Os últimos dias de Hitler

Só ontem tive oportunidade de ver o filme do cineasta alemão Oliver Hirschbiegel, «A Queda – Hitler e o fim do III Reich», realizado em 2004. O filme retrata os últimos doze dias da vida do ditador nazi, encerrado num bunker de uma Berlim em ruínas, cercada pelos russos e já irremediavelmente perdida.

Os últimos dias de Hitler

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A Queda provocou polémica na Alemanha porque algumas pessoas consideraram que este Hitler (interpretado pelo magnífico Bruno Ganz) estava demasiado «humanizado» – uma polémica pateta, pois Hitler, que eu saiba, não era extraterrestre.

Pode dar jeito vê-lo como um monstro extraterrestre porque assim evitamos encarar o nazismo como uma tragédia da condição humana e passamos a vê-lo como uma doença exclusivamente alemã. Se o Hitler deste filme fosse apenas esse monstro, olhá-lo-íamos com a complacência de quem vê no ecrã um tipo inequivocamente mau, como o Imperador Palpatine de A Guerra das Estrelas; Oliver Hirschbiegel prefere mostrá-lo como ser humano – o que é muito mais chocante, pois força-nos a considerar a aterradora possibilidade de o tal monstro que lhe devorou a humanidade existir potencialmente em nós à espera de ser acordado pelo fanatismo ideológico, ignorância, incompreensão ou racismo. Só por esta abordagem – e pela soberba caracterização de Bruno Ganz, um assombro de actor – é um filme tremendo.

Mas A Queda torna-se realmente inesquecível pela cena em que nos mostra Magda Goebbels, mulher do ministro da Propaganda Josef Goebbels, a matar os seus seis filhos, também encerrados no bunker, com cápsulas de cianeto. Por que razão o fez? «Porque não suporto a ideia de que as minhas crianças vivam num mundo sem o Nazismo», explica ela, de lágrimas nos olhos, «com o coração cheio de dor». As crianças são drogadas de forma a adormecerem profundamente e é a própria mãe que depois lhes enfia a cápsula na boca – fá-lo com a mesma fria e burocrática metodologia dos campos de extermínio, matando-as uma a uma, sem hesitar, sempre com os mesmos gestos. Vejam portanto o nível de perversão a que pode conduzir o fanatismo, capaz de transformar, aos olhos do assassino, um crime hediondo num acto de amor.

É um filme difícil, muitas vezes angustiante, não é uma obra-prima do cinema, mas tem uma abordagem realista e corajosa, excelentes actores, vejam-no.

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Marco Santos

Marco Santos

Jornalista @Sapo. Blogger @Bitaites. Pai em todo o lado.