→ 09/08/2012 @17:23

O efeito da bomba em Lê Quan Ninh

Com a sua re­fu­ta­ção do es­quer­dismo anar­quista do pas­sado, é in­tri­gante que o cha­mado Pós-Anarquismo de Todd May, Bob Black, Hakim Bey e ou­tros tan­tos se apre­sente como in­sur­rec­ci­o­nista, as­sim re­a­fir­mando a sua des­cen­dên­cia do ni­i­lismo russo, ou di­zendo de ou­tro modo, o seu ainda en­qua­dra­mento na «mol­dura fi­lo­só­fica» do ni­i­lismo, com as bom­bas, pis­to­las, fa­cas e ar­tes de sa­bo­ta­gem deste.

Ainda que, é de acres­cen­tar, por via de uma «re­lei­tura» de Nietzsche que vê no Super-Homem do pen­sa­dor ale­mão o ha­bi­tante da anarquia.

Se es­tes pós-anarquistas são, re­gra ge­ral, fi­si­ca­mente pas­si­vos (a maior parte de­les são ino­fen­si­vos pro­fes­so­res ca­te­drá­ti­cos de fi­lo­so­fia, so­ci­o­lo­gia e po­li­to­lo­gia), pouco mais se in­sur­gindo se­não por via da pa­la­vra, não de­ve­mos surpreender-nos com a as­cen­dên­cia vi­o­lenta de mui­tos dos con­cei­tos por eles va­lo­ra­dos. Afinal, a não-violência de Gandhi era uma forma de li­dar com a violência.

Condenêmo-la ou não, a vi­o­lên­cia faz parte do per­curso hu­mano. Os Estados Unidos nas­ce­ram de uma guerra con­tra a co­lo­nial Grã-Bretanha e o fe­de­ra­lismo ame­ri­cano foi con­fir­mado e se­lado com a guerra ci­vil en­tre o Norte e o Sul do país. Mas até posso dar um exem­plo mais pró­ximo: Portugal nas­ceu da in­sur­gên­cia ar­mada de um fi­lho con­tra a sua mãe. Porque não ha­ve­ria o anar­quismo de nas­cer de uma explosão?

Surge como ni­i­lista o se­guinte pen­sa­mento do per­cus­si­o­nista franco-vietnamita Lê Quan Ninh so­bre a prá­tica da im­pro­vi­sa­ção mu­si­cal, ele que é um dos pou­cos im­pro­vi­sa­do­res que re­fle­tem so­bre a sua ati­vi­dade e um dos mais ra­ros ainda que, pela sua iden­ti­fi­ca­ção como anar­quista, as­su­mem o ca­rác­ter li­ber­tá­rio desta abor­da­gem da música…

«Deve ha­ver um es­pí­rito de con­tra­di­ção, um in­fan­ti­lismo, uma re­cusa da obe­di­ên­cia. É pre­ciso con­tra­di­zer a todo o custo, mesmo con­tra­di­zer o que se con­tra­diz, afir­mando algo e o seu con­trá­rio. Improvisar é po­der to­car uma coisa e o seu in­verso na tra­ves­sia do ins­tante. Quando o ins­tante co­meça – na re­a­li­dade existe desde sem­pre – o gesto que se se­gue e que forma a in­tui­ção é justo, mas perde a sua jus­teza quando o ins­tante ter­mina – ainda que na ver­dade con­ti­nue. O que é justo con­tra­diz o que era justo, e isto no mesmo mo­mento. A dis­ci­plina do im­pro­vi­sa­dor é vi­ver essa jus­teza que se con­tra­diz.»

Em li­vro que Ninh pu­bli­cou em 2010, com o tí­tulo «Improviser Librement – Abécédaire d’une Expérience», percebe-se que o que acima se lê foi me­di­ado pela in­fluên­cia da Internacional Situacionista, para to­dos os efei­tos a mesma que é re­co­nhe­cida pelo Pós-Anarquismo, mas o fun­da­mento, ou me­lhor, a ori­gem pen­sante, é sem dú­vida niilista.

 

Internacional Circunstancialista

O mú­sico subs­ti­tui ape­nas o con­ceito de «si­tu­a­ção» pelo de «cir­cuns­tân­cia», o que é per­fei­ta­mente com­pre­en­sí­vel: Guy Débord par­tira da ob­ser­va­ção do ur­ba­nismo e da ar­qui­tec­tura (sendo esta, como di­zia Xenakis, «mú­sica con­ge­lada»), en­quanto Ninh o faz da mú­sica com­posta no pre­ciso mo­mento em que é executada.

«Nada subs­ti­tui a exa­mi­na­ção das cir­cuns­tân­cias pre­sen­tes, a ex­pe­ri­ên­cia do ins­tante que é a ex­pe­ri­ên­cia do fluxo do seu apa­re­ci­mento e do seu de­sa­pa­re­ci­mento. Se po­de­mos con­cep­tu­al­mente con­si­de­rar o con­junto des­sas cir­cuns­tân­cias como ter­mi­nado, ou seja, como pas­sí­vel de ser in­ven­ta­ri­ado, os mo­vi­men­tos no seio – ou en­tre – (d)essas cir­cuns­tân­cias tor­nam tal ta­refa im­pos­sí­vel: não po­de­mos des­cre­ver o voo do pás­saro se­não tornando-nos no pás­saro que voa. Aceitar as cir­cuns­tân­cias é acei­tar o mo­vi­mento per­ma­nente que as anima.»

Mas aten­ção… Na en­trada «Anarquia» do mesmo li­vro, Lê Quan Ninh faz no­tar o que agora aqui se reproduz:

«Tornarmo-nos pro­pri­e­tá­rios do mo­mento pre­sente é um roubo. Querer apropriar-nos do co­me­ti­mento dos ou­tros é um roubo. Pretender ga­ran­tir um bom de­sen­vol­vi­mento da im­pro­vi­sa­ção por meio de res­tri­ções é usur­pa­ção. Impor uma di­rec­ção pelo uso de uma obs­tru­ção de­li­be­rada é co­er­ção. Não con­fiar no es­tado do ins­tante e substituí-lo pela sua von­tade é já to­mar o po­der. Por mais ge­né­rico que seja o ró­tulo “im­pro­vi­sa­ção li­vre”, não po­de­ría­mos se­não ques­ti­o­nar o termo “li­vre” e, em con­sequên­cia, o as­pecto li­ber­tá­rio desta prá­tica. Creio pro­fun­da­mente que esta re­a­liza de ma­neira muito con­creta a po­si­ção de Mikhail Bakunine na sua mais co­nhe­cida ci­ta­ção: “A li­ber­dade dos ou­tros pro­longa a mi­nha até ao in­fi­nito.”»

Por ou­tras pa­la­vras, o que Ninh ad­voga tem duas ver­ten­tes: acei­tar a re­a­li­dade tal como esta se nos apre­senta, ig­no­rando cons­tru­ções mo­rais e in­te­lec­tu­ais pre­de­ter­mi­na­das, é a pedra-base do po­si­ci­o­na­mento ni­i­lista. Fazer es­co­lhas a par­tir daí leva o ni­i­lismo per­cep­tivo em di­rec­ção à anar­quia tal como a en­ten­de­mos hoje, um pro­cesso que de­mo­rou dois sé­cu­los a sedimentar-se, mas que em cada um de nós – é o que fa­zem os im­pro­vi­sa­do­res – pode ter ex­pres­são no cur­tís­simo in­ter­valo de dois se­gun­dos, en­tre enfrentar-se uma cir­cuns­tân­cia e tomar-se uma decisão.

 

Perceção e liberdade

Friedrich Nietzsche, por ThorStrongStone


O ni­i­lismo é uma fun­ci­o­na­li­dade da per­ce­ção; o anar­quismo, acima de tudo o mais, é uma ques­tão ética. A ne­ga­ti­vi­dade «bom­bista» (o que qual­quer cir­cuns­tân­cia traz em si de en­tró­pico) converte-se num po­si­tivo, seja o pen­sa­mento crí­tico (o en­saísmo de May, Black, Bey…) ou a ac­ção mi­li­tante (o mo­vi­mento Occupy, p. ex.).

«As mi­nhas ca­pa­ci­da­des per­ce­ti­vas são a mi­nha li­ber­dade. É por elas que me posso mo­ver no es­paço das mi­nhas sen­sa­ções, que posso com­pre­en­der a com­ple­xi­dade do real e ten­tar es­ta­be­le­cer um ca­mi­nho en­tre cada um dos seus ele­men­tos. Quanto mais abro a mi­nha ap­ti­tude para os en­ten­der, mais abro o real», acres­centa Ninh.

Ora, o real não é por si mesmo vá­lido ou in­vá­lido; é o que é, sim­ples­mente, como gosta de re­pe­tir um ou­tro im­pro­vi­sa­dor, o sa­xo­fo­nista de jazz Joe Giardullo.

Os ni­i­lis­tas rus­sos fa­ziam isso mesmo, mas a ur­gên­cia dos seus aten­ta­dos fez com que a pul­são des­trui­dora não fosse tam­bém um im­pulso cri­a­dor. O seu modo in­ter­ven­tivo era ex­clu­si­va­mente uma re­cusa; nada ti­nham a ofe­re­cer que pu­desse ser edi­fi­cado no lu­gar da cra­tera aberta pela dinamite.

O mé­todo de ra­ci­o­na­li­za­ção ni­i­lista tornou-se anar­quista, e tornou-se um pen­sa­mento de facto, com o apro­fun­da­mento das suas pre­mis­sas, o que só acon­te­ceu quando a ra­pi­dez da ac­ção – tal­vez por esta ver re­pe­ti­da­mente go­ra­dos os seus in­tui­tos – per­mi­tiu que se pa­rasse e re­fle­tisse. Essa pausa foi fun­da­men­tal, até, para uma me­lhor com­pre­en­são da ins­tan­ta­nei­dade na mú­sica im­pro­vi­sada, ainda que essa re­fle­xão seja, para to­dos os efei­tos, um apri­o­rismo da per­for­mance improvisacional.

Niilistas dos pri­mór­dios como Karakozov,  Grineveckij, Zhelyabov, Rysakov, Perovsky, Kibalchich e Mikhaylov es­ta­vam equi­vo­ca­dos numa par­ti­cu­la­ri­dade. O po­der não tem um cen­tro, não está na fi­gura do Czar nem na do camarada-presidente do Politburo – os ni­i­lis­tas com­ba­te­ram am­bos e aca­ba­ram mal: pendurados.

É, pelo me­nos, iró­nico que o ro­mance de um ni­i­lista, «O Que Há a Fazer?» (1863), de Nikolai Chemyshevsky, te­nha ins­pi­rado Lenine e a Revolução de Outubro, sabendo-se que mais tarde este con­de­na­ria ou­tros ni­i­lis­tas aos mes­mos des­ti­nos uti­li­za­dos pe­los cza­res para quem que­ria re­ben­tar com eles: a Sibéria e a forca.

O po­der fun­ci­ona, isso sim, em rede, e esta foi-se dis­se­mi­nando ri­zo­ma­ti­ca­mente con­forme a evo­lu­ção dos sis­te­mas económico-políticos, fosse o do quase de­posto so­ci­a­lismo de Estado (falta que caiam a Coreia do Norte e Cuba, sendo a bi­po­lar China um caso à parte) como o do ca­pi­ta­lismo ne­o­li­be­ral dos nos­sos dias, abran­gendo to­das as di­men­sões da so­ci­e­dade, da pú­blica à mais privada.

 

Deus é uma árvore

O que os pós-anarquistas di­zem so­bre os pre­sen­tes mo­vi­men­tos so­ci­ais não é, as­sim, muito di­fe­rente do que Lê Quan Ninh afirma so­bre a mú­sica que lhe in­te­ressa criar: «Improvisar li­vre­mente é não ser aju­dado, nem por Mozart, nem por Beethoven, nem por Stockhausen, nem mesmo pelo in­de­ter­mi­nista Cage ou por qual­quer texto que es­pe­ci­fi­que um modo de em­prego e uma cro­no­lo­gia.»

É, aliás, por esse mo­tivo que o Pós-Anarquismo anda às aves­sas com o anar­quismo his­tó­rico: o pri­meiro é (pre­tende ser) ten­den­ci­al­mente anti-ideológico, en­quanto o ou­tro se con­ver­teu numa dou­trina, in­clu­sive quando as­se­gu­rava que não era esse o seu propósito.

Estamos, no en­tanto, a pi­sar ter­reno pan­ta­noso. Chegou-se já à con­clu­são que o ni­i­lismo, hoje, pode ser con­ci­liá­vel até com a fé re­li­gi­osa, «desde que não se con­funda a nossa in­ter­pre­ta­ção da re­a­li­dade com a pró­pria re­a­li­dade» (no en­ten­der de um ati­vista da Net que se apre­senta como Vijay Prozak, com cer­teza que um pseudónimo).

Isto por­que, como ar­gu­menta o mesmo au­tor, este novo crente niilista-anarquista é um «trans­cen­den­ta­lista» que «en­con­trou a fonte do seu es­pi­ri­tu­a­lismo na or­ga­ni­za­ção do mundo fí­sico e do seu es­tado men­tal». De tal modo que, quando al­guém lhe fala em Deus, pensa não numa en­ti­dade abs­trata e in­vi­sí­vel, mas «nos pa­drões de­se­nha­dos na ma­deira das ár­vo­res».

Deste ponto de vista, o anar­quismo pode pa­ci­fi­ca­mente entender-se como uma ide­o­lo­gia, na con­di­ção de que o ni­i­lismo me­tó­dico que há em si (po­de­mos tam­bém chamar-lhe cep­ti­cismo) co­lo­que essa sua con­di­ção per­ma­nen­te­mente em causa…

Este ce­ná­rio é bem di­fe­rente da­quele con­ce­bido por Dostoievsky após a sua con­ver­são ao cris­ti­a­nismo or­to­doxo. Em «Crime e Castigo» percebe-se até que ponto o es­cri­tor se equi­vo­cou re­la­ti­va­mente à pos­tura ni­i­lista. Ao crime segue-se a re­den­ção, não o castigo.

Já Nietzsche, que nem se­quer via com bons olhos os anar­quis­tas do seu tempo, acer­tou ao per­ce­ber que «nada tem sen­tido». Essa é pre­ci­sa­mente a con­di­ção para que nós, se­res hu­ma­nos, pos­sa­mos cons­truir o sen­tido das coi­sas, tal como nos é trans­mi­tido pela sua in­trín­seca realidade.

O fi­ló­sofo mais ad­mi­rado pelo nazi-fascismo era, afi­nal, um anarca? Pois, uma bomba e um tam­bor, ins­tru­mento afir­ma­tivo e im­po­si­tivo que Lê Quan Ninh uti­liza – com ob­je­tos como pi­nhas, es­fe­ro­vite e bar­ras de ferro, tanto quanto com as con­ven­ci­o­nais ba­que­tas – de ou­tra forma.

De forma «a não me sen­tir obri­gado, a não re­a­gir, a fundir-me com o fluxo da es­cuta»… É esse o in­sur­rec­ci­o­nismo da mú­sica improvisada.

Um comentário

  1. rabicó de cut — 09/08/2012 @18:51 (3 comentários)

    um texto para se ler vá­rias ve­zes… ótimo