Muita gente pensa que empatar 4 a 4 com o Chipre é uma vergonha. Eu acho comovente, se esquecermos o ponto de vista português. Quem jogou à bola na infância e adolescência sabe muito bem a importância de não perder com um grupo de vedetas.
Há muitos anos passei uns maravilhosos quinze dias de férias na Lagoa de Albufeira. Havia dois grupos rivais entre os rapazes que mergulhavam na lagoa, fumavam cigarros às escondidas, perseguiam lobos imaginários no mato, jogavam à bola e faziam olhinhos às raparigas: um dos grupos era formado pelos tipos que frequentavam o restaurante na ponta da lagoa mais afastada de nós. Seis ou sete putos formavam o meu grupo – éramos os mais novos.
Não tínhamos o caparro dos rivais, mas o que faltava em musculatura era compensado por muito paleio e firmeza de ânimo. Estas qualidades ajudavam a restabelecer o equilíbrio de forças entre os grupos quando se tratava de impressionar e cativar as miúdas. Dizia-se até que uns quantos de nós eram românticos e sonhadores, mas nunca foi possível confirmar a veracidade destes boatos.
A Lagoa de Albufeira é uma zona maravilhosa: à noite, afastados das luzes baças das cidades, aconchegados pela fogueira e pelo cobertor de estrelas, éramos realmente incentivados a sonhar. Pela primeira vez nas nossas vidas, adormecíamos nos braços do próprio Cosmos. As cervejas à socapa também ajudavam a fortalecer esta sensação.
Todos nos tornamos mais bonitos quando o rosto é pintado pela luz de uma fogueira e o corpo se mantém em permanente contacto com a Natureza. Aos nossos pés, a areia, selvagem; atrás, uma enorme extensão de mato cerrado que nos convidava a fazer filmes de Hollywood; à frente, a lagoa onde mergulhávamos os corpos suados; à direita, um imenso areal que desaguava num oceano tão rebelde como nós. A Lagoa de Albufeira oferecia-nos o campo e a praia num único local, e recordo-a quase como uma espécie de Lugar do Início da Ursula K. Le Guin.
Quanto aos tipos da outra ponta da lagoa, tínhamos umas contas a ajustar: alguns dias antes, um dos nossos aventurara-se a praticar Windsurf. Enquanto navegou a favor da corrente da lagoa foi um espectáculo: equilibrou-se na prancha com mais agilidade do que qualquer um de nós poderia ter conseguido. Na areia, as miúdas observavam o feito.
Quando finalmente tentou regressar, compreendeu a diferença entre navegar a favor da corrente e navegar contra a corrente: incapaz de sair do mesmo sítio, perdeu as forças e começou a ser arrastado em direcção ao mar. Uma das mãos mantinha-se firmemente agarrada ao mastro e a outra acenava em desespero, chamando-nos. Fazia lembrar um polícia sinaleiro tentando controlar o imenso tráfego dos ventos.
A oportunidade faz o ladrão e eu roubei a atenção das musas placidamente estendidas ao sol, levantando-me de imediato, dirigindo-me em passo de socorro na direcção de um pequeno bote. Peguei nos remos e naveguei com modos viris para resgatar o amigo em apuros.
Remar a favor da corrente é tão fácil que, a meio caminho, achei que seria canja rebocar amigo, prancha e vela de regresso à lânguida segurança da areia. Alcancei-o num instante – e tudo correu às mil maravilhas. Infelizmente, também acabei por perceber que existe uma enorme diferença entre remar a favor da corrente e remar contra. Após minutos de esforços desesperados e de matraquear a água com os remos, verifiquei que estávamos os dois a ser arrastados.
Enquanto andava em marcha-atrás para o oceano, fiquei sem saber o que fazer: deveria lutar contra a corrente como um super-herói de água doce ou engolir o orgulho e pedir ajuda? Estava a tentar resolver o dilema quando outro barco se aproximou de nós a uma velocidade impressionante.
Um dos tripulantes subiu para o meu barco e tomou os comandos; os outros dois carregaram a prancha. Os barcos romperam as correntes de água que momentos antes me estavam a querer romper os músculos. Os nossos salvadores nunca disseram nada, mas um sorriu a viagem quase toda.
E sim, raios os partam, eram ambos tipos do grupo rival da outra ponta da lagoa, contra os quais tantas vezes nos juntáramos em manadas sorridentes à espera de captar a atenção das fêmeas despreocupadas.
Dado que uma humilhação daquelas não podia ficar sem resposta, convocámos uma reunião de emergência para resolver a crise. À mesa do restaurante, decidimos que a única forma de restaurar a nossa honra seria desafiá-los para uma jogatana de futebol. Eles aceitaram, embora tenham encarado o jogo com maior benevolência do que nós.
Eles julgaram estar a combinar uma peladinha, mal suspeitando que tinham acabado de receber uma declaração de guerra formal. Connosco não havia essas mariquices de organizar a equipa por posições no terreno. Não tínhamos pontas de lança ou médios ou defesas, tínhamos postos: havia um capitão que jogava à esquerda por ser canhoto, um major da GNR que ficava à baliza porque era gordo e preenchia melhor os espaços e um brigadeiro que ficava sempre à mama lá à frente.
Cada um dos grupos representava o restaurante que frequentava, pelo que até conseguimos uns patrocínios: uma garrafinha de Coca-Cola ou outro refrigerante à escolha no final da partida e a promessa de uma sessão festiva com discos do Júlio Iglésias a tocar a noite toda.
Jogar em representação de um estabelecimento comercial tornou as coisas mais sérias, pelo que era garantido que as miúdas se sentariam a ver a bola e, contagiadas pela nossa emoção, iriam aplaudir os ressaltos das nossas jogadas com o entusiasmo de um adepto ferrenho.
A final do campeonato do nosso mundo disputou-se numa extensa zona de areia molhada – o melhor campo de futebol que alguma vez pisei. Não éramos favoritos, longe disso, mas estámos tão dopados pela atenção das nossas meninas que fizemos um grande jogo. Os fracos empenharam-se e foram recompensados. Tal como o Chipre ontem à noite, marcámos no último minuto. O nosso golo foi conseguido com um remate desajeitado de canela, mas foi válido. Fomos solidários, guerreiros e nunca desistimos.
Obrigado, Chipre, pela alegria quase pura e inocente com que comemoraste um empate.