Arquivos anuais: 2007

→ 29/12/2007 @1:36

Roseta

A luz vermelha emitida pelas moléculas de hidrogénio dá origem a imagens espectaculares como esta: eis o centro da Nebulosa de Roseta, situada a 4,700 anos-luz de distância do nosso Sol. A imagem foi captada pelo telescópio Isaac Newton e faz parte de um consórcio (IPHAS) cujo principal objectivo é proceder ao rastreio óptico da Via Láctea. Mais pormenores aqui.

→ 29/12/2007 @0:45

Netscape: vamos ‘bazar’, o último que apague a luz

Já foi oficialmente marcada a data da morte do mais emblemático dos browsers, o Netscape Navigator. A partir de 1 de Fevereiro de 2008, deixarão de ser lançados ‘patches’ de segurança e cessará o suporte ao programa. Obituário aqui.
Aos que usam o Firefox para navegar na World Wide Web (WWW), é tempo de lembrar os executivos da Netscape que tomaram a extraordinária decisão de libertar o código-fonte do Navigator e publicá-lo sob uma licença Open Source. Data: Março de 1998.
Entre essas pessoas encontravam-se os dois fundadores da Netscape Communications Corporation: Marc Andreessen, então investigador do National Center for Supercomputing Applications (NCSA) da Universidade de Illinois, e Jim Clark, que também fundara a empresa Silicon Graphics. (fonte: Wikipédia)
Essa decisão aconteceu após leitura de um ensaio amplamente citado ainda hoje – A Catedral e o Bazar, versão em português aqui – através do qual se demonstrava, com graça e acutilância, as diferenças entre modelos de desenvolvimento de software num regime aberto e proprietário e as vantagens do modelo Bazar (aberto, típico das distribuições Linux) sobre o modelo Catedral (fechado, típico da Microsoft). O seu autor foi um conhecido guru do Open Source, Eric S. Raymond.
Incapazes de competir com o Internet Explorer, integrado à traição no Windows para não dar hipótese à concorrência, os executivos da Netscape aproveitaram a boleia de Eric S. Raymond e abriram o código-base do browser à comunidade de programadores.
Desta decisão resultou a fundação da Mozilla Foundation e de uma nova aplicação, Mozilla. Eventualmente o Mozilla (suite de aplicações que incluia também cliente de e-mail, percursor do actual Thunderbird) deu origem a uma versão mais ‘leve’ limitada ao browser, Phoenix. A designação deste sofreria ainda novas alterações: de Phoenix para Firebird e, finalmente, de Firebird para o definitivo Firefox.
Da decisão da Netscape resultaria também a fundação da organização OSI, Iniciativa do Código Livre/Aberto, dedicada à promoção de software Open Source. Fundadores: Bruce Perens e Eric S. Raymond, o tal autor do ensaio A Catedral e o Bazar.

→ 28/12/2007 @21:04

Até vemos estrelas

À semelhança de outros grandes quadros, o célebre ‘Noite Estrelada’, de Van Gogh (wallpaper), atraiu muita gente – ‘peritos’, é o nome oficial – desejosa de fornecer a pobres mortais como tu e eu a interpretação definitiva das ‘reais intenções’ do pintor.

Alguns afirmavam que aquele negrume nas janelas e porta da Igreja significava que Van Gogh não encontrava inspiração nas religiões organizadas, mas na Natureza. A mim aquele campanário lembra-me o chapéu da Bruxa Má dos filmes de Walt Disney, portanto estão a ver que as minhas referências culturais não fazem justiça a nenhuma religião, por mais criticável que seja, muito menos ao grande Van Gogh, cuja qualidade de resto só seria criticável a quem nunca apanhou uma bebedeira de caixão à cova ou fumou uma ganza a ponto de ver os céus em câmara-lenta.

Seja como for, dado que a verdadeira igreja de Saint-Rémy que ele observou a partir da janela do seu quarto não tinha campanário, é possível que o acrescento que lhe fez tenha mais significado do que criticar religiões pincelando pequenas sombras em igrejas mal iluminadas. Não estaria apenas com saudades da terra natal, a Holanda, onde era comum encontrarem-se igrejas com campanários?

Outros – mais dados a explicações psicanalíticas – garantem que o cipreste retorcido e aquele céu representam a alma atormentada do artista. Que tinha uma alma atormentada já muitos sabiam, pois esta paisagem foi pintada precisamente no hospício de Saint-Rémy, em França, onde o pintor fora internado. Até a data exacta em que pintou o quadro ficou registada para a posteridade: numa noite estrelada de 9 de Junho de 1889. 72 anos depois, com o primeiro passeio espacial de Yuri Gagarin, a Humanidade iniciaria a longa caminhada em direcção às estrelas de Van Gogh – as únicas que valem a pena.

Uma série de explosões ocorridas na misteriosa Monocerotis V838, uma estrela gigante vermelha da constelação de Unicórnio, a 20 mil anos/luz de distância, foi descoberta em Janeiro de 2002 pelo Hubble. Do jogo de luz e poeira captado pelas lentes do telescópio espacial resultou uma série de imagens que a NASA, com comovente entusiasmo, comparou às pinceladas que Van Gogh produzira 113 anos antes num hospício perto de Paris.

Por causa disto – e estamos de volta às interpretações – há quem afirme que ‘Noite Estrelada’ foi pintado porque Van Gogh terá visto com os seus próprios olhos o que o Hubble captou mais de um século depois. Adoro esta ideia de juntar pintor e astrónomo num quadro tão maravilhoso como este, mas basta fazer as contas para se perceber que é uma interpretação fantasiosa. Enquanto o mestre pintava, já as explosões haviam ocorrido há muito, muito tempo. Se quiserem aprofundar o conhecimento sobre a Monocerotis V838, leiam este artigo no excelente Portal do Astrónomo.

Quanto à loucura. Na véspera de Natal de 1888, na sequência de uma discussão com Paul Gauguin, outro grande pintor e seu grande amigo, Van Gogh, sentindo-se provavelmente torturado pelas palavras do outro, cortou a própria orelha. Segundo informações recolhidas pelos jornais da época, ofereceu-a depois a uma prostituta. Este incidente terá sido o primeiro sinal inequívoco da doença mental do pintor. Julga-se que Van Gogh sofria de epilepsia.

Van Gogh poderia ter os seus momentos, e alguns podiam ser de loucura, mas a explicação dada pelo escritor português João Aguiar é mais acutilante do que reduzi-lo a um simples caso de epilepsia ou excesso de absinto (consta que Van Gogh abusava um bocado). Numa crónica escrita há muito tempo numa revista já extinta e de cujo nome não me lembro, Aguiar afirmava que Van Gogh não era enlouquecido pela sua loucura, mas por saber que a sua arte não lhe garantiria a refeição no dia seguinte.

O irmão, Theo, era um negociante de arte e acreditava no seu talento, mas mesmo assim só lhe conseguiu vender um quadro. Sustentou-o durante quase toda a sua vida, o que não é saudável para o orgulho de ninguém. Num desfecho muito típico, a qualidade da obra só seria reconhecida depois da morte do autor, ocorrida em Julho de 1890: Van Gogh disparou um tiro sobre o próprio peito e morreu dois dias depois. As suas últimas palavras: ‘A tristeza durará para sempre’.

Hoje em dia cada quadro seu vale uma fortuna quase inimaginável. Um exemplo: em 1990, o quadro Retrato do Dr. Gachet foi comprado por 60 milhões e 500 mil euros.

→ 27/12/2007 @18:51

Oscar Peterson, Liszt e as aflições de um papa

Em primeiro lugar, levantem o rabo da cadeira e façam uma vénia ao senhor Oscar Peterson, que morreu domingo à noite, dois dias antes do Natal. O senhor Peterson tinha 82 anos e era uma lenda do jazz, um virtuoso do piano como Art Tatum (outra lenda do jazz) ou Frantz Liszt (este é outro campeonato).

Tanto Oscar Peterson como Art Tatum tocavam como se dos seus dedos nascessem cataratas do Niagara: com Tatum as notas desabavam em grandes blocos sobre as teclas do piano, mas Peterson era menos tempestuoso que Tatum e não era tão granítico como Dave Brubeck (outro!), tinha mais melodia e ‘swing’, provocava mais encanto.

Agora que já prestaram as vossas sentidas homenagens a Oscar Peterson, convido os mais curiosos a ler a nota biográfica publicada por John Lester no excelente Jazzseen. Guardem este link, amantes da boa música.

Conta-se que o húngaro Frantz Liszt, outro grande pianista, passou dois anos isolado diante do piano depois de ouvir Paganini (outro prodígio!) tocar violino em Paris.

Liszt tinha treze anos. Ficou tão impressionado com o violinista que jurou não descansar até ser um Paganini do piano, capaz de tocar passagens muito extensas e impossivelmente complicadas do ponto de vista técnico. Aos quinze, achou-se preparado para enfrentar o mundo.

Liszt era realmente um pianista extraordinário, mas brilhava mais intensamente diante de uma plateia feminina. Era dado a grandes momentos quando pisava os palcos.

Dizia-se que fingia ter ataques de histeria no fim dos seus concertos só para transmitir a ideia de que mais ninguém a não ser ele, Liszt, era capaz de se envolver na experiência transcendental da música.

Estas experiências metafísicas não só lhe elevaram o espírito artístico como o conduziram à alcova de muitas damas da alta sociedade parisiense.

Consta que Liszt era quase tão bom na cama como no piano. A sua presença era suficiente para que muitas senhoras perdessem os sentidos, vencidas pela emoção de respirar o mesmo ar do grande artista. E se pensam que este é um comportamento absurdo, revejam aquelas filmagens a preto e branco de adolescentes histéricas nos concertos dos Beatles.

Liszt acabou por casar com uma princesa russa que lhe ensinou as virtudes de uma vida discreta e, sobretudo, católica. Viveu com ela até ao fim da sua vida, em 1886. Provavelmente influenciado pela piedosa esposa, Liszt confessou os seus inúmeros pecados carnais ao próprio Papa, que interrompeu o compositor a meio da confissão e lhe disse: «Já chega, Liszt. Conta os teus pecados ao teu piano.»

→ 26/12/2007 @19:00

Alguém conhece os Numismata?

Esta é a capa de um disco de uma banda brasileira que desconheço – chama-se Numismata e é originária de São Paulo – mas muita gente diz que o grupo faz uma música que foge a qualquer tipo de classificação.

Dizem que mistura samba, guitarras lo-fi, electrónica e psicadelismo à Syd Barrett. Está aqui.

Ora, fazer uma música que mistura alhos com bugalhos é a melhor forma de atrair os meus ouvidos zappafónicos, pelo que fica prometido, para breve, uma investigação do detective Nick Torrent às maravilhas musicais destes brasileiros. O que acho engraçada é a capa do disco de estreia, Brazilians on the Moon. Quase que podia jurar que vi ali uns quantos portugueses ao pé do sofá. Estarão a discutir o acordo ortográfico enquanto não começa o futebol?

→ 21/12/2007 @22:44

Finalmente uma boa desculpa para meter esta foto da Hilary

Virginia WoolfAs mulheres, durante séculos, serviram de espelho aos homens por possuírem o poder mágico e delicioso de reflectirem uma imagem do homem duas vezes maior que o natural. Virginia Woolf

→ 21/12/2007 @21:12

Zappancadas II

Portanto quais foram as melhores músicas de 2007. Aquela música dos Interpol, diz alguém. Interpol? Posso vomitar primeiro, sugiro eu. Olha lá pá – responde o meu colega ao lado, em tom provocador – o Zappa lançou alguma música em 2007? Não. Então se não lançou, este ano não existiram as melhores músicas do ano.
Não não, respondo eu na maior das calmas e sempre com o máximo espírito natalício. Acontece que o senhor Frank Zappa teve alguma dificuldade em iluminar as vossas mentes obscuras por uma razão muito simples e que passo a explicar: para que um compositor possa exercer o seu ofício de forma satisfatoriamente actualizada, é necessário primeiro estar vivo. Uma condição um bocado parva, bem sei, mas é a vida moderna, que se há-de fazer.
Infelizmente para mim, para a música e para o mundo, desde 4 de Dezembro de 1993 o Mestre não reúne as condições necessárias para desempenhar as suas funções aqui na Terra mas estou certo que lá em cima, no Céu, no Inferno ou na Baixa da Banheira, a morte será uma questão meramente burocrática e, para a ultrapassar, só será necessário perder um bocadinho de tempo a arranjar uns carimbos do Divino.
Pelo que acredito – e deixa-me acabar de falar, pá – o senhor Frank Zappa estará neste momento a subverter um poder instituído – neste período festivo e politicamente correcto, acredito que estará a foder a juízo ao Pai Natal com uma canção qualquer sobre prostitutas de barba branca. Como de costume, os idiotas pensarão que ele está a ser apenas grosseiro ou ordinário. Também podes fazer as coisas de uma maneira mais simples: compras a merda de um CD.
Claro que se fores os Interpol ou qualquer outra banda hiper-chique que por razões desconhecidas se torna a ‘big thing’ de críticos tão sofisticados como os Ferrer Rocher do Ambrósio, não há grande diferença entre estares vivo ou morto.
Então pronto, OK, o Zappa está no céu a jogar às cartas com o Elvis Presley – é o meu colega, que tem uma imaginação conciliadora. Tás parvo – digo eu. Então achas que o Zappa ia jogar às cartas com um labrego ranhoso como o Elvis? Na mesa do Zappa só se sentam gajos como o Varèse, o Stravinsky, o Eric Dolphy, essa malta boa. O Mozart, o Beethoven e o Wagner pode ser, mas só depois de tirarem as perucas e ouvirem uns solos de guitarra. Chatos, esses tipos, sobretudo o Wagner. É preciso educá-los. O John Lennon? Esse talvez se possa sentar, mas só depois de um blues bem cantadinho para o Mestre ouvir e aprovar. E mesmo assim fica proibido de estragar o apetite aos convivas com canções xaroposas sobre a paz no mundo. E o Paul McCartney não entra nem para servir um café!
Pá, posso contar uma anedota intelectual só para desanuviar? É sobre Zappa? – Pergunto eu. Não, mas é em inglês. Por isso é mais intelectual. E é na língua do Mestre. Fixe. Venha ela. Pronto. Vou contar. Vira-se o Mickey para o Donald e diz: ‘Donald, i’m divorcing Minnie’. E o Donald: ‘Are you fucking crazy?’. E o Mickey: ‘No, I’m fucking Daisy’.
Portanto não sei se estão a ver, é Natal é Natal, mas o destino é um sem-abrigo mal-cheiroso que vos bate à porta e obriga a fechá-la com força, porque é Natal é Natal, mas nada de abusos. E agora que faço eu ao post? Um ponto final serve ou continuam vocês?

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