
Autor: Pawel Hynek
Os espanhóis diziam, antes do jogo, que a selecção portuguesa era Cristiano Ronaldo mais dez. Enganaram-se: Portugal foi Eduardo mais dez. Quanto ao treinador, parece-me que quis ser campeão mundial jogando como a Grécia do Euro 2004. Desta vez os deuses do futebol não adormeceram e passou a melhor equipa. O futebol não é para medricas.
Sabem aquela cena tÃpica dos filmes americanos, quando o tipo é expulso de um bar a pontapé pelos seguranças e cai desamparado num monte de lixo de uma viela escura? É assim que uma pessoa se sente quando é despedida.
Nesta analogia, os seguranças são agentes económicos ao serviço do dono do bar, os pontapés são decisões estratégicas que conduzem a novos modelos de negócio e o lixo pode ser representado por uma enorme pilha de jornais usados e inúteis.
Como o jornal 24horas fechou e dezenas de trabalhadores foram parar ao olho da rua, eu incluÃdo, todas as pessoas sensatas dizem que devo escrever um currÃculo e distribuÃ-lo pelas redacções com persistência e sem desanimar, como aqueles tipos que entopem as caixas de correio com folhetos publicitários.
Quando o escrever, será o currÃculo mais amador possÃvel. Talvez possa escrever curriculum a ver se o Latim me safa, mas não tenho muita esperança.
O problema é nunca ter precisado de escrever um. Quando terminei o curso de Jornalismo do Cenjor fui pedir trabalho ao extinto Tal & Qual porque, no princÃpio da década de 90, o semanário era considerado «uma ganda escola de Jornalismo». Usava-se sempre essa corruptela, «ganda», independentemente da educação e cultura de cada um dos interlocutores, pelo que fiquei impressionado.
Uma «ganda» escola não é o mesmo que uma «grande» escola. A Escola Salesiana que frequentei até ao sétimo ano de escolaridade, por exemplo, era «grande» em superfÃcie, mas não era lá «ganda» coisa em pedagogia.
Ninguém me pediu currÃculo. Recebeu-me o José Rocha Vieira, então director do Tal & Qual. Com uns modos bruscos, semelhantes aos daquele editor dos filmes do Homem Aranha, perguntou-me o que raio estava eu ali a fazer e vamos lá, vamos lá, eu que me despachasse a contar a história da minha vida.
«Quero ser jornalista», resumi.
«Ai, queres? E qual é a tua experiência?»
«Bem, trabalhei com o André Neves…»
O André Neves era um editor de jornais e revistas sensacionalistas, famoso por ter publicado uns screens manhosos de uns vÃdeos porno do arquitecto Tomás Taveira. Enquanto o senhor arquitecto fazia as suas penetrações, o André Neves lançava à s pressas uma revista – Semana Ilustrada – para publicar o escândalo e penetrar, com o mesmo vigor, entre as nádegas do mercado.
Do ponto de vista jornalÃstico, porém, a Semana Ilustrada acabou por sofrer de ejaculação precoce. Três ou quatro semanas depois, desapareceria no mesmo vácuo onde fora criada.
Estes vÃdeos acabaram por entrar nos anais da história da parvalheira jornalÃstica, pelo que o Rocha Vieira se pôs de imediato a sorrir com metade da boca: “Queres ser jornalista e trabalhaste com o André Neves? E que mais, também acreditas em contos de fadas?†Fiquei sem saber o que responder, situação que haveria de se repetir sempre que me calhou receber os densos monólogos do chefe.
Apesar da brusquidão desconcertante, era um tipo sensÃvel e com espinha dorsal. Poderia, com educação, ter-me mandado à merda – o mercado não o levaria a mal, como demonstram os recentes acontecimentos na Controlinveste; em vez disso, puxou-me com impaciência pelo braço, arrastando-me para fora do gabinete, conduziu-me por um corredor repleto de prateleiras e prateleiras de manchetes desocupadas, fez-me entrar na redacção e disse, em voz muito alta, ao editor: «Olha, este é o…» Virou-se para mim, confuso:
«Como é que te chamas, pá?»
«Marco Santos.»
«Este é o Marcos e vai ficar aqui à experiência».
Não fixava nomes e também não me parece que fosse especialmente dotado em fazer contas de somar, mas pertencia a uma geração para quem o jornalismo devia ser feito por pessoas e, como tal, tinha aquele hábito peculiar de apostar nelas. Um excêntrico, vejam lá a minha sorte.
E foi assim que consegui o meu primeiro emprego – sem currÃculo. Trabalhei sempre sem currÃculo.
Estou mesmo a ver que não vou conseguir escrever uma merda decente tão cedo.
Esta mania agora de os adversários não jogarem como nós queremos ainda vai provocar a desgraça do melhor treinador do mundo, Carlos Queiroz.
O mister tem razão ao franzir as suas geniais sobrancelhas perante as manhas do principiante Sven Eriksson. Não se percebe, realmente, que a Costa do Marfim tenha jogado com a selecção portuguesa usando aquela táctica que tantas vezes nos lixou, a táctica do Deixa-os pousar, ou seja, deixando-nos entretidos a trocar a bola enquanto espera pelo melhor momento de nos marcar um golo. Que escândalo. Foi assim que os ladrões dos gregos nos levaram a taça do Euro 2004: à socapa.
Assim o futebol não tem piada nenhuma. Um adversário deve deixar-nos jogar, é para isso que está lá.
Quando isso não acontece, Queiroz fica triste, injustiçado com a vida. E essas emoções transmitem-se aos jogadores, que andam pelo campo tristes, sem garra, sentindo que um jogo que permite ao adversário jogadas baixas como fazer cortes em antecipação é, sem sombra de dúvida, um jogo injusto.
Por que razão não nos deixa o adversário à vontade para demonstrarmos a nossa superioridade técnica? Que direito tem a Costa do Marfim de impedir que o espectador se delicie com as nossas habilidades e, por uma vez na puta da vida, abra a boca de espanto e não para soprar a vuvuzela?


Neste post do Graphic Design: 40 caricaturas de celebridades, feitas por vários artistas.

Megan Fox fotografada por Craig McDean.






Às pessoas que me perguntam, Pá, então o Bitaites?, eu tenho respondido O Bitaites está em banho-maria.
De um ponto de vista exclusivamente culinário, este banho-maria blogosférico significa que a substância dos posts está depositada na panela do cérebro do blogger e que a panela do cérebro do blogger se encontra parcialmente submersa em água a ferver. O aquecimento mais ou menos uniforme das palavras – a substância dos posts – é um processo lento, pelo que é necessário tempo até que as actualizações possam ser servidas.
Um blogue, diz-se, reflecte o gosto, personalidade, por aà fora, do seu autor. Um blogue pessoal chega a ser quase uma extensão fÃsica do blogger, na medida em que é possÃvel perceber qual a parte do seu corpo que esteve na origem de um post.
Muitas vezes os posts são escritos só com o cérebro, outras apenas com o coração, outros são escritos a correr ou com muita cera nos ouvidos, uns com as palmas das mãos unidas em sinal de oração, outros com os dois braços a fazer um manguito, alguns porque o cotovelo dói muito.
Este post, devo admiti-lo, está a ser escrito com os testÃculos. De um ponto de vista estritamente blogosférico, ando a coçá-los e estas coisas notam-se. Bem, nos tempos actuais mais vale uma mão nos tomates do que duas na vuvuzela.
Talvez por estar a escrever o post com os testÃculos esteja agora a pensar na origem da expressão banho-maria.
Se eu quisesse escrever este post com o cérebro, dir-vos-ia que a expressão tem origem numa mulher chamada Maria, a Judia, uma filósofa grega e célebre alquimista que viveu no Egipto por volta do ano 273 a.C. Terá sido ela – um génio ao nÃvel de um Aristóteles – a inventar esse processo.
Só uma mulher poderia inventar um processo de elevar a temperatura de forma lenta, mas uniforme e inexorável. É como se estivesse a pensar: eu, Maria filósofa e alquimista, declaro solenemente que, em matéria de quecas, também gosto de ser aquecida pelo método banho-maria. E, já agora, aproveito para dizer à malta do Aristóteles que transformar cobre em ouro é tão importante como transformar desejo em volúpia.
Sim, é verdade, regressei a um ponto de vista mais testicular.
Podemos então esquecer a Maria alquimista e imaginar como teria sido tão maravilhosa uma Maria cujo simples acto de se banhar tivesse dado origem a uma expressão que atravessou séculos de história. Teria olhos verdes? Longos cabelos negros? Que Marias actuais se lhe poderão equiparar em graça, beleza e sensualidade? Espero que todos possam encontrar as vossas respostas e resolver esta quimera perfumada do amor.
Para começar, eu sugiro o Google Images com o SafeSearch desligado.