Rui Eduardo Paes

Rui Eduardo Paes

Crítico de música e jornalista cultural. Homem de paixões e casmurrices. Bebedor de Red Bull e fumador de cigarrilhas. — Facebook, Email

28/03/2013 @17:41

Norbert Stein e o jazz patafísico

Há um jazz pa­ta­fí­sico e o seu ex­po­ente mais as­su­mido dá pelo nome de Norbert Stein.

É ale­mão, os anos embranqueceram-lhe o ca­belo, mas não as ar­tes sa­xo­fo­nís­ti­cas e da com­po­si­ção, e o seu pro­jeto Pata Music tem mais um, e bri­lhante, epi­só­dio: o disco «Pata on the Cadillac».


Os ví­deos que veem e ou­vem neste ar­tigo são de con­cer­tos que o an­te­ce­de­ram. No es­tú­dio, aos ins­tru­men­tos en­vol­vi­dos acrescentaram-se um con­tra­baixo e uma ba­te­ria. O que sig­ni­fica que o jazz de câ­mara do ab­surdo da abor­da­gem Cadillac fi­cou, no CD, mais jazz e me­nos câ­mara, mas tão ab­surdo como sempre…

Absurdo, disse? Precisamente: a pa­ta­mú­sica de Stein é como o pa­ta­te­a­tro de Alfred Jarry, o in­ven­tor da pseu­do­ci­ên­cia que dá pelo nome de Patafísica (ape­sar de o dra­ma­turgo e po­eta da pas­sa­gem do sé­culo XIX para o XX ter im­pu­tado a um tal Dr. Faustroll a gé­nese da coisa).

Ou seja, joga com pa­ra­do­xos, incongruências.

Digamos que a Patafísica é como o bu­dismo Zen, com a di­fe­rença de que tro­cou o as­ce­tismo ali­men­tar pela in­ges­tão abu­siva de ab­sinto. Aliás, conta-se que, sob a in­fluên­cia dos va­po­res da be­bida alu­ci­no­gé­nia da cor das plan­tas, Jarry cir­cu­lava como um louco pe­las ruas de Paris com a sua bi­ci­cleta, pin­tado de verde.

Um com­por­ta­mento nele ha­bi­tual, de resto. Costumava pra­ti­car tiro ao alvo em casa e certa vez uma vi­zi­nha queixou-se de que co­lo­cava a vida dos seus fi­lhos em risco. A res­posta deste pi­o­neiro do van­guar­dismo es­té­tico é elu­ci­da­tiva: «Não se pre­o­cupe, mi­nha se­nhora. Se isso acon­te­cer, te­rei todo o pra­zer em fa­zer ou­tros con­sigo.»

 

Soluções ima­gi­ná­rias


Assim, o tal de jazz pa­ta­fí­sico é uma mú­sica de «so­lu­ções ima­gi­ná­rias». Nisso, teve bons an­te­ce­den­tes, se bem que re­gra ge­ral fora deste idi­oma da arte dos sons e até fora da arte dos sons pro­pri­a­mente dita. Foram pata-absurdos, por exem­plo, o pin­tor Max Ernst, o fo­tó­grafo Man Ray, o ator có­mico Groucho Marx, o fi­ló­sofo Jean Baudrillard.

Mais re­cen­te­mente, tam­bém o es­cri­tor Umberto Eco.

Norbert Stein juntou-se ao grupo por­que, ao ler «Ubu Roi», de Alfred Jarry, per­ce­beu que «há mais coi­sas para além das fron­tei­ras da nor­ma­li­dade». Coisas que «se po­dem sen­tir, mesmo que ainda se des­co­nhe­çam».

E não, não se trata de ou­tro nome para a me­ta­fí­sica. A Patafísica surge quando a me­ta­fí­sica es­gota as suas vir­tu­a­li­da­des. Tal como a ci­ên­cia con­ven­ci­o­nal, aquela dedica-se às ge­ne­ra­li­da­des, en­quanto a Patafísica pre­fere muito ob­vi­a­mente o que é par­ti­cu­lar, o que con­tra­ria as ten­dên­cias gerais.

Ora, o nosso pa­ta­mú­sico acha que há mais mun­dos para além deste a que cha­ma­mos real, pelo que de­ci­diu par­tir da re­a­li­dade do jazz para pro­cu­rar ou­tras re­a­li­da­des pos­sí­veis ou im­pos­sí­veis, e é isso que anda a fa­zer tei­mo­sa­mente desde há décadas.

Nesse pé­ri­plo, ab­sor­veu tanto ele­men­tos da eru­di­ção eu­ro­peia quanto do bur­lesco, com a cons­ci­ên­cia de que «as cul­tu­ras mu­si­cais são ape­nas ocor­rên­cias lo­ca­li­za­das, to­das elas à pro­cura do mesmo: cap­tu­rar tudo o que a mú­sica pode cap­tu­rar».

A de­fi­ni­ção da sua obra pode ser a mesma que Klaus Voelker deu ao con­ceito de Patafísica:

«Trata-se de uma ló­gica não-realista e de uma re­a­li­dade que está para além das apa­rên­cias ex­ter­nas e dos prin­cí­pios de cau­sa­li­dade. Tudo é pas­sí­vel de ser me­xido, de ser trans­for­mado, de ser vi­rado do avesso e tro­cado: coi­sas, tem­pos e lu­ga­res. Mas nada é ar­bi­trá­rio, o que acon­tece é que a sim­pli­ci­dade con­siste numa com­ple­xi­dade inter-relacionada e au­to­pe­ne­trante.»

 

Evitar re­gras

Em ter­mos prá­ti­cos, as com­po­si­ções de Stein nunca são por si ter­mi­na­das. Os mú­si­cos com quem toca é que as con­cluem, de forma es­pon­tâ­nea e in­te­ra­tiva. São «pata-pautas», ou, como já as de­sig­nou, me­ros «horários».

As pe­ças es­tão em per­ma­nente de­sen­vol­vi­mento, pelo que ne­nhuma per­for­mance das mes­mas é se­me­lhante às an­te­ri­o­res. O único fa­tor im­por­tante é «evi­tar re­gras e tra­di­ções ra­ci­o­nais ri­go­ro­sas, sem des­res­pei­tar as que exis­tem».

Quer tudo isto di­zer que a mente in­to­xi­cada de Jarry não in­flu­en­ciou ape­nas o mo­vi­mento Dada e o Surrealismo. O seu le­gado per­sis­tiu até à atu­a­li­dade, pri­meiro atra­vés do Collège de Pataphysique (1948), de­di­cado a «in­ves­ti­gar o inú­til» – Boris Vian, o trom­pe­tista, crí­tico de jazz e ro­man­cista, foi mem­bro da or­ga­ni­za­ção – e desde o ano 2000 tendo como prin­ci­pal veí­culo ins­ti­tu­ci­o­nal o London Institut of Pataphysics.

Este é cons­ti­tuído por seis de­par­ta­men­tos, sendo os mais in­te­res­san­tes, tal­vez, o Bureau for Hirsutism and Pogonotrophy, que se ocupa em de­ter­mi­nar mé­to­dos de fer­ti­li­za­ção para a barba, e o Department of Potassons, que tem por fi­na­li­dade sa­ti­ri­zar os pro­je­tos dos ou­tros gabinetes.

O Cadillac de Norbert Stein cir­cula por aqui perto…

21/03/2013 @15:32

Sunflare: produto nacional

Não, o psi­ca­de­lismo rock tuga não se fica pe­los mas­todôn­ti­cos Black Bombaim…

Os seus mais pró­xi­mos ri­vais dão pelo nome de Sunflare, tam­bém um power trio de gui­tarra, baixo e ba­te­ria. Constituem-no Guilherme Canhão, Rui Nogueiro e Raphael Soares.

Têm dois EPs a ro­dar, «Young Love» (2011) e «Ghetto Blast» (2012), tendo o pri­meiro sido en­tu­si­as­ti­ca­mente elo­gi­ado no seu blo­gue de crí­tica mu­si­cal por nem me­nos do que Julian Cope.

Exacto, o mú­sico bri­tâ­nico que che­gou a fa­zer parte dos Teardrop Explodes e que en­ce­tou um per­curso como mu­si­có­logo re­sul­tante na edi­ção de dois li­vros fun­da­men­tais, «Krautrocksampler» e «Japrocksampler».

O sto­ner rock da banda lis­bo­eta tem sido com­pa­rado com o dos High Rise de Makoto Kawabata, mais co­nhe­cido pe­los seus des­va­rios gui­tar­rís­ti­cos nos Acid Mother Temple. Bem que o fuzz de Canhão está à al­tura do japa cabeludo.

O que te­mos aqui é uma des­cida aos in­fer­nos do rock ‘n’ roll, o dos Sessentas e Setentas, e tem re­fe­rên­cia his­tó­rica: Blue Cheer. Mas trata-se só de re­fe­rên­cia, por­que o resto é pro­duto na­ci­o­nal do sé­culo XXI.

Ora oi­çam e ve­jam lá…

18/03/2013 @19:05

Criador de planetas

Emanuel Dimas de Melo PimentaNa obra do luso-brasileiro Emanuel Dimas de Melo Pimenta a mú­sica e a ar­qui­te­tura confundem-se mui­tas ve­zes. Algumas das suas par­ti­tu­ras grá­fi­cas, ge­ra­das com­pu­ta­ci­o­nal­mente, assemelham-se às cons­tru­ções de ar­qui­te­tura vir­tual que tam­bém o têm notabilizado.

Seja numa dis­ci­plina como na ou­tra, é com o es­paço que lida e com a sua ha­bi­ta­bi­li­dade. Por isso mesmo, po­de­mos di­zer que en­tende a ar­qui­te­tura como mú­sica e esta é sem­pre imersiva.

É «quente» e pro­por­ci­ona o «êx­tase», para uti­li­zar as pa­la­vras que o com­po­si­tor John Cage lhe de­di­cou pouco an­tes de morrer.

 

Antes de Second Life

Na de­fi­ni­ção do mé­todo de «ar­qui­te­tura vir­tual» que Pimenta es­ta­be­le­ceu em 1982 vem esta má­xima: «Um es­paço deve ser fa­cil­mente des­pro­gra­má­vel e re­pro­gra­má­vel, pois as pes­soas mu­dam em cada ins­tante

No re­forço desta ideia, afir­mou igual­mente o que se­gue: «Se há pa­ra­dig­mas na ar­qui­te­tura tra­di­ci­o­nal – pa­re­des, ja­ne­las, co­ber­tu­ras –, na ar­qui­te­tura vir­tual tudo está em per­ma­nen­tes mu­ta­ção, tur­bu­lên­cia e flui­dez, em con­cei­tos de luz, de fluxo, de pre­sença.»

Daí vem re­sul­tando, por exem­plo, a cri­a­ção de um me­ga­pro­jecto, ainda em curso, que an­te­ci­pou o pró­prio Second Life. O Woiksed é um pla­neta vir­tual, com as suas pró­prias ci­da­des e pai­sa­gens «naturais».

No fu­turo (quando o de­sen­vol­vi­mento tec­no­ló­gico o per­mi­tir, pois por en­quanto é de­ma­si­ado pe­sado para ser ace­dido – ou co­lo­cado – na Net por um sim­ples lap­top ou desk­top) pretende-se aberto a quem o queira vi­si­tar ou nele pre­tenda instalar-se. Será uti­li­zá­vel como um jogo in­te­ra­tivo, en­vol­vendo os sen­ti­dos vi­sual, au­di­tivo e tác­til, e para já tem tido a con­tri­bui­ção de al­guns ar­tis­tas, como o es­cul­tor suíço Francesco Mariotti.

Mais co­la­bo­ra­tivo, mas en­tron­cando com o work-in-pro­gress Woiksed, é o seu The End of the World – A Planetary Project, cujo ar­ran­que coin­ci­diu com o dia em que o mundo aca­bou, 21 de Dezembro de 2012. Abrigado pelo Streaming Museum de Nova Iorque, de que é an­fi­triã Nina Colosi, en­volve 70 ar­tis­tas, po­e­tas e fi­ló­so­fos de 11 países.

Alguns de­les por­tu­gue­ses, como António Cerveira Pinto, Carlos “Zíngaro”, Estela Guedes, João Castro Pinto, Leonel Moura e Nuno Júdice.

De re­fe­rir ainda o edi­fí­cio or­bi­tal Kairos, uma ho­me­na­gem ao cos­mo­nauta Yuri Gagarin com ins­pi­ra­ção em fi­gu­ras como Buckminster Fuller e Marshall McLuhan. Pretende ser um ob­ser­va­tó­rio da Terra, ge­rido pela so­ci­e­dade civil.

O pro­jeto tem sido apre­sen­tado em ex­po­si­ções e exis­tem um li­vro e um filme so­bre o mesmo, o úl­timo tendo como sound­track a peça «Seti», de Pimenta, com­posta e to­cada a par­tir de sons extraterrestres.

Para am­bos os do­mí­nios (mú­sica e ar­qui­te­tura) este fi­lho de emi­gran­tes da Mealhada nas­cido em S. Paulo es­ta­be­le­ceu um mesmo pro­cesso de «for­ma­ção plás­tica de pa­drões si­náp­ti­cos» a que chama «de­sign sen­so­rial», des­ti­nado a es­ta­be­le­cer «ar­ma­di­lhas ló­gi­cas».

No iní­cio, as suas par­ti­tu­ras eram bi­di­men­si­o­nais, pla­ni­mé­tri­cas, mas hoje as com­po­si­ções que de­se­nha, por­que já não se trata sim­ples­mente de uma es­crita, são sis­te­mas com qua­tro dimensões.

Este tra­ba­lho foi re­co­nhe­cido pela Merce Cunningham Dance Company, que o con­vi­dou a criar pe­ças des­ti­na­das a se­rem co­re­o­gra­fa­das, e cha­mou a aten­ção da an­tiga men­tora do ar­tista vi­sual Joseph Beuys, a ba­ro­nesa Durini, que desde en­tão tem apoi­ado a car­reira de Emanuel Pimenta.

Um ponto alto desta foi, re­cen­te­mente, a ópera elec­tró­nica «Dante», ba­se­ada na «Divina Comédia» de Dante Aligheri, de cujo li­breto foi tam­bém o autor.

Aqui fi­cam al­guns frag­men­tos das três par­tes deste ou­tro feito de di­men­sões cosmo-metafísicas, «Hell», «Purgatory» e «Paradise»…

15/03/2013 @12:46

Thurston Moore depois dos Sonic Youth

Fãs dos Sonic Youth, não desesperem.

A banda que se ha­bi­tu­a­ram a se­guir nas úl­ti­mas dé­ca­das pode não mais vol­tar a pi­sar os pal­cos e a gra­var um disco, em con­sequên­cia do di­vór­cio de Thurston Moore e Kim Gordon, mas o pri­meiro já tem grupo ao vosso gosto.

(A pro­pó­sito: o tema «Groovy and Linda» da nova for­ma­ção, so­bre um apai­xo­nado ca­sal de hip­pies que foi as­sas­si­nado numa cave nova-iorquina em 1968, com Thurston a re­pe­tir o verso «don’t shoot Groovy and Linda» so­bre um sal­ti­tante ritmo hard­core, bem pode ser uma alu­são ao des­con­ten­ta­mento da po­pu­laça pelo facto de ele e Kim não te­rem sa­bido man­ter a sua li­ga­ção amoroso-musical…)

Exacto, os Chelsea Light Moving an­dam aí desde o ano pas­sado e este mesmo mês (Março, para quem não se aper­ce­beu em que al­tura do ca­len­dá­rio es­ta­mos) ti­ve­ram o seu ál­bum de­bu­tante edi­tado pela Matador.

O tí­tulo é o mesmo do nome do quar­teto e foi pi­lhado a uma em­presa de mu­dan­ças fun­dada pelo com­po­si­tor Philip Glass an­tes de ter su­cesso na mú­sica. Sosseguem, que a re­la­ção com este fica por aí.

Com o gui­tar­rista es­tão Samara Lubelski no baixo (a mesma que to­cou vi­o­lino em dis­cos a solo de Moore), John  Moloney, dos psi­ca­dé­li­cos Sunburned Hand of the Man, na ba­te­ria e Keith Wood, mais co­nhe­cido por Hush Arbors, na se­gunda seis-cordas, e se nem a ro­da­gem dos di­tos pe­los cir­cui­tos in­die che­gam para di­luir a he­rança Sonic Youth (Thurston será sem­pre Thurston, seja em que con­texto for), até que os Chelsea Light Moving têm um som próprio.

Thurston Moore

Curiosamente, o cin­quen­tão Thurston Moore pa­rece ter re­gres­sado aos pri­mei­ros anos da saga SY: o pro­jecto trans­pira punk por to­dos os po­ros, e olhem que não é o punk su­bli­mado e or­ques­tral de Glenn Branca.

A coisa co­me­çou logo com men­sa­gem, con­fir­mando que o nosso «gui­tar anti-hero» ga­nhou mesmo cons­ci­ên­cia po­lí­tica a par­tir do dia 11 de Setembro de 2001: o anún­cio de que iria apa­re­cer em qual­quer festa de ani­ver­sá­rio, ca­sa­mento ou hul­la­boo que não apoi­asse a or­ga­ni­za­ção norte-americana de extrema-direita National Riffle Association foi como um rastilho.

Em ter­mos mu­si­cais, há uma evi­dente li­ga­ção à frente te­xana do sto­ner rock, mais pe­sa­dona e dark do que a da Califórnia, mas tão vo­lun­ta­ri­osa quanto esta na des­cida às raí­zes do rock ‘n’ roll. Se bem que com uma di­men­são prog, o que já fez a crí­tica descobrir-lhe in­fluên­cias dos ve­lhi­nhos e muito blu­esy Groundhogs, com a no wave dos dis­so­nan­tes DNA a sur­gir pelo caminho.

As le­tras e o ima­gi­ná­rio não são es­tra­nhos ao per­curso de Moore – se­guem as fór­mu­las da Beat Generation e de um au­tor como William S. Burroughs, a quem de resto os Chelsea Light Moving de­di­cam a can­ção «Burroughs», bem como al­guma po­e­sia de Nova Iorque, a de Frank O’Hara, tam­bém lem­brado com um tema.

Os Sonic Youth mor­re­ram, vi­vam os Chelsea Light Moving.

14/03/2013 @18:19

Suka Off: a exaltação da carne

Suka Off

São os en­fants ter­ri­bles da per­for­mance, mas o seu tra­ba­lho tem agi­tado, igual­mente, os do­mí­nios da vídeo-arte e do instalacionismo.

Apresentam-se em te­a­tros, au­di­tó­rios, ga­le­rias e clu­bes no­tur­nos, tendo quase sem­pre uma ver­tente mu­si­cal, em as­so­ci­a­ções com fi­gu­ras da te­chno, do rock pós-industrial e do ex­pe­ri­men­ta­lismo eletrónico.

Têm a base na Polónia e dão pelo nome de Suka Off. Os seus es­pe­tá­cu­los e ações pú­bli­cas são cri­a­dos com base nos fan­tas­mas da se­xu­a­li­dade, com o fe­ti­chismo e o sado-masoquismo à ca­beça, re­ve­la­dos por uma de­vo­ção ob­ses­siva pelo lá­tex e por ri­tu­a­lis­mos bon­dage que, por ve­zes, re­sul­tam em sangue.

Construíram uma ima­gem muito pró­pria, mista de fic­ção ci­en­tí­fica cy­ber­punk e ci­nema de ter­ror «al­ter­na­tivo», com um ba­nho da ico­no­gra­fia do de­ath me­tal e ele­men­tos do fa­qui­rismo e do ocultismo.

Dão uma aten­ção me­ti­cu­losa ao por­me­nor, em ter­mos de ce­ná­rios, lu­zes, fi­gu­ri­nos (quando se ves­tem, por­que a nu­dez é a sua lin­gua­gem pri­meira), más­ca­ras e en­ce­na­ção de todo e qual­quer mo­vi­mento. Nada surge ao acaso: o que ve­mos pode ser a ma­té­ria de que são fei­tos os nos­sos mais obs­cu­ros de­lí­rios, mas tudo tem a sua pró­pria dis­po­si­ção sim­bó­lica e metafórica.

O pro­pó­sito de Piotr Wegrzynski e Sylvia Lajbig, o nú­cleo duro do co­le­tivo, é exal­tar a car­na­li­dade hu­mana em to­dos os seus as­pe­tos bi­o­ló­gi­cos e fi­si­o­ló­gi­cos e na re­la­ção que vai fir­mando com a tec­no­lo­gia e as suas substâncias.

A vi­o­lên­cia e o medo, que não a Sida, a Gripe A ou a Hepatite C, são en­ten­di­dos pelo Suka Off como os mais po­ten­tes ví­rus epi­dé­mi­cos da con­tem­po­ra­nei­dade, pelo que os re­pre­sen­tam em to­das as obras. Polemicamente, con­se­guindo ti­rar uma es­tra­nha be­leza da pró­pria abjeção.

Quando tor­nam ex­plí­cito o que dão por im­plí­cito nos cir­cui­tos cul­tu­rais ins­ta­la­dos ado­tam ou­tro nome: Inside Flesh. É esta a pla­ta­forma do seu mais am­bi­ci­oso pro­jeto, a for­mu­la­ção de uma por­no­gra­fia ar­tís­tica, e tam­bém aquela que me­lhor serve o sin­gu­lar ima­gi­ná­rio vi­de­o­grá­fico de Wegrzynski.

Nunca esta trupe es­teve em Portugal, vá-se lá sa­ber porquê. Ou sabemos?

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