Arquivos mensais: Maio 2006

→ 16/05/2006 @17:27

Apple e Linux: o efeito ‘Bota Botilde’

Aparentemente, sentimos à nossa volta que a Apple está a crescer no mercado Desktop. Toda a gente fala dos novos Intel iMac, do seu design atractivo e de como o preço está a aproximar-se dos PCs.
A questão é legítima. Ganhará a Apple quota de mercado que assuste a Microsoft? O produto Apple para o desktop é único. Ele consiste em três camadas (hardware, sistema operativo e aplicações) fornecidas (unicamente?) pela Apple, recorrendo esta a terceiros para fornecer alguns desses elementos, como os CPUs ou o Office.
Dominando a Apple esses elementos, consegue que eles tenham uma integração perfeita. O hardware é bem conhecido do sistema operativo e este conhece bem as aplicações.
Outro ponto forte é o design atractivo. Não se tem um Mac. É-se um Mac.
Alguns utilizadores começam por comprar um iPod e sentem-se tentados a estender o conceito ao seu computador de secretária.
Para concluir os pontos fortes da Apple, o sistema operativo Mac Os X é sólido e seguro. Historicamente, este sistema provém do kernel Mach e do BSD. Quando Steve Jobs foi afastado da Apple, em 1985, criou a NeXT, que desenvolveu o sistema operativo NEXTSTEP e que integrava essas duas tecnologias, mistura tecnológica que se baptizou como kernel XNU.
Ainda antes do seu regresso, Jobs vendeu à Apple o NEXTSTEP/XNU. Esta adoptou-o como sistema operativo de eleição. Em 2000, a Apple lançou o projecto OpenDarwin e disponibilizou à comunidade o código-fonte dos componentes core do Mac OS X.
Terá a Apple condições para enfrentar a Microsoft de igual para igual na batalha dos desktops nos próximos 5 anos? O crescimento da Apple provocará a quebra do crescimento do Linux? Sim e não.
A Apple, antes de mais, percebeu que o modelo “open source†e o UNIX são “cavalos vencedoresâ€. A diferença de arquitectura entre Mac OS X e Linux é ténue e, se necessário, é fácil compatibilizar aplicações e aproveitar sinergias entre elas. Veja-se o desenvolvimento conjunto do Safari (web browser da Apple) e o KHTML (motor do web browser do KDE).
Se o Linux crescer no Desktop, é natural que propicie o crescimento dos Macs, e vice-versa. Por outro lado, o sistema das 3 camadas proprietárias (hardware, SO e aplicações) atira a Apple para fora do mercado mainstream. Os utilizadores gostam de escolher e não estar limitado a dois ou três modelos de hardware.
O Linux tem ainda uma outra mais valia. Ele não começa, nem acaba, no mercado Desktop. Começa no mercado Servidor, onde lidera alguns segmentos, e termina no mercado de Sistemas Embebidos. Esta massa crítica cria vantagens e o envolvimento de um conjunto de empresas e programadores muito vasto.
As quotas de mercado suportam esta análise. Não as quotas de volume de vendas, já que o Linux não carece de licença, mas de acesso ao www.w3schools.com. Sendo este um site dedicado a desenvolvimento web que tem 50 milhões de páginas vistas por mês, através das estatísticas do sistema operativo utilizado para acesso, aferimos a penetração de cada sistema operativo em termos globais. Em 2003, o Linux teve uma quota de acesso de 2,42% e os Mac de 2,02%. No ano seguinte, subiram respectivamente para 2,91% e 2,53%. Em 2005, passaram para 3,30% e 3,03%, estando este ano o Linux já com 3,43% e o Mac com 3,55%. Apesar de suave, o crescimento tem sido estável e passo-a-passo.
Se este ritmo se mantivesse, demoraria 25 anos para que Linux e Mac tivessem 50% do mercado. Mas o mercado não funciona assim e o melhor exemplo são as modas dos recreios das escolas.
O que leva a Bota Botilde nos anos 80, ou os berlindes, ou os yo-yo’s da Coca Cola, a invadirem o recreio das escolas enquanto outros produtos falham? Todo o marketeer conhece o “Efeito Bota Botildeâ€: romper a barreira dos 10%. Se se conseguir que 10% dos miúdos comprem o brinquedo, cria-se massa crítica para se trocarem peças, para jogarem entre si ou para surgirem mais pontos de venda. E se demora 5 semanas a chegar aos 10%, demora apenas outras 5 semanas a chegar aos 50%.
Em 2008, e se se mantiver o ritmo dos últimos anos, o Linux e Mac deterão 10% do mercado Desktop. O número mágico do “Efeito Bota Botildeâ€.

A imagem incluída significa que esta crónica e as seguintes estarão sob licença “CCâ€. Ou seja, que pode reproduzir o texto, modificá-lo e distribuí-lo.

→ 15/05/2006 @21:28

Uma Foto e uma Música [4]

Foto: Arif Tanju Korkmaz | Música: Roger Waters (The Gunner’s Dream)

→ 12/05/2006 @16:52

A proposta irrecusável

Que não poderei fechar-lhe a porta, nem que sejam três da manhã, já eu sei muito bem. A questão que se coloca é como livrar-me da sua presença o mais rapidamente possível, sem o ofender. Mas ei-lo aqui, desalinhado e ofegante, à espera de convite para entrar.
A transformação do senhor Antunes é inexplicável: sempre o vi entre silenciosas sessões de televisão no sofá, cigarros pensativos à janela e, de vez em quando, como cicerone de misteriosos visitantes cuja principal característica era a de serem tão sombrios como o anfitrião.
Há anos que é assim. Não sei como terá conhecido aquela gente. Conduziam grandes bombas, vestiam-se impecavelmente e não davam confiança a ninguém. O meu vizinho não é um homem rico, longe disso, até está reformado, mas pouco fala sobre o que fez na vida. Trabalhara numa fábrica, dissera-o uma única vez, sem grande vontade de continuar a conversa e nunca mencionando o tipo de coisas que ajudara a fabricar.
Embora muitas das minhas melhores recordações de infância lhe estivessem associadas, o senhor Antunes nunca se esforçou por parecer uma espécie de tio das crianças do bairro ou, sequer, vizinho simpático. Quando os misteriosos visitantes lhe batiam à porta, porém, desfazia-se em sorrisos; perpassava-lhe pelo rosto, habitualmente grave e fechado, a mesma aragem fresca que se sente num quarto quando, logo de manhã, são abertas as janelas.
- Boa noite, Francisco – começou ele. – Desculpa lá, mas a luz da sala ainda estava acesa e eu pensei…
- Não há problema, entre. – Fechei a porta muito devagar. Ele já se sentava no mesmo sofá onde muitas vezes eu lhe mostrara, entusiasmado, as maravilhas do som das minhas colunas hi-fi, versão adulta da TV Brinca do passado. Peguei num CD do Miles Davis, Kind of Blue, regulei o volume para o mínimo e caí na pequena poltrona que usava sempre para ver filmes ou ouvir música. Fiquei calado, à espera.
- Bem, olha, não sei como começar.
- Disse-me que viu extraterrestres. Sabe que eu não acredito.
- Não te contei tudo. Menti deliberadamente. Eu vi-os porque sou um deles. Há muita coisa que não te posso explicar, compreendes, mas ser colocado no planeta Terra, neste lugar do Tempo, acaba por ser uma missão semelhante ao que fazem os vossos assistentes sociais. – Pareceu ficar satisfeito com a definição. – Sou um assistente social à escala universal.
- Vou fumar um cigarro.
- Força. Sabes que te faz mal.
- Sei.
- Não é muito sensato envenenares o corpo dessa maneira.
- Mas você também fuma!
- A mim não faz diferença.
- Pois, é verdade, o senhor agora é um cyborg marciano, já me tinha esquecido.
- Sou biológico, como tu. Quanto a Marte nem vale a pena falar. Só disparates!
- Portanto… – Tentava falar com naturalidade. – Eis-nos aqui, discutindo a sua origem extraterrestre e a minha insensatez por querer fumar. Há coisas piores. Podia ter dito que queria ser advogado.
- Também existem, à escala universal. Há conflitos…
- Tem consciência dos disparates que está a dizer? Acha que eu vou aceitá-los tranquilamente sem pensar que o senhor está doido da cabeça?
- Por isso é que me falaste desse tal Jung?
- Se me tivesse dito ao telefone o que me está a dizer agora, tinha desligado.
- Se estivesse no teu lugar provavelmente teria feito o mesmo.
- Portanto estamos de acordo: não pode levar-me a mal se o achar doido varrido.
- O problema é que não sou.
- Bem, então precisa de dormir. Está cansado. Se há conversa ideal para se deixar para amanhã, é esta. Depois de uma boa noite de sono, é possível que esqueça isto tudo e não volte a falar no assunto.
- Tenho uma proposta para ti. – O senhor Antunes levantou-se e, para minha enorme surpresa e ofensa, desligou a aparelhagem e reduziu a trompete do Miles Davis a um silêncio mortal. – Mas primeiro dá-me aí um cigarro.
Passei-lhe o maço, furioso. Sentou-se outra vez, esticando as pernas como se estivesse concentrado a ouvir música, deu umas passas profundas e soprou o fumo com evidente deleite.
– Queres ficar a conhecer a resposta a todas as questões que afectam o homem desde que adquiriu consciência de si próprio? Queres saber como começou o Universo? Queres saber quem o criou? Se Deus existe? Se há vida depois da morte? Se há um paraíso e um inferno? Retemos a nossa memória e identidade ou transformamo-nos em qualquer coisa de radicalmente diferente? Queres saber?
- Que raio de conversa é esta agora?
- Queres saber ou não? – Gritou o velho.
- Fale mais baixo, caramba! São quase três da manhã.
- Vou fazer esta pergunta mais uma vez: queres?
- O problema não é o facto de eu querer; é não acreditar que exista alguém capaz de fornecer as respostas. Estou a incluí-lo a si, ET ou não. – Sentei-me no meu sofá, esgotado, evitando olhá-lo directamente. – Desculpe, senhor Antunes, mas você está perturbado. É melhor ir para casa. Quero ficar sozinho.
- Sozinho estarás sempre enquanto não acreditares que existem respostas.
- É extraordinário. Conheço-o desde miúdo e nestes últimos cinco minutos você falou mais do que nos últimos trinta anos. Já lhe disse que não me apetece ter esta conversa. É absurdo. Quero ficar sozinho. Por favor, saia. – Levantei-me do sofá, sem controlar o nervosismo.
- Francisco, estou a fazer apenas uma simples pergunta. Responde-me e eu saio daqui para fora.
- A sua pergunta é estúpida! Existe alguém que não queira saber as respostas a questões tão importantes como essas? Vivemos das nossas convicções, mas o que temos são incertezas camufladas pela fé ou pelo cepticismo. Qual é a diferença entre acreditar em OVNIs ou em anjos? Não vai dar tudo ao mesmo? Que raio, homem, deixe-me em paz!
- Portanto – prosseguiu o velho, imperturbável. – Depreendo que a tua resposta é sim. Queres mesmo saber?
- Eu e toda a Humanidade. Bolas, que pesadelo!
- Ora, Francisco – o velhote abriu-se num daqueles raros sorrisos só visíveis quando recebia misteriosos e importantes convidados. – Não foi assim tão difícil, pois não? Bem! – Endireitou-se no sofá com brusquidão, bateu com as mãos nas pernas e levantou-se, sinal de que finalmente se preparava para sair. – Agora, como te tinha prometido, vais ter acesso a todas as respostas. Espera lá um bocadinho.
Remexeu casualmente nos bolsos do casaco, como se estivesse à procura da carteira. O que acabou por tirar foi um objecto metálico que o meu cérebro, após alguns microsegundos de hesitação, reconheceu como uma pistola. Desencadeou-se-me no corpo uma brutal descarga de adrenalina que me deixou os músculos tensos e completamente paralizados. O meu vizinho, o bondoso e circunspecto senhor Antunes, nunca deixou de sorrir enquanto apontava a arma. Só precisou de disparar uma vez.
- Pronto, pronto – disse ele, debruçado sobre mim como se estivesse a ajudar-me a adormecer. – Agora já sabes.

→ 10/05/2006 @17:42

À mulher o que é de mulher

Coitadas das mulheres, têm aquela coisa chata chamada período. Nós também tínhamos um período – ir à tropa contra a nossa vontade – mas agora até disso estamos safos.
O problema é a mania que temos das coisas serem naturais. Devíamos instituir o MPBN – Movimento Para a Burocratização da Natureza. Resolviam-se logo muitos problemas. O período, como a tropa actual, devia existir em regime de voluntariado. Quando a mulher estivesse numa altura adequada da vida e conhecesse o gajo certo – um príncipe com um Porsche encantado, por exemplo – bastava preencher um formulário no Governo Civil e requisitava o período para os meses de Inverno. Assim é que devia ser.
Há outras pessoas que defendem a teoria segundo a qual a concepção devia ser aleatória, tipo Roleta Russa, ou Ucraniana, que agora está mais na moda, ou seja, tanto podia engravidar o homem como a mulher, calhava à sorte. Claro que acho esta teoria de um extremo mau gosto: a barriga do homem cresce com a cerveja, não há cá espaço para bebés.
O único homem da História que engravidou foi o Schwarzenegger. O Arnaldo, estão a ver? Esta ideia tem uma conotação quase mística, como se nos propuséssemos criar uma geração inteira de andróides cuja espiritualidade fosse resumível dizendo apenas I’ll be back. Deixem às mulheres o que é das mulheres. I rest my case (seja ele qual for).

→ 10/05/2006 @14:10

O primeiro dia do resto das nossas vidas

Foto: Lars Raun

Sei que isto pode não fazer muito sentido para si, mas gostaria de prestar uma homenagem à minha esposa e pedia-lhe a ajuda possível. Neste momento que escrevo a Lara está na maternidade Alfredo da Costa à espera da operação de amanhã na qual lhe vai ser retirado o seio, devido a um tumor maligno que detectámos há cerca de um mês. O blog dela retrata o seu estado de espírito ao longo deste mês e, em particular, hoje, dia do internamento. (…) Agradecia que da maneira que melhor encontrasse fizesse referência ao endereço do blog da Lara (de 30 anos) por forma a ela encontrar alguns comentários de apoio quando regressasse a casa. De Pedro Silva, via e-mail

→ 10/05/2006 @13:27

Entrevistas sexuais

As entrevistas de rua podem dar resultados imprevisíveis. As pessoas ficam bloqueadas, é como se fossem colocadas perante uma mistura de espelho e juiz de tribunal escolhido pelo Roger Waters do The Wall. Se o objectivo da entrevistadora, neste caso, é fazer perguntas sobre a vida sexual íntima dos inquiridos, então… do nada pode surgir a grande anedota. Vejam o vídeo. Download

→ 09/05/2006 @11:32

Não é pinto, é coruja

Foto: Tanja Askani

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