Arquivos mensais: Março 2006

→ 31/03/2006 @22:21

A cabeça decepada do cavalo é uma almofada

Lembram-se do filme O Padrinho, do grande Francis Ford Copolla? Da proposta irrecusável de Don Corleone (Marlon Brando) a um grande produtor de cinema? De como este recusou o favor pedido, julgando-se demasiado poderoso para a família Corleone? Então lembram-se do que aconteceu a seguir: o produtor acordou de madrugada e descobriu a cabeça cortada do seu precioso cavalo de raça dentro dos lençóis. Pois bem, esta almofada pretende celebrar esse magnífico e aterrorizador momento de cinema. Há quem diga que a ideia é de mau gosto. A mim dá-me vontade de rir. E aqui vende-se.

→ 30/03/2006 @11:46

Mentiras (a óleo)

Ernesto Arrisueño: This world is not a real place. It comes from the mind. Site

→ 28/03/2006 @18:16

Stanislav Lem (1922-2006)

Stanislav LemA história de uma estação espacial orbitando o planeta Solaris, onde o único ser vivo é um oceano inteligente, é a mais conhecida de Stanislav Lem.

A forma como esse oceano interage com os cientistas que o tentam estudar reflecte a visão do escritor de um encontro com uma existência poderosa e quase inatingível, capaz de tocar a alma dos cientistas sem relevar qualquer tipo de moralidade ou juízo humano. A um dos cientistas faz surgir um amor perdido: a mulher falecida há muito, agora uma réplica perfeita, espelho da sua própria memória, mas imortal e auto-consciente, dotada de uma força e resistência sobre-humanas.

Essas réplicas têm uma existência boa ou má? Qual a sua finalidade? A resposta não se encontra ao alcance dos conceitos humanos – e é essa ausência de resposta com sentido moral que, a pouco e pouco, vai enlouquecendo toda a tripulação.

Realizaram-se dois filmes a partir deste livro: o mais recente por Steven Soderbergh, em 2002, e o clássico, por Andrei Tarkovski, em 1972, visto na altura como a resposta cinematográfica soviética ao 2001: Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick.

Stanislav Lem não gostou das adaptações. Sobre o filme americano, que o New York Times classificou como “uma história de amor”, um romance passado no Espaço, Lem afirmou: “Tanto quanto sei, o livro não era dedicado aos problemas eróticos das pessoas no Espaço (…) É por isso que se chama Solaris e não Amor no Espaço”. Da adaptação de Andrei Tarkovski, afirmou ser “uma versão de Crime e Castigo no Espaço”.

Stanislav Lem, grande escritor, escritor de ficção científica, um dos meus preferidos, morreu hoje. Tinha 84 anos.

Nota: este post recorreu a excertos do artigo escrito pela jornalista Alexandra Prado Coelho e publicado hoje no Público.

→ 28/03/2006 @9:57

Inovação. Mas qual é a pergunta?

Se a inovação é a resposta, qual é a pergunta? A afirmação é de John Kao, guru da inovação de Sillicon Valley (SV), autor do livro Jamming e produtor do filme Sexo, Mentiras e Vídeo.
Desafiado pela Adventus, fiz parte do grupo constituído por docentes universitários, decisores da administração pública, empreendedores e jornalistas que se deslocou a SV na semana de 18 a 25 de Março para visitar oito das mais conceituadas empresas de S. Francisco, tendo ainda oportunidade de participar na conferência do PAPS – a associação de estudantes portugueses pós-graduados a residir nos Estados Unidos.
Porquê Sillicon Valley (SV)? O venture capital, financiamento de risco utilizado por empresas emergentes, está avaliado em 25 mil milhões de dólares anuais, segundo o prof. Manuel Villas Boas, da Universidade de Berkeley. Metade desse valor é investido em SV, uma área equivalente à distância entre Leiria e Setúbal, e o sítio ideal para se discutir inovação. Os outros 50% são distribuídos pelo resto do mundo.
Inovação é hoje uma palavra quase sem sentido de tanto utilizada em diferentes contextos. E John Kao tocava na parte crítica: onde queremos chegar com a Inovação e para a que perseguimos?
A visita tinha para mim um objectivo especial: perceber a dinâmica do local e como os modelos tecnológicos e de negócio emergentes se adaptam ao Software Livre/Aberto.
A hipótese de partida estava assim bem definida: há espaço para o crescimento de projectos de investigação ou empresariais na área das TI, e concretamente baseando em SL/A, em Portugal face ao contexto mundial?
Visitar a sede da Cisco e os laboratórios de investigação da Accenture, a IDEO e a Adaptative Path, a Genentech e a Biolog, para além de falar com gurus como Liisa Valikangas -sócia de Gary Hamel – e John Kao, esgotam a capacidade de síntese de qualquer um. Abordarei apenas dois casos: a Adaptative Path e a IDEO.

Adaptative Path: inovação da Web 2.0 e do AJAX
A Adaptative Path é a empresa líder do conceito de Web 2.0. O termo Web 2.0 foi cunhado por Tim O’Reilly. Em contraponto com a Web versão 1, que fomos conhecendo durante a década de 90, a realidade de hoje é de uma Web 2.0, assente na participação activa do utilizador. Ele já não é um mero consumidor de informação; é um produtor enquanto autor de Blogues, Wikis e comunidades virtuais.
A Adaptative Path é uma empresa pequena, cerca de 20 pessoas, cuja missão é criar para os clientes uma experiência de utilização dos seus sites Web diferente e que leve o utilizador a comprar.
Para isso, foram percursores de tecnologia, como a integração de Java Script, DHTML e outras tecnologias numa mistura a que se chamou AJAX.
A CEO, Janice Frasier, explicou como reduzem o tempo de desenvolvimento utilizando linguagens e plataformas como Ruby on Rails e SL/A. Assim, conseguem reduzir a necessidade de investimento e não depender de capital de risco. Apesar da dimensão, a empresa tem entre os seus clientes a Intel, Lycos e CNN. O futuro serviço do Google com estatísticas de Blogues, Measure Map, foi desenvolvido pela Adaptative Path e, como se imagina, muito bem pago.
O segredo desta empresa de SV é, tal como algumas empresas portuguesas, compreender as mudanças tecnológicas e oferecer um serviço ao cliente que é quantificável em receitas. Receitas através da venda on-line de bilhetes para cruzeiros ou de conteúdos via Web.

→ 27/03/2006 @16:22

Descodificando emails femininos

Pode-se saber muito sobre uma mulher pela forma como ela se despede quando nos responde a um e-mail. Se a resposta tiver sido escrita a despachar, despede-se com um bjs. Se tiver ficado agradada com o que leu, ou o destinatário lhe merecer alguma simpatia, é provável que, ao despedir-se, escreva a palavra completa: Beijinhos. Há casos em que as mulheres usam diminutivos quando acham que vocês são uns queridos. É preciso abordar esta última situação com alguma cautela: os ursos de peluche também são uns queridos e é improvável que vocês se imaginem nesse papel, sobretudo se ela decidir guardar-vos no armário.
Se, a seguir a Beijinhos, tiver deixado um ponto de exclamação, poderá significar que é uma pessoa alegre e expansiva ou, em casos extremos, que está doidinha por abrir… – enfim, o que quer que a vossa galopante testosterona imaginar – e abraçar-vos com força. Já o uso de vários pontos de exclamação uns a seguir aos outros pode significar que a rapariga está aos pulinhos ou tem uma personalidade exagerada. Desconfiem muito se, no final, ela se despedir com um seco Beijos. Para além de denotar alguma frieza em relação ao interlocutor, é quase certo que significa um daqueles chochos rápidos que mal chegam a tocar na face, um beijo, digamos, burocrático, normalmente carimbado com um sorriso de esguelha. Se, a seguir a Beijos, tiver colocado um ponto final, temos boas razões para ficar à rasca. Para nós, homens, um ponto final é aquela bolinha que a gente aprendeu a desenhar na escola e que serve para terminar uma frase. Para elas, é mesmo um ponto final. Não se esqueçam: embora vocês prefiram que elas levem tudo a peito – por razões culturais, mas também anatómicas – na maior parte dos casos optam por levar tudo à letra, incluindo os sinais de pontuação. E prefiro nem sequer mencionar aqueles em que elas são indiscutíveis peritas: os pontos de interrogação.
Escusado será dizer que uma gaja que se despeça com Um Abraço deve ter um bigode maior que o vosso, portanto é de evitar. Neste caso sugiro que respondam à letra com um Dê cá o bacalhau, minha senhora. Não será também necessário avisar-vos do perigo que representam as que respondem usando um frívolo Com os meus cumprimentos. Tudo isto para vos dizer, cambada de machos inocentes e crédulos, que é muito mais importante a forma como uma conversa acaba do que como começa.
P.S. – Se elas nem sequer responderem ao e-mail, é muito provável que a culpa seja da Microsoft ou da Netcabo. Nunca desanimem!

→ 24/03/2006 @12:59

Masturbações românticas

Tom Waits não é apenas um músico extraordinário, mas também um tipo inteligente e com grande sentido de humor. Um disco gravado ao vivo em 1975 – Nighthawks at the Dinner – é um excelente exemplo: quase tão boas como as canções, são os minutos em que Tom Waits perde a falar com a audiência. Por exemplo, apresenta a canção Better Off Without a Wife com a seguinte história (livre tradução):

(…) Eu não me importo de ir a casamentos, desde que não seja o meu. Sempre fui um bocadinho imparcial nestas coisas. Faço um telefonema a mim próprio, convido-me a mim próprio para sair, estão a ver? (Uma mulher ri à gargalhada na plateia). Ah! Você também se convida a sair, é? Bem, isso tem uma vantagem: estamos sempre disponíveis.

Vou sair, sabem, levo-me a um barzito com alguma classe… Pode ser este. Eu não sou um tipo barato! Bebo uns copos comigo, depois tenho uma conversa insinuante no regresso a casa, estaciono o carro, meto assim uma música sugestiva, tipo música de centro comercial, enfim, qualquer coisa que não se intrometa muito… Se calhar convosco não é assim tão romântico!

Depois levo-me até à porta de casa, convido-me a entrar, talvez para ouvir uns disquinhos que tenho para aqui… Bem, normalmente lá pelas duas e meia da manhã já estou a abusar de mim próprio.

Yeah… Making the scene with the magazine…

Confesso que não sou diferente dos outros. Mas também não sou um gajo esquisito, quer dizer, não me amarro a mim próprio nem nada dessas coisas. (…)

Intro/Better Off Without a Wife

→ 21/03/2006 @11:48

Dia Mundial…

Dias mundiais?

Dias desses, a havê-los, teriam que ser para coisas que não se pudessem repetir, ou que não se pudessem repetir sem colocar em causa a nossa forma de vida. Como o Dia Mundial do Apara-me a Barba, Querida

Hoje comemoramos três dias mundiais. Que bom! Três dias num. Três dias são setenta e duas horas vividas em vinte e quatro. Ganhámos dois dias de vida. Ao menos não é dia de comprar flores: esses são os piores, os dias mundiais com as flores agregadas. Verdadeiro terror para quem, como os homens, sofrendo daquela crónica amnésia de datas, se esquece do ramo. Discussão pela certa, berros histéricos, acusações de negligência, ataques à masculinidade na ameaça de traição. Um dia ouvi uma frase: eu sou como uma flor, se não tratarem de mim, murcho. Uma ameaça. Se não tratares de mim, tenho que encontrar alguém que o faça. E arranjou. Fugiu para a cama de outro. Verdade. Tudo terá começado num qualquer dia mundial com flores.

Não gosto de dias mundiais. Mesmo. Esta coisa de nos juntarmos na comemoração do que quer que seja não é só um disparate, é hipócrita. Esta sensação de irmandade envergonha-me, deprime-me mas, acima de tudo, revolta-me.

Os dias mundiais são invenções femininas. É típico das mulheres fixarem o tempo, pará-lo. As mulheres não gostam da vida que se vive no momento. Gostam de perpetuar. Gostam da eternidade e de eternizar. Gostam de juras eternas. Gostam do “para sempre”. As mulheres são dementes. Neuróticas. É isso: os dias mundiais são fruto de neuroses femininas.

Os dias mundiais são claramente femininos no objecto, comemoram merdas que não lembram nem ao menino Jesus. Dia Mundial da Poesia? Dia Internacional contra a Discriminação Racial? Dia Mundial da Floresta? Coisas femininas. A poesia é feminina. A ideia de amor e outras tretas. Típico. Lutar contra a discriminação racial também. Necessidade de protecção materna. E a plantação de árvores só serve para fugirem às responsabilidades conjugais de fazer filhos. Escreve um livro, tem um filho, planta uma árvore. Elas ficam-se por esta. Estamos a ser dominados e nem damos por isso. Qualquer dia obrigam-nos a cozinhar.

Dias mundiais, a havê-los, teriam que ser para coisas que não se pudessem repetir, ou que não se pudessem repetir sem colocar em causa a nossa forma de vida. Percebem? Deviam servir para coisas que só se pudessem fazer num dia. Dia Mundial do Topless, da Lingerie Exposta, do Sexo Descomprometido, da Facada no Matrimónio. Mas não, banaliza-se. Quando se comemoram estes dias irritantes está-se a comemorar o Dia da Posição de Missionário. Banal. Como tudo o que sai da cabeça feminina.

Então hoje temos que ler poesia? Então hoje não podemos acusar os pretos e os árabes de todo o mal do mundo? Como é que se pode explicar o estado do Mundo sem termos responsáveis? Plantar mais uma árvore para arder no Verão? Foda-se. Ainda bem que juntaram os três num. Amanhã já passou.

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