Arquivos mensais: Agosto 2007

→ 31/08/2007 @17:37

Já deixei de fumar

Não deixa de se prestar a múltiplas interpretações que o ex-fumador mais famoso do mundo, Allen Carr, tenha morrido a 29 de Novembro do ano passado com um cancro nos pulmões. Carr foi sempre um fumador compulsivo – entre três e cinco maços por dia – mas há 23 anos que deixara de fumar através de um método que o próprio forjou e ao qual chamou EasyWay.
Durante todos esses anos escreveu livros descrevendo a sua «forma fácil» de deixar de fumar e abriu 70 clínicas em trinta países diferentes onde os seus métodos eram aplicados. Ganhou uma fortuna à conta dos livros e das clínicas, mas não foi nenhum charlatão. Nunca prometeu nenhum «milagre»: afirmava apenas que superar o vício de fumar seria possível se conseguíssemos entender os mecanismos psicológicos que nos levam a querer acender outro cigarro.
Carr afirma que, uma vez desfeita a ilusão de que o cigarro é agradável e necessário, se torna surpreendentemente fácil largar o vício.
O livro mais popular é «Parar de Fumar – o método mais fácil para todos». O livro é uma autêntica lavagem ao cérebro do fumador e é graças a ele que não fumo há quatro dias. Quatro dias não chega a ser uma semana, quatro dias não é nada, mas a verdade é que não estou a trepar às paredes por causa da falta do tabaco como aconteceu em tentativas anteriores em que me apoiei apenas na força de vontade.
Em vez de me lamentar sobre o facto de «ter perdido» os cigarros, porque na verdade não «perdi» nada, estou mais concentrado no que estou a ganhar. É uma autêntica lavagem ao cérebro, sim senhor.
Digo que a forma como Allen Carr morreu se presta a múltiplas interpretações porque, como é óbvio, a mentalidade típica de quem fuma poderá levá-lo a pensar: «O facto de ter deixado de fumar não o safou do cancro nos pulmões».
Carr fumou durante 33 anos (nos piores dias, fumava cinco maços por dia). Largou o tabaco aos 48 e morreu aos 72. Quantos anos teria de vida se tivesse continuado a fumar 100 cigarros por dia?
Carr também levou com a fumarada toda dos seus «pacientes». Como o seu método se baseava na compreensão e não na imposição, todos eram livres de fumar durante as sessões. O livro reflecte esta visão quando aconselha o leitor «a não parar de fumar» enquanto o estiver a ler.

Segunda-feira o Bitaites voltará ao ritmo normal de actualizações. É provável que eu regresse a este tema mais vezes. Desculpem lá a insistência, mas é uma fase importante na minha vida. Deixar de fumar sentindo que desta vez se consegue (e perceber que não se está a perder absolutamente nada), é uma conquista psicológica muito importante para um agarrado aos cigarros como eu.

→ 27/08/2007 @18:03

No cosmos, um gigante também é um berlinde

A imensidão do Universo e a escala monstruosa das estrelas é impressionante. Este conjunto de imagens da NASA permite perceber até que ponto um gigante se pode tornar um mísero ponto no Espaço. É tudo uma questão de perspectiva.

Para um hipotético habitante de Mercúrio, a Terra pareceria quase um gigante. Os terráquios seriam invejados pela quantidade de superfície ao seu dispor. Mas um jupiteriano, por seu turno, rir-se-ia do nosso minúsculo planeta.

O Sol é a fonte de vida – e, ao nosso olhar, é imenso. Até o gigantesco Júpiter – o maior planeta do Sistema Solar – é, perto dele, um ponto insignificante. Mas à medida que o nosso olhar alcança maiores profundidades no Espaço, descobrimos que a nossa preciosa estrela é apenas um objecto de média grandeza.

Sirius, a estrela mais brilhante do céu, é 2,4 vezes maior que o Sol e encontra-se a apenas 8,57 anos-luz: à escala astronómica, é como se morasse no quarteirão ao lado. Mas a vida na Terra seria impossível se este gigante estivesse no nosso quarteirão.

Sirius é enorme, mas também se torna insignificante quando comparado à gigante vermelha Aldebaran, uma estrela «inchada» que já gastou todo o seu hidrogénio e que obtém energia através da fusão do hélio. É quase 50 vezes maior do que o Sol; a sua luminosidade é 150 vezes maior. Está a 65,1 anos/luz da Terra.

As monstruosas escalas do Universo não cessam de nos atormentar: a gigante Aldebaran é pouco mais do que um berlinde cósmico quando colocada ao lado de Antares, uma supergigante vermelha 300 vezes maior do que o Sol e 10 mil vezes mais brilhante. Encontra-se a 600 anos/luz de distância.

E até a supergigante vermelha Antares parece pequena quando comparada com um dos maiores colossos estelares que conhecemos: a estrela VV Cephei, entre 1600 a 1900 vezes maior que o Sol. Os astrónomos estimam que esta estrela poderá ser até 575 mil vezes mais luminosa. Imaginem que a colocávamos no lugar do Sol: a sua superfície estender-se-ia para além da órbita de Júpiter.

Tão impressionante como esta vastidão é o facto de nela viverem pequenos seres capazes de compreender a insignificante posição que a sua espécie ocupa no Cosmos. Talvez a resposta para os grandes mistérios da existência não esteja em saber porque estamos vivos mas em perceber porque razão somos tão inteligentes.

O máximo que podemos rebentar é o nosso próprio planeta – nada de especial. Somos já capazes de lhe destruir o equilíbrio ecológico, mas ainda não podemos destruir o Sol. Não obstante a sua pouca importância no Cosmos, temos muito a agradecer-lhe: em cinco biliões de anos de vida nunca nos faltou um único dia. Tivesse o Sol um milionésimo da nossa natureza agressiva e instável, e talvez nunca tivesse existido vida na Terra.

Talvez exista algum propósito oculto na nossa insignificância. Somos seres extraordinários, ambiciosos e sonhadores, inteligentes e determinados, mas andamos sempre a fazer asneiras. As distâncias e escalas do Cosmos colocam-nos no nosso devido lugar e impedem-nos de mexer onde não devemos.

→ 27/08/2007 @16:29

Enciclopédia dos planetas Extra-solares

Para quem acompanha com interesse o trabalho dos astrónomos para localizar planetas extra-solares, esta página é de grande interesse. Trata-se da Enciclopédia de Planetas Extra-Solares, cuja versão em português é mantida pelo Observatório Astronómico de Lisboa e o Centro de Astronomia e Astrofísica. A enciclopédia é actualizada à medida que vão sendo conhecidas as últimas descobertas de planetas situados fora do nosso Sistema Solar. Uma das últimas registadas foi a 12 de Julho: pela primeira vez, detectou-se de forma «inequívoca» a presença de vapor de água na atmosfera de um exoplaneta.

→ 25/08/2007 @22:43

Uma Foto e Uma Música [74]

Dear Doctor, I Have Read Your Play

Foto: David LaChapelle (Dear Doctor, I Have Read Your Play)
Música: Amy Winehouse (Rehab)

→ 24/08/2007 @17:59

Fuma-se enquanto se pensa em parar de fumar

Hoje acendi um cigarro e comecei a ler o famoso livro de Allen Carr: «Parar de Fumar – O método mais fácil para todos».
Allen Carr foi um fumador durante 33 anos – no auge do vício, sugava mais de 100 cigarros por dia – e acredita ter descoberto o método ideal para deixar de fumar. Esse método permitiu-lhe «libertar milhões de pessoas». Nenhuma destas pessoas era do Benfica, disso tenho a certeza.
Que diria Allan Carr se me visse a folhear o seu livro enquanto estou a fumar? Provavelmente – e talvez seja isso que o torna especial – incentivar-me-ia a continuar a dar as minhas passas pois, segundo ele, é inútil tentar deixar de fumar enquanto primeiro não compreendermos os mecanismos psicológicos – ele chama-lhe «lavagem ao cérebro» – que operam na mente do fumador.
Carr propõe-se desmistificar neste livro todas as «desculpas» a que os fumadores se agarram para justificar o vício: o cigarro acalma em situações de stress, o cigarro ajuda à concentração, o cigarro «sabe bem» depois do café e de uma refeição, entre outras. Tamanha é a confiança que coloca no sucesso desta cura que garante ser possível deixar de fumar sem as típicas sensações de angústia e nervoso miudinho que o fumador experimenta quando tenta largar o cigarro. Para que este milagre seja possível, o leitor deve seguir as instruções contidas no livro e não deve deixar de fumar enquanto o está a ler porque, em primeiro lugar, tem de compreender inteiramente o potencial escravizador do cigarro.
Ainda não cheguei à parte das instruções, mas Allan Carr tem o mérito de me fazer sentir compreendido e falar comigo de igual para igual. Tudo parte da nossa capacidade de compreender a condição humana do fumador, afirma ele. Não nos martiriza demasiado com longas dissertações sobre os riscos para a saúde porque isso, escreve ele, já estamos todos fartos de saber. Não propõe, sequer, a compra dessas horríveis pastilhas de nicotina que alguns médicos prescrevem. Na verdade, não aconselha qualquer tipo de substitutos. Tão-pouco tem um discurso em tom evangelista. É um homem racional e lúcido. E a chave para deixar de fumar, diz, está mais na nossa inteligência e capacidade de compreensão do que na capacidade de sofrimento ou de força de vontade.
Estou a adorar o livro – não sei se conseguirei deixar de fumar, mas pelo menos este é um daqueles livros em que a abordagem faz todo o sentido para mim. Carr não tem formação académica (foi fiscal de contas antes de se converter em guru do anti-tabagismo) e não trata os leitores como doentes, mas como companheiros de infortúnio. Primeiro procura convencer-nos da nossa condição de escravos do cigarro, espicaçando-nos o nosso orgulho; quando finalmente nos convence de que somos realmente escravos, promete-nos que a libertação será muito mais fácil do que pensamos.
Ainda vou no início do livro, mas terei muito gosto em continuar a escrever mais alguns posts sobre o assunto ou mesmo publicar excertos mais significativos.

P.S. – O blogue manter-se-á de férias até ao fim de Agosto. Só a partir de 1 de Setembro o ritmo de actualizações regressará ao normal.

→ 23/08/2007 @19:24

Blogosfera típica

Não passa praticamente uma semana sem que não seja criado um prémio qualquer de bloggers para bloggers. Elegem-se blogues com tomates, blogues com grelos, blogues cinco estrelas, por aí fora, numa corrente infinita de poucas leituras e muitas palmadinhas nos ombros.

O que este fenómeno me diz é que continua a existir mais necessidade de reconhecimento mútuo entre bloggers do que em escrever e comunicar bem. O link devia ter por base o mérito de quem é linkado e o prazer da leitura de quem linkou, mas transformou-se num sistema de trocas e panelinhas. Pouco falta para que se transforme num negócio onde o idealismo e o romantismo dos primeiros tempos esteja completamente posto de parte.

Outra característica da blogosfera portuguesa é a excessiva importância que se dá ao que escreve Pacheco Pereira. Basta que ele diga que 90 por cento dos blogues são lixo, como de resto já o fez, para que metade da blogosfera reaja com indignação ofendida e a outra metade se mostre desejosa de lhe provar que faz parte da elite dos 10 por cento. Pessoalmente continuo à espera do dia em que 90 por cento da blogosfera deixe de dar importância ao que escreve o Pacheco Pereira.

Isto tem uma razão de ser: a influência de Pacheco Pereira na blogosfera nada tem a ver com o seu mérito como blogger, mas com a proximidade aos media tradicionais, incluindo a todo-poderosa televisão. Essa proximidade dá-lhe um poder que os mais inteligentes, cultos e iluminados bloggers de Portugal não têm e se acham merecedores: o da visibilidade mediática.

Por isso a blogosfera típica está dividida em três grandes grupos: os carentes generosos dos prémios, os vaidosos invejosos do Pacheco Pereira e, já agora, páraquedistas da Wikipédia como o Luís Filipe Menezes ou o blogue Zero de Conduta.

→ 23/08/2007 @17:35

Boa travessia

Ninguém melhor do que Frank Zappa para a estreia do novo visual do Travessias. (…) Se este blogue tivesse um patrono, padrinho, guru ou qualquer coisa do género, seria o meu velho Zappa o escolhido.
Helder Bastos

Um gajo que escreve uma coisa destas ganha imediatamente o meu respeito e uma profunda vénia, ou seja, um link. Helder Bastos dá ao mestre a dimensão que merece: «Se Zappa fosse vivo, só imagino as letras, os vídeos, as entrevistas corrosivas que ele não faria à conta do actual presidente dos States», escreve no Travessias. É isso mesmo, Helder. Zappa faz-nos falta.
Vénias: Travessias e Travessias Digitais

Dizer NÃO à taxa