A propósito da celebração do novo milénio, o escritor norte-americano Paul Auster escreveu em Dezembro de 1998 um artigo em que relacionava futebol e guerra: as manifestações associadas ao fenómeno do futebol não eram mais do que substitutos das batalhas do passado. Auster não considerava nesse texto toda a beleza do futebol como desporto: preferia vê-lo como fenómeno social e psicológico.
O objectivo das guerras em grande escala – conquista de espaço territorial e recursos económicos do inimigo – é substituído por um símbolo de vitória (a taça) que todas as nações desejam conquistar. Para vencer a guerra (ser campeão) as nações beligerantes (participantes) enfrentam-se em várias batalhas. É uma visão interessante e muito conhecida de todos – até o seleccionador Scolari (logo ele, não é?) afirmou ter lido aos jogadores as passagens mais significativas do livro A Arte da Guerra, de Sun Tzu, um dos maiores estrategas militares de todos os tempos.
Segue-se o texto de Paul Auster, numa tradução de António Mega Ferreira para a edição de Junho de 2005 da revista Egoísta.
Quando me pediram que escrevesse sobre «o milénio», a primeira palavra que me acudiu à memória foi «Europa». Afinal de contas, o milénio é uma ideia europeia, que só faz sentido se nos estivermos a referir ao calendário europeu, o calendário cristão. (…) A Europa é o único lugar da terra que viveu este milénio do princípio até ao fim, e quando procurei concentrar-me para encontrar uma única, uma dominante imagem ou ideia capaz de sintetizar os últimos dez séculos da história europeia (…), a palavra que mais insistentemente me veio aos lábios foi «carnificina». E com isto quero significar a metafísica da violência: guerra, destruição em massa, o massacre do inocente. Não digo isto com o intuito de denegrir as glórias da cultura e civilização europeias. Mas, apesar de Dante e Shakespeare, apesar de Vermeer e Goya, apesar de Chartres e da Declaração dos Direitos do Homem, é um facto comprovado que raramente se passou um mês, no decurso dos últimos mil anos, sem que um grupo de europeus tenha formulado a intenção de matar outro grupo de europeus. País contra país (como na Guerra dos Cem Anos), alianças de países contra outras alianças de países (a Guerra dos Trinta Anos), cidadãos de um só país uns contra os outros (as Guerras de Religião em França). Quando chegamos ao nosso, muito elogiado século de progresso e informação, é só preencher os espaços em branco. E se houver alguém que pense que a carnificina terminou, tem apenas de abrir o jornal e ler o que se está a passar na antiga Jugoslávia. Para não falar do que aconteceu na Irlanda do Norte, no decurso dos últimos trinta anos.
Felizmente, a paz tem reinado entre as grandes potências europeias desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Nos primeiros quarenta e cinco anos do pós-guerra, esta paz foi ensombrada por um outro tipo de guerra, mas, desde a queda do Muro de Berlim e a desagregação da União Soviética, a paz tem-se mantido. É um facto sem precedentes na história europeia. Com a moeda única no horizonte e as fronteiras abertas já uma realidade, é como se os combatentes tivessem finalmente deposto as armas. Isto não quer dizer que gostem uns dos outros, nem sequer que o nacionalismo seja hoje menos fervoroso do que costumava ser, mas finalmente parece que os europeus descobriram a maneira de se odiarem uns aos outros, sem por isso terem que se despedaçar à dentada. Este milagre tem o nome de futebol.
Não quero exagerar, mas que outra maneira há de interpretar os factos? Quando a França arrebatou uma vitória-surpresa no Campeonato do Mundo de 1998, mais de um milhão de pessoas juntaram-se nos Campos Elísios para celebrar o triunfo. A todos os títulos, foi a maior manifestação de alegria colectiva vista em Paris desde a Libertação do domínio alemão, em 1944.
A dimensão do evento, o absoluto excesso da alegria exibida eram de pasmar. Mas é apenas uma vitória desportiva, repetia-me eu; e, no entanto, aí estava aos olhos de toda a gente: na mesma avenida da mesma cidade, a mesma jubilação festiva, a mesma ostentação de orgulho nacional que tinha acolhido De Gaulle, quando ele marchara através do Arco do Triunfo, quarenta e cinco anos antes.
Ao ver o espectáculo através da televisão, lembrei-me do título de um livro que lera no princípio da década: The Soccer War, a guerra do futebol, de Ryszard Kapuscinski [1]. Seria possível que o futebol se tivesse tornado o substituto da guerra?
Comparada com o futebol americano, a versão europeia parece muito mais comedida, mas a verdade é que a história do futebol esteve sempre imersa em violência. Lenda ou realidade, a primeira referência ao jogo neste milénio brota de um incidente de guerra. No ano 1000, ou por aí, diz-se que os britânicos celebraram a vitória sobre um invasor dinamarquês cortando-lhe a cabeça e jogando à bola com ela. Não somos obrigados a acreditar nesta história, mas documentos fidedignos asseguram-nos que, durante o século XII, as Terças-Feiras de Carnaval eram celebradas, por toda a Inglaterra, com gigantescos jogos de futebol que punham frente a frente duas cidades inteiras. Quinhentos jogadores de cada lado. Um campo que podia ter o comprimento de milhas. E partidas que duravam o dia inteiro, sem regras fixas. Veio a ser conhecido como mob football, o futebol da ralé, e a violência que resultava desses recontros semi-organizados levava a tantos ferimentos, ossos partidos e, até, mortes, que o rei Eduardo II lançou um edital em 1314 proibindo a prática do futebol. «Considerando que há grande reboliço na cidade, causado pelos combates com bolas de grandes dimensões, dos quais combates muitos malefícios podem resultar… decretamos e proibimos, em nome do Rei, sob pena de encarceramento, que tal jogo se pratique de ora em diante na cidade».
Mais proibições foram lançadas por Eduardo III, Ricardo II e Henrique IV. O que perturbava estes monarcas não era a violência do desporto, o que os preocupava era que o muito tempo «ocupado com o futebol» era roubado ao tempo anteriormente dedicado à prática do tiro com arco e flecha e que, por isso, o reino podia não estar devidamente preparado, caso se desse uma invasão estrangeira. Data portanto da primeira metade do milénio a conexão. A guerra e o futebol eram duas faces da mesma moeda.
Com o desenvolvimento das armas de fogo, o tiro com arco e flecha deixou de ser uma disciplina exigida aos soldados, e em finais do século XVII o futebol era activamente encorajado por Carlos II. As primeiras regras foram estabelecidas em 1801 e, como qualquer estudante sabe, Napoleão foi derrotado uma década e meia mais tarde «nos campos de jogo de Eton». Depois de 1863, quando a regras do futebol, tal como hoje o conhecemos, foram estabelecidas na Universidade de Cambridge, o jogo alastrou pela Europa e pelo resto do Mundo. Desde então, tornou-se o mais popular e praticado desporto da história humana.
A América, os Estados Unidos da América, parece ser o único país que resistiu aos encantos do futebol, mas a importância que o jogo tem na Europa, a forma como condiciona o imaginário de dezenas de milhões de pessoas que vivem entre Portugal e a Polónia, não é sobrestimada. Juntem um ao outro o nosso interesse pelo basebol, pelo futebol americano e pelo basquetebol, depois multipliquem a soma por dez ou vinte, e começarão a ter uma ideia do âmbito da obsessão. Quando, além disso, pensamos que cada país tem a sua equipa nacional, e que estas equipas se defrontam entre si em torneios europeus e mundiais, não é difícil imaginar como o amor pelo futebol e pela pátria se transforma num cocktail de excessos chauvinistas e no ajuste de contas passadas. Nenhum país europeu foi capaz de evitar que, ao longo dos séculos, pelo menos uma vezes tivesse sido objecto de uma invasão e da humilhação por parte de um país vizinho, e agora, quando nos aproximamos do fim destes mil anos, é como se, por vezes, toda a história do continente europeu estivesse a ser recapitulada num campo de futebol. A Holanda contra a Espanha. A Inglaterra contra a França. A Polónia contra a Alemanha. Uma lúgubre memória de antagonismos passados paira sobre cada partida. De cada vez que se marca um golo, ouve-se o eco de antigas vitórias e antigas derrotas. A paixão dos espectadores fica ao rubro. Agitam as bandeiras nacionais, cantam hinos patrióticos, insultam os apoiantes da outra equipa. Os americanos bem podem olhar para estas relíquias pensando que estão todos a divertir-se, mas não é bem assim. Trata-se de coisas muito sérias. Valha-nos, ao menos, que estas batalhas a fingir travadas em calções pelos exércitos de substituição não ameaçam aumentar a população de viúvas e órfãos.
Sim, bem sei que existem os hooligans britânicos; e ouvi falar dos desmandos e confrontos que ocorreram em diversas cidades francesas durante o último Mundial. Mas estas instâncias de comportamento extremo e violento só contribuem para reforçar o meu ponto de vista. O futebol é um substituto para a guerra. Enquanto os países continuarem a medir forças num estádio de futebol, hão-de bastar-nos os dedos das mãos para contar as baixas. Há uma geração, ainda, a contagem fazia-se por milhões.
Quer isto dizer que, após um milénio de carnificina, a Europa descobriu finalmente uma forma pacífica de acertar as suas diferenças?
A ver vamos.
[1] Ryszard Kapuscinski é um jornalista polaco que chamou A Guerra do Futebol à guerra travada de 14 a 18 de Julho de 1969 entre dois países vizinhos e rivais da América Latina, Honduras e El Salvador. É conhecida nesses países por A Guerra das 100 Horas - curta, como se vê, mas tão sangrenta que causou cerca de seis mil mortos.
A Guerra do Futebol era o título da sua reportagem – uma forma sensacionalista de Kapuscinski chamar a atenção do Mundo para o que se estava a passar naquela região. Tão bem sucedido foi que ainda hoje se acredita que o jogo da eliminatória para o Mundial de 1970 entre El Salvador e Honduras provocou um estado de guerra entre estes dois países. Esse jogo de futebol ficou assim para a história como tendo estado na origem de uma guerra, o que não é verdade.
A verdade: o jogo foi apenas um pretexto para iniciar um conflito armado que dois governos militares impopulares precisavam. Pormenores desta história aqui (em português) e nesta página (em espanhol).