
Foto: I. Antonopoulos (Lying Eyes) | Música: John Zorn (The Ballad of Hank McCain)

Foto: I. Antonopoulos (Lying Eyes) | Música: John Zorn (The Ballad of Hank McCain)
Entre 3 e 14 de Junho de 1992, no Rio de Janeiro, decorreu a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento – conhecida como a Cimeira da Terra. A reunião tinha como objectivo decidir quais as medidas a tomar para diminuir a degradação ambiental e preservar a vida das gerações vindouras.
Dado que uma das notas dominantes nestes trabalhos era o de preservar este planeta para as futuras gerações, decidiu-se que uma criança discursaria no encerramento de um dos plenários. Quem subiu ao palco foi uma rapariga de 12 anos oriunda do Canadá, Severn Cullis-Suzuki.
A sala encontrava-se cheia com os delegados de quase todos os países do mundo – os mesmos que discutiam há dias a questão-base da cimeira: como conciliar o desenvolvimento económico e industrial com a conservação e protecção dos ecossistemas da Terra.
Talvez ninguém estivesse à espera de qualquer coisa de especial: uma mistura de ingenuidade e de boa vontade, de idealismo e esperança, bom para mostrar nos telejornais à noite, e que seria aplaudido com condescendência e paternalismo.
Estavam enganados. Inteligente, dotada de uma rara eloquência, a rapariga acabou por fazer aquela que é considerada a intervenção mais importante da Cimeira – um discurso tão forte e uma denúncia tão acutilante à hipocrisia dos governos e dos «adultos» que, segundo dizem os relatos, a reacção dos delegados se dividiu entre aqueles que se remexeram nas cadeiras, incomodados, e os que choraram, comovidos. Presente na sala, o então futuro vice-presidente dos EUA e actual superstar ambientalista Al Gore correu na direcção de Severn Cullis-Suzuk assim que ela terminou o discurso, tal foi o entusiasmo que as palavras lhe provocaram. O discurso que não mudou o mundo pode ser visto aqui.
A noite da madrugada de 30 de Janeiro de 1968 marcava o início de uma data sagrada para os vietnamitas: os festejos do Novo Ano Lunar. Muitos dos efectivos do exército do Vietname do Sul tinham sido autorizados a comemorá-la fora dos quartéis.
Foi precisamente nessa noite que duas grandes forças de combate – os Vietcongs e o Exército do Vietname do Norte – lançaram em simultâneo um ataque surpresa em todo o país. Esta operação de grande escala ficou conhecida como Ofensiva Tet. Foram atacadas mais de 100 vilas e cidades, incluindo 36 capitais de província e a própria capital, Saigão.
Embora os americanos tenham sido apanhados de surpresa pelo amplitude do ataque, os serviços secretos já tinham detectado grandes movimentações de tropas inimigas. Esperavam uma ofensiva apenas contra Khe Sanh, no sul do país, onde se encontrava uma base de Marines, mas não uma ofensiva simultânea em todo o território. Quando as tropas norte-vietnamitas atacaram Saigão, 27 batalhões dos Estados Unidos estavam estacionados na capital. A operação não foi, assim, o sucesso militar que se esperava: entre 30 de Janeiro de 1968 e 8 de Junho do mesmo ano, período oficial de duração da Ofensiva Tet, 58 mil soldados norte-vietnamitas perderam a vida sem que Saigão tivesse sido capturada ou os americanos expulsos.
Mesmo assim, algumas regiões e cidades do Interior caíram irremediavelmente nas mãos do Exército do Vietname do Norte.
Os efeitos psicológicos deste ataque entre a opinião-pública norte-americana – outro dos objectivos dos estrategas norte-vietnamitas – foram importantes. As imagens iniciais da Ofensiva Tet difundidas pelos media marcaram a forma como o povo encarava a presença dos seus filhos e soldados naquele território hostil, desconhecido e distante. De pouco adiantou à administração do então presidente Lyndon Johnsson insistir que a Ofensiva Tet acabara por ser uma grande derrota dos comunistas.

O efeito das imagens iniciais de desnorte americano poderia ter sido atenuado com o passar do tempo e a acção da propaganda militar – mas a 1 de Fevereiro de 1968, no terceiro dia da Ofensiva Tet, quando a confusão ainda reinava em Saigão, um fotógrafo captou uma imagem que haveria de ter um efeito ainda mais devastador entre o povo americano.
Naquele dia, duas armas foram disparadas ao mesmo tempo: uma pistola e uma máquina fotográfica.
A bala disparada à queima-roupa perfurou o cérebro de um prisioneiro vietcong e a foto capturou o momento exacto da execução.
Há duas personagens desta tragédia: Nguyen Ngoc Loam, coronel, nomeado chefe da Polícia Nacional da República do Vietname, e um oficial vietcong capturado, o capitão Nguyen Van Lém, o mesmo nome próprio que o seu assassino.
Nesta foto já não existe vida, nem no carrasco nem na sua vítima: a câmara de Eddie Adams transforma-os em monumentos que recordam à Humanidade a brutalidade selvagem de uma guerra sem honra.
De um lado, o braço esticado do carrasco, os músculos tensos, a mão agarrando a pistola com tanta força como se receasse falhar o alvo e cobrir de ridículo o seu poder de deus da vingança; do outro, um jovem, mãos atadas nas costas, magro, pequeno, indefeso. De um lado, um rosto inexpressivo, frio, o rosto da morte; do outro, um homem a quem não é permitido, sequer, um gesto instintivo de defesa.
O operador de câmara da NBC, Vo Suu, filma a sequência: o tiro, o fumo, a queda, o sangue jorrando da cabeça do oficial vietcong. Eddie Adams, o fotógrafo, recordará mais tarde que a sua única vontade é sair dali, afastar-se, mas, ao mesmo tempo, numa familiar combinação de horror pessoal e triunfo profissional, tem consciência da extraordinária foto que acabou de tirar. A foto acabou por ganhar um Prémio Pulitzer.
Nguyen Ngoc Loam, o assassino, mantém-se calmo quando fala aos repórteres: «Ele matou muitos de nós e dos vossos também» – justifica-se ao operador de câmara, que ainda não virara as costas. – «Penso que Buda me perdoará por isto».
É um criminoso de guerra, mas tanto o Vietname do Sul como as autoridades americanas não fazem caso da situação: alguns oficiais americanos protestam contra a execução sumária, mas Nguyen continua ao serviço do exército sul-vietnamita, onde fortalece a reputação de homem de grande coragem e sagacidade em batalha. A sua carreira de guerreiro termina três meses mais tarde, quando uma granada inimiga lhe destrói a perna direita.
É enviado para um hospital na Austrália para receber tratamento, mas os protestos contra a sua presença são tão veementes que acaba por ser transferido para os Estados Unidos, para um centro médico militar em Washington, o Walter Reed. Alguns senadores no congresso americano protestam, mas nada acontece.
De volta a Saigão, Nguyen é afastado do exército – tiveram de amputar-lhe a perna direita – e regressa à vida civil. Em 1975, quando os vietkongs estão às portas da capital e se inicia a evacuação, os americanos recusam-se a ajudá-lo. Acaba por fugir com a família num avião sul-vietnamita e regressa aos Estados Unidos.
Quando a sua presença é conhecida, alguns movimentos civis tentam deportá-lo, afirmando tratar-se de um criminoso de guerra, mas, mais uma vez, nada acontece. Fica a viver no norte da Virgínia e abre uma pizzaria. O negócio corre bem e sem sobressaltos até 1991, mas entra em declínio quando é reconhecido como o carrasco da foto tirada por Eddie Adams. Há quem escreva nas paredes da pizzaria: «Sabemos quem tu és».
O cancro mina-o e ele afasta-se. Acaba por morrer em Julho de 1998. Nunca foi condenado pelo crime que cometeu, embora tenha dado entrevistas onde procurou justificar o seu acto. Ele afirma que o oficial vietcong era um terrorista que tinha estado envolvido no assassínio de oficiais sul-vietnamitas e respectivas famílias – daí a execução. Ao princípio, ordenara a um oficial subalterno que matasse o prisioneiro. Perante a hesitação do outro, encarregou-se ele próprio de executar a sentença. «Se eu hesitasse não estaria a cumprir o meu dever – e os homens não me seguiriam».
Até hoje não se sabe se Nguyen Van Lém esteve envolvido nos massacres que aconteceram. 34 corpos haviam sido descobertos em Saigão no dia anterior, tanto de oficiais da polícia como das respectivas mulheres e filhos, mas nunca se provou o envolvimento do oficial vietcong – fosse ou não responsável, a verdade é que nunca lhe foi dada a oportunidade de se defender num tribunal militar. Outras fontes – norte-vietnamitas – afirmam que Lém não era um operacional, a sua acção era sobretudo política.
O vídeo mostrando a sequência completa dos acontecimentos passou inúmeras vezes nas televisões e chocou a América. E quando a foto de Eddie Adams foi publicada na primeira página dos jornais americanos, mudou a forma como o povo americano encarava a guerra. A foto não era apenas a imagem de um crime, mas o espelho da guerra do Vietname: selvagem e gratuita, como o acto do chefe da polícia Nguyen Ngoc Loam.
Ao princípio a maioria dos americanos apoiara a guerra, pois tratava-se de ajudar inocentes sul-vietnamitas a libertar-se do jugo comunista do Norte; depois daquele foto, tornara-se muito mais difícil descobrir onde estavam afinal esses inocentes.
Fontes: Tet Offensive (Wikipédia) | Vietname War (Wikipédia) | Newseum War Stories | New York Times Obituary | Nguyen Ngoc Loam (Wikipédia) | Digital Journalist: The Saigon Execution

A construção do maior radiotelescópio do mundo – o SKA (Square Kilometer Array) é um dos grandes projectos tecnológicos do século XXI. O SKA terá uma área total de um milhão de metros quadrados e será constituído por inúmeras antenas distribuídas ao longo de milhares de quilómetros. Ainda está por decidir se será construído na Austrália ou na África do Sul – seja qual for o local, os trabalhos de construção só terão o seu início a partir de 2010.
Estima-se que o radiotelescópio terá um custo global de 1000 milhões de euros, mas o impacto que causará em todos os campos da Astronomia poderá vir a ter um valor incalculável.
Exemplos: o SKA ajudará a revelar o nascimento das primeiras galáxias, conseguirá detectar eventos bizarros como colisões entre buracos negros e, graças à sua elevada resolução, conseguirá capturar o processo de formação de planetas noutros sistemas solares. A sua potência é tal que conseguirá captar o equivalente a um sinal de um transmissor de televisão proveniente de um planeta em órbita de uma estrela próxima do Sol. Esta sensibilidade e resolução tornarão também possível fazer a ‘cartografia’ das proto-estruturas que deram origem às primeiras estrelas no Universo.
Um aspecto importante (pelo menos para nós, portugueses) é que o CENTRA (Centro Multidisciplinar de Astrofísica do Instituto Superior Técnico, IST) será, a partir do dia 1 de Julho, parceiro do consórcio que vai construir o radiotelescópio. O consórcio chama-se SKADS (Square Kilometer Array Design Studies) cujo financiamento é assegurado, em grande parte, pela União Europeia. O SKADS tem como objectivo investigar e desenvolver tecnologias necessárias à construção do radiotelescópio. É constituído por 34 instituições de investigação da UE, Austrália, China, Rússia, Estados Unidos e África do Sul.
Ora aqui está um excelente candidato a votações mínimas em massa! Que raio de disco é este, Le Trésor de la Langue? Preparem-se: quem se der ao trabalho de ouvir o tema que vos proponho pode muito bem detestar ou adorá-lo para sempre.
Se és dos raros que gostam que se escreva aqui sobre Zappa, então aproveita para conheceres mais uma experiência musical única. Acompanhado por grandes músicos como Fred Frith ou Tom Cora, René Lussier capta a musicalidade de conversas de rua, ao telefone, na rádio, de discursos políticos (o célebre desafio de De Gaulle “Vive le Québec libre!”) e constrói as composições a partir da sonoridade das próprias palavras.
Ena pá, como vocês vão detestar isto se tiverem a coragem de fazer o download: La visite de Charles de Gaulle.
P.S. – O tema termina de forma abrupta porque no disco todas as faixas seguem sem interrupções.
A FAQ do Planeta PrintScreen (parabéns ao responsável pelo design da página, está excelente) faz-me alguma confusão. No penúltimo ponto tenta explicar-se o que distingue o PrintScreen dos outros agregadores de blogues. Uma das particularidades que faz a diferença entre aquele e os outros, lê-se na FAQ, é o facto de possuir ‘critério editorial’.
Ter ‘critério editorial’ é algo que, com menor ou maior diferença e importância, qualquer responsável por um blogue deve ter. No caso do blogger, esse pode ser apenas um critério pessoal; no caso de um agregador de blogues, a história é diferente.
Ter um critério editorial pressupõe a existência de um ou vários editores responsáveis por seleccionar, enquadrar, corrigir e publicar os artigos dos blogues agregados. Parece-me que a função editorial no PrintScreen está reduzida a apenas uma destas funções: seleccionar.
Seleccionar o que é merecedor de publicação (e o que não é) pressupõe realmente a existência de um critério. Esse critério não pode ser subjectivo, ou seja, não pode estar sujeito aos gostos pessoais ou aos humores do editor ou do grupo de editores. Deve ser traduzido em regras que todos possam entender – e aceitar. Por exemplo: não falar de futebol ou de politiquices, escrever em bom português (ou em bom inglês), não escrever artigos racistas, por aí fora.
Se tiver juízo, qualquer blogger que seja convidado a pertencer ao PrintScreen estará interessado em conhecer primeiro os critérios de selecção adoptados pelos editores nas escolhas dos posts. Pode dar-se o caso de não estar interessado. Pode dar-se o caso de não aceitar uma autoridade editorial que não revela os critérios com que exerce essa autoridade.
Porque, infelizmente, não encontrei nas páginas do PrintScreen uma única linha que me informasse quais são afinal esses preciosos critérios que tanto os distinguem da concorrência. O auto-elogio público está lá – a demonstração pública da qualidade desses critérios é que falta.
Se são definidos pelos gostos pessoais dos editores, não deixam de ser critérios, é verdade – mas não podem ser considerados ‘critérios editoriais’. Pelo menos no planeta onde eu vivo.
Há expressões que ficam bem para impressionar, mas só impressionam aqueles que lhes desconhecem o significado.