Com a sua refutação do esquerdismo anarquista do passado, é intrigante que o chamado Pós-Anarquismo de Todd May, Bob Black, Hakim Bey e outros tantos se apresente como insurreccionista, assim reafirmando a sua descendência do niilismo russo, ou dizendo de outro modo, o seu ainda enquadramento na «moldura filosófica» do niilismo, com as bombas, pistolas, facas e artes de sabotagem deste.
Ainda que, é de acrescentar, por via de uma «releitura» de Nietzsche que vê no Super-Homem do pensador alemão o habitante da anarquia.
Se estes pós-anarquistas são, regra geral, fisicamente passivos (a maior parte deles são inofensivos professores catedráticos de filosofia, sociologia e politologia), pouco mais se insurgindo senão por via da palavra, não devemos surpreender-nos com a ascendência violenta de muitos dos conceitos por eles valorados. Afinal, a não-violência de Gandhi era uma forma de lidar com a violência.
Condenêmo-la ou não, a violência faz parte do percurso humano. Os Estados Unidos nasceram de uma guerra contra a colonial Grã-Bretanha e o federalismo americano foi confirmado e selado com a guerra civil entre o Norte e o Sul do país. Mas até posso dar um exemplo mais próximo: Portugal nasceu da insurgência armada de um filho contra a sua mãe. Porque não haveria o anarquismo de nascer de uma explosão?
Surge como niilista o seguinte pensamento do percussionista franco-vietnamita Lê Quan Ninh sobre a prática da improvisação musical, ele que é um dos poucos improvisadores que refletem sobre a sua atividade e um dos mais raros ainda que, pela sua identificação como anarquista, assumem o carácter libertário desta abordagem da música…
«Deve haver um espírito de contradição, um infantilismo, uma recusa da obediência. É preciso contradizer a todo o custo, mesmo contradizer o que se contradiz, afirmando algo e o seu contrário. Improvisar é poder tocar uma coisa e o seu inverso na travessia do instante. Quando o instante começa – na realidade existe desde sempre – o gesto que se segue e que forma a intuição é justo, mas perde a sua justeza quando o instante termina – ainda que na verdade continue. O que é justo contradiz o que era justo, e isto no mesmo momento. A disciplina do improvisador é viver essa justeza que se contradiz.»
Em livro que Ninh publicou em 2010, com o título «Improviser Librement – Abécédaire d’une Expérience», percebe-se que o que acima se lê foi mediado pela influência da Internacional Situacionista, para todos os efeitos a mesma que é reconhecida pelo Pós-Anarquismo, mas o fundamento, ou melhor, a origem pensante, é sem dúvida niilista.
Internacional Circunstancialista
O músico substitui apenas o conceito de «situação» pelo de «circunstância», o que é perfeitamente compreensível: Guy Débord partira da observação do urbanismo e da arquitectura (sendo esta, como dizia Xenakis, «música congelada»), enquanto Ninh o faz da música composta no preciso momento em que é executada.
«Nada substitui a examinação das circunstâncias presentes, a experiência do instante que é a experiência do fluxo do seu aparecimento e do seu desaparecimento. Se podemos conceptualmente considerar o conjunto dessas circunstâncias como terminado, ou seja, como passível de ser inventariado, os movimentos no seio – ou entre – (d)essas circunstâncias tornam tal tarefa impossível: não podemos descrever o voo do pássaro senão tornando-nos no pássaro que voa. Aceitar as circunstâncias é aceitar o movimento permanente que as anima.»
Mas atenção… Na entrada «Anarquia» do mesmo livro, Lê Quan Ninh faz notar o que agora aqui se reproduz:
«Tornarmo-nos proprietários do momento presente é um roubo. Querer apropriar-nos do cometimento dos outros é um roubo. Pretender garantir um bom desenvolvimento da improvisação por meio de restrições é usurpação. Impor uma direcção pelo uso de uma obstrução deliberada é coerção. Não confiar no estado do instante e substituí-lo pela sua vontade é já tomar o poder. Por mais genérico que seja o rótulo “improvisação livre”, não poderíamos senão questionar o termo “livre” e, em consequência, o aspecto libertário desta prática. Creio profundamente que esta realiza de maneira muito concreta a posição de Mikhail Bakunine na sua mais conhecida citação: “A liberdade dos outros prolonga a minha até ao infinito.”»
Por outras palavras, o que Ninh advoga tem duas vertentes: aceitar a realidade tal como esta se nos apresenta, ignorando construções morais e intelectuais predeterminadas, é a pedra-base do posicionamento niilista. Fazer escolhas a partir daí leva o niilismo perceptivo em direcção à anarquia tal como a entendemos hoje, um processo que demorou dois séculos a sedimentar-se, mas que em cada um de nós – é o que fazem os improvisadores – pode ter expressão no curtíssimo intervalo de dois segundos, entre enfrentar-se uma circunstância e tomar-se uma decisão.
Perceção e liberdade
O niilismo é uma funcionalidade da perceção; o anarquismo, acima de tudo o mais, é uma questão ética. A negatividade «bombista» (o que qualquer circunstância traz em si de entrópico) converte-se num positivo, seja o pensamento crítico (o ensaísmo de May, Black, Bey…) ou a acção militante (o movimento Occupy, p. ex.).
«As minhas capacidades percetivas são a minha liberdade. É por elas que me posso mover no espaço das minhas sensações, que posso compreender a complexidade do real e tentar estabelecer um caminho entre cada um dos seus elementos. Quanto mais abro a minha aptitude para os entender, mais abro o real», acrescenta Ninh.
Ora, o real não é por si mesmo válido ou inválido; é o que é, simplesmente, como gosta de repetir um outro improvisador, o saxofonista de jazz Joe Giardullo.
Os niilistas russos faziam isso mesmo, mas a urgência dos seus atentados fez com que a pulsão destruidora não fosse também um impulso criador. O seu modo interventivo era exclusivamente uma recusa; nada tinham a oferecer que pudesse ser edificado no lugar da cratera aberta pela dinamite.
O método de racionalização niilista tornou-se anarquista, e tornou-se um pensamento de facto, com o aprofundamento das suas premissas, o que só aconteceu quando a rapidez da acção – talvez por esta ver repetidamente gorados os seus intuitos – permitiu que se parasse e refletisse. Essa pausa foi fundamental, até, para uma melhor compreensão da instantaneidade na música improvisada, ainda que essa reflexão seja, para todos os efeitos, um apriorismo da performance improvisacional.
Niilistas dos primórdios como Karakozov, Grineveckij, Zhelyabov, Rysakov, Perovsky, Kibalchich e Mikhaylov estavam equivocados numa particularidade. O poder não tem um centro, não está na figura do Czar nem na do camarada-presidente do Politburo – os niilistas combateram ambos e acabaram mal: pendurados.
É, pelo menos, irónico que o romance de um niilista, «O Que Há a Fazer?» (1863), de Nikolai Chemyshevsky, tenha inspirado Lenine e a Revolução de Outubro, sabendo-se que mais tarde este condenaria outros niilistas aos mesmos destinos utilizados pelos czares para quem queria rebentar com eles: a Sibéria e a forca.
O poder funciona, isso sim, em rede, e esta foi-se disseminando rizomaticamente conforme a evolução dos sistemas económico-políticos, fosse o do quase deposto socialismo de Estado (falta que caiam a Coreia do Norte e Cuba, sendo a bipolar China um caso à parte) como o do capitalismo neoliberal dos nossos dias, abrangendo todas as dimensões da sociedade, da pública à mais privada.
Deus é uma árvore
O que os pós-anarquistas dizem sobre os presentes movimentos sociais não é, assim, muito diferente do que Lê Quan Ninh afirma sobre a música que lhe interessa criar: «Improvisar livremente é não ser ajudado, nem por Mozart, nem por Beethoven, nem por Stockhausen, nem mesmo pelo indeterminista Cage ou por qualquer texto que especifique um modo de emprego e uma cronologia.»
É, aliás, por esse motivo que o Pós-Anarquismo anda às avessas com o anarquismo histórico: o primeiro é (pretende ser) tendencialmente anti-ideológico, enquanto o outro se converteu numa doutrina, inclusive quando assegurava que não era esse o seu propósito.
Estamos, no entanto, a pisar terreno pantanoso. Chegou-se já à conclusão que o niilismo, hoje, pode ser conciliável até com a fé religiosa, «desde que não se confunda a nossa interpretação da realidade com a própria realidade» (no entender de um ativista da Net que se apresenta como Vijay Prozak, com certeza que um pseudónimo).
Isto porque, como argumenta o mesmo autor, este novo crente niilista-anarquista é um «transcendentalista» que «encontrou a fonte do seu espiritualismo na organização do mundo físico e do seu estado mental». De tal modo que, quando alguém lhe fala em Deus, pensa não numa entidade abstrata e invisível, mas «nos padrões desenhados na madeira das árvores».
Deste ponto de vista, o anarquismo pode pacificamente entender-se como uma ideologia, na condição de que o niilismo metódico que há em si (podemos também chamar-lhe cepticismo) coloque essa sua condição permanentemente em causa…
Este cenário é bem diferente daquele concebido por Dostoievsky após a sua conversão ao cristianismo ortodoxo. Em «Crime e Castigo» percebe-se até que ponto o escritor se equivocou relativamente à postura niilista. Ao crime segue-se a redenção, não o castigo.
Já Nietzsche, que nem sequer via com bons olhos os anarquistas do seu tempo, acertou ao perceber que «nada tem sentido». Essa é precisamente a condição para que nós, seres humanos, possamos construir o sentido das coisas, tal como nos é transmitido pela sua intrínseca realidade.
O filósofo mais admirado pelo nazi-fascismo era, afinal, um anarca? Pois, uma bomba e um tambor, instrumento afirmativo e impositivo que Lê Quan Ninh utiliza – com objetos como pinhas, esferovite e barras de ferro, tanto quanto com as convencionais baquetas – de outra forma.
De forma «a não me sentir obrigado, a não reagir, a fundir-me com o fluxo da escuta»… É esse o insurreccionismo da música improvisada.












um texto para se ler várias vezes… ótimo