A primeira vez que ouvi Pink Floyd tinha uns doze anos. Andava na Escola Salesiana – uma escola de padres – e cantarolava mentalmente o Another Brick in the Wall (Part II), sobretudo durante as aulas de Religião e Moral, as mais tirânicas e repressivas que vivi.
O professor bem se esforçava por formar uma geração de crentes tementes a Deus, mas só conseguiu com que o temêssemos a ele – Deus podia ser omnipresente e Todo-Poderoso e essas coisas impressionantes, mas a sua potencial ameaça não era comparável ao poder moral da galheta terrena.
Comparar o tamanho de Deus e o tamanho daquelas manápulas até podia ser tão absurdo como comparar o tamanho de Júpiter com o de um calhau da calçada, mas nenhum de nós tinha dúvidas sobre qual dos dois objectos teria mais probabilidades de nos fazer um galo na cabeça.
O professor era mais pequeno e muito menos omnipotente que Deus, mas estava mais perto de nós e era muito mais interventivo. Um moralista com as costas quentes costuma desenvolver muita musculatura nos ombros e nos braços.
Teríamos uma vida mais descansada se tivéssemos sido entregues exclusivamente aos cuidados divinos: Deus ao menos não se metia nos nossos assuntos nem se chateava com nada.
Deus fazia lembrar o pai do Formiga. O Formiga era um tipo com muito jeito para jogar futebol. Tinha tanta habilidade que o campo parecia um carreiro de formigas quando jogava: ele à frente, gigante, a carregar a bola de Berlim; todos os outros atrás a ver se conseguiam umas sobras.
Talvez o pai do Formiga tivesse a esperança de que o filho se tornasse milionário: deixava-o sempre à vontade mesmo quando o puto faltava às aulas para jogar à bola ou se embrenhava no mato às escondidas dos padres. O Formiga nunca chegou a tornar-se uma vedeta da bola, pelo que espero que o pai não o tenha castigado por ter atraiçoado a fé de que um dia aquele miúdo o tornaria milionário.
Havia imensas missas a que éramos obrigados a assistir. Não consigo descrevê-las de memória, mas lembro-me que na nossa escala do aborrecimento supremo, do mito da criação E, ao sétimo dia, Deus criou o bocejo, enfim, numa escala de 1 a dez, as missas nos Salesianos chegavam ao 11 nos primeiros minutos.
A única experiência dotada de uma certa qualidade mística que podíamos experimentar era brincando com coisas proibidas. Como era uma escola de rapazes e não havia raparigas, restava-nos o mato.
A escola tinha um grande terreno de mato muito cerrado. Ficava ao pé do campo de futebol e ninguém sabia onde terminava, excepto que estava vedado aos alunos.
Dizia-se que naquela mata vagueava um padre doido e grandalhão, cuja única ocupação na vida era dar caça aos desgraçados alunos que se atrevessem a invadir-lhe os terrenos. Era um psicopata sancionado por Deus, como muitos outros. Dizia-se que a equipa cuja baliza ficasse do lado da mata tinha mais hipóteses de não sofrer golos, pois os avançados adversários tinham sempre receio de chutar com demasiada força e perder a bola para sempre.
Qualquer manifestação de autoridade eclesiástica vinha com um carimbo de Deus a dizer Aprovado. Não havia discussão possível, pelo que só nos restava a fuga silenciosa.
Também se dizia que no mato havia lobisomens, vampiros, bodes, serpentes importadas do Jardim do Éden e uma porrada de seres mitológicos desconhecidos mas sempre fatais. Como eu fiz parte do grupo de aventureiros que se pirava às missas e se escondia na mata proibida, posso garantir que o que lá se fazia era muito mais perigoso e subversivo: fumavam-se cigarros que o Formiga gamava ao pai, contavam-se histórias, especulava-se sobre o que seria o sexo, falava-se de miúdas que ainda não tínhamos conhecido e, adivinharam, escutávamos Pink Floyd num gravador a pilhas meio arrebentado.
Roger Waters escreveu a letra de Another Brick in the Wall a pensar no sistema de educação britânico da sua infância, repressivo, quadrado e castrador de mentes criativas; para nós, cantar estes versos We don’t need no education, We dont need no thought control, No dark sarcasm in the classroom, Teachers leave them kids alone, mesmo a medo, equivalia a viver uma experiência mística que nem o pivete a incenso e suor de padre conseguia dissipar.
Uma ilusão desesperada era transformada em pequenos momentos durante os quais os sonhos se tornavam realidade: na mata respirávamos ar puro, o ar puro trazia uma brisa de liberdade, a liberdade vinha com aquela música dos Pink Floyd. Nesse ano fui expulso dos Salesianos – «convidado a sair», foi o piedoso eufemismo usado para informar a minha família.
A partir daí, fiquei livre para explorar matas desconhecidas ao som dos Pink Floyd.