A 22 de Junho de 1986, no Estádio Azteca, Inglaterra e Argentina encontraram-se nos quartos de final do Campeonato do Mundo de Futebol. O que ficou para a história desse jogo foi a famosa «mão de Deus» com que Maradona marcou o primeiro golo e, sobretudo, a fabulosa jogada individual do segundo golo – até hoje considerado, por muitos, o melhor golo do mundo.
O jogo ocorreu quatro anos e oito dias depois do fim da Guerra das Malvinas entre a Argentina e a Inglaterra, guerra vitoriosa para ingleses e humilhante para argentinos, o que despertou em toda a gente o receio de que tais disputas e ressentimentos fossem trazidos para o relvado e o jogo descambasse numa batalha campal.
O ambiente de expectativa pode ser melhor compreendido se pensarmos nas palavras do escritor norte-americano Paul Auster, que ao escrever sobre o amor dos europeus pelo soccer, definiu este desporto como o melhor substituto para a guerra.
(…) «Finalmente parece que os europeus descobriram a maneira de se odiarem uns aos outros, sem por isso terem que se despedaçar à dentada. Este milagre tem o nome de futebol. Não quero exagerar, mas que outra maneira há de interpretar os factos? Quando a França arrebatou uma vitória-surpresa no Campeonato do Mundo de 1998, mais de um milhão de pessoas juntaram-se nos Campos Elísios para celebrar o triunfo. A todos os títulos, foi a maior manifestação de alegria colectiva vista em Paris desde a Libertação do domínio alemão, em 1944.
A dimensão do evento, o absoluto excesso da alegria exibida eram de pasmar. Mas é apenas uma vitória desportiva, repetia-me eu; e, no entanto, aí estava aos olhos de toda a gente: na mesma avenida da mesma cidade, a mesma jubilação festiva, a mesma ostentação de orgulho nacional que tinha acolhido De Gaulle» (…). [Texto completo neste post.]
A alegria pela vitória sobre a Inglaterra percebe-se bem quando vemos o futebol nesta perspectiva guerreira, mas esta não é suficiente: o golo de Maradona, pela sua beleza, envolve-nos a todos como adeptos, independentemente da nacionalidade. Afasta-nos do olhar duro de Paul Auster e reconcilia-nos com a visão mais pura do jornalista e escritor brasileiro Luís Fernando Veríssimo: «Confiamos ao nosso time a tarefa de continuar nossa infância por nós. Passamos-lhe a guarda dos nossos prazeres com a bola. A relação com o nosso time é a única das nossas relações infantis que perdura, tão intensa e irracional quanto antes. Ou mais.
De onde vem isso? Que tipo de amor é esse? Um mistério. Dizem que no fundo é uma necessidade de guerra. De ter uma bandeira, ser uma nação e arrasar outras nações, nem que seja metaforicamente. Psicologia fácil. Não explica por que a pequena torcida do Atlético Cafundó, que nunca arrasará ninguém, continua torcendo pelo seu time. Talvez o que a gente ame no futebol seja o nosso amor pelo futebol.» (…)
O que vos proponho ver é vídeo do golo-maravilha de Maradona – não pelo golo em si, que todos os amantes de futebol estão fartos de ver, mas pelo espantoso relato do locutor, jornalista e escritor Víctor Hugo Morales, homem de dupla nacionalidade, argentino e uruguaio. O seu emocionante relato da jogada diz-nos que o futebol é o tipo de guerra que pode ser vencida pela poesia. Que pode começar com a visão de Paul Auster e acabar com as palavras de Veríssimo. Arrepiei-me até à raiz dos cabelos ao ouvir este relato. Link