Arquivos mensais: Janeiro 2009

→ 30/01/2009 @17:41

Que lindo jornalismo

Um jornal local – o +Cascais – veio hoje desenterrar uma história velha de quase 40 anos sobre um tio de José Sócrates, Simão, costureiro de profissão, assassinado em Cascais no início da década de 70.

Embora a palavra homossexual não tenha sido usada, o jornal descreve as circunstâncias em que o tio Simão foi descoberto: «Uma morte que então deu brado, em grande parte devido ao facto do corpo de Simão ter sido descoberto pelas suas empregadas que, de manhã, depararam com o cadáver do patrão amarrado numa cadeira (…) sentado e nu da cintura para baixo. O seu assassino, um jovem com quem ele privava, viria a ser preso dias mais tarde em Tomar (…)»

Qual a justificação jornalística para se desenterrar uma história com quase 40 anos? Esta: «Decididamente José Sócrates não pode guardar boas recordações de Cascais. Não pelo facto de ter sido aqui que o seu tio (…) ter concedido uma polémica e controversa entrevista (…), mas por associar a vila a episódios menos felizes da sua infância e adolescência…»

→ 30/01/2009 @16:57

Muitos olhares

Social Bookmarking para imagens

Visualize.us é mais um sítio de social bookmarking, mas apenas de imagens. O funcionamento é simples: o utilizador registado no Visualize.us encontra uma imagem de que gosta e envia a referência a partir do próprio browser. A imagem é depois mostrada no sítio. Existe uma extensão para Firefox que facilita o processo mas pode ser feito a partir do Internet Explorer ou Opera. O resultado desta colaboração é uma enorme colecção de imagens de valor desigual mas sempre interessantes de explorar. Todas as fotos incluem um link para a página original de onde foi tirada, o que também é óptimo para se descobrir novos sítios na Web. Link

→ 30/01/2009 @11:47

O caso Freeport

Eu ainda não consegui perceber este caso Freeport. Há quem já tenha percebido tudo e chegado à conclusão de que o primeiro-ministro de Portugal é culpado de corrupção. Até um falso Google se criou para revelar a verdadeira natureza do homem. Toda a gente percebeu, toda a gente sabe, menos eu.

Aliás, já é a segunda vez que em relação ao Sócrates isto me acontece: quando toda a gente andava a dizer que o homem era rabeta eu ficava a pensar Porra, a sério, eu não sabia de nada. Ando mesmo mal informado. Bem, se é rabeta já não pode ser primeiro-ministro, é o que diz a Constituição da República Homofóbica, não é? Caramba, como é que conseguem saber estas coisas todas?

A resposta é óbvia: as suas fontes são absolutamente credíveis porque, como todos nós sabemos, o português da Internet é incapaz de apontar o dedo a alguém a não ser que tenha provas do que está a dizer. Sendo assim, é óbvio que depois de ser rabeta o Sócrates agora é corrupto. Não sei se é as duas coisas ao mesmo tempo ou se deixou de ser rabeta para passar a ser corrupto. Talvez daqui a um mês deixe de ser corrupto e passe a ser rabeta. Engenheiro também parece que já não é, ou nunca foi. Talvez as caixas de comentários dos jornais e dos blogues possam esclarecer melhor todas estas dúvidas.

Com esta catrefada de notícias envolvendo tios, primos, fugas de informação, licenciamentos, polícias ingleses, prazos, emails, cartas, empresas, intermediários, processos e o caralho que os foda a todos, resta-nos continuar a apedrejar o carácter deste malfeitor corrupto rabeta e falso engenheiro. Parabéns. É um orgulho viver entre gente sempre tão justa e clarividente.

→ 29/01/2009 @9:01

Exportações americanas

→ 29/01/2009 @3:46

O típico post das três da manhã

Uma das principais razões que me faz gostar de um blogue – mesmo que as suas áreas de interesse nada tenham a ver com as minhas – é a generosidade de quem o faz.

Entendo por blogger generoso alguém que gasta horas não a coçar os seus poéticos tomates, mas a valorizar o espírito de partilha, a vontade de transmitir e receber conhecimento, dar e receber ideias, alguém que escreve pela música, pelo cinema, pela arte, pela ciência, por aquilo em que acredita, enfim, pelas pessoas. Enriquecem todos os dias este mundo da Grande Conversação, como lhe chamou o jornalista italiano Giuseppe Granieri.

Muitos não têm um décimo do reconhecimento que merecem, mas são eles os responsáveis pelos verdadeiros blogues de topo, as referências da blogosfera. Podem ser culturais mas não são elitistas, políticos sem ser politiqueiros, polémicos mas sem usar a maledicência ou a calúnia.

Não existem assuntos exclusivos das elites ou temas exclusivamente populares – o que importa é a forma como decidimos comunicá-los. Se abordarmos um tema com o único propósito de marcar a nossa diferença em relação aos outros, as palavras são espelhos e apenas reflectem a nossa vaidade – por isso é que os pseudo-intelectuais usam sempre palavras caras: são as roupas chiques com que vestem o cérebro quando decidem passeá-lo pela rua.

Se acreditarmos na inteligência das pessoas, grande parte da comunicação já está feita – e as palavras acabam por ser mais uma ferramenta, bela e inspiradora em mãos hábeis, mas uma mera ferramenta através da qual chegamos ao maior número possível de visitantes. Luto todos os dias para que o Bitaites siga este caminho e acho que estou a conseguir: tem para aí uns seis mil visitantes únicos por dia sem que faça qualquer tipo de concessão à ignorância, estupidez ou intolerância dos que se recusam a usar a inteligência.

E com isto tudo amanhã este blogue faz cinco quatro anos. :mrgreen: [escrever este post às três da manhã dá nisto] O meu filho ainda via os Teletubbies quando comecei o Bitaites, agora já me dá umas tareias no Pro Evolution Soccer.

São cinco quatro anos de muitos erros e muita aprendizagem. Justifica-se por isso juntar a este post os seguintes links: Pensar Enlouquece, Pense Nisso, Ao Mirante, Nelson! e Obvious, por terem sido os primeiros a ensinar-me. E depois: Fora de Cena, Remixtures e O Homem Que Sabia Demasiado, por serem excelentes exemplos da generosidade de que falei; o velho amigo FotoBen pelo talento como fotógrafo e o carinho que tem pelo blogue; e todos os restantes que se encontram na minha lista de links. Obrigado aos colegas bloggers pela inspiração; obrigado a todos vocês pela forma impecável e construtiva como comentam aqui. Donativos e cheques chorudos também sou gajo para agradecer, portanto os interessados façam o favor de preencher o formulário de contacto que eu depois mando o meu NIB. Se é para dar menos de 1000 Euros escusam de me aborrecer.

→ 29/01/2009 @1:25

Ai ai ai que fizeram vocês aos Pink Floyd?

The Bad Plus

A primeira vez que conheci o trio jazzístico The Bad Plus foi por causa dos Radiohead e de um disco de versões alternativas dos grandes temas da banda lançado em Abril de 2006 – ver post «Radiohead Alternativo». Tudo o que diz respeito aos Radiohead me interessa, mas o que me ficou desse disco foi a interpretação quase esquizofrénica do tema Karma Police e a sensação de absoluta sinceridade na forma como o interpretaram – sinceridade emocional mais próxima do rock mas com improvisações cheias de feeling jazzístico, enfim, não sou músico e não consigo encontrar melhor forma de explicar o que para mim torna este trio norte-americano tão diferente.

Embora os The Bad Plus componham muitos temas, foi a interpretação de canções rock dos anos 80 e 90, mais a fabulosa energia quando actuam ao vivo, que os tornou numa banda de culto sobretudo entre pessoas que não gostam de arrumar a música em géneros elevados e inferiores. Por causa da resistência dos puristas do jazz em aceitá-los – os puristas não gostaram nada que o grupo se pusesse a «rockar» em vez de «swingar» – os The Bad Plus sempre foram um fenómeno mais ou menos marginal e envolto em polémica.

Mas a sua opção pela energia rock é musical e ideológica, nada tem a ver com opções comerciais. «O século XX está cheio de grandes compositores, mas é um erro assumir que esses compositores se encontram limitados à música clássica, ao jazz ou a qualquer tipo de música geralmente considerada como sendo arte superior», afirmou Ethan Iverson, pianista do grupo. «Existem compositores rock e pop cujo trabalho é tão significante como o trabalho dos compositores clássicos. Fazem parte de um ‘continuum’ de grande música e, como tal, são todos dignos de reconhecimento e respeito

Iverson disse estas palavras para justificar a decisão de terem feito um disco, For All I Care, lançado há poucos dias, composto inteiramente por covers. Mas não foi só isto que fizeram: convidaram uma velha amiga, Wendy Lewis, cantora indie mais próxima de um Kurt Cobain do que de qualquer músico de jazz, para cantar essas canções. Esperem, porque fizeram ainda pior: tiveram a lata de misturar no alinhamento das canções do álbum as suas próprias versões de músicas de Ligeti, Bee Gees, Milton Babbitt, Stravinsky, Nirvana ou Pink Floyd.

«Se querem uma razão para ter feito este disco é esta» – explicou Iverson. – «Reconhecer o valor de cada aspecto da música do século XX, independentemente dos géneros em que cada um desses compositores se especializou». Talvez por terem levado mais a sério esta forma desprendida e saudável de encarar a música, sem fronteiras, sem estar sujeita à fiscalização dos alfandegários do jazz e da clássica, que vêem o rock como um produto de contrabando, talvez tenha sido por isso que os The Bad Plus decidiram arriscar ainda mais e convidar uma vocalista indie.

Já que me aturaram até aqui, deixem-me falar da versão de uma música dos Pink Floyd que os The Bad Plus tocam neste disco. Trata-se de Comfortably Numb, sim, essa mesmo, a canção do The Wall onde Gilmour é mais uma vez um navio distante fumegando no horizonte que cruza as tempestuosas marés de Waters com a força e a classe de um Bismarck das guitarras, Comfortably Numb, uma das minhas favoritas, aquela que me arrepia até à raiz dos cabelos sempre que a oiço.

Se fores fã dos Floyd como eu, depois de ouvires a versão dos The Bad Plus vais ficar com vontade de atirar os phones pela pia abaixo, juntamente com o piano, o contrabaixo, a bateria e a cantora, sobretudo a cantora – mas isto é a primeira audição, quando a tua lealdade floydiana se encontra ainda hiperactiva e pronta a atacar o herege que ouse desvirtuar a imaculada versão original; depois, um bocadinho mais calmo, pode ser que oiças aquilo outra vez e já fiques a pensar «Pera lá, olha que esta merda afinal…» À terceira audição? Já te permitiste esquecer o The Wall, temporariamente, claro, e estás a ouvir uma canção nova que não deixa de ser, de uma maneira muito própria e sincera, um Comfortably Numb. À quarta? Se tiveres um blogue, sentas-te diante do computador a escrever um post. E depois acabas o texto da melhor maneira possível: com um ponto final azul escuro.

→ 28/01/2009 @17:23

Um jornal de blogues

The Printed Blog

Diz-se que o futuro ditará a transferência dos conteúdos em papel para os meios electrónicos, mas Joshua Karp, fundador do The Printed Blog, fez uma original inversão de marcha e publicou o que se escreve nos blogues em papel.

Os textos do jornal The Printed Blog são reproduções (autorizadas) de posts, bem como as fotografias, retiradas de sítios de partilha como o Flickr. A circulação do jornal é gratuita e, como todas as publicações gratuitas, espera obter receitas através da publicidade. Tendo em conta que se trata de um jornal que não necessita de redacção, os custos são substancialmente reduzidos e Joshua Karp espera que as receitas publicitárias sejam suficientes para pagar aos bloggers e sustentar a publicação.

O primeiro número já saiu e encontra-se disponível em formato PDF. A selecção do que é ou não publicado fica a cargo de uma pequena equipa editorial, mas em última análise é o próprio leitor quem sugere os temas a tratar. Esta interacção entre editores e leitores (que são sempre potenciais contribuidores) é assegurada pela (cada vez mais) indispensável presença no Twitter. Mais pode ser lido no artigo que a jornalista Patrícia Silva Alves escreveu no Público.

Dizer NÃO à taxa