libertar o código-fonte do seu browser, decisão que acabou por permitir o browser que todos conhecem e muitos usam: o Mozilla Firefox.

Mas Eric S. Raymond também tem a mania que é bom – e isso irrita-me um bocado. Considera-se tão importante para a comunidade Open Source como Linus Torvalds ou Richard Stallman, e muitas das suas intervenções públicas não procuram, sequer, disfarçar esse tipo de presunção. O último episódio desta obcessão de Eric S. Raymond pelo estrelato deu-se esta semana, quando ele recebeu um e-mail de uma agência de recrutamento questionando-o sobre o seu eventual interesse em trabalhar para a Microsoft. Não se tratava de uma proposta directa da Microsoft – muito menos uma proposta de emprego. Terá sido, muito provavelmente, um erro do próprio recrutador, que não se informou sobre o currículo de Raymond. O email, de resto, é tudo menos pessoal: dá ideia de ser um formulário possível de ser enviado a muitas pessoas.
Todas estas evidências não foram suficientes para impedir que o guru Raymond se inchasse de orgulho e vaidade, dando-se ao trabalho de responder ao recrutador de uma forma “espirituosa†e exibindo a hipotética tentativa de recrutamento por parte da Microsoft perante toda a comunidade.

Eis um exemplo da sua “humildade†na resposta dada ao suposto funcionário da Microsoft: If you had bothered to do five seconds of background checking, you might have discovered that I am the guy who responded to Craig Mundie’s “Who are you?†with “I’m your worst nightmareâ€, and that I’ve in fact been something pretty close to your company’s worst nightmare since about 1997. O remate final, embora engraçado, é infantil, idiota e muito pouco sensato. Ainda bem que a imagem da comunidade Open Source não depende de tipos como Raymond. Quem desejaria fazer negócios com pessoas que se portam como crianças malcriadas? Exemplo: On that hopefully not too far distant day that I piss on Microsoft’s grave, I sincerely hope none of it will splash on you. Mas que idiota exibicionista.

→ 11/09/2005 @20:09

A última foto

A última foto de Bill BiggartBill Biggart, fotógrafo, morreu soterrado na avalanche de detritos quando a segunda torre desabou. Quando as suas máquinas foram recuperadas, todos os filmes feitos estavam perdidos. Mas as fotos captadas pela câmara digital que ele andava a experimentar foram recuperadas. O resultado é uma reportagem fotográfica sobre os últimos momentos da sua vida. A foto aqui ao lado foi tirada um minuto antes de o fotógrafo morrer.

→ 11/09/2005 @19:51

O dia em que os super-heróis deixaram de existir

«God…», murmura o Homem-Aranha perante os escombros do World Trade Center. Era o desabafo de um super-herói americano incapaz de mudar o rumo dos acontecimentos reais. Nas edições especiais do 11 de Setembro, nunca as cores dos comic books tinham estado tão bem definidas. Todas as edições aqui

→ 11/09/2005 @18:12

O Horror

Lembro-me constantemente do filme de Copolla – Apocalypse Now – quando tento perceber os homens que sequestraram quatro aviões comerciais, lançando dois contra as torres do World Trade Center e matando milhares de inocentes. Ao contrário do que Bush quer fazer passar, o mundo não é a preto e branco: não é um simples good versus evil, tem vários tons de cinzento. Se alguém quiser der um tiro nos cornos ao Bin Laden por causa do envolvimento dele nos acontecimentos do 11 de Setembro, compreendo as motivações; se outra pessoa, e pelos mesmos motivos – morte de inocentes – quiser fazer o mesmo em relação a Bush, compreendo as motivações. Existiram momentos em que não consegui segurar as lágrimas, comovido com tamanha destruição e dor. Mas neste país tranquilo em que vivemos, livre de bombardeamentos, opressões e humilhações, estaremos em condições de fazer julgamentos morais seja sobre quem for? Os cemitérios estão repletos de cadáveres de inocentes – e nem todos são americanos.

Os assassinos do 11 de Setembro são marionetas da Al-Qaeda. Os soldados norte-americanos no Iraque são marionetas de Bush. De um lado, uma organização que deseja dominar religiosamente o mundo, transformando-o numa ditadura de fundamentalistas islâmicos; do outro, um presidente conservador e cristão que utiliza os ataques ao World Trade Center como uma desculpa para dominar os recursos energéticos do Médio Oriente.

Apocalypse Now, para mim, é a chave para compreender os terroristas do World Trade Center. Ao capitão Willard (Martin Sheen), o comando militar americano confia uma missão importante: viajar a uma região inóspita do Cambodja para assassinar o coronel Walter E. Kurtz (Marlon Brando), um brilhante militar mas cujas acções se tornaram incontroláveis. Enlouqueceu. O próprio Kurtz fornece uma pista a Willard para explicar as razões da sua loucura que o levaram a adoptar tácticas sangrentas, desumanas e brutais contra os inimigos Vietcongs.

«Horror», diz Kurtz.

«O horror tem uma face. E tens de fazer do horror um amigo. O horror e o terror moral devem ser os teus amigos. Se não o forem, então serão inimigos a temer. Verdadeiros inimigos. Eu lembro-me quando estava nas Forças Especiais. Fomos a um campo inocular as crianças contra a Poliomielite. Já tínhamos abandonado o campo quando um velhote veio a correr atrás de nós, a chorar. Voltámos ao campo e os vietcongs tinham decepado todos os braços inoculados. Estavam reunidos num monte, um monte de bracinhos de criança.

E eu chorei que nem uma avózinha. Fiquei desesperado, sem saber o que fazer. Mas quero recordar o que vi. Nunca vou querer esquecê-lo. Até que me apercebi, como se fosse uma bala de diamante a trespassar-me o cérebro. E pensei: Meu Deus. O génio daquilo. O génio. A força de vontade para o fazer. Perfeita, genuína, completa, cristalina, pura. Compreendi então que eles eram mais fortes que nós. Eles não eram monstros, mas homens como nós, homens que lutavam com paixão, com famílias, mas que tinham a coragem de fazer aquilo».

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