Arquivos mensais: Fevereiro 2010

→ 27/02/2010 @14:21

Como esconder a fábrica de aviões de combate

Fábrica de aviões de combateFábrica de aviões de combate

Durante a II Guerra Mundial, achando-se vulneráveis a possíveis bombardeamentos japoneses, os americanos transformaram um aeroporto e uma fábrica de aviões de combate (foto à esquerda) localizada em Los Angeles, numa inocente e inofensiva paisagem rural (foto à direita). Como o fizeram? Mais pormenores aqui. Visto originalmente neste blogue.

→ 26/02/2010 @16:12

Sem o Citador não sei o que seria deste post XIV

Mayra Andrade

O ritmo tem algo mágico; chega a fazer-nos acreditar que o sublime nos pertence

- Johann Goethe

→ 26/02/2010 @11:24

Uma notável prosa jornalística

«A Fajã da Ribeira, a terra da Ribeira Brava que ficou isolada quando a enxurrada destruiu a única ponte de ligação à vila, mal foi colocada a passagem pedonal móvel pelo Exército, muitos “fugiram para a Venezuela e Lisboa”.

Quem o diz é Teresa Rodrigues, uma mulher que vive neste local logo depois de chegar de táxi, carregando alguns sacos de compras que terá que carregar lombo acima depois de cruzar a ponte.

“Ficámos mesmo isolados, na maior tristeza”, diz a chorar, recordando a aflição de quem ficou sem água, luz, nem pode fugir para outro local, nem mesmo quando aconteceu as cheias de há 40 anos.»

No sítio da RTP

→ 25/02/2010 @18:42

Pink Floyd e uma experiência mística

A primeira vez que ouvi Pink Floyd tinha uns doze anos. Andava na Escola Salesiana – uma escola de padres – e cantarolava mentalmente o Another Brick in the Wall (Part II), sobretudo durante as aulas de Religião e Moral, as mais tirânicas e repressivas que vivi.

O professor bem se esforçava por formar uma geração de crentes tementes a Deus, mas só conseguiu com que o temêssemos a ele – Deus podia ser omnipresente e Todo-Poderoso e essas coisas impressionantes, mas a sua potencial ameaça não era comparável ao poder moral da galheta terrena.

Comparar o tamanho de Deus e o tamanho daquelas manápulas até podia ser tão absurdo como comparar o tamanho de Júpiter com o de um calhau da calçada, mas nenhum de nós tinha dúvidas sobre qual dos dois objectos teria mais probabilidades de nos fazer um galo na cabeça.

O professor era mais pequeno e muito menos omnipotente que Deus, mas estava mais perto de nós e era muito mais interventivo. Um moralista com as costas quentes costuma desenvolver muita musculatura nos ombros e nos braços.

Teríamos uma vida mais descansada se tivéssemos sido entregues exclusivamente aos cuidados divinos: Deus ao menos não se metia nos nossos assuntos nem se chateava com nada.

Deus fazia lembrar o pai do Formiga. O Formiga era um tipo com muito jeito para jogar futebol. Tinha tanta habilidade que o campo parecia um carreiro de formigas quando jogava: ele à frente, gigante, a carregar a bola de Berlim; todos os outros atrás a ver se conseguiam umas sobras.

Talvez o pai do Formiga tivesse a esperança de que o filho se tornasse milionário: deixava-o sempre à vontade mesmo quando o puto faltava às aulas para jogar à bola ou se embrenhava no mato às escondidas dos padres. O Formiga nunca chegou a tornar-se uma vedeta da bola, pelo que espero que o pai não o tenha castigado por ter atraiçoado a fé de que um dia aquele miúdo o tornaria milionário.

Havia imensas missas a que éramos obrigados a assistir. Não consigo descrevê-las de memória, mas lembro-me que na nossa escala do aborrecimento supremo, do mito da criação E, ao sétimo dia, Deus criou o bocejo, enfim, numa escala de 1 a dez, as missas nos Salesianos chegavam ao 11 nos primeiros minutos.

A única experiência dotada de uma certa qualidade mística que podíamos experimentar era brincando com coisas proibidas. Como era uma escola de rapazes e não havia raparigas, restava-nos o mato.

A escola tinha um grande terreno de mato muito cerrado. Ficava ao pé do campo de futebol e ninguém sabia onde terminava, excepto que estava vedado aos alunos.

Dizia-se que naquela mata vagueava um padre doido e grandalhão, cuja única ocupação na vida era dar caça aos desgraçados alunos que se atrevessem a invadir-lhe os terrenos. Era um psicopata sancionado por Deus, como muitos outros. Dizia-se que a equipa cuja baliza ficasse do lado da mata tinha mais hipóteses de não sofrer golos, pois os avançados adversários tinham sempre receio de chutar com demasiada força e perder a bola para sempre.

Qualquer manifestação de autoridade eclesiástica vinha com um carimbo de Deus a dizer Aprovado. Não havia discussão possível, pelo que só nos restava a fuga silenciosa.

Também se dizia que no mato havia lobisomens, vampiros, bodes, serpentes importadas do Jardim do Éden e uma porrada de seres mitológicos desconhecidos mas sempre fatais. Como eu fiz parte do grupo de aventureiros que se pirava às missas e se escondia na mata proibida, posso garantir que o que lá se fazia era muito mais perigoso e subversivo: fumavam-se cigarros que o Formiga gamava ao pai, contavam-se histórias, especulava-se sobre o que seria o sexo, falava-se de miúdas que ainda não tínhamos conhecido e, adivinharam, escutávamos Pink Floyd num gravador a pilhas meio arrebentado.

Roger Waters escreveu a letra de Another Brick in the Wall a pensar no sistema de educação britânico da sua infância, repressivo, quadrado e castrador de mentes criativas; para nós, cantar estes versos We don’t need no education, We dont need no thought control, No dark sarcasm in the classroom, Teachers leave them kids alone, mesmo a medo, equivalia a viver uma experiência mística que nem o pivete a incenso e suor de padre conseguia dissipar.

Uma ilusão desesperada era transformada em pequenos momentos durante os quais os sonhos se tornavam realidade: na mata respirávamos ar puro, o ar puro trazia uma brisa de liberdade, a liberdade vinha com aquela música dos Pink Floyd. Nesse ano fui expulso dos Salesianos – «convidado a sair», foi o piedoso eufemismo usado para informar a minha família.

A partir daí, fiquei livre para explorar matas desconhecidas ao som dos Pink Floyd.

→ 23/02/2010 @0:44

Diz que me excedi, o cabrão.

Excedi-me

Estão a ver aquela palavra no final da mensagem, Exceeded? Considerem-me oficialmente em estado de embirração suprema. Exceeded, o tanas.

Um gajo anda a divulgar boa música e a limpar a cera MTV das orelhas desta malta e, como recompensa, em vez de receber um Congratulations Limit Exceeded, dear Bitaites, we have no words left to praise you, leva com um email todo badameco a dizer que 250 gigabytes, blá blá blá, excedi-me? E deixa-me umas horas assim, em excesso de offline?

Acontece que isto não é a Rádio Celine Dion. Aí poderia compreender que me dissessem, bem, Marco, estás a exceder-te.

Estás a exceder-te não naquele sentido de quem trepa à mesa para fazer um discurso, mas de quem tira os sapatos antes de trepar à mesa para fazer um discurso. Ou seja, isto não é a Rádio Badalhoca. A Rádio Peúgas Abandonadas. A Rádio Flatulência em Onda Média.

Também passei a embirrar com a palavra exceeded. Eu gosto de excessos, quando se trata de música. Compreendo as delícias de um bom vinho, mas para mim não há melhor do que uma garrafinha Coltrane em noites de chuva. Quem diz Coltrane pode dizer muitos mais porque, felizmente, tenho uma boa garrafeira aqui em casa e as bebedeiras são frequentes.

Fazer uma espécie de rádio é uma extravagância que me dá muito gozo, mas tenho de atinar. Por causa do exceeded. Palavra palerma. Se alguém sabe como se dá dois tabefes numa palavra que avise.


Bem, a WebHS, o meu serviço de hosting, safou-me. Citando o Miguel Silva Costa, que é o cabecilha lá dos gajos, meteu mais uns pozinhos no Bitaites. Eu sou do clube dos gigabytes, portanto ainda pertenço à divisão dos coitadinhos. Só conto a sério se subir à divisão dos terabytes.

De maneira que combinei com a WebHS trocar uns gigas por adjectivos. Cada adjectivo vale para aí uns dez gigas, pelo que só me resta agradecer ao maravilhoso, eficiente, magnífico, estupendo, magnânimo, excelente, simpático, capaz, competente e agradável serviço disponibilizado.

Ora, deixa-me contar os adjectivos: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez. Espera, magnânimo é uma palavra mais cara, vale vinte gigas. Pronto, já dá para mais uma emissão de Rádio ou é preciso mais adjectivos? Tenho mais um no bolso das cuecas, para as emergências, mas esse não sei se vocês querem.

→ 22/02/2010 @15:08

Madeira: o que podemos mostrar

Madeira

Foto: ASPRESS/Hélder Santos

As fotos da Madeira deram origem a uma discussão na caixa de comentários do post sobre se é legítimo apreciar a qualidade de uma fotografia que nos mostra uma tragédia.

Quem gosta de fotografia observa-a também desse ponto de vista, mesmo que a informação que a foto contém seja perturbante ou chocante. Não se trata de insensibilidade, mas apenas da nossa capacidade de funcionarmos em vários planos simultaneamente sem que o mais racional anule o emocional. Somos criaturas multi-tasking.

Existem muitos exemplos na história do fotojornalismo cujas imagens de morte e miséria e devastação mudaram o curso dos acontecimentos – para melhor. Por exemplo, três fotos cruciais do Vietname que ajudaram a formar uma corrente de opinião contra aquela guerra – refiro-me a estes exemplos por os ter evocado neste post.

O caso da Madeira toca-nos a todos, mas a informação deve circular. Não me refiro ao circo mediático que inevitavelmente começará a ser montado. Precisamos de saber o que lá se passou e tenho a certeza de que os madeirenses querem que se saiba. A informação – incluindo as imagens – ajuda a formar uma cadeia de solidariedade entre portugueses separados por um oceano. A política pode esperar, já agora.

Tudo isto é óbvio. O melindre é estabelecer limites para o que se pode mostrar. Este tipo de situações obriga um blogger a ter tanto cuidado no que mostra como qualquer editor de jornal. Que ninguém se desculpe com a diferença de audiências entre uma publicação e um blogue, porque a responsabilidade é igual nem que um blogue tenha meia-dúzia de visitantes.

Há fotos que chegaram da Madeira que mostram pessoas mortas. Não são muitas – eu vi três. Essas não devem ser publicadas, seja em nome da informação ou da qualidade fotográfica. Não se trata de censura ou camuflagem, mas de uma questão de decência e critério. A questão da decência fica na consciência de cada um – todos sabem ao que me estou a referir.

Existem muitos exemplos dessa decência: os irmãos franceses que estavam em Nova Iorque no 11 de Setembro a filmar um documentário com os bombeiros e que de repente se viram arrastados para a maior reportagem das suas vidas são o meu exemplo preferido. Conta um deles que decidiu não filmar os corpos que caíam das Torres Gémeas por achar que não tinha esse direito. É de homem.

O critério, neste caso, é muito simples. Sabemos que morreram pessoas. Sabemos – ao ver as fotos da lama e dos pedregulhos e do curso das ribeiras – como essas pessoas provavelmente perderam a vida. Fotos de cadáveres enlameados cuja identificação pode ser feita por quem veja a imagem não acrescentam nada ao que já sabemos. As fotos de corpos empilhados nas ruas de Port-au-Prince, no Haiti, foram importantes para mostrar a dimensão do acontecimento, o problema de saúde pública devido à decomposição dos cadáveres e o absoluto caos e desespero no país. (Nota: refiro-me às fotos captadas de longe, suficientemente perto para se perceber do que se tratava, mas sem que as identidades das pessoas fossem reveladas.)

Felizmente, a Madeira não se encontra assim.

Num momento em que muitos madeirenses que vivem fora do arquipélago procuram desesperadamente por notícias dos seus familiares, seria grotesco pensar que, em nome da informação ou da arte, teríamos o direito de as mostrar. Imaginem uma dessas pessoas chegar por acaso a um blogue e reconhecer um familiar ou amigo, morto. Valeria a pena ter esse peso na consciência só para se ter uma foto diferente?

Até agora, pelo que tenho visto, nenhum jornal (ou blogue) publicou essas fotos. Não precisamos delas e acho que a decência com que os jornalistas e os repórteres fotográficos estão a tratar este assunto se vai manter.

→ 21/02/2010 @14:34

Madeira

Madeira

Foto: AP/Octávio Passos

Madeira

Madeira

Madeira

Madeira

Fotos: Lusa/AFP/Gregório Cunha

Madeira

Foto: EPA/Sílvia Reis

Madeira

Foto: AP/Octávio Passos

Madeira

Foto: EPA/Homem Gouveia

Madeira

Madeira

Madeira

Madeira

Fotos: Lusa/Homem Gouveia

Madeira

Foto: EPA/Homem Gouveia

Madeira

Foto: AP/Armando França

Madeira

Madeira

Fotos: EPA/Lusa/Manuel de Almeida

Madeira

Foto: AFP/Pierre-Philippe Marcou
Dizer NÃO à taxa