
Dresden: antes e depois dos bombardeamentos
Às dez da noite do dia 13 de fevereiro de 1945 (no momento em que escrevo: há exatamente 68 anos, 23 horas e 59 segundos), uma bomba de marcação — os ingleses chamavam-lhe «Pink Pansy» — cai sobre a cidade alemã de Dresden.
15 minutos depois do fogo de artifício sinalizador da Pink Pansy, chega a primeira vaga de ataque: bombardeiros Avro Lancaster largam centenas de bombas – a maior parte explosivos recheados de fósforo e magnésio, substâncias altamente incendiárias. O que não fica destruído pelo impacto direto das explosões é queimado pelos gigantescos incêndios que aquelas provocam. As chamas são visíveis a 50 quilómetros de distância.
À 1 e 23 da madrugada chega a segunda vaga de bombardeiros britânicos. Uma área de 15 quilómetros quadrados já está a arder. Há cada vez menos oxigénio para respirar e os que escaparam às explosões e às chamas morrem sufocados. Às 12 horas e 19 minutos de 14 de fevereiro chegam os bombardeiros americanos com mais bombas carregadas de fósforo e magnésio.

Foto: Hans-Joachim Dietze
Durante 48 horas – entre 13 e 15 de fevereiro; ingleses de noite, americanos durante o dia – 722 bombardeiros da Royal Air Force (RAF) e 527 fortalezas voadoras B-17 da United States Army Air Forces (USAAF) largam mais de 3900 toneladas de explosivos.
A temperatura do ar na zona dos incêndios eleva-se aos 1500 graus centígrados. 35 quilómetros quadrados da cidade estão devastados. 90 por cento das 28 mil habitações no aglomerado urbano desaparecem. 22 hospitais destruídos.
Nos sete dias seguintes Dresden apenas arde, incapaz sequer de identificar as sombras minguadas feitas de cinza e entulho espalhadas pelas ruas e que ainda há poucos dias tinham sido seres humanos. «Dresden agora é como a Lua», escreveu Kurt Vonnegut.
Holocausto


Dresden, 13 de fevereiro de 2013: neonazis homenageiam as vítimas do bombardeamento aliado, enquanto a esquerda alemã se insurge contra a sua presença. Os grupos tiveram de ser separados pela polícia de choque. (Fotos: Robert Michael)
Ninguém sabe quantas pessoas estão mortas entre os escombros, mas a propaganda nazi usa a destruição da cidade para incitar o orgulho alemão e prolongar a guerra de suicida resistência ao invasor: a oeste, as forças aliadas; a este, o Exército Vermelho.
O ministro da Propaganda do Reich Joseph Goebbels começa por referir 300 mil mortos numa comunicação via rádio, mas o número oficial fixa-se nos 200 mil. Nas décadas seguintes – hoje em dia o erro ainda persiste –, é comum ler-se que 135 mil perderam a vida em Dresden.
O número foi adiantado no best-seller de 1963 «Apocalypse 1945 — The Destruction of Dresden», do escritor inglês David Irving.
Irving é muitas vezes denunciado pela simpatia em relação aos nazis e por defender que o genocídio dos judeus durante a II Guerra Mundial não aconteceu com as catastróficas proporções historicamente reconhecidas.

Foto: Walter Hahn
O oficial alemão encarregue de gerir as equipas de limpeza que trabalharam na recolha de corpos – as Aufräumungsstab – lê o livro de Irving e escreve-lhe em 1965 uma carta explicando que no máximo terão morrido 30 mil, mas o autor ignora este testemunho e mantém o cálculo em edições posteriores.
Finalmente, em 2010, uma investigação do município de Dresden feita por professores universitários e historiadores militares determina o número real em 18 mil e encontra o relatório original feito pela equipa de Miller, descobrindo que a estimativa sempre se situou entre os 20 e 25 mil.
«20, 25, 40, 135 mil, tudo isso acaba por ser irrelevante» — escreve Miller na carta enviada ao negacionista do Holocausto Irving. – «Alguém consegue ter a noção do que é ter 40 mil mortos? Se os colocássemos em linha reta, pé com cabeça, cabeça com pé, teriam formado uma fila de 67 quilómetros. O distrito no centro de Dresden tinha uma dimensão de 12 quilómetros! Para os sobreviventes assustados, as ruas da cidade estavam inundadas de cadáveres».
O bombardeamento de Dresden é tido como um ato indigno, desnecessário e criminoso por parte de EUA e Grã-Bretanha. Grupos neo-nazis comparam-no ao holocausto dos judeus e defendem um número muito superior de mortos: entre 500 mil e 1 milhão de pessoas. A história do ataque a Dresden, como se verá, não é assim tão linear.
Inútil Bondade

Richard Peter, Blick vom Rathaussturm, Dresden, 1945
O fotógrafo Richard Peter desloca-se a Dresden em setembro de 1945 – este veterano da I Guerra Mundial mantém na cidade um estúdio de fotografia, mas descobre que também foi destruído pelos bombardeamentos.
Com a queda do III Reich, Peter pode finalmente trabalhar como repórter fotográfico: a filiação ao Partido Comunista e as duas décadas que passou a trabalhar para publicações de esquerda na Alemanha não são esquecidas pelos nazis quando em 1933 sobem ao poder: proibido de exercer a sua profissão, passa a trabalhar sobretudo em publicidade.
O fotógrafo pede uma câmara emprestada e capta pela primeira vez a verdadeira dimensão das ruína em que se tornou a «Florença no Elba», designação pela qual a beleza de Dresden era celebrada: para Peter e qualquer outra pessoa que lá tenha estado teria sido mesquinho perder-se tanto tempo a discutir o número de mortes – uma tragédia é sempre uma tragédia, morram duas, 20, 20 mil ou 200 mil pessoas.
Por isso Richard Peter fotografa tudo, as pequenas e as grandes tragédias: o cadáver carbonizado de uma mãe debruçada sobre o berço do seu bebé; um soldado onde a única marca de identidade que sobrevive é o pano da suástica colado ao que antes tinha sido um braço; pilhas de corpos nas ruas; as ossadas dos edifícios.
A 1 de janeiro de 1946, juntamente com outro fotógrafo, Walter Hahn, sobe à torre do município de Dresden e tira uma fotografia imortal: uma panorâmica do centro histórico de Dresden com a escultura de August Schreitmüller – Die Gute, «A Bondade» — contemplando a devastação.
A escultura de Schreitmüller contempla a cidade e nada pode fazer, petrificada para sempre num gesto inútil de proteção e benevolência – lembra um anjo da guarda do filme de Wim Wenders, «As Asas do Desejo». À exceção, talvez, da fotografia de Emmanuil Evzerikhin da fonte Barmaley, em Estalinegrado, nunca uma imagem tinha sido capaz de nos mostrar uma relação tão visceral entre uma obra de arte e o ambiente que a rodeia.
Richard Peter reúne todas as fotos em livro: «Dresden, a Camera Accuses». O mundo não esquecerá sobretudo aquela foto; e muitos querem saber por que razão se destruiu uma cidade de um império de mil anos cercado por todos os lados e a poucos meses de se desmoronar.
Bombardeiro Harris
32 anos depois do fim da guerra, um dos protagonistas do bombardeamento de Dresden é convidado a examinar as suas ações do passado: «Se eu tivesse de fazer tudo outra vez, fazia-o» — responde o marechal-do-ar Arthur Harris, referindo-se ao bombardeamento de Dresden. – «Mas espero nunca fazê-lo». O vídeo da entrevista é filmado em 1977, mas revelado publicamente apenas este ano. Harris morre em 1984, com 91 anos.
50 anos depois de Dresden, ignorando os protestos de alguns políticos alemães, Isabel, a rainha-mãe, preside em Londres às cerimónias de descerramento de uma estátua em honra do «Bombardeiro Harris», como é vulgarmente conhecido o marechal.
Durante muito tempo a estátua terá de ser guardada pela polícia, pois muitos querem danificá-la. Estes são os que defendem que Harris é um criminoso de guerra devido à decisão de bombardear Dresden e incinerar milhares de civis.
O «Bombardeiro Harris» é, em 1945, o chefe do comando de bombardeiros da RAF e um grande defensor da estratégia de cobrir as cidades alemãs com um tapete de bombas. Zomba frequentemente do tipo de estratégia defendida pelos americanos, defensores de bombardeamentos de precisão.
A importância da Força Aérea e da «estratégia do terror» não é novidade para ninguém em 1945. Em 1921, o chefe do corpo de aviação italiano, Giulio Douhet, que além de militar é poeta e escritor de peças de teatro, publica um livro onde partilha a sua visão da guerra do futuro: «Todos os cidadãos das nações em guerra se tornarão combatentes, dado que todos estarão expostos à ofensiva aérea do inimigo. Não haverá distinção entre soldados e civis.» Adolf Hitler é um leitor atento do livro de Douhet, mas não é o único.
Hugh Trenchard, o homem que arquitetou a Royal Air Force e cujo comando de bombardeiros pertencerá a Harris anos mais tarde, defende em 1931 que é «na destruição do poder industrial do inimigo e, acima de tudo, pelo abaixamento da moral causada pelos bombardeamentos que reside o segredo da vitória».
Em 1934, o principal teórico do Partido Nazi, Alfred Rosenberg, defende que «a guerra do futuro será travada sob o estandarte das frotas aéreas – e envolverá toda a nação numa luta pela sobrevivência».
Mal termina a I Guerra e já o mundo sabe como irá travar a próxima – Harris não inventou nada, limitou-se a seguir um programa com mais de vinte anos de existência.
Não admira por isso que quando o porta-voz da RAF se reúne com os jornalistas para lhes comunicar o bombardeamento de Dresden, refira, para além dos objetivos militares, a necessidade de baixar a moral dos alemães. Esta frase é suficiente para que no dia seguinte os jornais ingleses noticiem, em títulos de primeira página, que a Grã-Bretanha está a adotar uma estratégia do terror contra a Alemanha.
Isto cai bastante mal entre alguns ingleses e o debate adensa-se. O sururu é tanto que Winston Churchill escreve um memorando dirigido ao «Bombardeiro Harris» instigando-o a acabar com o bombardeamento de cidades alemãs apenas com o objetivo de aumentar o terror.
«A destruição de Dresden bem pode vir tornar-se uma grande dúvida contra a condução dos bombardeamentos aliados», escreve o primeiro-ministro inglês.

Arthur Harris em 1964
Harris não se deixa ficar e responde com outro memorando:
«Ataques às cidades, tal como qualquer outro ato de guerra, são intoleráveis a não ser que sejam estrategicamente justificados. Mas são justificáveis enquanto estratégia na medida em que permitem diminuir o tempo de guerra e preservar a vida dos soldados aliados.
Do meu ponto de vista, não temos o direito de os deixar para trás a não ser que tenhamos a certeza de que o bombardeamento não produzirá o efeito pretendido. E pessoalmente não acho que qualquer uma das restantes cidades alemãs valha os ossos de um granadeiro britânico.»
Defendendo os objetivos militares da missão, escreve ainda que a cidade de Dresden albergava fábricas de munições, um centro governativo intacto e completamente operacional, e funcionava como um importante veículo de transporte de milhares de tropas para a Frente Este — «Era tudo isto, mas agora já não é», conclui.
Preservar a vida dos soldados também está na base da decisão anglo-americana de lançar a bomba atómica sobre Hiroshima e Nagasaki, pois calculou-se então que invadir o Japão custaria pelo menos milhão e meio de mortos entre os soldados.
Perante a resposta de Harris e a concordância das chefias militares em relação à necessidade deste tipo de missões, Churchill reescreveu o memo em politiquês:
«A estratégia de bombardeamento das cidades alemãs deve ser revista do ponto de vista dos nossos próprios interesses. Se passamos a controlar território totalmente arruinado, não haverá possibilidade de acomodar as nossas tropas. Certifiquemo-nos de que, no longo prazo, os ataques não nos prejudicam mais do que prejudicam o esforço de guerra do inimigo.»
Harris não lida bem com as severas críticas de que foi alvo depois da guerra e muda-se para a África do Sul. Churchill também contribui para a deceção do «bombardeiro», pois omite o seu nome da lista de novos pares e, ao mesmo tempo, distingue generais menos importantes.
Mas sabe-se que Churchill concordou genericamente com a necessidade de atacar as cidades alemãs, incluindo Dresden. E também é um dado adquirido que, em parte, tais decisões nada tiveram a ver diretamente com a Alemanha, mas com a vontade de mostrar a Estaline o poderio aéreo dos aliados.


Dresden pode ter sido um objetivo militar válido ou uma carnificina de civis inocentes – talvez tenha sido ambas. O que parece certo é que a destruição da «Florença no Elba» não foi apenas um dos últimos grandes eventos da II Guerra Mundial, mas o primeiro acontecimento da Guerra Fria que se seguiu.
Até hoje, a estátua do «Bombardeiro Harris» permanece em Londres, intacta.
Durante anos, à medida que Dresden ia sendo reconstruida e cicatrizada, mais cadáveres foram sendo descobertos. O último foi em 1990.