Arquivos mensais: Setembro 2010

→ 14/09/2010 @1:49

Razões para tanto silêncio

O que está verdadeiramente a empatar este blogue é o seguinte: a minha companheira dos últimos 14 anos, mãe dos meus dois filhos e a minha melhor amiga, descobriu que tem um cancro de mama mais ou menos na mesma altura em que fiquei sem trabalho. Daí este silêncio todo nos últimos tempos. Estou sem cabeça para nada. Já foi operada, correu tudo bem, mas como a biopsia revelou um tumor maligno é necessário fazer uma nova operação.

Estas últimas horas a Susana enfrentou, com coragem e muita dignidade, uma bateria de testes incómodos e dolorosos para determinar a progressão da doença. A médica encarregue de acompanhar psicologicamente as mulheres atingidas por esta praga procurou moralizar-nos, desdramatizando este tipo de cancro e garantindo-nos que a Ciência já sabe muito sobre como enfrentá-lo e vencê-lo. Estou convencido de que o tumor é local e que nem sequer será necessária quimioterapia, mas eu sou apenas um gajo a conduzir um camião TIR carregado de frases optimistas.

Os próximos dias serão decisivos. Enquanto esta indefinição pairar sobre as nossas vidas, sinto-me incapaz de actualizar o blogue.

→ 04/09/2010 @1:55

Futeloladas

Muita gente pensa que empatar 4 a 4 com o Chipre é uma vergonha. Eu acho comovente, se esquecermos o ponto de vista português. Quem jogou à bola na infância e adolescência sabe muito bem a importância de não perder com um grupo de vedetas.

Há muitos anos passei uns maravilhosos quinze dias de férias na Lagoa de Albufeira. Havia dois grupos rivais entre os rapazes que mergulhavam na lagoa, fumavam cigarros às escondidas, perseguiam lobos imaginários no mato, jogavam à bola e faziam olhinhos às raparigas: um dos grupos era formado pelos tipos que frequentavam o restaurante na ponta da lagoa mais afastada de nós. Seis ou sete putos formavam o meu grupo – éramos os mais novos.

Não tínhamos o caparro dos rivais, mas o que faltava em musculatura era compensado por muito paleio e firmeza de ânimo. Estas qualidades ajudavam a restabelecer o equilíbrio de forças entre os grupos quando se tratava de impressionar e cativar as miúdas. Dizia-se até que uns quantos de nós eram românticos e sonhadores, mas nunca foi possível confirmar a veracidade destes boatos.

A Lagoa de Albufeira é uma zona maravilhosa: à noite, afastados das luzes baças das cidades, aconchegados pela fogueira e pelo cobertor de estrelas, éramos realmente incentivados a sonhar. Pela primeira vez nas nossas vidas, adormecíamos nos braços do próprio Cosmos. As cervejas à socapa também ajudavam a fortalecer esta sensação.

Todos nos tornamos mais bonitos quando o rosto é pintado pela luz de uma fogueira e o corpo se mantém em permanente contacto com a Natureza. Aos nossos pés, a areia, selvagem; atrás, uma enorme extensão de mato cerrado que nos convidava a fazer filmes de Hollywood; à frente, a lagoa onde mergulhávamos os corpos suados; à direita, um imenso areal que desaguava num oceano tão rebelde como nós. A Lagoa de Albufeira oferecia-nos o campo e a praia num único local, e recordo-a quase como uma espécie de Lugar do Início da Ursula K. Le Guin.

Quanto aos tipos da outra ponta da lagoa, tínhamos umas contas a ajustar: alguns dias antes, um dos nossos aventurara-se a praticar Windsurf. Enquanto navegou a favor da corrente da lagoa foi um espectáculo: equilibrou-se na prancha com mais agilidade do que qualquer um de nós poderia ter conseguido. Na areia, as miúdas observavam o feito.

Quando finalmente tentou regressar, compreendeu a diferença entre navegar a favor da corrente e navegar contra a corrente: incapaz de sair do mesmo sítio, perdeu as forças e começou a ser arrastado em direcção ao mar. Uma das mãos mantinha-se firmemente agarrada ao mastro e a outra acenava em desespero, chamando-nos. Fazia lembrar um polícia sinaleiro tentando controlar o imenso tráfego dos ventos.

A oportunidade faz o ladrão e eu roubei a atenção das musas placidamente estendidas ao sol, levantando-me de imediato, dirigindo-me em passo de socorro na direcção de um pequeno bote. Peguei nos remos e naveguei com modos viris para resgatar o amigo em apuros.

Remar a favor da corrente é tão fácil que, a meio caminho, achei que seria canja rebocar amigo, prancha e vela de regresso à lânguida segurança da areia. Alcancei-o num instante – e tudo correu às mil maravilhas. Infelizmente, também acabei por perceber que existe uma enorme diferença entre remar a favor da corrente e remar contra. Após minutos de esforços desesperados e de matraquear a água com os remos, verifiquei que estávamos os dois a ser arrastados.

Enquanto andava em marcha-atrás para o oceano, fiquei sem saber o que fazer: deveria lutar contra a corrente como um super-herói de água doce ou engolir o orgulho e pedir ajuda? Estava a tentar resolver o dilema quando outro barco se aproximou de nós a uma velocidade impressionante.

Um dos tripulantes subiu para o meu barco e tomou os comandos; os outros dois carregaram a prancha. Os barcos romperam as correntes de água que momentos antes me estavam a querer romper os músculos. Os nossos salvadores nunca disseram nada, mas um sorriu a viagem quase toda.

E sim, raios os partam, eram ambos tipos do grupo rival da outra ponta da lagoa, contra os quais tantas vezes nos juntáramos em manadas sorridentes à espera de captar a atenção das fêmeas despreocupadas.

Dado que uma humilhação daquelas não podia ficar sem resposta, convocámos uma reunião de emergência para resolver a crise. À mesa do restaurante, decidimos que a única forma de restaurar a nossa honra seria desafiá-los para uma jogatana de futebol. Eles aceitaram, embora tenham encarado o jogo com maior benevolência do que nós.

Eles julgaram estar a combinar uma peladinha, mal suspeitando que tinham acabado de receber uma declaração de guerra formal. Connosco não havia essas mariquices de organizar a equipa por posições no terreno. Não tínhamos pontas de lança ou médios ou defesas, tínhamos postos: havia um capitão que jogava à esquerda por ser canhoto, um major da GNR que ficava à baliza porque era gordo e preenchia melhor os espaços e um brigadeiro que ficava sempre à mama lá à frente.

Cada um dos grupos representava o restaurante que frequentava, pelo que até conseguimos uns patrocínios: uma garrafinha de Coca-Cola ou outro refrigerante à escolha no final da partida e a promessa de uma sessão festiva com discos do Júlio Iglésias a tocar a noite toda.

Jogar em representação de um estabelecimento comercial tornou as coisas mais sérias, pelo que era garantido que as miúdas se sentariam a ver a bola e, contagiadas pela nossa emoção, iriam aplaudir os ressaltos das nossas jogadas com o entusiasmo de um adepto ferrenho.

A final do campeonato do nosso mundo disputou-se numa extensa zona de areia molhada – o melhor campo de futebol que alguma vez pisei. Não éramos favoritos, longe disso, mas estámos tão dopados pela atenção das nossas meninas que fizemos um grande jogo. Os fracos empenharam-se e foram recompensados. Tal como o Chipre ontem à noite, marcámos no último minuto. O nosso golo foi conseguido com um remate desajeitado de canela, mas foi válido. Fomos solidários, guerreiros e nunca desistimos.

Obrigado, Chipre, pela alegria quase pura e inocente com que comemoraste um empate.

→ 03/09/2010 @17:44

Radiohead: mais uma pequena e exemplar história

A 23 de Agosto de 2009, um grupo de fãs checos dos Radiohead filmou um concerto em Praga: a ideia era reunirem-se depois, juntar as múltiplas filmagens captadas pelas câmaras digitais, fazer a montagem e mostrar a banda sob o maior número possível de ângulos. Finalmente, um DVD seria feito e distribuído na Internet.

Os Radiohead souberam disto. Em vez de ameaçar os fãs com processos legais como fazem os mafiosos da RIAA, resolveram ajudar. E forneceram, sem exigir nada, a gravação do concerto registado pelo próprio equipamento de mistura da banda. Da decisão dos Radiohead em apadrinhar o projecto resultou uma qualidade sonora superior a qualquer gravação pirata. O concerto pode ser descarregado livremente em qualidade DVD ou visto no YouTube, dividido por temas. Link

→ 01/09/2010 @18:28

E agora, um post sobre Extraterrestres

Tina Turner

Um dia haveremos de encontrar evidências de vida extraterrestre, mas não nessas histórias de OVNIs que só servem para nos entreter os serões.

Já li muitas centenas de casos e nunca encontrei um que não pudesse ser explicado de forma racional: fenómenos atmosféricos pouco conhecidos, aviões, balões, planetas (sobretudo Vénus), simples brincadeiras ou mentiras. No entanto, o que não faltam neste mundo são profetas interplanetários e grupos proto-religiosos que não querem saber da Ciência para nada e só pretendem conquistar fiéis sem capacidade crítica.

Por exemplo, em Agosto de 1989, o Ministério da Defesa britânico recebeu várias chamadas de pessoas que afirmavam ter visto duas a três luzes no céu, luzes verdes, vermelhas e cor-de-laranja, oscilando e movendo-se da esquerda para a direita e em redor de si próprias de uma forma que nenhum engenho voador humano seria capaz de conseguir.

Eram OVNIs pilotados por homenzinhos verdes vindos do espaço exterior? Não. Eram as luzes laser de um concerto de Tina Turner. Inúmeros casos por resolver têm explicações tão triviais como esta, mas duvido que a verdade seja defendida por esses novos profetas. (Fonte)

Existem inúmeros vídeos no YouTube que os crentes no fenómeno OVNI poderão lançar-me à cara para me fazer engolir tais heresias, mas aposto que nem um se lembrará deste vídeo mostrando-nos um OVNI voando sobre Nova Iorque. Vejam-no.

Que tal? Impressionante! Ao contrário de outras filmagens do género, não existem imagens tremidas, borradas, maus enquadramentos, luzes difusas, enfim, todos esses truques que sugerem mais do que mostram. O OVNI é claramente visível.

Sugiro agora que vejam a continuação do mesmo vídeo, sobretudo na parte em que o operador de câmara faz zoom sobre o objecto voador. Vejam-no.

Que tal? Continua a ser impressionante, sobretudo pelo que a filmagem diz sobre nós e a nossa capacidade de ver apenas o que desejamos.

No dia em que descobrirmos que existe vida fora do nosso planeta estaremos perante uma descoberta tão importante como o fogo. Só precisamos de esquecer os ETs criados pelos seres humanos e seguirmos o melhor caminho possível, o da Astronomia.

Começámos a explorar o nosso planeta e a cruzar os oceanos porque os nossos conhecimentos astronómicos nos permitiram saber em que posição estávamos e para onde nos deveríamos dirigir.

Prefiro procurar respostas na Astronomia e no trabalho de centenas de astrónomos no mundo inteiro. Tal como os exploradores do passado, os astrónomos também se guiam pelas estrelas. Já descobrimos 402 estrelas com planetas e um total de 472 planetas exosolares no Cosmos. Não conseguimos ainda detectar planetas rochosos do tipo Terra porque são demasiado pequenos e ténues – mas vamos chegar lá, mais tarde ou mais cedo.

Há menos de uma semana, astrónomos usando o espectrógrafo HARPS descobriram um sistema planetário com cinco planetas em órbitas estáveis à volta da estrela HD 10180, uma estrela do mesmo tipo que o nosso Sol e que se encontra a 127 anos-luz de distância. Os cientistas acreditam que poderão existir mais dois planetas, sendo um deles o mais pequeno alguma vez descoberto. (Fonte)

A sonda Spirit fotografou uma porção da superfície de Marte – baptizaram-na de afloramento comanche – cuja composição química sugere que a água que outrora terá corrido no planeta vermelho não era tão ácida como pensávamos – logo, aumentam as hipóteses de há vários milhões de anos a vida ter surgido em algumas regiões de Marte. Só precisamos de descobrir fósseis marcianos. (Fonte)

No caminho que nos conduzirá à maior descoberta da História da Humanidade, prefiro acompanhar as maravilhas que nos revela a Astronomia do que as histórias da carochinha contadas pelos profetas dos OVNIs.

Dizer NÃO à taxa