
John Cena é o senhor do lado direito
O campeão do Wrestling John Cena é um ‘ganda’ maricas. Até é capaz de fazer umas quantas acrobacias, mas aquilo não se compara com as lutas que eu e o Pedro fazíamos quando éramos putos.
A mentalidade do lutador de Wrestling tem demasiados pontos em comum com a minha infância para que a possa detestar. Aquilo tem piada. Caramba, até me arrisco a dizer que aquela merda é genial. Só não concordo que se ponha o Cena nos píncaros da luta semi-livre. Eu e o Pedro fazíamos lutas com muito mais pinta.
É genial, sim, ó intelectual horrorizado. Porque aos quatro ou cinco anos já a maior parte da malta se divertiu a brincar à porrada nos infantários e nas ruas. E porque o Wrestling é uma forma de recordarmos esses preciosos tempos em que podíamos ser neandertais à vontade. O facto de se ganhar milhões de dólares à conta disso só prova o jeito que os americanos têm para transformar as suas limitações em lucro.
Agora esse tal Cena… Pá, não. Nós fazíamos lutas como deve ser, carago. E não havia cá essas mariquices de arenas fofas, árbitros, assistências médicas e muito menos deusas mamalhudas para repousar as nossas cansadas cabecinhas.
Se fosse preciso lutávamos e caímos sobre pedregulhos – bastava que o argumento o exigisse. E se nos aleijássemos… Paciência. Dava mais realismo à cena e tudo! Um buraquito no joelho era suficiente para nos elevar à condição de estrela principal do nosso filme. Com sangue a correr até já dava para ganhar um Óscar.
É verdade, andar à porrada sem um argumento decente não tem piada. Os tipos do Wrestling também o sabem. Eles gastam uma data de tempo a berrar uns com os outros preparando o ambiente para a próxima luta. E o público americano não só desconhece o desfecho final da pancadaria como se deixa surpreender pela previsibilidade dos diálogos.
Eu e o Pedro – e todos os outros da nossa pandilha – nunca tivemos esses luxos. Bastava um pequeno desvio ao argumento inicial – fazer uma pausa para roubar umas nêsperas ao quintal do vizinho – para sermos logo corridos à paulada.
Na maior. Até nos dava jeito, pois incorporávamos o furioso vizinho no argumento: andávamos sempre à procura de maus da fita que fossem mesmo bons e simples – como nos filmes americanos actuais. E olhem que as histórias que inventávamos eram um bocadinho melhores que estas do Wrestling.
Sim, é verdade, ainda somos do tempo em que havia quintais de jeito. Nos primeiros anos da infância ainda se arranjava um campo verde para sermos vietcongs, americanos ou jogar à bola, mas nos últimos tempos já tínhamos sido forçados a optar pela guerrilha urbana: as árvores ia caindo, os prédios semeados por especuladores imobiliários e as balizas substituídas por janelas de vidro.
Se ao menos não tivéssemos crescido… Agora podíamos ganhar uma pipa de massa, ó Pedro.