Arquivos mensais: Dezembro 2008

→ 31/12/2008 @17:44

O último post de 2008

Jo Jo Jow, de Christian Bergh

Jo Jo Jow, de Christian Bergh

Que passem o resto do ano e o princípio do próximo junto de quem realmente gostam – eis o melhor que vos posso desejar e a única forma de festejar 2009 com algum sentido.

O mundo manter-se-á igual: hipócrita, obcecado pelo dinheiro e repleto de desigualdades. Centenas de palestinianos morrerão – e alguns israelitas também. Continuarão a existir grupos de pessoas a encher os bolsos com a morte de milhares de inocentes. Arranjar-se-ão sempre milhões para salvar os bancos que nos vendem o dinheiro com que pagamos as nossas casas e também os nossos impostos. Nenhum foguete poderá iluminar o buraco negro da exploração. Haverá petróleo para todos, eclipses para muitos e Sol apenas para alguns. Não teremos mais discursos do George Bush, é verdade – mas os perdigotos democráticos lançados sobre o Médio Oriente não secarão em 2009. Portanto convém não nos afastarmos muito dos sapatos.

Haverá Obama – o que ainda é muito pouco. O mundo continuará a ter dois pesos e duas medidas. A criança explorada numa fábrica da Indonésia ou da China continuará a calçar os gordos e os felizardos.

No entanto, em breve, os foguetes vão rebentar. Dos céus cairão gotas de champanhe.

→ 30/12/2008 @3:41

Estas sombras feitas no Gimp ficam giras, não acham?

Composição fotográfica de autor desconhecido

→ 30/12/2008 @2:46

Eu publico, tu comentas (ou não)

Não estou a descobrir a pólvora e qualquer pessoa que mantém um blogue reconhece o fenómeno: o número de comentários não está relacionado com a relativa qualidade ou profundidade do que se publica. Podemos perder horas a escrever um post ou despachá-lo em cinco minutos: as pessoas nunca reagem como nós esperamos. Faz lembrar um saxofonista de jazz (Dexter Gordon, mas não tenho a certeza) que dizia o seguinte: «Noto nos concertos que as pessoas aplaudem em partes que para mim são normais; quando sinto que fiz qualquer coisa de bom, ninguém reage».

Acho que um blogger passa muitas vezes pelo mesmo tipo de experiência: quando espera feedback, não existe; quando não o espera… Invasão! Este facto demonstra-se no recente post sobre Linux. O conteúdo é praticamente nulo: consiste num screenshot do meu desktop Gnome/Ubuntu e um simples título: «Não há melhor sistema operativo que o Linux». Levemente provocador, talvez, mas nada ofensivo. Resultado: até ao momento deu origem a cinquenta comentários. O elevado número de participações não se deve a qualquer discussão entre defensores do Linux e do Windows, do Software Livre e Proprietário: a maioria que comentou usa distribuições Linux e está de acordo comigo – excepto quando chamo sistema operativo ao Linux (na realidade é o kernel). Enfim, geeks. Talvez devam vocês esclarecer o que vos leva a deixar um comentário (ou não).

No caso do Bitaites, existe uma questão engraçada relacionada com o perfil dos visitantes. Posso estar errado e não tenho números que o provem, mas este deve ser blogue generalista português mais frequentado entre geeks. E também há que considerar a maioria silenciosa.

→ 30/12/2008 @1:30

Vampiros, Debussy e depois é sempre em frente

Nunca mais vou gozar com aquele filme dos vampiros que anda a deixar as pré-adolescentes e adolescentes de coração ao léu por causa de um certo rapazinho de dentes amendoados.

A mania do Crepúsculo entrou-me pela casa e é mais persistente que o mosquito que esmaguei ontem à noite na parede do quarto. Agora até o meu filhote já tem interesse em ver o raio do filme. Tratar do vampiro à chinelada não é viável – portanto adoptei a velha máxima «se não o podes vencer» (e eu nem sequer tentei) «junta-te a ele».

O que eu não esperava – e por isso marquei uns pontinhos no meu culturómetro parental – era juntar-me ao vampiro num gosto musical comum.

Há uma cena do filme onde a namorada vai ao apartamento do vampiro (ele não vive num castelo, isso é coisa de cotas) e vê a enorme colecção de CDs do rapaz. Parece que é quase tão grande como a colecção do Jazzé Duarte – e isso é razão suficiente para eu (e o Jazzé, estou certo disso) desejar ser um vampiro.

Um gajo com vida eterna tem muito mais tempo para encher as prateleiras de CDs e filmes – claro que o facto de ser um vampiro adolescente bem-comportado não lhe permite dizer à rapariga «Ouve lá esta cena que eu saquei no Pirate Bay». Vampiro bonito não morde o pescoço às editoras.

Quanto ao culturómetro, explico já: no filme a rapariga pega num dos CD e pergunta o que é. «Claude Debussy», responde ele. Parece que gosta muito. «O Claire de Lune é lindo», confirma ela.

Só fica bem a um vampiro gostar de Debussy. Quanto mais famoso, maior a responsabilidade. Não estou a ver o conde Drácula a bater as asas de morcego ao som dos Tokio Hotel. A Vampirella abanar o capacete ao som de Britney Spears ou Madonna? Esqueçam. É uma questão de estilo. Imaginem os estragos que o vampiro do Crepúsculo teria feito se gostasse de Michael Bolton. Pior: Dave Matthews Band!

Mas não, o tipo gosta de boa música. Milhares de pré-adolescentes quererão agora conhecer o Debussy de que fala o vampiro galã – aqui em casa foi o que aconteceu. «Ó pai, tu sabes quem é o Debussy?» A pergunta apanhou-me de surpresa. Debussy? Mal compreendi de onde tinha vindo o súbito interesse, enchi-me logo do típico brio de coleccionador e fiz questão de informar que tinha pelo menos uns sete ou oito CDs de um dos meus compositores preferidos. «Ai, é?» Sim, senhor! Preferido. Está sentado lá em cima naquele degrau onde o Zappa repousa os pés. Mais: ainda esse vampiro tinha dentinhos de leite já o pai se deliciava a ouvir Debussy numa sala crepuscular. Toma!

→ 29/12/2008 @19:36

Uma forma original de lidar com a pirataria

A mensagem ao pirata

Existem várias formas de lidar com a pirataria, algumas das quais ultrajantes (vejam este exemplo dos nazis da RIAA). Este tipo de atitude tem como consequência afastar os livres pensadores da luta anti-pirataria, como se pode verificar com a decisão de um grupo de estudantes de direito liderado pelo próprio professor de travar um combate contra a RIAA nos tribunais. Razão: um dos estudantes fez o download de sete canções durante a adolescência e a organização exige do rapaz e da família uma indemnização de 1 milhão de dólares. Note-se que o valor das canções pirateadas não ultrapassa os 7 dólares no iTunes. (Ler história completa).

Há quem procure combater a pirataria com outro tipo de abordagem mais honesta e humana, como se vê pela mensagem que o programa USB Overdrive X deixou:

O seu código de registo é pirateado. Não podemos impedir os hackers de gerar códigos, por isso vamos aceitar o seu registo à mesma. No entanto, há uma coisa que deve saber: desta vez não está a roubar dinheiro aos tipos grandalhões. Está a roubar de pessoas que contam com a sua honestidade para ganhar a vida.

Ao invés de perseguir os infractores como um cão-de-fila, o responsável pelo software – Alessandro Levi Montalcini – decidiu mostrar-se como pessoa e apelar à consciência de quem se encontra do outro lado. Não sei se está a dar resultado – espero sinceramente que sim – mas sempre é preferível este tipo de abordagem. Visto originalmente no blogue The Pirate’s Dilemma

→ 29/12/2008 @14:17

A banda doida

Kids Eat Crayons

Já não é a primeira vez que o nome de Frank Zappa é usado para promover a música de uma banda. O Mestre morreu há quase 16 anos e, dada a complexa originalidade da sua música, os hardcore fanatics sentiram-se órfãos de um estilo onde as barreiras musicais eram quebradas de forma despreconceituosa e arrebatadora.

Ao longo destes anos tenho conhecido bandas herdeiras que abordam a música com uma atitude semelhante: o melhor exemplo deste ecletismo vem de um músico de jazz mais influenciado por John Zorn do que por Zappa, Uri Caine, mas à conta desta busca por coisas zappianas descobri três bandas belgas formidáveis: dEUS, X-Legged Sally e Fukkeduk.

A descoberta mais recente é um grupo oriundo de Montreal, os Kid Eat Crayons. Sete músicos juntaram-se com uma identidade comum: o gosto pelo jazz e o «thrash metal», e a vontade de misturar todas estas influências numa voz consistente e original. O crítico Johnson Cummins, outro maluco que escreve para o Montreal Mirror, acabou por descobrir-lhes a verdadeira identidade: «Todos os zappanáticos que não se importam de levar com uns arranjos exagerados à Steely Dan misturados com o sabor da demência de um Mike Patton, levantem o cu e oiçam os Kids Eat Crayons.»

Carregar a herança de Zappa é um fardo pesado – e os Kids Eat Crayons não têm arcaboiço suficiente. Se a meia-dúzia de fãs do mestre que frequenta o blogue (estimativa optimista) espera encontrar um grupo genial vai ficar desiludida: é interessante, não arrebatador. Mas a música destes tipos é bizarra, ecléctica, divertida, bem tocada, sobretudo as faixas retiradas do disco de estreia Is For Lovers, de 2007 – Masturbation Day Parade, Fish Don’t Swim e Best Friend Clio (*) -, ressoando nestes temas ecos dos arranjos vocais feitos para Flo & Eddie, cúmplices de Zappa na década de 70, as explosões controladas das canções, System of a Down, John Zorn, X-Legged Sally, metal, jazz e o indispensável sentido de humor.

→ 28/12/2008 @7:00

Não há melhor sistema operativo que o Linux

O meu desktop Ubuntu

Dizer NÃO à taxa