→ 02/06/2008 @9:37

2001: a banda sonora do Cosmos

Esta pá­gina re­sulta da jun­ção de dois posts pre­vi­a­mente pu­bli­ca­dos no Bitaites e nos quais se di­vul­gou a banda so­nora de 2001: Odisseia no Espaço, re­a­li­zado em 1968, e até à data o me­lhor filme de fic­ção ci­en­tí­fica al­guma vez feito (ver trai­ler).

Para já, e tão ma­ra­vi­lhosa como a obra-prima de mes­tre Stanley Kubrick, deixo-vos a música.

 

Um ama­nhe­cer


Richard Strauss — Also Sprach Zarathustra

Este é um po­ema sin­fó­nico com­posto em 1896 por Richard Strauss, que es­tava fas­ci­nado com as ideias do fi­ló­sofo Friedrich Nietzsche (bi­o­gra­fia) no li­vro Also Sprach Zarathustra. (Assim Falou Zarathustra: Wikipedia). A sec­ção de Abertura – Dawn – foi usada por Kubrick três ve­zes, mas a mais co­nhe­cida é a que acom­pa­nha a sequên­cia ini­cial do filme.

Zarathustra, li­vro, de­fende a ideia de que os se­res hu­ma­nos são a tran­si­ção en­tre os ma­ca­cos e o que Nietzsche chama de Über­mensch (Além-do-homem, nor­mal­mente tra­du­zido como Super-homem).

Embora esta ideia te­nha ori­gi­nado cri­mi­no­sas in­ter­pre­ta­ções (ler es­tas re­la­ções en­tre Nazismo e Nietzsche), Kubrick soube apropriar-se do des­per­tar do Über­mensch, ce­le­bra­ção de Strauss, ge­nial com­po­si­tor, e dar-nos uma vi­são su­blime e hu­ma­nista do enigma en­fren­tado por se­res hu­ma­nos de exis­tên­cia fi­nita mas ca­pa­zes de com­pre­en­der que, para além de Júpiter, de qual­quer Júpiter, existe sem­pre o Infinito: pre­ten­der al­can­çar o li­mite do co­nhe­ci­mento é como ten­tar al­can­çar a li­nha do horizonte.

 

Um nas­ci­mento


Gyorgy Ligeti — Requiem For Soprano, Mezzo Soprano, Two Mixed Choirs & Orchestra

E en­tão Kubrick sur­pre­en­deu os es­pec­ta­do­res. Quando to­dos es­pe­ra­vam um filme de fic­ção ci­en­tí­fica mos­trando uma so­fis­ti­cada ci­dade do sé­culo XXI, Kubrick deu-lhes ma­ca­cos e fez re­cuar a Humanidade 4 mi­lhões de anos na sequên­cia ini­cial «O Alvorecer do Homem».

Sob a in­fluên­cia do mo­no­lito, o pri­mata torna-se ca­paz de fa­bri­car um ins­tru­mento de guerra a par­tir de um pe­daço de osso. O salto de 4 mi­lhões de anos para o fu­turo é dado por uma das mon­ta­gens mais fa­mo­sas da his­tó­ria do ci­nema quando o pri­mata, triun­fante, lança o osso ao ar e ele é subs­ti­tuído pela vi­são de uma nave espacial.

A pre­sença do mo­no­lito e a sua in­fluên­cia na evo­lu­ção do Homem é o mis­té­rio que atra­vessa todo o filme – sem nunca ser explicado.

Kubrick usa a mú­sica de Gyorgy Ligeti, fa­bu­loso com­po­si­tor de van­guarda que me­re­cerá um post por si só.

O Requiem de Ligeti trans­mite à cena em que o pri­mata en­con­tra o mo­no­lito um ca­rác­ter quase re­li­gi­oso. Arthur C. Clarke é ateu, e nos li­vros que pu­bli­cou com as di­ver­sas con­ti­nu­a­ções da his­tó­ria, aca­bou por re­ve­lar o Monolito – 3001: Odisseia Final – como sendo ape­nas uma má­quina ma­ne­já­vel pelo Homem.

Kubrick, ju­deu, ti­nha ou­tra vi­são: o pri­mata que tenta to­car no mo­no­lito as­sume uma po­si­ção se­me­lhante à de Adão e Deus na pin­tura de Miguel Ân­gelo da Capela Cistina, em Roma. Observamo-lo na sequên­cia es­ten­dendo a mão para o mo­no­lito como o faz Adão na cri­a­ção do pin­tor re­nas­cen­tista e como, de resto, qua­tro mi­lhões de anos de­pois no filme, o faz Heywood R. Floyd quando in­ves­tiga ou­tro mo­no­lito que fora en­ter­rado na Lua. Bowman tam­bém es­tende a mão ao mo­no­lito, no fi­nal do filme. [Fonte: A Odisseia Musical de 2001, de Miguel Andrade]

 

Dança cós­mica


Johann Strauss II — The Blue Danube

Quando Johann Strauss II (fi­lho mais novo da fa­mí­lia de com­po­si­to­res Strauss, ver bi­o­gra­fia) compôs o seu Danúbio Azul, já era co­nhe­cido em Viena como o Rei das Valsas. A fama e o re­co­nhe­ci­mento pú­blico levaram-no a vi­a­jar pela Europa e Estados Unidos onde, em 1876, por oca­sião das co­me­mo­ra­ções dos 100 anos da in­de­pen­dên­cia ame­ri­cana, con­du­ziu uma or­ques­tra de 1000 mú­si­cos na ci­dade de Boston.

Embora não seja con­si­de­rada a me­lhor valsa de Strauss, Danúbio Azul (nome abre­vi­ado pela pas­sa­gem dos anos, pois o ori­gi­nal é No Belo Danúbio Azul) con­quis­tou ilus­tres ad­mi­ra­do­res: Wagner afirmou-se «en­can­tado» e Brahms es­cre­veu num guar­da­napo o se­guinte co­men­tá­rio so­bre a obra: «Infelizmente não é mi­nha.» (con­sul­tar)

Esta valsa acom­pa­nha a dança das na­ves es­pa­ci­ais no filme de Kubrick e pa­rece trans­for­mar as leis de Newton em par­ti­tu­ras. São quase 15 mi­nu­tos sem diá­lo­gos, ape­nas a vi­são de uma nave do es­tilo Vai-Vem em su­ave apro­xi­ma­ção à Estação Orbital e, de­pois, na se­gunda parte, du­rante a vi­a­gem que leva o in­ves­ti­ga­dor Heywood R. Floyd da Estação à Lua. Fãs de fic­ção ci­en­tí­fica de ac­ção po­de­rão achar esta sequên­cia en­fa­do­nha: é con­tem­pla­tiva e sem mon­ta­gens frenéticas.

Kubrick que­ria fa­zer um filme tão re­a­lista que teve como con­sul­to­res es­pe­ci­a­lis­tas da NASA (para toda a pa­nó­plia de efei­tos es­pe­ci­ais re­la­ci­o­na­dos com a nave, os as­tro­nau­tas e a Cosmologia) e da IBM (para os com­pu­ta­do­res uti­li­za­dos). Não ad­mira, por­tanto, que um filme pro­du­zido em 1968 te­nha sido ca­paz de an­te­ci­par, com exac­ti­dão, pro­jec­tos como o Space Shuttle ou a Estação Orbital Internacional.

O apoio da IBM não du­rou muito tempo. Quando a em­presa soube que o prin­ci­pal com­pu­ta­dor da nave – HAL 9000 – se tor­na­ria o mau da fita, retirou-se do pro­jecto. Por isso se diz que o nome HAL é uma re­fe­rên­cia ve­lada (e iró­nica) à IBM: H acima do I, A acima do B, L acima do M. Kubrick afas­tou es­tas es­pe­cu­la­ções, afir­mando tratar-se ape­nas de uma coincidência.

 

Solidão


Aram Khachaturian — Gayne Ballet Suite (Adagio)

Combine-se a sequên­cia em que uma pe­quena nave es­pa­cial na­vega en­tre os abis­mos do Espaço ru­mando em di­rec­ção a Júpiter e o Adágio de Gayne Ballet Suite, do com­po­si­tor ge­or­gi­ano Aram Khachaturian, e tem-se a vi­são su­blime da so­li­dão. Penso que foi o que Kubrick e o es­cri­tor de fic­ção ci­en­tí­fica Arthur C. Clarke (co-autor do ar­gu­mento) qui­se­ram mos­trar: não a so­li­dão no sen­tido in­di­vi­dual, mas a so­li­dão da es­pé­cie humana.

É uma con­tra­di­ção evi­dente, quase im­pos­sí­vel de re­sol­ver, a forma como a nossa in­te­li­gên­cia con­se­gue abar­car es­pa­ços e tem­pos tão vas­tos e, ao mesmo tempo, a nossa exis­tên­cia fí­sica como in­di­ví­duos ser tão pe­quena e in­sig­ni­fi­cante. Ao en­trar­mos no in­te­rior da nave es­pa­cial, a sen­sa­ção de so­li­dão que nos trans­mite o si­lên­cio ge­lado do Cosmos per­ma­nece na inex­pres­si­vi­dade dos as­tro­nau­tas Dave Bowman e Frank Poole, en­tre­gues a ta­re­fas de ro­tina de ma­nu­ten­ção e sem di­ze­rem uma pa­la­vra um ao outro.

Apenas HAL, a in­te­li­gên­cia ar­ti­fi­cial que co­manda os des­ti­nos da nave, mais ex­pres­siva e emo­ci­o­nal que os hu­ma­nos, co­nhece a ver­da­deira na­tu­reza da mis­são: ir ao en­con­tro do gi­gan­tesco mo­no­lito que se en­con­tra em ór­bita de Júpiter.

 

Infinito


Gyorgy Ligeti — Lux Aeterna

Ligeti, com­po­si­tor de ori­gem hún­gara, ju­deu, fa­le­cido a 12 de Junho deste ano, em Viena, es­cre­veu Lux Aeterna em 1966, um ano an­tes da es­treia de 2001. A peça foi com­posta de acordo com uma téc­nica co­nhe­cida como Massa Sonora para um coro de 16 vo­zes so­lis­tas. É uma es­tru­tura que pres­cinde do ritmo e da me­lo­dia e uti­liza a har­mo­nia com o ob­jec­tivo de pro­du­zir va­ri­a­ções de tim­bres vo­cais ao longo do tempo. Ligeti in­ven­tou o termo mi­cro­po­li­fo­nia para des­cre­ver esta téc­nica com­po­si­ci­o­nal. (Fonte: Wikipédia)

Kubrick usou mui­tas com­po­si­ções de Ligeti nos seus fil­mes: em 2001, mas tam­bém em Shining ou Eyes Wide Shut.

A uti­li­za­ção das pe­ças de Ligeti – com­po­si­tor vir­tu­al­mente des­co­nhe­cido do grande pú­blico – ajudou-o a fil­mar a cin­zenta de­so­la­ção da Lua e o ca­rác­ter quase di­vino, trans­cen­den­tal, do monolito.

Não exis­tem mui­tos diá­lo­gos em 2001. Ao con­trá­rio dos fil­mes de fic­ção ci­en­tí­fica da época, não te­mos per­so­na­gens cuja exis­tên­cia se jus­ti­fica ape­nas para ex­pli­car ao es­pec­ta­dor o que está a ver: Kubrick deixa-nos so­zi­nhos com a sua vi­são e a mú­sica que es­co­lheu.

2001 foi re­a­li­zado cerca de um ano an­tes de ou­tra odis­seia – a dos as­tro­nau­tas da Apollo 11 que, a 20 de Julho de 1969, alu­na­ram no Mar da Tranquilidade – o cul­mi­nar de uma cor­rida es­pa­cial en­tre os Estados Unidos e a União Soviética ini­ci­ada em 1957 quando os rus­sos co­lo­ca­ram em ór­bita o pri­meiro ser vivo – uma ca­dela Laika a bordo da Sputnik II – e, em 1961, ven­ce­ram os Estados Unidos co­lo­cando o pri­meiro ho­mem no Espaço, Yuri Gagarin, num voo or­bi­tal de 48 mi­nu­tos a bordo da nave Vostok I. À se­me­lhança de Neil Armstrong, o pri­meiro ho­mem a pi­sar a Lua, tam­bém Gagarin ha­ve­ria de di­zer uma frase cé­le­bre: «A Terra é azul, e eu não vi Deus».

Esta com­pe­ti­ção en­tre Estados Unidos e União Soviética – uma de en­tre as mui­tas fa­ces da Guerra Fria – atra­ves­sou toda a dé­cada de 60. O pró­prio 2001, pos­si­vel­mente con­tra a von­tade de Kubrick e so­bre­tudo de Arthur C. Clarke, aca­ba­ria por en­trar nas con­tas dessa guerra quando foi su­ge­rido no Ocidente que Solaris, de Andrei Tarkovski, ba­se­ado no li­vro de Stanislaw Lem, era a res­posta ci­ne­ma­to­grá­fica da URSS ao filme ame­ri­cano. Steven Soderbergh, que re­a­li­zou a re­make de Solaris, afir­mou numa en­tre­vista ao New York Times ter ima­gi­nado «o pla­neta (Solaris) como o equi­va­lente ao mo­no­lito do 2001». Tarkovsky viu 2001 an­tes de ini­ciar as fil­ma­gens de Solaris e não gos­tou: «É um filme frio e es­té­ril».

2001 le­vou mui­tas pes­soas à Lua e rumo ao fu­turo mas, não obs­tante o co­nhe­cido fei­tio per­fec­ci­o­nista de Kubrick, não con­se­guiu es­ca­par a al­guns er­ros. Por força do des­co­nhe­ci­mento ainda exis­tente so­bre a Lua, não foi pos­sí­vel re­crear com per­fei­ção os efei­tos da au­sên­cia de gra­vi­dade so­bre os as­tro­nau­tas. A al­tura das mon­ta­nhas é ex­ces­siva e os efei­tos da ero­são so­bres­ti­ma­dos – seja como for, não fo­ram es­tas pe­que­nas de­fi­ci­ên­cias do filme que mo­ti­va­ram as crí­ti­cas ne­ga­ti­vas que recebeu.

Pauline Kael, da re­vista The New Yorker, co­nhe­cida pe­las suas crí­ti­cas eru­di­tas, elo­quen­tes e, se­gundo al­guns, his­té­ri­cas, clas­si­fi­cou 2001 como um filme «mo­nu­men­tal­mente pouco ima­gi­na­tivo». Mas so­bre esta pe­cu­liar raça – os crí­ti­cos – já o grande com­po­si­tor Erik Satie se pro­nun­ciou de forma apro­pri­ada [ver texto Elogio dos Críticos].

 

A can­ção de HAL


Hal Montage

Não se trata desta vez de uma mú­sica, mas de uma co­la­gem (9:41) dos diá­lo­gos do com­pu­ta­dor HAL no filme. A voz per­tence ao ac­tor Douglas Rain. Rain, nas­cido no Canadá, ac­tor de te­a­tro acima de tudo, nunca che­gou a pi­sar o lo­cal de filmagens.

HAL, a má­quina, é o re­sul­tado da­quilo que, em 1968, se pen­sava so­bre a evo­lu­ção dos com­pu­ta­do­res: quanto mais so­fis­ti­ca­dos, mai­o­res se­riam. Sabemos agora que a pre­vi­são fa­lhou, pois caminhou-se no sen­tido oposto — o da mi­ni­a­tu­ri­za­ção dos com­po­nen­tes electrónicos.

O pri­meiro cir­cuito elec­tró­nico mi­ni­a­tu­ri­zado sur­gira em fi­nais dos anos 50, na Texas Instruments, quando o en­ge­nheiro Jack Kilby fun­diu cinco tran­sís­to­res numa barra de 1,5 cen­tí­me­tros qua­dra­dos. O que não se po­dia su­por é que fôs­se­mos ca­pa­zes de di­mi­nuir até mil ve­zes o ta­ma­nho dos cir­cui­tos (Ver Nanotecnologia).

A ideia de um com­pu­ta­dor ca­paz de fa­lar como um ser cons­ci­ente tam­bém está longe do que é pos­sí­vel conseguir-se hoje em dia. Por ou­tro lado, um com­pu­ta­dor ca­paz de jo­gar xa­drez e, ainda por cima, ven­cer um ser hu­mano (como no jogo con­tra um dos tri­pu­lan­tes, Frank Poole), era im­pen­sá­vel na época – e te­mos to­dos bem cons­ci­ên­cia das par­ti­das em que o super-computador Deep Blue ven­ceu o cam­peão Gary Kasparov.

HAL, a per­so­na­gem, é muito mais com­plexa. O com­pu­ta­dor tem a seu cargo a ma­nu­ten­ção da nave e, ao mesmo tempo, a ava­li­a­ção psi­co­ló­gica dos tri­pu­lan­tes. Encerra nos seus cir­cui­tos um se­gredo: o ver­da­deiro ob­jec­tivo da mis­são, que é a de ir ao en­con­tro do gi­gan­tesco mo­no­lito que se en­con­tra em ór­bita de Júpiter.

Depois de fa­lhar uma pre­vi­são de ava­ria numa das an­te­nas da nave (im­pos­sí­vel de acon­te­cer, se­gundo o pró­prio HAL, pois não exis­tem re­gis­tos de quais­quer fa­lhas de fun­ci­o­na­mento no seu mo­delo de com­pu­ta­do­res), Dave Bowman e Frank Poole co­me­çam a cons­pi­rar con­tra a má­quina ad­mi­tindo, mesmo, a hi­pó­tese de a des­li­gar. HAL, apercebendo-se da in­ten­ção dos tri­pu­lan­tes (con­se­gue ler-lhes nos lá­bios o diá­logo que tra­vam), acaba por ma­tar Boole quando este efec­tua uma saída para o Espaço, em­bora fa­lhe na ten­ta­tiva de eli­mi­nar Bowman.

Clay Waldrop, no ar­tigo «The Kubrick Site: The Case For HAL’s Sanity», dis­serta so­bre a psi­co­lo­gia de HAL e parte pre­ci­sa­mente do jogo de xa­drez com Poole para de­fen­der a te­o­ria se­gundo a qual o com­pu­ta­dor não en­lou­que­ceu. Waldrof afirma que as ac­ções de HAL são re­sul­tado da Razão e da Lógica, ori­gi­nando to­ma­das de po­si­ções que são de­pois exe­cu­ta­das com a fri­eza de uma má­quina super-inteligente.

São inú­me­ras as in­ter­pre­ta­ções e ca­rac­te­ri­za­ções de HAL. A mais cu­ri­osa – em­bora la­te­ral­mente, pois o foco não é o com­pu­ta­dor mas o filme como um todo – é a de Michel Jalil Fauza no ar­tigo in­ti­tu­lado «O Paralelo da Consciência em Hamlet e 2001: Odisseia no Espaço». Outro site ofe­rece tex­tos – in­cluindo do pró­prio Arthur C. Clark – com to­dos os ti­pos pos­sí­veis de abor­da­gem, en­tre ar­ti­gos e en­tre­vis­tas: HAL’s Legacy. Para os in­te­res­sa­dos, é lei­tura não para ho­ras, mas para dias.

 

Tripe


Gyorgy Ligeti — Atmospheres

HAL, o super-computador fi­nal­mente ven­cido pelo ins­tinto hu­mano de so­bre­vi­vên­cia, chora a ino­cên­cia per­dida en­quanto o as­tro­nauta Dave Bowman in­vade o com­par­ti­mento onde es­tão ar­ma­ze­na­dos os cir­cui­tos sen­sí­veis da me­mó­ria do com­pu­ta­dor e desactiva-os, um a um, tor­nando a ago­nia fi­nal de HAL lenta e per­tur­ba­do­ra­mente humana.

HAL vai-se des­va­ne­cendo aos pou­cos e con­fessa, nos mo­men­tos fi­nais: «Tenho medo, Dave. Tenho medo.»

Já sem cons­ci­ên­cia de si pró­prio e ins­ti­gado por Bowman, HAL canta Bicycle Built For Two?, can­ção in­fan­til, sim, mas uma mera ro­tina que ti­nha sido ge­rada num IBM 7094 em 1961 pe­los pro­gra­ma­do­res John Kelly e Carol Lockbaum. Mais um to­que de realismo.

Silenciada a má­quina, Bowman, único re­pre­sen­tante da raça hu­mana nesta odis­seia es­pa­cial, chega a Júpiter, onde se en­con­tra o mo­no­lito, e des­co­bre, para além de Júpiter, o Infinito.

Os quinze mi­nu­tos fi­nais de 2001 as­som­bram os es­pec­ta­do­res pela es­pec­ta­cu­la­ri­dade dos efei­tos es­pa­ci­ais e pelo mis­té­rio que, em vez de fi­car re­sol­vido, ainda mais se adensa.

Primeiro, a sequên­cia em que Bowman pa­rece dei­xar de es­tar su­jeito às res­tri­ções da nossa tec­no­lo­gia e vi­aja pelo Espaço e pelo Tempo como se es­ti­vesse sen­tado num car­ri­nho per­cor­rendo uma montanha-russa cós­mica. Luzes, co­res e for­mas des­fi­lam di­ante de nós, o mundo está re­pleto de es­tre­las, ga­lá­xias e mun­dos des­co­nhe­ci­dos. Tão es­tra­nha como as ima­gens é a mú­sica es­co­lhida pelo re­a­li­za­dor, mais uma peça or­ques­tral de Ligeti, ato­nal e dissonante.

Para quem vive o sé­culo da ani­ma­ção com­pu­to­ri­zada, os efei­tos vi­su­ais usa­dos nesta sequên­cia po­de­rão pa­re­cer ru­di­men­ta­res — na época em que sur­gi­ram, po­rém, des­lum­bra­ram. Não eram um mero es­pec­tá­culo vi­sual, dizia-se, mas uma ver­da­deira ex­pe­ri­ên­cia — o mais pró­ximo que se po­dia es­tar de uma trip de LSD sem con­su­mir a droga.

 

A con­di­ção Humana


Gyorgy Ligeti — Adventures

Depois de uma vi­a­gem psi­ca­dé­lica pelo Espaço, o as­tro­nauta Dave Bowman encontra-se numa sala se­te­cen­tista. O filme torna-se ainda mais es­tra­nho, mis­te­ri­oso. Ouvem-se sons, vo­zes, que pa­re­cem in­di­car pre­sen­ças ali­e­ní­ge­nas na sala. Não são efei­tos so­no­ros, mas ex­cer­tos de uma das pe­ças mais ar­ro­ja­das de Ligeti, Adventures.

Nessa peça o com­po­si­tor propôs aos mú­si­cos uma ex­pe­ri­ên­cia mu­si­cal di­fe­rente — criar sons es­tra­nhos com a sua pró­pria voz – e in­cor­po­rou e mon­tou os sons con­se­gui­dos. Recursos deste tipo já os co­nhe­cia em ex­pe­ri­men­ta­ções mais ar­ro­ja­das de ou­tro gé­nio da mú­sica, Frank Zappa.

Kubrick usa-as para au­men­tar ainda mais a sen­sa­ção de es­tra­nheza e mis­té­rio na­quela sala. O que é aquela sala, e qual o sig­ni­fi­cado de tudo o que ve­re­mos pos­te­ri­or­mente, é algo que o re­a­li­za­dor nunca mos­trou in­te­resse em ex­pli­car: «Há cer­tas áreas da re­a­li­dade – ou da ir­re­a­li­dade, ân­sia in­te­rior, chame-lhe o que qui­ser — que são par­ti­cu­lar­mente ina­ces­sí­veis às pa­la­vras», afir­mou uma vez.

Kubrick ra­ra­mente dava en­tre­vis­tas, mas al­guns fo­ram ca­pa­zes de que­brar o gelo. Jeremy Bernstein, em Novembro de 1966, vi­si­tou a casa do re­a­li­za­dor. Não só con­se­guiu a de­se­jada en­tre­vista como pôde registá-la em cas­sete. Bernstein não era pro­pri­a­mente um jor­na­lista, mas um pro­fes­sor de Física au­tor de mais de uma de­zena de li­vros de di­vul­ga­ção ci­en­tí­fica e que tam­bém es­cre­via ar­ti­gos para a New Yorker.

Da parte da en­tre­vista de­di­cada ao filme (só es­tre­a­ria dois anos de­pois), o que acaba por ser mais in­te­res­sante é a forma como Kubrick in­ter­preta e sente a obra do es­cri­tor de fic­ção ci­en­tí­fica Arthur C. Clarke, co-autor do ar­gu­mento e em cujo conto The Sentinel a his­tó­ria de 2001 se ins­pi­rou. Sobre o filme acaba por fa­lar muito pouco.

«Intelectualmente com­pli­cado não é bem a me­lhor des­cri­ção para 2001. Strangelove era um filme in­te­lec­tu­al­mente mais com­pli­cado, en­vol­via dis­cus­sões com­ple­xas, e ideias abs­trac­tas, có­mica ou cla­ra­mente re­pre­sen­ta­das. 2001 não é um filme com­plexo em ter­mos de ideias apre­sen­ta­das, ideias re­al­mente ex­pos­tas, per­cebe?». O re­gisto áu­dio desta (curta) en­tre­vista pode ser des­car­re­gado aqui.