
A primeira vez que conheci o trio jazzístico The Bad Plus foi por causa dos Radiohead e de um disco de versões alternativas dos grandes temas da banda lançado em Abril de 2006 – ver post «Radiohead Alternativo». Tudo o que diz respeito aos Radiohead me interessa, mas o que me ficou desse disco foi a interpretação quase esquizofrénica do tema Karma Police e a sensação de absoluta sinceridade na forma como o interpretaram – sinceridade emocional mais próxima do rock mas com improvisações cheias de feeling jazzístico, enfim, não sou músico e não consigo encontrar melhor forma de explicar o que para mim torna este trio norte-americano tão diferente.
Embora os The Bad Plus componham muitos temas, foi a interpretação de canções rock dos anos 80 e 90, mais a fabulosa energia quando actuam ao vivo, que os tornou numa banda de culto sobretudo entre pessoas que não gostam de arrumar a música em géneros elevados e inferiores. Por causa da resistência dos puristas do jazz em aceitá-los – os puristas não gostaram nada que o grupo se pusesse a «rockar» em vez de «swingar» – os The Bad Plus sempre foram um fenómeno mais ou menos marginal e envolto em polémica.
Mas a sua opção pela energia rock é musical e ideológica, nada tem a ver com opções comerciais. «O século XX está cheio de grandes compositores, mas é um erro assumir que esses compositores se encontram limitados à música clássica, ao jazz ou a qualquer tipo de música geralmente considerada como sendo arte superior», afirmou Ethan Iverson, pianista do grupo. «Existem compositores rock e pop cujo trabalho é tão significante como o trabalho dos compositores clássicos. Fazem parte de um ‘continuum’ de grande música e, como tal, são todos dignos de reconhecimento e respeito.»
Iverson disse estas palavras para justificar a decisão de terem feito um disco, For All I Care, lançado há poucos dias, composto inteiramente por covers. Mas não foi só isto que fizeram: convidaram uma velha amiga, Wendy Lewis, cantora indie mais próxima de um Kurt Cobain do que de qualquer músico de jazz, para cantar essas canções. Esperem, porque fizeram ainda pior: tiveram a lata de misturar no alinhamento das canções do álbum as suas próprias versões de músicas de Ligeti, Bee Gees, Milton Babbitt, Stravinsky, Nirvana ou Pink Floyd.
«Se querem uma razão para ter feito este disco é esta» – explicou Iverson. – «Reconhecer o valor de cada aspecto da música do século XX, independentemente dos géneros em que cada um desses compositores se especializou». Talvez por terem levado mais a sério esta forma desprendida e saudável de encarar a música, sem fronteiras, sem estar sujeita à fiscalização dos alfandegários do jazz e da clássica, que vêem o rock como um produto de contrabando, talvez tenha sido por isso que os The Bad Plus decidiram arriscar ainda mais e convidar uma vocalista indie.
Já que me aturaram até aqui, deixem-me falar da versão de uma música dos Pink Floyd que os The Bad Plus tocam neste disco. Trata-se de Comfortably Numb, sim, essa mesmo, a canção do The Wall onde Gilmour é mais uma vez um navio distante fumegando no horizonte que cruza as tempestuosas marés de Waters com a força e a classe de um Bismarck das guitarras, Comfortably Numb, uma das minhas favoritas, aquela que me arrepia até à raiz dos cabelos sempre que a oiço.
Se fores fã dos Floyd como eu, depois de ouvires a versão dos The Bad Plus vais ficar com vontade de atirar os phones pela pia abaixo, juntamente com o piano, o contrabaixo, a bateria e a cantora, sobretudo a cantora – mas isto é a primeira audição, quando a tua lealdade floydiana se encontra ainda hiperactiva e pronta a atacar o herege que ouse desvirtuar a imaculada versão original; depois, um bocadinho mais calmo, pode ser que oiças aquilo outra vez e já fiques a pensar «Pera lá, olha que esta merda afinal…» À terceira audição? Já te permitiste esquecer o The Wall, temporariamente, claro, e estás a ouvir uma canção nova que não deixa de ser, de uma maneira muito própria e sincera, um Comfortably Numb. À quarta? Se tiveres um blogue, sentas-te diante do computador a escrever um post. E depois acabas o texto da melhor maneira possível: com um ponto final azul escuro.