Arquivos mensais: Novembro 2008

→ 30/11/2008 @21:18

Amy

Amy Winehouse

Fotos: Bryan Adams

 

A confusão à volta de Amy Winehouse avoluma-se. Não basta ser uma das melhores cantoras da actualidade. Uma das mais bem sucedidas e talentosas artistas. Tem a vida feita em pedaços. Mas porque estamos nós ao seu lado sempre?

Filha de família judia dos subúrbios do Sul de Londres, cedo viu o que lhe estava reservado no que diz respeito ao amor e à fidelidade – aquelas coisas que nos comem por dentro… o pai enganava a mãe com a que viria a ser sua segunda mulher. Tenho a certeza de que a vida não foi fácil para ela. E continua a não ser.

Seja como for, os discos que grava são uma pedrada no charco estagnado da água fedorenta que é a música de editoras hoje em dia. Será, talvez, espero, uma das últimas cantoras que levam milhões de jovens a comprar discos e ao mesmo tempo encher os bolsos da malta das editoras, que, como todos sabemos, só existem para parasitar e destruir carreiras de músicos.

Os seus dois discos Frank (2003) e Back in Black (2006) são um primor de arranjos e bom gosto. E a voz dela, sublime. A música vagueia entre o rhythm & blues dos anos 60, com metais e vozes a funcionar como instrumentos harmónicos e a batida dúbia dos anos 90. Um dos seus maiores hits, “Rehab”, é exemplo.

Amy Winehouse não dá grandes berros como a Celine Dion ou outras que tais, não pode, mas também não precisa, a clareza da sua afinação, o modo como vagueia por cima do tempo da música deixa-nos suspensos sempre à espera de uma resolução que só chega quando realmente ela se cala. A sua boémia, a sua poesia genuína do copo de gin, não bebe nos bastidores de Tom Waits, mas sim na veia de Billie Holiday e na permanente graça com que nos feria o coração.

O primeiro concerto que vi de Winehouse, pela televisão, o famoso em Portugal que começou 40 minutos atrasado, foi uma revelação para mim. Toda a gente achou que ela estava bêbada, que não cantou nada, que a voz estava acabada, etc. É verdade, talvez. Mas para mim foi mais do que isso, para mim foi mais importante vê-la a chorar enquanto cantava, de modo sublime, Love is a Losing Game.

Eu gosto do folclore de se cair para o lado em palco. Tenho ternura e simpatia, por muito que também me custe ver, por todas aquelas vezes que o Jim Morrison se esfrangalhou em palco, por aquela vez que vi o António Manuel Ribeiro em coma alcoólico a cantar os ‘Cavalos de Corrida’ em Oeiras, pela gritaria insane de Janis Joplin, por todos os drogados de palco. São momentos de profunda intimidade que os artistas, de alguma maneira, querem partilhar. Ainda que seja decadente. Ainda que seja profundamente pueril e egocêntrico. Mas o amor é assim. Digo eu.

Amy Winehouse é um pássaro que vive em liberdade, desesperada por o seu companheiro estar numa gaiola. Não se sabe o que veio primeiro: a dependência e depois os problemas, ou os problemas e depois a dependência. Também não interessa. O que vale a pena é seguir os seus passos. É ampará-la na sua dor. E fazer isso não é apenas comprar os seus discos. É defender a sua vida, o modo como decidiu viver a sua vida de tatuagens e promessas por cumprir. Ela é o último baluarte das nossas verdades em constante movimento. A sua voz é uma sirene de alerta para a nossa hipocrisia.

É por isso que todos aqueles que se limitaram a ver no concerto dela apenas a decadência de uma diva, mesmo assim não conseguiram justificar porque razão estavam tão indignados. Ao mesmo tempo que não se aguentava em pé e balbuciava desculpas por a voz não estar boa (que não é a primeira vez que a vejo fazer isso) a música e a capacidade de sugerir todo um mundo, com as suas fraquezas e virtudes, o nosso mundo, belo e canino, todas as nossas tretas e verdades insofismáveis, essa languidez que se escapava da sua voz, o descomprometimento da voz e as lágrimas na garganta embargada, esse fluir tem vida própria e escapa-se de tal maneira dela que nem que quiséssemos poderíamos medir a sua vastidão – Tears Dry on Their Own (*).

Pedro Marques, Fora de Cena

(*)

→ 28/11/2008 @18:56

E tenho «A Bola» para fazer as pazes com o mundo

O magnífico e independente jornalismo desportivo

Confesso que depois da cabazada que o Benfica levou ontem estava cheio de curiosidade em saber como o Jornal A Bola ia desmerdar a capa. Posso dizer que esteve muito bem – até eu, que sou benfiquista desde pequenino e comecei a ler A Bola pouco tempo antes de aprender a ler, fiquei surpreendido com tamanha audácia editorial.

O título é tão vago como batido; só inovaram no uso do ponto de exclamação final: «Uma desgraça nunca vem só!» É preciso dar-lhes crédito, pois nem todos se lembrariam de colocar um ponto de exclamação a seguir a uma desgraça.

A mensagem desta manchete é a de que, no Benfica, uma derrota não é uma derrota, é uma fatalidade inesperada como um terramoto ou um furacão. Até a foto de David Suazo é bem escolhida, pois o jogador parece rezar aos deuses do futebol por um destino melhor – o regresso ao Inter, talvez. Espero que não! Mas descansem. O jornal vai tomar conta do assunto. À semelhança do que sucede com os desastres naturais, as próximas capas servirão para noticiar os esforços (ou até reforços) de reconstrução do orgulho ferido e da confiança dos adeptos. A palavra-chave dos próximos dias editoriais de A Bola será: galvanizar.
Já em relação ao O Jogo, que obviamente está para o FC Porto como A Bola está para o Benfica, o título é muito mais contundente: «Humilhados». Benfas humilhados? A edição Norte de O Jogo fica às portas do Paraíso editorial quando tem oportunidade de lhes dar com força. Eis um tipo de capa que um adepto ferrenho do segundo maior clube de Portugal, o Anti-Benfica, desejará emoldurar e pendurar no quarto.

No caso de A Bola, a derrota é relativizada pelo ante-título: «Depois da selecção e do Sporting, Benfica arrasado em Atenas.» Uau. A malta do jornal diluiu a cabazada de ontem numa sopinha de letras onde fez incluir as derrotas de Portugal no Brasil (como se fossem jogos comparáveis) e do Sporting com o Barcelona (como se o Barcelona fosse o Olympiakos, e o Sporting, apesar de tudo, não estivesse qualificado para a fase seguinte – ao contrário de nós). Só faltou irem buscar os 4-0 que o Porto levou do Arsenal ou a derrota da selecção na final do Euro 2004 contra os gregos.

O Record não é tão meigo e embrulha, no mesmo título, com muita maldade, os destinos de Benfica e Sporting: «É sempre a aviar: depois dos leões anjinhos, foram os passarinhos da Luz a levar 5.» A mensagem desta capa é óbvia, sobretudo para os lagartos que tiveram de levar connosco por causa das aselhices com o Barcelona. Fomos anjinhos? Pois agora tomem lá: mais vale sermos anjinhos com o Barça do que passarinhos com o Olympiakos. Eu prefiro o termo «pombinhos», pois senti cada golo sofrido como se tivesse levado uma cagadela na cabeça.

É inegável que a derrota de ontem deixou marcas – sobretudo na zona de relva onde estava a defesa benfiquista – enfim, pronto, esqueçam, estas coisas fazem mal ao pobre coração do adepto. Querem um exemplo? Eis o diálogo entre um benfiquista moderado e um benfiquista doente, como me foi contado hoje pelo Miguel Marujo:

«Então, que dizes daquela desgraça?»
«Qual desgraça?» – O benfiquista doente encolheu os ombros. «Não sei de nada…»
«Aquilo que está a acontecer na Ãndia!»
«Ah, na Ãndia! Pois, nem me fales, é uma grande desgraça, uma grande desgraça…»

→ 28/11/2008 @9:44

Uma Foto e uma Música [98]

Quique Flores fotografado pela AP

Foto: Associated Press (Quique Flores, treinador do Benfica)
Música: Cristina Branco cantando Zeca Afonso (Venham mais Cinco)

→ 27/11/2008 @19:35

Um dia, rapariga, toda a Internet será tua

Oliveira Salazar e a afilhada Micas

O Conselho Europeu chegou a um acordo político no que respeita ao Pacote Telecom. Por um lado, modificações cruciais no texto condenaram finalmente a intenção do presidente francês Nicolas Sarkozy de impor à Europa a sua «resposta gradual».
Por outro, importantes salvaguardas aos direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos – incluindo a emenda 138 – foram removidas do texto.

Fonte: La Quadrature du Net (Ler mais)

→ 27/11/2008 @17:08

Como eu adoro o spam

Adoro receber mensagens de spam. As que me chegam em Português são as mais divertidas e esta é inexcedível na sua qualidade literária. As minhas desculpas aos mais sensíveis pela linguagem depravada que se segue, mas vou partilhar a pérola que recebi hoje.

Sob o título «Pornografia raivosa em Portugal», a mensagem diz o seguinte: «Só nós temos portuguesas loucas que chupam pénis e praticam sexo até ao estado exaustivo. Suas gargantas e traseiras gemem como carroças rangentes nas ruas de Lisboa. Putas matriculadas e moças inocentes, alunas e professoras. Temos tudo para a alma».

Suas gargantas e traseiras gemem como carroças rangentes nas ruas de Lisboa? Uau, Henry Miller de sarjeta! Por favor, caros spammers, nunca mais se esqueçam de mim. :mrgreen:

→ 26/11/2008 @19:10

A mania de meter a mãozinha onde não é chamado

Nicolas Sarkozy

Vivemos tempos perigosos para quem se preocupa em defender a liberdade – já não nos bastava a trafulhice aldrabona do DRM (Digital Rights Management), agora temos de enfrentar mafiosos da moralidade cuja única preocupação é continuar a encher os bolsos à custa de quem ama a Arte e a Cultura.

É muito fácil falar-se em pirataria e em roubo e nas pobres editoras que há vários anos se encontram à beira da bancarrota por causa do tráfego P2P, como afirma o Movimento blá-blá-blá Anti-Pirataria da Internet.

Mas os tempos são mesmo perigosos para os amantes da Liberdade e aqueles que abominam a hipocrisia e a demagogia.
O Projecto/Lei referente às Comunicações Electrónicas – Pacote das Telecomunicações ou Pacote Telecom – será examinado amanhã pelo Conselho da União Europeia. Indústrias, agentes e todos os intermediários que parasitam a Arte e a Cultura estarão neste momento a fazer figas para que a emenda 138 – a salvaguarda das nossas liberdades e do nosso direito à privacidade – seja removida pelo Conselho.

Principal instigador desta remoção: o presidente francês Nicolas Sarkozy, que não deseja a emenda porque esta se opõe ao projecto de lei francês: «a criação de um tribunal especial para os utilizadores cuja conta da Internet tenha sido utilizada para fazer cópias não autorizadas de música e filmes. Para a França, trata-se também da legalização, a posteriori, de uma decisão administrativa que autoriza companhias privadas a levar a cabo acções de policiamento na Internet, contrariamente à política Europeia em matéria de dados pessoais».

Não se deixem enganar ao incluir a questão da pirataria na tentativa de remover a emenda 138 – isso é o que este movimento quer, porque defender a pirataria é obviamente errado e o MAPiNET está preparado para usá-la como justificação para as suas ânsias de policiamento. Acontece, porém, que a partilha de ficheiros na Web deu origem, ou pelo menos inspirou, modelos em que a música circula de forma legal, livre e aberta entre todos – para benefício de músicos e de quem ama a música, e para prejuízo de quem acha que a Arte é uma coisa que se guarda dentro do frigorífico, talvez o próprio frigorífico.

A luta deste movimento não é a favor de uma sociedade digital mais justa: o que se trata aqui é de uma questão de Poder. Poder sobre ti, cidadão livre. Poder sobre a tua consciência cívica. Poder sobre a informação que circula e Poder sobre quem a envia e quem a recebe. Poder sobre uma rede. Poder sobre um protocolo. Poder policial para as editoras e qualquer outra entidade privada formarem (em nome do combate à pirataria) uma espécie de GNR das auto-estradas da informação. Caros membros da MAPiNET, vão-se poder.


A ler: tudo o que a Paula Simões tem escrito sobre o assunto e a desmontagem dos argumentos do Movimento está-bem-abelha Anti-Pirataria da Internet feita pelo Marcos Marado (que também é músico) no blogue Conversas do Bruno.

→ 26/11/2008 @10:34

Esta rapariga diz umas coisas interessantes

Joss Stone

A música deve ser partilhada. A única parte da música de que não gosto é a do negócio que lhe está associada. Se a música é livre, não deveria haver negócio, apenas música. Por isso gosto, acho que devemos partilhar. E mesmo que alguém compre o CD e faça cópias para mostrar aos amigos, acho óptimo, por mim tudo bem, desde que oiçam a minha música e venham aos meus concertos.

Joss Stone, entrevistada em Junho pelo jornalista argentino Federico Wiemayer (link)

Dizer NÃO à taxa