Marco Santos

Marco Santos

Jornalista @Sapo. Blogger @Bitaites. Pai em todo o lado. Gosta de Música, Fotografia, Astronomia, Física, Jornalismo, computadores e larachas. — Facebook, Twitter, Email

16/02/2013 @19:38

A visão necessária de Raed Khalil

Partilhei este car­toon de Raed Khalil no Facebook, chamei-lhe World Press Photo e um es­ti­mado ex-camarada de tra­ba­lho criticou-o como «ex­ces­sivo».

Cartoon: Raed Khalil

Talvez te­nha sido a mi­nha es­co­lha de tí­tulo que o tor­nou ainda mais ex­ces­sivo aos olhos do Miguel. Afinal ainda on­tem es­crevi um post so­bre um dos ven­ce­do­res do con­curso. Tenho vá­rios se­me­lhan­tes. As fo­to­gra­fias ven­ce­do­ras são nor­mal­mente de uma enorme qua­li­dade. Porquê en­tão chamar-lhe World Press Photo?

Porque o car­toon não é ex­ces­sivo nem exa­ge­rado, é cer­teiro. É uma crí­tica a quem vê o me­lhor do fo­to­jor­na­lismo ex­clu­si­va­mente como «arte», desligando-se da re­a­li­dade que está por trás da foto. E vê-lo as­sim, tão fora da re­a­li­dade, é uma trai­ção à es­sên­cia da profissão.

Raed Khalil é sí­rio. O seu país está em guerra ci­vil. Morreram já 60 mil pes­soas. 500 mil fo­ram obri­ga­das a refugiar-se em cam­pos de aco­lhi­mento mon­ta­dos nos paí­ses vizinhos.

Além da ca­ri­dade, nin­guém faz nada. O mundo tira fo­tos e es­creve so­bre o as­sunto, mas nem as ima­gens ou as pa­la­vras aju­da­ram até hoje a mu­dar a si­tu­a­ção na­quele país. Nenhuma na­ção «im­põe» a paz na Síria em nome dos mes­mos «va­lo­res» que jus­ti­fi­ca­ram uma in­ter­ven­ção di­reta na Líbia, por exem­plo. Banquetes pela paz no mundo só se fo­rem re­ga­dos a petróleo.

Talvez Khalil es­teja can­sado do ci­nismo e da hipocrisia.

Talvez es­teja re­vol­tado por ver o seu país a san­grar e exiga mais do que sim­ples pa­la­vras ou fo­to­gra­fias cho­can­tes. Talvez nos queira di­zer que esta é uma vi­são ne­ces­sá­ria, por mais que in­co­mode os aman­tes do fo­to­jor­na­lismo – como a da­quele fo­tó­grafo que em vez de cor­rer com os ou­tros para não per­der a che­gada da ve­deta, de­cide fi­car para trás e fo­to­gra­far os fo­tó­gra­fos que es­tão a fo­to­gra­far a vedeta.

16/02/2013 @18:37

Volta ao mundo em Street Art

Grottaglie, Itália

Grottaglie, Itália…

Poitiers, França

Poitiers, França…

São Petersburgo, Rússia

São Petersburgo, Rússia…

Milão, Itália

Milão…

… e mui­tas ou­tras vol­tas por dar no ma­ra­vi­lhoso Street Art Utopia.

15/02/2013 @22:39

Descobre as diferenças, JN

Zona de impacto de um meteorito

Caro Jornal de Notícias (JN): a ima­gem que está aqui em cima da Reuters mostra-nos a cra­tera pro­vo­cada pelo im­pacto de um me­te­o­rito em Chelyabinsk.

Chamam-se me­te­o­ri­tos aos frag­men­tos vin­dos do me­te­oro e que che­gam ao solo. O me­te­oro, neste caso, é o fe­nó­meno lu­mi­noso re­sul­tante do con­tacto do me­te­o­roide com a at­mos­fera ter­res­tre, so­bre­a­que­cido pela com­pres­são do ar à frente do ob­jeto, que faz com que este aqueça ra­pi­da­mente (po­pu­lar­mente fala-se em fric­ção, mas é uma con­ce­ção er­rada comum).

As on­das de cho­que re­sul­tan­tes da ve­lo­ci­dade su­per­só­nica do ob­jeto pro­vo­ca­ram os es­tra­gos, e os es­tra­gos – vi­dros par­ti­dos, so­bre­tudo –, fo­ram res­pon­sá­veis pe­los fe­ri­men­tos de cerca de 1200 pessoas.

É uma ima­gem verídica.

14627590_a9i5K

Esta aqui é uma foto-montagem feita por um adepto do Real Madrid como forma de ho­me­na­gear a ca­pa­ci­dade de im­pul­são de Cristiano Ronaldo no golo que mar­cou an­te­on­tem ao Manchester United. Continuamos de olho no céu, mas as di­fe­ren­ças são ób­vias: o facto de o nosso cra­que ser um jo­ga­dor «me­teó­rico» não faz dele um meteoro.

É uma ima­gem metafórica.

Jornal de Notícias

E esta aqui é foto que pu­bli­caste para ilus­trar a no­tí­cia de hoje. Mostra-nos a co­nhe­cida e bi­zarra Cratera de Darvaz, ba­ti­zada pe­los ha­bi­tan­tes lo­cais de «Porta para o Inferno» por ser um de­pó­sito de gás na­tu­ral que arde con­ti­nu­a­mente desde 1971 e exala um pi­vete a en­xo­fre insuportável. 

Não é, nunca foi, e sou gajo para apos­tar o meu tes­tí­culo es­querdo em como nunca será, o lo­cal onde um me­te­o­rito se dei­tou on­tem ao co­li­nho da Mãe Rússia.

Portanto esta úl­tima ima­gem não é me­teó­rica nem me­ta­fó­rica, é de­sen­ras­ca­tó­rica.

Já agora, uma adi­vi­nha: qual é coisa qual é ela que cheira mal como o en­xo­fre, não é de­mo­níaca nem re­sul­tado de um de­pó­sito de gás na­tu­ral? Resposta: o YouTube como fonte credível.

15/02/2013 @18:24

Vencedor, talentoso, português, desempregado

Daniel Rodrigues

Daniel Rodrigues

Daniel Rodrigues, 25 anos, fo­tó­grafo de Riba de Ave, Vila Nova de Famalicão, no­tí­cia em todo o lado por ter sido o ven­ce­dor da ca­te­go­ria Vida Quotidiana, do World Press Photo, está de­sem­pre­gado desde se­tem­bro do ano pas­sado e já foi obri­gado a ven­der o seu ma­te­rial fo­to­grá­fico «para po­der pa­gar as con­tas», con­tou à Agência Lusa.

Agora aceita qual­quer tra­ba­lho – mesmo que não seja da sua área. O pré­mio do World Press Photo vai valer-lhe 1500 euros.

Também nunca che­gou a ven­der a foto com que ga­nhou: nin­guém se in­te­res­sou em com­prar esta be­lís­sima ima­gem de cri­an­ças a jo­gar fu­te­bol num campo de terra em Guiné-Bissau. Talvez da pró­xima vez o Daniel se de­cida por per­se­guir o Cristiano Ronaldo e a na­mo­rada russa nas suas fé­rias – não irá ti­rar fo­tos desta qua­li­dade, mas in­te­res­sa­dos em comprá-las não faltarão.

15/02/2013 @15:15

A morte de Dresden

Dresden: antes e depois dos bombardeamentos

Dresden: an­tes e de­pois dos bombardeamentos

Às dez da noite do dia 13 de fe­ve­reiro de 1945 (no mo­mento em que es­crevo: há exa­ta­mente 68 anos, 23 ho­ras e 59 se­gun­dos), uma bomba de mar­ca­ção — os in­gle­ses chamavam-lhe «Pink Pansy» — cai so­bre a ci­dade alemã de Dresden.

15 mi­nu­tos de­pois do fogo de ar­ti­fí­cio si­na­li­za­dor da Pink Pansy, chega a pri­meira vaga de ata­que: bom­bar­dei­ros Avro Lancaster lar­gam cen­te­nas de bom­bas – a maior parte ex­plo­si­vos re­che­a­dos de fós­foro e mag­né­sio, subs­tân­cias al­ta­mente in­cen­diá­rias. O que não fica des­truído pelo im­pacto di­reto das ex­plo­sões é quei­mado pe­los gi­gan­tes­cos in­cên­dios que aque­las pro­vo­cam. As cha­mas são vi­sí­veis a 50 qui­ló­me­tros de distância.

À 1 e 23 da ma­dru­gada chega a se­gunda vaga de bom­bar­dei­ros bri­tâ­ni­cos. Uma área de 15 qui­ló­me­tros qua­dra­dos já está a ar­der. Há cada vez me­nos oxi­gé­nio para res­pi­rar e os que es­ca­pa­ram às ex­plo­sões e às cha­mas mor­rem su­fo­ca­dos. Às 12 ho­ras e 19 mi­nu­tos de 14 de fe­ve­reiro che­gam os bom­bar­dei­ros ame­ri­ca­nos com mais bom­bas car­re­ga­das de fós­foro e magnésio.

Hans-Joachim Dietze

Foto: Hans-Joachim Dietze

Durante 48 ho­ras –  en­tre 13 e 15 de fe­ve­reiro; in­gle­ses de noite, ame­ri­ca­nos du­rante o dia – 722 bom­bar­dei­ros da Royal Air Force (RAF) e 527 for­ta­le­zas vo­a­do­ras B-17 da United States Army Air Forces (USAAF) lar­gam mais de 3900 to­ne­la­das de explosivos.

A tem­pe­ra­tura do ar na zona dos in­cên­dios eleva-se aos 1500 graus cen­tí­gra­dos. 35 qui­ló­me­tros qua­dra­dos da ci­dade es­tão de­vas­ta­dos. 90 por cento das 28 mil ha­bi­ta­ções no aglo­me­rado ur­bano de­sa­pa­re­cem. 22 hos­pi­tais destruídos.

Nos sete dias se­guin­tes Dresden ape­nas arde, in­ca­paz se­quer de iden­ti­fi­car as som­bras min­gua­das fei­tas de cinza e en­tu­lho es­pa­lha­das pe­las ruas e que ainda há pou­cos dias ti­nham sido se­res hu­ma­nos. «Dresden agora é como a Lua», es­cre­veu Kurt Vonnegut.

 

Holocausto

Robert Michael

Robert Michael

Dresden, 13 de fe­ve­reiro de 2013: ne­o­na­zis ho­me­na­geiam as ví­ti­mas do bom­bar­de­a­mento ali­ado, en­quanto a es­querda alemã se in­surge con­tra a sua pre­sença. Os gru­pos ti­ve­ram de ser se­pa­ra­dos pela po­lí­cia de cho­que. (Fotos: Robert Michael)


Ninguém sabe quan­tas pes­soas es­tão mor­tas en­tre os es­com­bros, mas a pro­pa­ganda nazi usa a des­trui­ção da ci­dade para in­ci­tar o or­gu­lho ale­mão e pro­lon­gar a guerra de sui­cida re­sis­tên­cia ao in­va­sor: a oeste, as for­ças ali­a­das; a este, o Exército Vermelho.

O mi­nis­tro da Propaganda do Reich Joseph Goebbels co­meça por re­fe­rir 300 mil mor­tos numa co­mu­ni­ca­ção via rá­dio, mas o nú­mero ofi­cial fixa-se nos 200 mil. Nas dé­ca­das se­guin­tes – hoje em dia o erro ainda per­siste –, é co­mum ler-se que 135 mil per­de­ram a vida em Dresden.

O nú­mero foi adi­an­tado no best-seller de 1963 «Apocalypse 1945 — The Destruction of Dresden», do es­cri­tor in­glês David Irving.

Irving é mui­tas ve­zes de­nun­ci­ado pela sim­pa­tia em re­la­ção aos na­zis e por de­fen­der que o ge­no­cí­dio dos ju­deus du­rante a II Guerra Mundial não acon­te­ceu com as ca­tas­tró­fi­cas pro­por­ções his­to­ri­ca­mente reconhecidas.

Walter Hahn

Foto: Walter Hahn

O ofi­cial ale­mão en­car­re­gue de ge­rir as equi­pas de lim­peza que tra­ba­lha­ram na re­co­lha de cor­pos – as Aufräumungsstab – lê o li­vro de Irving e escreve-lhe em 1965 uma carta ex­pli­cando que no má­ximo te­rão mor­rido 30 mil, mas o au­tor ig­nora este tes­te­mu­nho e man­tém o cál­culo em edi­ções posteriores.

Finalmente, em 2010, uma in­ves­ti­ga­ção do mu­ni­cí­pio de Dresden feita por pro­fes­so­res uni­ver­si­tá­rios e his­to­ri­a­do­res mi­li­ta­res de­ter­mina o nú­mero real em 18 mil e en­con­tra o re­la­tó­rio ori­gi­nal feito pela equipa de Miller, des­co­brindo que a es­ti­ma­tiva sem­pre se si­tuou en­tre os 20 e 25 mil.

«20, 25, 40, 135 mil, tudo isso acaba por ser ir­re­le­vante» — es­creve Miller na carta en­vi­ada ao ne­ga­ci­o­nista do Holocausto Irving. – «Alguém con­se­gue ter a no­ção do que é ter 40 mil mor­tos? Se os co­lo­cás­se­mos em li­nha reta, pé com ca­beça, ca­beça com pé, te­riam for­mado uma fila de 67 qui­ló­me­tros. O dis­trito no cen­tro de Dresden ti­nha uma di­men­são de 12 qui­ló­me­tros! Para os so­bre­vi­ven­tes as­sus­ta­dos, as ruas da ci­dade es­ta­vam inun­da­das de ca­dá­ve­res».

O bom­bar­de­a­mento de Dresden é tido como um ato in­digno, des­ne­ces­sá­rio e cri­mi­noso por parte de EUA e Grã-Bretanha. Grupos neo-nazis comparam-no ao ho­lo­causto dos ju­deus e de­fen­dem um nú­mero muito su­pe­rior de mor­tos: en­tre 500 mil e 1 mi­lhão de pes­soas. A his­tó­ria do ata­que a Dresden, como se verá, não é as­sim tão linear.

 

Inútil Bondade

Dresden depois dos bombardeamentos

Richard Peter, Blick vom Rathaussturm, Dresden, 1945

O fo­tó­grafo Richard Peter desloca-se a Dresden em se­tem­bro de 1945 – este ve­te­rano da I Guerra Mundial man­tém na ci­dade um es­tú­dio de fo­to­gra­fia, mas des­co­bre que tam­bém foi des­truído pe­los bombardeamentos.

Com a queda do III Reich, Peter pode fi­nal­mente tra­ba­lhar como re­pór­ter fo­to­grá­fico: a fi­li­a­ção ao Partido Comunista e as duas dé­ca­das que pas­sou a tra­ba­lhar para pu­bli­ca­ções de es­querda na Alemanha não são es­que­ci­das pe­los na­zis quando em 1933 so­bem ao po­der: proi­bido de exer­cer a sua pro­fis­são, passa a tra­ba­lhar so­bre­tudo em publicidade.

O fo­tó­grafo pede uma câ­mara em­pres­tada e capta pela pri­meira vez a ver­da­deira di­men­são das ruína em que se tor­nou a «Florença no Elba», de­sig­na­ção pela qual a be­leza de Dresden era ce­le­brada: para Peter e qual­quer ou­tra pes­soa que lá te­nha es­tado te­ria sido mes­qui­nho perder-se tanto tempo a dis­cu­tir o nú­mero de mor­tes – uma tra­gé­dia é sem­pre uma tra­gé­dia, mor­ram duas, 20, 20 mil ou 200 mil pessoas.

Richard PeterPor isso Richard Peter fo­to­grafa tudo, as pe­que­nas e as gran­des tra­gé­dias: o ca­dá­ver car­bo­ni­zado de uma mãe de­bru­çada so­bre o berço do seu bebé; um sol­dado onde a única marca de iden­ti­dade que so­bre­vive é o pano da suás­tica co­lado ao que an­tes ti­nha sido um braço; pi­lhas de cor­pos nas ruas; as os­sa­das dos edifícios.

A 1 de ja­neiro de 1946, jun­ta­mente com ou­tro fo­tó­grafo, Walter Hahn, sobe à torre do mu­ni­cí­pio de Dresden e tira uma fo­to­gra­fia imor­tal: uma pa­no­râ­mica do cen­tro his­tó­rico de Dresden com a es­cul­tura de August Schreitmüller – Die Gute, «A Bondade» — con­tem­plando a devastação.

A es­cul­tura de Schreitmüller con­tem­pla a ci­dade e nada pode fa­zer, pe­tri­fi­cada para sem­pre num gesto inú­til de pro­te­ção e be­ne­vo­lên­cia  – lem­bra um anjo da guarda do filme de Wim Wenders, «As Asas do Desejo». À ex­ce­ção, tal­vez, da fo­to­gra­fia de Emmanuil Evzerikhin da fonte Barmaley, em Estalinegrado, nunca uma ima­gem ti­nha sido ca­paz de nos mos­trar uma re­la­ção tão vis­ce­ral en­tre uma obra de arte e o am­bi­ente que a rodeia.

Richard Peter reúne to­das as fo­tos em li­vro: «Dresden, a Camera Accuses». O mundo não es­que­cerá so­bre­tudo aquela foto; e mui­tos que­rem sa­ber por que ra­zão se des­truiu uma ci­dade de um im­pé­rio de mil anos cer­cado por to­dos os la­dos e a pou­cos me­ses de se desmoronar.

 

Bombardeiro Harris

Sir Arthur 'Bomber' Harris

A es­tá­tua de Sir Arthur ‘Bomber’ Harris, em Londres (Foto: Ottobottle@Flickr)

32 anos de­pois do fim da guerra, um dos pro­ta­go­nis­tas do bom­bar­de­a­mento de Dresden é con­vi­dado a exa­mi­nar as suas ações do pas­sado: «Se eu ti­vesse de fa­zer tudo ou­tra vez, fazia-o» — res­ponde o marechal-do-ar Arthur Harris, referindo-se ao bom­bar­de­a­mento de Dresden. – «Mas es­pero nunca fazê-lo». O ví­deo da en­tre­vista é fil­mado em 1977, mas re­ve­lado pu­bli­ca­mente ape­nas este ano. Harris morre em 1984, com 91 anos.

50 anos de­pois de Dresden, ig­no­rando os pro­tes­tos de al­guns po­lí­ti­cos ale­mães, Isabel, a rainha-mãe, pre­side em Londres às ce­ri­mó­nias de des­cer­ra­mento de uma es­tá­tua em honra do «Bombardeiro Harris», como é vul­gar­mente co­nhe­cido o marechal.

Durante muito tempo a es­tá­tua terá de ser guar­dada pela po­lí­cia, pois mui­tos que­rem danificá-la. Estes são os que de­fen­dem que Harris é um cri­mi­noso de guerra de­vido à de­ci­são de bom­bar­dear Dresden e in­ci­ne­rar mi­lha­res de civis.

O «Bombardeiro Harris» é, em 1945, o chefe do co­mando de bom­bar­dei­ros da RAF e um grande de­fen­sor da es­tra­té­gia de co­brir as ci­da­des ale­mãs com um ta­pete de bom­bas. Zomba fre­quen­te­mente do tipo de es­tra­té­gia de­fen­dida pe­los ame­ri­ca­nos, de­fen­so­res de bom­bar­de­a­men­tos de precisão.

A im­por­tân­cia da Força Aérea e da «es­tra­té­gia do ter­ror» não é no­vi­dade para nin­guém em 1945. Em 1921, o chefe do corpo de avi­a­ção ita­li­ano, Giulio Douhet, que além de mi­li­tar é po­eta e es­cri­tor de pe­ças de te­a­tro, pu­blica um li­vro onde par­ti­lha a sua vi­são da guerra do fu­turo: «Todos os ci­da­dãos das na­ções em guerra se tor­na­rão com­ba­ten­tes, dado que to­dos es­ta­rão ex­pos­tos à ofen­siva aé­rea do ini­migo. Não ha­verá dis­tin­ção en­tre sol­da­dos e ci­vis.» Adolf Hitler é um lei­tor atento do li­vro de Douhet, mas não é o único.

Hugh Trenchard, o ho­mem que ar­qui­te­tou a Royal Air Force e cujo co­mando de bom­bar­dei­ros per­ten­cerá a Harris anos mais tarde, de­fende em 1931 que é «na des­trui­ção do po­der in­dus­trial do ini­migo e, acima de tudo, pelo abai­xa­mento da mo­ral cau­sada pe­los bom­bar­de­a­men­tos que re­side o se­gredo da vi­tó­ria».

Em 1934, o prin­ci­pal teó­rico do Partido Nazi, Alfred Rosenberg, de­fende que «a guerra do fu­turo será tra­vada sob o es­tan­darte das fro­tas aé­reas – e en­vol­verá toda a na­ção numa luta pela so­bre­vi­vên­cia».

Mal ter­mina a I Guerra e já o mundo sabe como irá tra­var a pró­xima – Harris não in­ven­tou nada, limitou-se a se­guir um pro­grama com mais de vinte anos de existência.

Não ad­mira por isso que quando o porta-voz da RAF se reúne com os jor­na­lis­tas para lhes co­mu­ni­car o bom­bar­de­a­mento de Dresden, re­fira, para além dos ob­je­ti­vos mi­li­ta­res, a ne­ces­si­dade de bai­xar a mo­ral dos ale­mães. Esta frase é su­fi­ci­ente para que no dia se­guinte os jor­nais in­gle­ses no­ti­ciem, em tí­tu­los de pri­meira pá­gina, que a Grã-Bretanha está a ado­tar uma es­tra­té­gia do ter­ror con­tra a Alemanha.

Isto cai bas­tante mal en­tre al­guns in­gle­ses e o de­bate adensa-se. O su­ruru é tanto que Winston Churchill es­creve um me­mo­rando di­ri­gido ao «Bombardeiro Harris» instigando-o a aca­bar com o bom­bar­de­a­mento de ci­da­des ale­mãs ape­nas com o ob­je­tivo de au­men­tar o terror.

«A des­trui­ção de Dresden bem pode vir tornar-se uma grande dú­vida con­tra a con­du­ção dos bom­bar­de­a­men­tos ali­a­dos», es­creve o primeiro-ministro inglês.

Arthur Harris em 1964

Arthur Harris em 1964

Harris não se deixa fi­car e res­ponde com ou­tro memorando:

«Ataques às ci­da­des, tal como qual­quer ou­tro ato de guerra, são in­to­le­rá­veis a não ser que se­jam es­tra­te­gi­ca­mente jus­ti­fi­ca­dos. Mas são jus­ti­fi­cá­veis en­quanto es­tra­té­gia na me­dida em que per­mi­tem di­mi­nuir o tempo de guerra e pre­ser­var a vida dos sol­da­dos aliados. 

Do meu ponto de vista, não te­mos o di­reito de os dei­xar para trás a não ser que te­nha­mos a cer­teza de que o bom­bar­de­a­mento não pro­du­zirá o efeito pre­ten­dido. E pes­so­al­mente não acho que qual­quer uma das res­tan­tes ci­da­des ale­mãs va­lha os os­sos de um gra­na­deiro bri­tâ­nico.»

Defendendo os ob­je­ti­vos mi­li­ta­res da mis­são, es­creve ainda que a ci­dade de Dresden al­ber­gava fá­bri­cas de mu­ni­ções, um cen­tro go­ver­na­tivo in­tacto e com­ple­ta­mente ope­ra­ci­o­nal, e fun­ci­o­nava como um im­por­tante veí­culo de trans­porte de mi­lha­res de tro­pas para a Frente Este — «Era tudo isto, mas agora já não é», con­clui.

Preservar a vida dos sol­da­dos tam­bém está na base da de­ci­são anglo-americana de lan­çar a bomba ató­mica so­bre Hiroshima e Nagasaki, pois calculou-se en­tão que in­va­dir o Japão cus­ta­ria pelo me­nos mi­lhão e meio de mor­tos en­tre os soldados.

Perante a res­posta de Harris e a con­cor­dân­cia das che­fias mi­li­ta­res em re­la­ção à ne­ces­si­dade deste tipo de mis­sões, Churchill re­es­cre­veu o memo em politiquês:

«A es­tra­té­gia de bom­bar­de­a­mento das ci­da­des ale­mãs deve ser re­vista do ponto de vista dos nos­sos pró­prios in­te­res­ses. Se pas­sa­mos a con­tro­lar ter­ri­tó­rio to­tal­mente ar­rui­nado, não ha­verá pos­si­bi­li­dade de aco­mo­dar as nos­sas tro­pas. Certifiquemo-nos de que, no longo prazo, os ata­ques não nos pre­ju­di­cam mais do que pre­ju­di­cam o es­forço de guerra do ini­migo.»

Harris não lida bem com as se­ve­ras crí­ti­cas de que foi alvo de­pois da guerra e muda-se para a África do Sul. Churchill tam­bém con­tri­bui para a de­ce­ção do «bom­bar­deiro», pois omite o seu nome da lista de no­vos pa­res e, ao mesmo tempo, dis­tin­gue ge­ne­rais me­nos importantes.

Mas sabe-se que Churchill con­cor­dou ge­ne­ri­ca­mente com a ne­ces­si­dade de ata­car as ci­da­des ale­mãs, in­cluindo Dresden. E tam­bém é um dado ad­qui­rido que, em parte, tais de­ci­sões nada ti­ve­ram a ver di­re­ta­mente com a Alemanha, mas com a von­tade de mos­trar a Estaline o po­de­rio aé­reo dos aliados.

Dresden a reconstruir-se

Dresden atual

Dresden pode ter sido um ob­je­tivo mi­li­tar vá­lido ou uma car­ni­fi­cina de ci­vis ino­cen­tes – tal­vez te­nha sido am­bas. O que pa­rece certo é que a des­trui­ção da «Florença no Elba» não foi ape­nas um dos úl­ti­mos gran­des even­tos da II Guerra Mundial, mas o pri­meiro acon­te­ci­mento da Guerra Fria que se seguiu.

Até hoje, a es­tá­tua do «Bombardeiro Harris» per­ma­nece em Londres, intacta.

Durante anos, à me­dida que Dresden ia sendo re­cons­truida e ci­ca­tri­zada, mais ca­dá­ve­res fo­ram sendo des­co­ber­tos. O úl­timo foi em 1990.

14/02/2013 @17:34

O irresistível apelo da dita cuja

O irresistível apelo da dita cujaNunca pen­sei que um pe­queno ar­tigo men­ci­o­nando o tra­ba­lho do es­cul­tor bri­tâ­nico Jamie McCartney com a sua Great Wall of Vagina aca­basse por ser tão con­cor­rido.

No en­tanto… desde que foi cri­ado, em se­tem­bro de 2011, o post é um cam­peão de vi­si­tas. Arrasa por com­pleto a con­cor­rên­cia. Nem en­tra­das mais re­cen­tes e «quen­tes» o con­se­guem des­tro­nar por muito tempo.

Sem que­rer, o Rui Eduardo Paes criou uma «lan­ding page» — tipo de pá­gina cri­ada para co­lher vi­si­tas vin­das do Google e nor­mal­mente ren­ta­bi­li­zada com anún­cios. Tipos mais es­per­tos que nós já te­riam apro­vei­tado para es­pe­tar pu­bli­ci­dade re­la­ci­o­nada e ga­nhar uns trocos.

 

A in­sus­ten­tá­vel le­veza duser

A mai­o­ria das pes­soas chega à pá­gina por es­tar à pro­cura de va­gi­nas e in­te­res­ses de­ri­va­dos, e não da Great Wall of Vagina. Acontece que a ex­pe­ri­ên­cia me diz que a va­gina, tal como o de­mó­nio, pode ser co­nhe­cida por mui­tos no­mes. Basta ver al­guns dos ter­mos de pes­quisa uti­li­za­dos quando é pro­cu­rada no Google e o Google — esse ra­pa­zola tão im­pres­si­o­ná­vel como en­ga­na­dor — os manda ver as es­cul­tu­ras va­gi­nais de McCartney:

  • mu­nhe­ris com a var­jina grande
  • as mu­lhe­res que tem as bu­ceta mais grande dumodo
  • mu­lher co­lo­cando uma gar­rafa em sua vagina
  • quero ver os mai­o­res cli­to­rios do mundo
  • va­gi­nas penteadas
  • mu­lher com o cri­tore maior do mundo

Posso vir a man­ter este blo­gue por mui­tos anos, mas fi­ca­rei sem­pre sur­pre­en­dido com a cri­a­ti­vi­dade com que al­guns vi­si­tan­tes pro­cu­ram va­gi­nas e de­se­jam des­ven­dar os mis­té­rios do cli­tó­ris – gente apres­sada, ima­gino eu. Mesmo as­sim… nada, ab­so­lu­ta­mente nada, será ca­paz de ba­ter em mis­té­rio e non sense as pes­qui­sas que se seguem:

  • pra­ti­cava osama bi­la­dem re­la­ções se­xu­ais com jor­na­lis­tas e empregadas?
  • ima­gens que se me­xem de bei­jos en­tre mulheres
  • vi­dios sexe da maite proenci
  • vi­dios de gai­jos a me­ter a pixa no cujo da mulher
  • pei­deira de al­ju­bar­rota en­tre­vista ata­que informático
  • quando um lar­gado perde seu rapo pode con­si­de­ram um clone

 

Rapo de Çaia

Maitê Proença

As qua­tro pri­mei­ras ainda con­sigo per­ce­ber: o fa­le­cido Osama bin Laden era um árabe rico por­tanto de­via ter um ha­rém à dis­po­si­ção como to­dos os ou­tros ára­bes ri­cos – se­ria tal ha­rém com­posto por jor­na­lis­tas e em­pre­ga­das? Uma per­gunta legítima.

«Imagens que se me­xem» sig­ni­fica que o ca­va­lheiro do sé­culo XIX que aqui veio pa­rar pro­cu­rava ví­deos ou GIFs ani­ma­dos de mu­lhe­res na mar­me­lada. Já a Maite Proenci é uma atriz bra­si­leira. E bo­ni­ti­nha, por si­nal (desde que não fale muito).

A quarta pes­quisa é tre­men­da­mente lí­rica e lembra-me até um verso de Bocage, po­eta mais dado ao co­nhe­ci­mento das pa­la­vras do que ao co­nhe­ci­mento da ana­to­mia feminina:

Oh dama por quem me aflijo/Por ven­tura consintais/que eu in­tro­duza o com que mijo/No por onde vós mi­jais?

Por onde busco, por onde bus­cais, to­das es­tas coi­sas eu entendo.

Mas por amor da santa pa­dro­eira do Google, al­guém me con­se­gue ex­pli­car onde, quando, como e em que cir­cuns­tân­cias a pei­deira de Aljubarrota en­tre­vis­tou um ata­que in­for­má­tico? Teria o epi­só­dio da pa­deira de Aljubarrota re­gis­tado a arma se­creta atra­vés da qual se der­ro­ta­ram os mou­ros — a pri­meira uti­li­za­ção de ar­mas bi­o­ló­gi­cas da História? E os áca­ros, que têm es­tes a ver com o as­sunto de var­rer os mou­ros da Península?

E a ou­tra? Será que lar­gado sig­ni­fica la­garto? Rapo, rabo? Se as­sim é, ca­ros bió­lo­gos, po­dem fa­zer o fa­vor de ex­pli­car se à ca­pa­ci­dade re­ge­ne­ra­tiva des­ses rép­teis cor­res­ponde al­gum tipo de clo­na­gem? Isso dei­ta­ria por terra qual­quer sen­tido que pu­desse a ter a ex­pres­são «quem tem cu tem medo», pelo me­nos do ponto de vista de um la­garto. Juro que agora fi­quei curioso.