Arquivos mensais: Outubro 2005

→ 31/10/2005 @10:02

O quintal do vizinho

A primeira imagem conseguida pelo LBT (Large Binocular Telescope) mostra uma galáxia em espiral na constelação de Andrómeda. A NGC 891 fica a cerca de 24 milhões anos/luz da Terra – o mesmo que dizer, em termos astronómicos, que se encontra no quintal do vizinho (dado o incomensurável tamanho do Universo e o poder deste telescópio).
O projecto LBT é um telescópio binocular que consiste em dois espelhos de 8,4 metros numa montagem comum. Esse sistema de montagem faz com que o telescópio tenha a mesma capacidade de armazenar luz que um telescópio de 11,8 metros. O arranjo binocular aumenta ainda o seu poder de resolução para qualquer coisa equivalente a um telescópio de 22,8 metros.

→ 31/10/2005 @1:42

Sorrisos [6]

Foto: Michal Podobycko

→ 25/10/2005 @12:04

O olho do cu falante

Monument to William S. Burroughs, de Yuri Zupancic

William S. Burroughs – morreu aos 83 anos no início de Agosto de 1997 em Lawrence, Kansas, nos Estados Unidos – foi o grande fora-da-lei da literatura contemporânea. Importante e radical, a sua obra pode ser colocada em paralelo à de escritores como John Barth, Samuel Beckett ou Henry Miller. Norman Mailer considerava-o um génio. John Updike via-o como um «um escritor incorruptível». Já o seu companheiro da chamada Geração Beat, Jack Kerouac, dizia que Burroughs era o maior escritor satírico desde Jonathan Swift. Burroughs preocupou-se em explicar o fascínio que as drogas provocam em (algumas) mentes humanas.

Até ao momento em que morreu, foi uma espécie de guru para muitos escritores, músicos e cineastas. Muita da admiração por Burroughs deriva do facto de o escritor ter abordado, em plenos anos 50, temas que eram considerados subversivos para a repressiva sociedade norte-americana da época – a sociedade do sinistro patrão do FBI, J. Edgar Hoover. O que se segue é um extracto de um dos textos mais famosos de Burroughs – The Talking Asshole, que pode ser traduzido para algo como «O Olho do Cu Falante», retirado do livro The Naked Lunch e que David Lynch haveria de filmar, conseguindo o que muitos julgavam impossível.


[jbox title="The Talking Asshole"]Did I ever tell you about the man who taught his asshole to talk? His whole abdomen would move up and down, you dig, farting out the words. It was unlike anything I ever heard. This “ass-talk†had a sort of gut frequency. It hit you right down there like you gotta go. You know when the old colon gives you the elbow and it feels sorta cold inside, and you know all you hafta do is “turn looseâ€? Well, this talking hit you right down there. A bubbly, thick, stagnant sound. A sound you could smell. This man worked for a carnival, you dig, and tos tart with, it was like a novelty ventriloquist act. Real funny, too, at first. He had a number he called “The Better Ohâ€, that was a scream, I tell you. I forget most of it, but it was clever, like, “Oh, I say, are you still down there, old thing? ’Nah, I had to go relieve myself!’â€
After a while, the ass started talking on its own. He would go in without anything prepared and his ass would ad-lib, and toss the gags back at him every time. Then it developed sort of teeth-like little raspy incurving hooks, and started eating. He thought this was cute at first, and built an act around it. But the asshole would eat its way through his pants, and start talking on the street, shouting out it wanted equal rights. It would get drunk, too, and have crying jags, nobody loved it (…) And it wanted to be kissed, same as any other mouth. Finally, it talked all the time, day and night. You could hear him for blocks, screaming at it to shut up, and beating it with his fist, and sticking candles up it. But nothing did any good, and the asshole said to him, “It’s you who will shut up in the end, not me. Because, we don’t need you around here any more. I can talk, and eat, AND shitâ€. (…)[/jbox]


Registo áudio muito difícil de encontrar no qual Frank Zappa, um dos meus músicos preferidos, lê perante uma divertida audiência o texto completo de The Talking Asshole. A leitura ocorreu na Nova Convention, em Nova Iorque, a 2 de Dezembro de 1972, numa homenagem prestada ao grande guru da Geração Beat.

The Talking Asshole lido por Frank Zappa

→ 25/10/2005 @0:42

Chupa-mos (o dilema)

Para emagrecer, elas frequentam clínicas especializadas e submetem-se a dietas rigorosas: eles frequentam o Chupa-mos. Nunca é demais salientar o serviço público que é prestado neste fórum de discussão. O dinheiro que os putos poupam! Sim, não o conheces, nunca o visitaste e detestas quem tencione passar por lá. É normal: a gente compreende. Eu também nunca lá pus os dedos. O meu teclado está imaculado. Sempre que lá passei, e por razões estritamente académicas (escrever este post), mantive os olhos fechadinhos. Na verdade, existe alguma coisa em comum entre ouvir canções de D’Zrt e frequentar o Chupa-mos.com: quase todos o fazem, muito poucos o admitem.

→ 24/10/2005 @22:58

A face negra da indústria do Software

Eram 20:30 quando atendi o telefone fixo de casa. Do outro lado, um jornalista do Expresso a saber por que razão a utilização de Software Livre na noite eleitoral tinha causado problemas nos servidores do STAPE. Recordo que me saiu instintivamente um sonoro e mal-educado “hã?â€.
O ISCTE – e a ADETTI, como seu centro associado – têm desde Julho um protocolo com o Ministério da Justiça para o desenvolvimento de uma solução de Desktop que possa gradualmente vir a reduzir a insegurança e custos do actual sistema operativo utilizado nos 22 mil PC’s do Ministério da Justiça. A esta distribuição de Linux chamou-se “Linius CM†e é totalmente baseada em SL/A (Software Livre/Aberto).
Após algumas perguntas percebi que a questão do jornalista estava relacionada com este projecto. Julguei desfazer o equívoco explicando rapidamente três conceitos informáticos/organizacionais: o Linius destina-se ao desktop e os problemas em causa foram com servidores, o Linius destina-se a processadores AMD/Intel e o Mainframe onde o problema ocorreu tem processadores Power5 e nenhum elemento do Linius esteve ou está envolvido em projectos de resultados de eleições. Na sequência dessa investigação saiu um artigo no Expresso que referia “não existir ligação entre a utilização de software livre e o problema ocorrido na noite eleitoralâ€.

Primeira questão: que fontes contactaram e levaram o jornalista a fazer a associação entre dois projectos tão distintos?
Na terça-feira passada, dia 18, o Ministro da Justiça deslocou-se à 1ª Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos e Liberdades para fornecer mais informações sobre o problema dos servidores na noite eleitoral.
Nessa comissão, o deputado Montalvão Machado, do PSD, fez dois tipos de acusações: que o problema do Mainframe se devia à utilização do Linius e que o ISCTE era uma “barriga de aluguer†(SIC), sendo a empresa Caixa Mágica Software a responsável pelo projecto Linius contornando-se assim a necessidade de concurso público.
O Dr. Montalvão Machado conseguiria facilmente obter esclarecimentos de alguém informado que lhe explicaria que é impossível o Linius ser utilizado no Mainframe onde o problema ocorreu e que o facto de ser utilizado Linux Caixa Mágica não significa que a empresa Caixa Mágica Software esteja envolvida. O software sob licença GPL permite que outros utilizem e alterem o código. O ISCTE e a ADETTI são, desde 1996, um dos principais centros dinamizadores do SL/A em Portugal. É lá que são desenvolvidos alguns dos produtos da Caixa Mágica Software numa inovadora parceria à americana entre centros de I&D e tecido empresarial.
Segunda questão: porque um deputado à Assembleia utilizou uma das comissões com mais tradição e nobreza da República para atacar o Linius e o Software Livre/Aberto tão fora de contexto e de razão?
Não tenho respostas directas às duas questões acima mas tenho uma série de inabaláveis certezas.

A primeira é que estávamos avisados contra possíveis manobras com vista a descredibilizar um projecto que está no início e que pode por em causa licenciamentos de software dentro do Ministério da Justiça no valor de 10 milhões de euros anuais. Já existiram projectos, como o da cidade de Munique ou o “PC conectado†no Brasil que afrontaram poderes fortíssimos e sofreram pressões ilegítimas, muitas vezes ilegais.
A segunda certeza é que responderemos com racionalidade e não entraremos no campo das insinuações. Os média – esse 4º poder do nosso sistema – também existem para explorar as relações entre deputados, ou seus parceiros de escritórios de advogados, e empresas americanas de software. Não reagiremos com fundamentalismo porque sabemos que existem multinacionais cujo modelo assenta em software proprietário mas que agem com ética e idoneidade. Não metemos tudo no mesmo saco.
Terceiro, tentar estabelecer a associação com o partido do governo não faz sentido. Trabalhámos muito bem com o XV e XVI governo, do qual Montalvão Machado fez parte. Organizámos em conjunto com a UMIC um evento para toda a administração pública no Tagus Park e, com o Ministério da Educação, instalámos 14.000 Linux Caixa Mágica nas escolas, um dos projectos mais emblemáticos do SL/A em Portugal. Também aqui sabemos, porque fomos esclarecidos pelo próprio PSD, que não existe neste partido uma oposição à utilização do SL/A na Administração Pública ou fora dela. Pelo contrário, como ficou provado pela inclusão do programa dos últimos governos PSD.
Quarto, e por fim, deixamos uma última certeza. Estaremos atentos nos próximos tempos e não esmorecemos com este tipo de ataques. Sabemos que o que escolhemos fazer mexe com interesses muito poderosos. Não tememos este jogo de poder e desde 1996 já estivemos sob pressões políticas muito maiores.
Temos confiança na nossa equipa e na nossa capacidade de criar ferramentas de software portuguesas que contribuam para uma economia mais competitiva e uma sociedade mais justa. Não desistimos. Não abrandaremos. O software Livre/Aberto está para ficar.

A imagem incluída significa que esta crónica e as seguintes estarão sob licença “CCâ€. Ou seja, que pode reproduzir o texto, modificá-lo e distribuí-lo.

→ 21/10/2005 @19:39

Sorrisos [5]

Foto: Vibeke, de Nina I. Andersen

→ 19/10/2005 @1:47

Foram-me ao blogue e não me pagaram

O Bitaites esteve indisponível durante uma porrada de tempo. A princípio pensei que fosse mais uma partida de Carnaval da Netcabo – sim, eu sei, não estamos no Carnaval mas afinal é da Netcabo que estou a falar – e pronto, não liguei muita importância. Depois lembrei-me de uma velha expressão que em tempos mais difíceis me ocorria quando faltava a luz em casa: “Cortaram-na, já? Grandes cabrões!â€
Tal como nessa altura, o passo seguinte foi verificar, com alguma ansiedade, admito, se o corte tinha sido “geral†– ou seja, se ninguém podia visitar o Bitaites – ou se era apenas eu. Depressa verifiquei que o problema estava na WebHS e não na Netcabo – situação que, por si só, é quase tão assombrosa e surpreendente como o remate do Manuel Fernandes que deu o empate ao Benfica no jogo com o Vilarreal, dasse! Tava a ver que não! Gooooolo!

Bem. Recomponho-me para não abusar da paciência e desportivismo dos gajos do FCP que por aqui passam. Que estava eu a escrever? Ah, pois, que a merda do blogue esteve em baixo. Então pedi a um amigo meu expert na matéria para fazer o teste.

«Pá, o meu bloguinhas está em baixo!» – Escrevi eu no Messenger.
- O teu quê? Bloguinhas? Ganda mariquice.
- Pronto! O meu blogue, pá. O meu blogue muito macho e cheio de pelos no peito! O Bitaites!
- Ai está?
- Não tenho a certeza, por isso quero que vás lá ver.
- Tá bem, eu vou testar.
- Ouve, o meu desespero é tanto que até fui ver o blogue com o Internet Explorer a pensar que o problema podia estar numa configuração marada do Firefox.
- Com o Internet Explorer? Ganda nóia.
- Uma loucura, não é? Então vê-me lá essa merda, se faz favor.
- Tá bem, eu vou ver. Mas uso o Opera.
- Usa o que quiseres, ó Pavarotti da Net, mas dá uma espreitadela.

Silêncio. Cinco minutos. A janela em branco. O site em baixo.

«Então, está em baixo ou não?» – Perguntei eu.
- O quê?
- O meu blogue!
- O teu bloguinhas…?
- Vai-te lixar. Vê lá isso.
- Sim, sim, espera.

Silêncio. Cinco minutos. A janela em branco. Site em baixo.

«Então?»
- OK. Diz-me lá qual é a morada do teu blogue.
- Raios te partam. Amigo da onça! Então tu nem sequer o meteste nos bookmarks, pá? Sabes que a pior ofensa que se pode fazer a um amigo blogger é perguntar-lhe a morada do blogue oito meses depois de o ter criado? Pronto, porra, toma lá! – E dei-lhe a porcaria da morada.

Mais cinco minutos. Janela em branco. Site em baixo.

«Pois é, pá, acho que sim.» – Disse o amigo da onça.
- Achas o quê?
- O teu blogue está em loop, pá.
- Tá em quê?
- Em loop.
- Que é essa merda?
- É assim tipo parece que está ali sempre a fazer qualquer coisa e não pára.
- Isso quer dizer o quê?
- Pá, tipo quando se está a rodopiar mas não se sai do mesmo sítio.
- Ouve lá, mas estás a ver um blogue ou a patinagem artística? Tá em baixo ou não?
- Não é bem isso, está em loop.
- Em loop. Está bem.

Cinco minutos. Janela em branco. Site em baixo.

«Marco, estás aí?» – Era ele outra vez.
- Estou. Eu também já estou em loop. Sou eu aqui e o Ricardo Rocha no relvado.
- Esse Ricardo Rocha também trabalha no Bits? – (O gajo é um geek, não pesca nada de bola).
- Ya. Tem uma coluna semanal chamada Penalty’s Guide to Dummies.
- Se calhar hackaram-te o site.
- Hackaram-me o site?
- Fizeram-te a folha ao bloguinhas.
- Não fizeram nada. E é blogue, ouviste? Blogue!
- Tem todo o aspecto disso.
- Tá bem abelha. Tiraste o curso de hacker por correspondência?
- Estou-te a dizer. Foram-te ao bloguinhas e não pagaram.

Portanto, pessoal, se tiveram paciência para ler este post até ao fim, talvez já consigam perceber muito bem – como eu percebi – o que é, afinal, estar em loop.

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