Rui Eduardo Paes

Rui Eduardo Paes

Crítico de música e jornalista cultural. Homem de paixões e casmurrices. Bebedor de Red Bull e fumador de cigarrilhas. — Facebook, Email

21/05/2013 @11:28

Nick Cave e a falta de patareca


A can­ção acima é so­bre a falta de pa­ta­reca, mal que cos­tuma afe­tar sol­tei­ros e ca­sa­dos por mo­ti­vos tão di­ver­sos quanto es­tra­nhos, dado que a dita cuja anda por aí aos mi­lhões e sem­pre com apo­quen­ta­dora proximidade…

Tão des­di­toso tema te­ria um dia de ser tra­tado mu­si­cal­mente em jeito de in­ter­ven­ção, e não ad­mira que tal acon­te­cesse com o for­mato dos blues. Nada como os ve­lhi­nhos blues para exor­ci­zar os gran­des pro­ble­mas da so­ci­e­dade, para não di­zer da humanidade.

«No Pussy Blues», se chama este blues de pro­testo e rei­vin­di­ca­ção. É o que de mais po­lí­tico se ou­viu na mú­sica com gui­tar­ras es­tes úl­ti­mos anos. Afinal, as ques­tões de pa­ta­reca são mais im­por­tan­tes do que as da eco­no­mia e da governação.

Mesmo para os in­gle­ses, tal­vez aque­les que mais se fin­gem su­pe­ri­o­res a esta pa­to­lo­gia so­cial de di­men­são pla­ne­tá­ria – para to­dos os efei­tos, as ima­gens e o som acima fo­ram gra­va­dos no pro­grama «Later» de Jools Holland, trans­mi­tido pela BBC 2.

Mas de cer­te­zi­nha por­que alu­dir a as­sun­tos in­con­ve­ni­en­tes tem con­sequên­cias – a cen­sura, meus ca­ros, a cen­sura –, esta su­blime peça de mú­sica nunca mais será in­ter­pre­tada. A banda que a tal se atre­veu, Grinderman, já não existe.

O seu men­tor, Nick Cave, deu a in­ves­tida por ter­mi­nada – a des­pe­dida foi o mês pas­sado, Abril, no ca­li­for­ni­ano Coachella Valley Music and Arts Festival. E tratou-se já de um co­me­back, por­que o po­eta, ro­man­cista, au­tor de can­ções, vo­ca­lista, gui­tar­rista e te­clista aus­tra­li­ano «de­ci­diu» em 2011 re­a­gru­par os Bad Seeds, a for­ma­ção que lhe dá mais acesso às no­tas de banco e… es­pera ele, mas é uma ilu­são… às pa­ta­re­cas deste mundo.

Má des­culpa, sabendo-se pre­ci­sa­mente que os Grinderman fo­ram for­ma­dos para fu­gir a uns Bad Seeds cada vez me­nos blu­esy e mais ba­la­dei­ros. Toda a gente já sabe que a ba­lada re­pre­senta a con­for­ma­ção mas­cu­lina à ideia de que há algo de di­vi­na­mente inal­can­sá­vel no Eterno Sexo – a ori­gem do mundo, se­gundo o pin­tor Gustave Courbet.

Nick Cave não apren­deu a li­ção com P.J. Harvey e Kylie Minogue. Pensava ter ga­nho umas pa­ta­re­cas, mas as pa­ta­re­cas é que lhe ga­nha­ram a ele…

17/05/2013 @18:53

Foi há dois anos, foi hoje

Ragesoss

Crédito: Ragesoss

Hoje re­cebi a no­tí­cia que du­rante tanto tempo mais temi. Morreu o meu amigo Mário Rocha, o meu com­pa­nheiro de tra­ba­lho e di­ver­ti­mento desde os tem­pos do Diário de Lisboa e do Teatro Nacional D. Maria II até que as cir­cuns­tân­cias nos afastaram…

Foi há dois anos, mas só hoje tive co­ra­gem de per­gun­tar. Para mim, é como se ti­vesse acon­te­cido agora mesmo. O Mário ti­nha aca­bado de fa­zer uma diá­lise no hos­pi­tal (ima­gino que, como ha­bi­tu­al­mente, flir­tando com as en­fer­mei­ras), e ao sair so­freu um co­lapso car­díaco. Mais um, mas este o de­fi­ni­tivo: ficou-se logo ali.

Pelo me­nos um ano an­tes disso algo me pa­ra­li­sava an­tes de pe­gar no te­le­fone para sa­ber dele e com­bi­nar­mos uma saída. O gra­dual pro­cesso de de­ca­dên­cia fí­sica de­cor­rente de uma di­a­be­tes aguda, pi­o­rada por mui­tos anos de con­su­mos uís­qui­cos – gos­tava quase tanto do pro­duto es­co­cês como de mu­lhe­res –, foi-lhe des­truindo o corpo.

Das úl­ti­mas ve­zes que o vi, o Mário es­tava muito de­bi­li­tado, co­xe­ava por lhe te­rem ti­rado parte de um pé e quase não via. Já não con­se­guia tra­ba­lhar e era-lhe di­fí­cil, se­não im­pos­sí­vel, dedicar-se à sua grande pai­xão, a fo­to­gra­fia. Ficava em casa, a ou­vir Nick Cave e Cowboy Junkies.

Se an­tes fa­zía­mos gran­des noi­ta­das, cons­pi­rando até al­tas ho­ras da ma­dru­gada – os meus pri­mei­ros li­vros nas­ce­ram des­ses brain stor­mings em ba­res a meia-luz –, já ele não re­sis­tia a mais de meia-hora de tro­cas de palavras.

Por essa al­tura as coi­sas co­me­ça­vam a cor­rer mal co­migo, e de cada vez que nos en­con­trá­va­mos eu sen­tia dissiparem-se as for­ças que, muito a custo, ia con­se­guindo reu­nir para ul­tra­pas­sar as ad­ver­si­da­des. Ficava hor­ri­vel­mente de­pri­mido com o que se es­tava a pas­sar com este grande jor­na­lista e fo­tó­grafo que tam­bém es­cre­via po­e­sia e tra­du­zia pe­ças de teatro.

Era um vo­raz ou­vinte de bom rock e lia tudo o que es­ti­vesse ao seu al­cance, desde fi­lo­so­fia a li­te­ra­tura, sem­pre atento a no­vas cor­ren­tes de pen­sa­mento e a no­vas ten­dên­cias do ro­mance. Deu-me a co­nhe­cer muita coisa que me pas­sara ao lado e es­tá­va­mos cons­tan­te­mente a tro­car dis­cos e livros.

Livros, so­bre­tudo. Possuía de­ze­nas de mi­lha­res, em­pi­lha­dos num quarto por todo o lado. Estão al­guns dele aqui em casa e agora sei que não os posso de­vol­ver… Olho para as lom­ba­das e vejo au­to­res como Foucault e Eco.

Tinha uma cu­ri­o­si­dade in­sa­ciá­vel pelo sexo fe­mi­nino e a fa­ci­li­dade com que se­du­zia as mu­lhe­res era um mis­té­rio para este de­sa­jei­tado nas ar­tes do amor. Sempre pes­soas fas­ci­nan­tes, be­las, in­te­li­gen­tes. Dei por mim, em al­gu­mas oca­siões, a invejá-lo.

Não es­tive com ele na úl­tima fase da sua do­ença e isso vai assombrar-me até che­gar a mi­nha vez de par­tir. Tive sem­pre re­ceio de que, no ou­tro lado do te­le­fone, sur­gisse não o Mário, mas uma voz a anunciar-me o des­fe­cho que pa­re­cia cada vez mais inevitável.

Pois acon­te­ceu e eu não fiz o que um bom amigo deve fa­zer nas ho­ras más: apoiá-lo, es­tar pre­sente, mesmo que tam­bém mal-amanhado pela vida. Nunca me per­do­a­rei tal cobardia.

17/05/2013 @15:11

O rock das docas

The Fall é o punk de de­pois do punk, e tal­vez seja por isso que lhe co­lo­cam o ca­rimbo «pós». Uma sim­pli­fi­ca­ção que ig­nora al­guns fac­tos. Este, por exem­plo: se o punk era uma mú­sica de jo­vens em co­li­são com o sis­tema de en­sino, o punk pós-punk de Mark E. Smith, o vo­ca­lista, au­tor das can­ções e único mem­bro per­ma­nente deste grupo bri­tâ­nico, foi desde o co­meço – e as­sim con­ti­nuou – uma mú­sica de operários.

Mark E. Smith

Smith tra­ba­lhava nas do­cas, mas ti­nha um ape­tite in­te­lec­tual imenso. Devorava os es­cri­to­res exis­ten­ci­a­lis­tas e muito em par­ti­cu­lar Albert Camus (a quem foi bus­car o nome da banda), as­sim como a li­te­ra­tura ne­gra de um Edgar Allan Poe e um H. P. Lovecraft, e ti­nha es­pe­cial de­vo­ção pelo alu­ci­nado Philip K. Dick.

O sur­re­a­lismo nas ar­tes vi­su­ais e o neo-realismo ci­ne­ma­to­grá­fico eram ou­tras suas fon­tes de interesse.

Além disso, ga­nhara uma cons­ci­ên­cia po­lí­tica nas car­gas e des­car­gas dos na­vios: está há muito li­gado ao trots­kista Soci­a­list Workers Party.

Cedo viu no rock uma via para se ex­pres­sar ar­tis­ti­ca­mente, pelo que tro­cou a es­tiva por uma car­reira como mú­sico a par­tir de 1976, nunca es­que­cendo as suas ori­gens. Com uma tal con­vic­ção que che­gou a fa­zer uma tour­née com a ba­cia par­tida, sen­tado numa ca­deira de ro­das, até que as do­res e os efei­tos da me­di­ca­ção o im­pe­di­ram de con­ti­nuar com os concertos.

A sua con­tra­di­tó­ria aten­ção às re­a­li­da­des so­ci­ais e eco­nó­mi­cas e aos uni­ver­sos fan­ta­si­o­sos e de fic­ção ci­en­tí­fica de­ter­mi­nou o con­teúdo dos mi­lha­res de le­tras (ou, mais exa­ta­mente, de po­e­mas, pois têm re­le­vân­cia lí­rica) que já es­cre­veu: tanto canta so­bre os di­rei­tos dos tra­ba­lha­do­res, as con­sequên­cias do abuso de dro­gas e a vi­o­lên­cia dos ho­o­li­gans como so­bre o so­bre­na­tu­ral e as vi­a­gens no tempo.

Sempre de forma críp­tica, com jo­gos de sen­tido, pro­cu­rando mos­trar o ab­surdo dos mo­dos de vida capitalistas.

Tem uma voz e uma ma­neira de can­tar úni­cas, en­tre o de­cla­ma­tó­rio e o per­verso, ora pa­re­cendo cus­pir as pa­la­vras, ora mantendo-as na boca para lhes ava­liar a acidez.

Tornou-se num sím­bolo, sendo cons­tan­te­mente con­vi­dado para ses­sões de spo­ken word, fil­mes, sé­ries te­le­vi­si­vas e gra­va­ções de dis­cos de ou­tros gru­pos, como Mouse on Mars, Gorillaz, Coldcut e Inspiral Carpets. A in­dús­tria da mú­sica e do es­pe­tá­culo gosta às ve­zes de se mos­trar pro­gres­sista, e quando tal foi da con­ve­ni­ên­cia deste mi­li­tante ele apro­vei­tou as cir­cuns­tân­cias para es­pa­lhar a mensagem.

A mú­sica de The Fall, essa, é rit­mi­ca­mente re­pe­ti­tiva, hip­nó­tica, obsessivo-compulsiva. Há algo de funk nas li­nhas de baixo e ba­te­ria, mas a gui­tarra coloca-se de fora das tra­mas, sendo uti­li­zada como um ge­ra­dor de ruído.

Ou ama-se ou odeia-se e eu es­tou en­tre os que a ela ade­ri­ram logo desde a pri­meira au­di­ção. Pelos vis­tos, tam­bém os or­ga­ni­za­do­res do fes­ti­val Out Fest, que to­dos os anos de­corre no Barreiro. Em Outubro te­re­mos por cá Mark Edward Smith, o pro­le­tá­rio do rock, mais os seus parceiros…

15/05/2013 @14:30

De derrota em derrota até à derrota final

Miguel Riopa

Foto: Miguel Riopa

Quem me co­nhece sabe que não ligo par­ti­cu­lar­mente ao fu­te­bol, tanto as­sim que des­co­nheço a maior parte dos no­mes dos jo­ga­do­res de cada for­ma­ção e que me ar­re­pio face aos fol­clo­res do mundo da bola (as bo­cas cru­za­das dos pre­si­den­tes e dos trei­na­do­res dos clu­bes, o ma­lhanço nos ár­bi­tros e por aí fora).

Além de que há mis­té­rios nas qua­tro li­nhas que con­ti­nuo a não com­pre­en­der, se é que téc­ni­cos e jo­ga­do­res con­se­guem eles próprios.

Afinal, le­vei mui­tos anos a as­si­mi­lar as ló­gi­cas do fora de jogo… Até per­ce­ber que não têm ló­gica ne­nhuma, ape­nas de­pen­dendo do olhar sub­je­tivo do ho­mem da bandeirola.

O certo, po­rém, é que gosto de ver uma boa par­tida. Dou sal­tos e grito quando o que se passa é a va­ler. Infelizmente, não acon­tece mui­tas ve­zes. Face ao té­dio da maior parte das con­ten­das fu­te­bo­lís­ti­cas cá do burgo, acabo por vi­rar a mi­nha aten­ção para ou­tras coisas.

Este des­pren­di­mento pode ter ou­tra ex­pli­ca­ção que não pro­pri­a­mente eu ser um «pe­queno ou mé­dio in­te­lec­tual» e ter plena cons­ci­ên­cia da fun­ção do fu­te­bol na ali­e­na­ção de mas­sas, agora mais, até, do que nos tem­pos da ditadura.

Sou spor­tin­guista, ou seja, a frus­tra­ção está-me bem en­rai­zada no sis­tema. Mas en­quanto ou­tros la­gar­tos têm fé no «de der­rota em der­rota até à vi­tó­ria fi­nal», este vosso amigo habituou-se ao ir de der­rota em der­rota até ao der­ra­deiro fa­lhanço. Não há nada como ser spor­tin­guista para não ali­men­tar ilu­sões quanto à pró­pria vida.

 

Uma ques­tão genética

Não sou spor­tin­guista por es­co­lha mi­nha. Herdei essa con­di­ção. É de fa­mí­lia. Quando nasci, fui tor­nado ime­di­a­ta­mente em só­cio do clube de Alvalade. Possuo o car­tão dos 50 anos, aquele ne­gro com o leão a dourado.

O meu tio-avô Rui Araújo foi mé­dio e de­fesa do Sporting en­tre 1933 e 1942, tendo che­gado a ser ca­pi­tão da equipa. Morreu em 1998, em Oliveira de Azeméis, onde ti­nha um café e foi trei­na­dor do Oliveirense.

O fi­lho dele, o mais ve­lho de to­dos os meus pri­mos, tornou-me só­cio mal vim ao mundo e era ele quem, até fa­le­cer há dois anos, me pa­gava as quo­tas. O cai­xão dele se­guiu para o ce­mi­té­rio com a ban­deira do Sporting em cima – man­teve es­toi­ca­mente a fi­de­li­dade le­o­nina até de­pois do fim.

Bem sei que ele gos­ta­ria que eu ti­vesse con­ti­nu­ado como só­cio, mas a bola re­pre­senta para mim o con­flito da es­pe­rança. Por na­tu­reza es­pero sem­pre muito pouco e o Sporting con­tri­buiu em larga me­dida para este meu per­fil. Pois, não pas­sei eu a pa­gar a mi­nha con­tri­bui­ção clubística…

Lembro-me de o meu Primo Jorge me ter le­vado a um jogo do Sporting quando era ado­les­cente. Foi o único num es­tá­dio a que as­sisti. Naquela época não ha­via ecrãs gi­gan­tes, pelo que só via uns ti­pos de cal­ções quando pas­sa­vam di­ante de mim – não dava para per­ce­ber nada. Só a te­le­vi­são me per­mi­tia ter uma vi­são de con­junto e desde en­tão pre­firo o te­le­vi­sor quando vejo futebol.

Somente as­sim fico com a ideia de que se está a de­sen­ro­lar uma trama, um en­redo, uma in­triga, tal como com um ro­mance, um filme ou uma peça mu­si­cal com di­men­são nar­ra­tiva. Mas uma coisa é Marcel Proust com bola e ou­tra Paulo Coelho com bola – re­gra ge­ral, o que te­mos é este úl­timo e não gosto.

Ver o Sporting jo­gar mal só me é com­pen­sado quando vejo o Porto e o Benfica tam­bém a jo­ga­rem mal, e nos úl­ti­mos tem­pos es­tes deram-me essa sa­tis­fa­ção por di­ver­sas ve­zes, an­tes de, abor­re­cido com a his­tó­ria con­tada, mu­dar de canal.

Ainda vi­rei a aten­ção para a Seleção Nacional, mas tam­bém esta, que tem um mis­ter que até pas­sou pelo Leão, se tem pa­re­cido de­ma­si­ado com o Sporting. Ora perde, ora em­pata, deixando-se fi­car para trás.

Não vi a dis­puta Porto-Benfica de há uns dias, por falta de mo­ti­va­ção, e te­nho evi­tado os jo­gos do Sporting e da Seleção por me lem­brar do meu Tio Rui e do meu Primo Jorge, de quem te­nho tan­tas saudades…

Que tris­tes eles fi­ca­riam com tudo o que se está a pas­sar no Sporting e no fu­te­bol por­tu­guês. Mesmo ha­bi­tu­a­dos a maus re­sul­ta­dos, ti­nham uma fé que eu não con­sigo ter, pelo que, se cá ainda es­ti­ves­sem, tam­bém fi­ca­riam tris­tes comigo.

Sportinguismo e por­tu­gue­sismo ba­te­ram mal em mim. Estão-me nos ge­nes, mas gangrenaram.

10/05/2013 @10:51

Ora tomem e embrulhem

Os Ceramic Dog de Marc Ribot têm novo ál­bum, aca­ba­di­nho de sair: «Your Turn». Os ví­deos que se se­guem são de dois dos te­mas for­tes da co­le­ção: o psi­ca­dé­lico «Lies My Body Told Me»…


…e o muito po­lí­tico e pro­vo­ca­tó­rio «Masters of the Internet», este de­di­cado a to­dos os pi­ra­tas de água doce out there.


Marc Ribot, disse. Não sa­bem quem é? Pois de­viam, já que se trata, muito sim­ples­mente, de um dos me­lho­res gui­tar­ris­tas em ati­vi­dade, seja qual for a área mu­si­cal em que na oca­sião se mo­vi­menta: jazz, rock, funk (a par­tir de com­po­si­ções de John Cage!), im­pro­vi­sa­ção li­vre, ex­pe­ri­men­ta­lismo ma­rado ou ne­nhuma des­sas coi­sas, por­que no que faz há obras que de­sa­fiam qual­quer categorização.

O pró­prio cur­rí­culo do ho­mem de­mons­tra o seu ca­rác­ter mul­ti­fa­ce­tado: es­tu­dou com o mes­tre da gui­tarra ha­vai­ana Frantz Casseus, tra­ba­lhou com Tom Waits e com John Lurie nos em­ble­má­ti­cos Lounge Lizards, gra­vou e su­biu ao palco com gente como Elvis Costello, Robert Plant (sim, sim, o dos Led Zeppelin), Laurie Anderson, Caetano Veloso, Wilson Pickett, Chuck Berry, McCoy Tyner, James Carter, Norah Jones e Elton John.

Quando John Zorn pre­cisa de uma so­lid body, é ele quem vai bus­car, pelo que es­tará pre­sente nos vá­rios gru­pos do sa­xo­fo­nista que vêm à co­me­mo­ra­ção dos 60 anos deste no pró­ximo Jazz em Agosto, ali nos jar­dins da Gulbenkian.

Antes dos Ceramic Dog, Ribot li­de­rou ou­tras ban­das mais in­con­fun­di­vel­mente ro­quei­ras, em ver­são noise-punk-no wave, Rootless Cosmopolitans e Shrek.

Teve ou­tra de mú­sica fal­sa­mente cu­bana, Los Cubanos Postizos, e uma de­di­cada ao free jazz de Albert Ayler, Spiritual Unity, que ti­nha a par­ti­cu­la­ri­dade de in­cluir Henry Grimes, o len­dá­rio con­tra­bai­xista dos gru­pos do de­sa­pa­re­cido te­nor que, se­gundo um crí­tico ame­ri­cano, so­ava como se al­guém gri­tasse «foda-se» em plena missa.

 

Algemado só nos pulsos

Marc Ribot

É pre­ci­sa­mente essa a pos­tura as­su­mida por Marc Ribot: es­tou aqui «e não é para con­for­tar nin­guém», o tí­tulo de uma peça jor­na­lís­tica re­cen­te­mente pu­bli­cada so­bre esta fi­gura em des­ta­que na cena de Nova Iorque.

É, aliás, um ati­vista pe­los di­rei­tos dos ar­tis­tas. Quando se trata de fa­zer ocu­pa­ções, lá está ele. Volta e meia, apa­re­cem na im­prensa fo­tos de Ribot, al­ge­mado e ro­de­ado de po­lí­cias, rumo à es­qua­dra mais próxima.

«Your Turn» sucede-se ao ál­bum de es­treia dos Ceramic Dog, «Party Intellectuals», aquele mesmo em que surge uma obra-prima da can­ção cha­mada «When We Were Young and We Were Freaks”, que me dei­xou de queixo caído quando a ouvi pela pri­meira vez.

A di­fe­rença do novo CD re­la­ti­va­mente a esse pri­meiro está na ob­je­ti­vi­dade: en­quanto na­quele ha­via al­guns de­va­neios «van­guar­dis­tas», neste vai-se di­re­ta­mente à ques­tão, e a ques­tão chama-se rock and roll. Simples e efi­caz como uma pe­dra a rolar…

Ceramic Dog

Ceramic Dog: Marc Ribot, Ches Smith e Shahzad Ismaily

Com Ribot está Ches Smith, ba­te­rista re­par­tido en­tre o jazz e o rock que, neste úl­timo do­mí­nio, per­tence às for­ma­ções Secret Chiefs 3 e Xiu Xiu, jun­tando as duas abor­da­gens nos pro­je­tos These Arches (aten­ção, edi­tado por uma eti­queta por­tu­guesa, a Clean Feed) e Good for Cows.

E está tam­bém o bai­xista e ma­ni­pu­la­dor de sin­te­ti­za­do­res Shahzad Ismaily, um fi­lho de pa­quis­ta­ne­ses emi­gra­dos nos EUA que tem a par­ti­cu­la­ri­dade de ser o único mú­sico, no meu co­nhe­ci­mento, que to­cou tanto com Lou Reed como com Nels Cline, dos Wilco.

08/05/2013 @21:06

A dita cuja de Iggy Pop

Faz este ano 66 de vida e acaba de lan­çar um ál­bum com tí­tulo pro­vo­ca­tó­rio, «Ready to Die».

Recentemente, um jor­na­lista fez-lhe a per­gunta que nin­guém ainda ti­vera a co­ra­gem de di­ri­gir ao ve­te­rano can­tor que é um dos mai­o­res sím­bo­los se­xu­ais do rock, ao lado de Jim Morrison, Lou Reed, David Bowie e Mick Jagger: se a sua re­la­ção com a pila ti­nha mu­dado com a idade…

Fazia todo o sen­tido. Em tem­pos que lá vão, James Osterberg – de seu ver­da­deiro nome – gos­tava de os­ten­tar o seu «grande e belo» (se­gundo Erik Hedegaard, hoje um dos edi­to­res da re­vista Rolling Stone) mem­bro nos pal­cos e di­ante das câ­ma­ras e volta e meia sur­giam no­tí­cias so­bre as suas no­vas na­mo­ra­das. Que fo­ram muitas.

Iggy Pop

Iggy Pop em Memphis, 2007

Além de que muito se es­pe­cu­lou so­bre a sua li­ga­ção a Bowie nos anos (de 1976 a 78) em que tra­ba­lha­ram jun­tos em Berlim. Iggy Pop ne­gou que te­nha ha­vido idas di­re­tas do es­tú­dio para a cama, e se o ex-Ziggy Stardust nunca o ad­mi­tiu, tam­bém nunca disse que não.

Pouca im­porta, na ver­dade. A sua ima­gem se­xual desde os tem­pos dos Stooges é tão car­re­gada que se tor­nou homo-erótica. Se mui­tas ra­pa­ri­gas sus­pi­ra­ram ao vê-lo can­tar de tronco nu, a não me­nos ra­pa­zes ins­pi­rou va­len­tes ereções.

Veja-se, de resto, a per­so­na­gem de Curt Wild no filme “Velvet Goldmine», nele inspirada…

O certo é que Iggy res­pon­deu ao jor­na­lista com esta enig­má­tica (ou nem tanto as­sim) frase: «Se an­tes o meu pé­nis era como todo um par­tido po­lí­tico, hoje di­ria que se pa­rece mais com uma ten­dên­cia or­ga­ni­zada den­tro de um par­tido.»

 

Olhar para os pássaros

O certo é que a sua longa his­tó­ria de amor com Nina Alu, um quarto de sé­culo mais nova do que ele (mas adulta!), o acal­mou. Já não é o mesmo que, aos 20 anos, an­dava atrás de miú­das de 13, 14 e 15, o que, se fosse agora, lhe te­ria va­lido umas pe­nas de pri­são por pedofilia.

Confessou Nina, se­pa­rando o ho­mem pú­blico e o ho­mem pri­vado: «Gosto de Iggy Pop e respeito-o, mas acho que não con­se­gui­ria vi­ver com ele. O Jim já é ou­tra coisa. O Jim é doce, é sos­se­gado e é ro­mân­tico. Quando es­ta­mos a jan­tar ou a fa­zer amor é o Jim que te­nho ali, não o Iggy, e às ve­zes apanho-o a olhar para as ár­vo­res e para os pás­sa­ros.»

De facto, mui­tas coi­sas se al­te­ra­ram na exis­tên­cia de Iggy: a de­pen­dên­cia da he­roína é uma in­fe­li­ci­dade do pas­sado, dei­xou de chei­rar coca e de fu­mar gan­zas, bebe um copo de vi­nho ape­nas ao jan­tar e já não con­some ta­baco. Só man­tém um ví­cio: café forte, cu­bano de preferência.

Continua a ser um re­cluso, mas em vez de se fe­char em casa vai para o campo pra­ti­car Tai Chi.

Não que isso lhe te­nha mu­dado a verve e a re­bel­dia. É o mesmo Iggy Pop, o an­te­ces­sor do punk nos Sixties, que berra para o mi­cro­fone, cheio de ener­gia, fú­ria e escárnio.

Só não se aven­tura mais em stage di­vings, com uma ou ou­tra ex­ce­ção quando a adre­na­lina lhe dis­para, e já não o ve­mos a ro­lar so­bre vi­dro par­tido e a golpear-se com ba­que­tas de ba­te­ria, o san­gue escorrendo-lhe pela cara e pelo peito.

Tem as fei­ções quase tão mar­ca­das pela vida que le­vou quanto as de Keith Richards (como já disse: «O meu look devo-o ao de­bo­che»), mas ainda pos­sui um ven­tre liso e duro que faz in­veja a muito jo­vem roc­ker e con­ti­nua a al­te­rar o ritmo car­díaco a quem não re­siste a tanta te­a­tra­li­za­ção da sua masculinidade…

Iggy Pop pode já ter-se pre­pa­rado para mor­rer, mas os seus fãs ainda não. Aquela pila mar­cou a mú­sica e não vão que­rer deixá-la ir.

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