Arquivos mensais: Julho 2010

→ 23/07/2010 @17:18

Músicas que me arrepiam até à raiz dos cabelos (V)

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O blues, a base do jazz. Uma cantora com uma voz única: conta José Duarte que a primeira vez que tocou um disco de Billie Holiday na rádio o locutor reagiu, alarmado: «Está na rotação errada!». Não, não estava, a voz dela é mesmo assim. Depois os músicos que a acompanham neste especial da CBS, gravado em 1957, dois anos antes da morte da cantora: Ben Webster, um fadista a solar, Coleman Hawkins, enérgico, Lester Young, frágil e nostálgico (também morreu dois anos depois), Gerry Mulligan, lírico – cada um com o seu estilo, técnica e personalidade.

Na sua essência, creio, é isto o jazz. O vídeo expõe-nos este maravilhoso estilo de música. E se este tema, Fine and Mellow, se encontra nesta série de momentos arrepiantes deve-se precisamente a este grande momento de televisão: vejam como Billie Holiday reage aos solos de cada um dos músicos que a rodeam, às vezes com uma expressão de reconhecimento (Hawkins), surpresa (Mulligan) ou profunda cumplicidade (Lester Young). O Jazz, neste vídeo, surge-nos como pura poesia.

→ 23/07/2010 @14:24

Suporte aos ficheiros .cue em Linux (e Mac!)

Várias vezes me perguntaram – por email ou nos comentários – sobre players com suporte para as .cue sheet das rádios. Como eu uso o Foobar via Wine em Linux, nunca me preocupei muito. Mas a renderização de fontes do Foobar é horrível em Linux, pelo que é sempre melhor usar software nativo.

Esta página contém uma lista de vários players com suporte para .cue sheets que os utilizadores de Linux podem experimentar. Espero que tenha ajudado.

Actualização: utilizadores Mac têm uma alternativa gratuita chamada Vox (gratuito) com suporte a cue sheets.

→ 21/07/2010 @23:26

Um hotel à volta do aquário

Aquário no hotel

Um imenso aquário à entrada do Hotel Radisson Blu, em Berlim. Mais fotos. Hotel aqui.

Aquário no hotelAquário no hotel

→ 21/07/2010 @15:04

Músicas que me arrepiam até à raiz dos cabelos (IV)

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O prelúdio de Tristão e Isolda, de Wagner: música que se ouve de olhos fechados, pelo que o elemento vídeo aqui não é tão importante. Parafraseando um comentador no YouTube, «se me paran los pelos del culo. Increible.»

(Nota: o vídeo termina um minuto antes do prelúdio chegar ao fim, mas o que está lá é suficiente para se ter uma ideia, acreditem. E escolham a opção HD On para uma melhor qualidade de som!)

→ 21/07/2010 @14:30

O maior berlinde do mundo

Se Deus existe deve gostar de jogar ao berlinde, a julgar pelas bolinhas rochosas e gasosas que dispôs no Universo. O seu dedo é a força da gravidade e, de vez em quando, ocorrem umas colisões entre berlindes – é inevitável. Como qualquer gajo que já jogou ao berlinde sabe, convém ter sempre um abafador: são os chamados buracos negros. Nunca fui grande fã de bilhar, pelo que prefiro a teoria do berlinde. De qualquer maneira, não gosto de imaginar um ser supremo com um taco cósmico na mão.

Sim, eu sei, não é uma explicação muito científica e não possui qualquer valor teológico, é uma desbunda inconsequente, mas fiquei impressionado com o tamanho deste berlinde.

Gigantesca estrela

Basta olhar para a ilustração para se ter uma ideia da imensidão da estrela descoberta através do VLT (Very Large Telescope): à esquerda, uma estrela anã vermelha; ao lado, uma estrela do tipo Sol; uma anã azul, na verdade um gigante comparado com a nossa; finalmente, tão grande que nem cabe no enquadramento da ilustração, a estrela R136a1, com uma massa actual de cerca de 265 massas solares e uma massa de 320 vezes a massa do Sol na altura do seu nascimento.

A estrela faz parte de um enxame estelar composto por estrelas jovens, quentes e de grande massa, situada no interior da Nebulosa da Tarântula, numa das nossas galáxias vizinhas, a Grande Nuvem de Magalhães, a 165 mil anos-luz de distância. A ESO divulga os seus relatórios para a imprensa em português, pelo que podem consultar o original e pirar-se deste blogue herege o mais depressa possível.

→ 19/07/2010 @5:03

Músicas que me arrepiam até à raiz dos cabelos (III)

→ 19/07/2010 @4:45

Os miolos do trabalhador

Tenho um sonho bizarro para contar. O sonho consistiu em levar tiros a toda a hora. Estava no meu local de trabalho e alguém cujo rosto se mantinha sempre fora do meu campo de visão despachava-me com uma bala na cabeça. Ter sido despedido e ver muitos filmes do Scorsese e do Sergio Leone provoca estes delírios.

Levar vários tiros seguidos na tola é um bocado incomodativo, sobretudo quando se tem um trabalho mais intelectual. Uma pessoa não pode perder a concentração.

Os aborrecimentos começaram mal me sentei à secretária: pam, balázio na nuca. «Miolos a nadar num aquário? Pá, estes screensavers que instalaram nos computadores são de muito mau gosto», comentei eu, sem me aperceber que estava a ver o meu reflexo no vidro do monitor ainda desligado.

Achei aquilo muito peculiar, cocei a parte de trás da cabeça ensanguentada e levantei-me para pensar sobre o assunto. Mal me pus de pé, recebi outro em cheio na testa. Este deitou-me ao chão, pelo que me pus a meditar no significado daqueles disparos numa posição mais confortável. Felizmente continuava humano, não fiquei cego. Posso imaginar o sofrimento que seria se no sonho fosse um ciclope.

Ainda assim, perdera a capacidade de ver pessoas – só conseguia vislumbrar os computadores, os mobiliários e fotos de umas naturezas mortas às quais alguns colegas costumam chamar de celebridades.

Acabei por me fartar. Resolvi apanhar o elevador e descer à rua para fumar um cigarro. No elevador, alguém me deu outro tiro. Comecei a ficar um bocado aborrecido. Já me doíam as costas de estar sempre agachado a apanhar as minhas cenas do chão.

Cá fora devo ter fumado um cigarro tranquilo, pois não precisei de dar cabo das costas outra vez. Quando acabei, reentrei no elevador e, já sem surpresa, ouvi uma detonação familiar. Desta vez também me apercebi do som de gente a sussurrar. Dado que estava incapaz de ver pessoas, apenas objectos inanimados, não identifiquei ninguém.

Fiquei mesmo zangado. Calculando que podia estar a ser ouvido, protestei: «Ao menos ajudavam-me a apanhar os miolos espalhados no chão». Não vi ninguém, e de novo fui atingido por uma bala certeira. «Porra, isto teve graça ao princípio, mas agora já não tem piadinha nenhuma». E fui passando o tempo entre luminosos tiros e sombrias conversas.

Ao fim do dia de trabalho, outra vez no elevador, cruzei-me com o patrão, o Joaquim Oliveira, o tipo da Olivedesportos e outras cruzadas empresariais.

Como a minha deficiência de visão não me permitia ver seres humanos, fiquei contente por tê-lo reconhecido: era sinal que estava a recuperar as minhas faculdades.

Mesmo assim, achei-o esquisito. O rosto era quase bidimensional, um retrato pálido e sem espessura que se limitava a sorrir.

Intimamente agradecido por não me ter dado um tiro nos miolos e encorajado pela imutabilidade do seu sorriso, resolvi contar-lhe o que se passara.

«De maneira que estou farto de andar sempre a apanhar isto do chão», concluí. «Vê aquele bocado de cérebro que ficou ali pegado no botãozinho do segundo andar? É meu.» O Oliveira ficou com ar enojado: «Miolos de trabalhador, realmente!»

À saída, deu-me uma palmadinha tranquilizadora no ombro: «Não se preocupe, amanhã de manhã a mulher-a-dias vem cá limpar essa merda.»

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