Há anos que acompanho o seu blogue e embora tenha notado amadurecimento e maior controlo dos impulsos primitivos (aka palavrões) continua fiel à sua pessoa (…) Mário Andrade, numa simpática referência ao meu desmesurado ego blogger
Não sei o que tem esta malta contra os palavrões. Há situações da nossa vida em que o uso de um palavrão é a única forma de manter a sanidade mental e proporcionar uma correcta descrição dos acontecimentos. Se o caso é mesmo grave – entalar um dedo na porta, ler comentários nos jornais online ou ouvir dirigentes de futebol – temos ainda à disposição um ponto de exclamação destinado a enfatizar o nosso estado de espÃrito.
Mas é preciso cuidado com a forma como usamos os pontos de exclamação – esta questão é mais importante para mim do que evitar escrever palavrões nos blogues. Um ponto de exclamação é suficiente para criar ênfase; três ou quatro a seguir à mesma palavra já equivale a mandar perdigotos para o ar enquanto se conversa. Não sei qual é o vosso grau de tolerância em relação aos perdigotos alheios, mas numa discussão sobre futebol é uma nojice do caralho.
Aliás, não deixa de ser engraçado pensar no que poderia acontecer se uma discussão mais acalorada entre um sportinguista, um benfiquista e um portista fosse travada durante o almoço e, por coincidência (estou certo disso), todos eles fossem fanáticos e tivessem o péssimo hábito de falar com a boca cheia. «Passa-me aà o toucinho», poderia dizer o benfiquista ao portista no intervalo da discussão. «Mais ainda? Mas o gajo já te passou o toucinho todo enquanto falava da final da Supertaça que perdeu», poderia comentar o sportinguista.
Não sei se estão a ver. O nosso futebol é um cozido à portuguesa. Dúzias e dúzias de pedacinhos de couve, presunto, chouriço, cenoura, batata, toucinho, bacon, entrecosto, chispe e nabo a voar de um lado para o outro da mesa à medida que todos gritam e limpam os beiços a guardanapos do jornal A Bola: o quadro perfeito da qualidade do futebol português e da argumentação dos seus adeptos.
Por outro lado, há situações em que é humanamente impossÃvel escapar ao palavrão. Os que já esmagaram uma pobre unha do pé contra a perna da mesa sabem muito bem do que estou a falar. Aposto que nesse momento crÃtico da vossa existência não berraram «Ai, matéria fecal!». Os que vivem sob a influência da força gravitacional do Planeta Terra preferem narrar tais acontecimentos com palavras mais apropriadas – por isso é que se chamam palavrões. Os palavrões são as palavras mais caras que conheço: dizem-se em voz alta, sem rodeios, geralmente são sinceras, têm significado e até podem surgir no momento certo – nem um segundo a mais ou a menos. Ninguém grita: «Pá, vai mas é para o órgão da copulação masculina que te penetre!»
Também é possÃvel dizer asneiras sem fazer uso de um único palavrão, claro. Os exemplos são demasiados e muito fáceis de encontrar, basta ligar a televisão à hora dos telejornais. Aliás, o dilema da caralhada é também um factor que separa um opinion maker como o Moita Flores de um blogger. O Moita Flores pode dizer as caralhadas que quiser – desde que não use a palavra propriamente dita.




































