A escolha editorial do programa de debates da SIC «Aqui e Agora» sobre Fraudes na Internet, foi previsível.
Ao apresentar a Web como um «mundo novo», quando os males ou os bens que a Rede contém são reflexo de um mundo velho e sobejamente conhecido, ou seja, reflexo das nossas escolhas, inquinou o sentido do debate e transformou uma maravilhosa ferramenta de trabalho, partilha, cultura, comunicação e informação em algo de ameaçador.
Tendo em conta que muitos dos telespectadores do programa ainda não tiveram um contacto mais profundo e conhecedor com a Web, imagine-se os estragos que um ângulo de abordagem destes provoca na percepção das pessoas do que é «este mundo das internetes».
O que ainda não consigo perceber é se a perspectiva deste debate se deve à ignorância, ao sensacionalismo ou ao medo de perder a hegemonia da comunicação, ou seja, dito de uma forma que todos possam compreender: medo de ficar sem o guito.
À medida que as pessoas vão descobrindo a Internet, vão passando menos horas diante do televisor – se é esse o caso, medo do Bicho Papão e de perder o guito, então este debate esteve ao nível das tácticas FUD (Fear, uncertainty and doubt, Medo, incerteza e dúvida) usadas em primeiro lugar pela IBM para abater a competição da recém-criada Amdahl Corp e, mais tarde, copiadas com sucesso pela Microsoft.
Nada disto é novo, claro.
No livro por duas vezes já citado no Bitaites – Geração Blogue, de Giuseppe Granieri – recordam-se no primeiro capítulo os tempos em que os media tradicionais falhavam de forma catastrófica no seu papel de «únicos mediadores na dificílima tarefa de divulgar a Rede e de a abrir a um público mais vasto. Diferentes da escola e da Universidade, os media têm um tempo de acção mais adequado para relatar à velocidade das novas tecnologias, mas frequentemente não têm (ou não se permitem) o tempo, mais lento, necessário para entender fenómenos complexos.»
Granieri recorda algumas gaffes, como o caso – relatado pelo Messaggero em Janeiro de 2003 – da webcam que espiava um locutor de rádio com o computador desligado, desafiando assim as próprias leis da Física. Investigações posteriores acabariam por revelar que o presumível hacker obtivera as informações ao ouvir casualmente uma conversa do locutor de rádio que não tinha desligado bem o telefone.
«No entanto» – prossegue o especialista italiano – «mesmo sem mal-entendidos, prevaleceu a tendência jornalística para dar relevo àquilo que faz notícia: a prisão de alguns pedófilos ou as fraudes com cartões de crédito constituem decerto mais notícia do que milhões de pessoas que, silenciosamente, trocam entre si conhecimentos e modos de ver o mundo.»
Ao invocar as palavras de quem de facto entende o que se está a falar, chego à conclusão que qualquer irritação é inútil, uma perda de tempo – excepto no caso de Moita Flores.


Duas mensagens em rodapé, mas nenhuma faz sentido (Imagem original: Ecos Imprevistos)
O homem tem o notável talento de dizer lugares-comuns com a mais absoluta das convicções. E esta é uma qualidade óptima para quem quer aparecer em televisão, como qualquer político sabe. E ele também é político. Ele é tudo e mais alguma coisa. Ser ou não ser, para Moita Flores, não é questão que se coloque. Um especialista em banalidades tem convicções sobre o caso Maddie, a polícia, os ladrões, o mar e o campo, o céu e a terra, os santos e os terroristas, as mensagens instantâneas e as comunicações encriptadas, os blogues, a Internet, o que se quiser. Acho que seria até capaz de dissertar sobre a psicologia da torneira da minha casa de banho, se isso implicasse um debate público. Obviamente, não precisava sequer de a usar. Quem viu uma torneira, viu todas.
Dizer que «a exposição pública da vida privada na Internet» (referindo-se às pitas do Hi5, as menores e as que já têm idade para ter juízo) «é uma enorme demonstração de solidão» e «quanto maior a exposição, maior a solidão» é uma frase sonante. Fica no ouvido como um refrão dos Tokio Hotel ou do Vítor Espadinha. Se Moita Flores não fosse Moita Flores, o que mesmo para ele é difícil, teria imediatamente entendido que na grande maioria dos casos não se trata de uma questão de solidão, mas sobretudo de exibicionismo.
A Internet, tal como de resto a televisão, potencia o exibicionismo. A diferença neste caso é que a Internet potencia o exibicionismo de todos, enquanto a televisão potencia o exibicionismo de Moita Flores.