Imaginem um jogo de futebol em que uma das equipas é a Microsoft. O árbitro do jogo equipa de negro como todos os árbitros mas, sob a camisola, tem uma t-shirt que diz I Love Windows. A equipa da Microsoft é constituÃda por 11 jogadores, mas a equipa adversária só pode jogar com oito: segundo o árbitro e os organizadores do jogo, não cabem 22 jogadores dentro do campo. As leis do fora de jogo terão de ser aplicadas num âmbito mais alargado, pelo que alguém terá de sair. Acontece que o árbitro também trabalha no clube Microsoft, circunstância considerada absolutamente normal, e decide o destino dos rivais: um dos jogadores impedido de entrar em campo é guarda-redes, outro é defesa central, outro é organizador de jogo.
A partida começa. Beneficiando da vantagem numérica e do facto de jogar em casa, a Microsoft começa a pressionar a todo o campo. Um dos seus atacantes remata com pouca força mas, como a baliza está deserta e ninguém pode usar as mãos, marca com facilidade. Em vez de berrar golo, a multidão grita em unÃssono Wow!, agitando bandeirinhas do Windows Vista e do Office 2007.
O jogo termina com a vitória natural da Microsoft. Nem por um momento as pessoas se questionaram sobre a forma como decorreu. Nem por uma única vez os adeptos chamaram nomes ao árbitro ou clamaram, indignados, que aquele jogo tinha sido uma autêntica vergonha.
O que se está a passar no processo de avaliação em Portugal da norma que a Microsoft quer impor para documentos Office, o Office Open XML, é semelhante a um jogo de futebol jogado nas circunstâncias que descrevi. A tal equipa adversária é a que defende um formato aberto, livre e acessÃvel a todos, incluindo ao próprio Office da Microsoft, o ODF.
Se fosse de facto futebol e não informática, o paÃs inteiro estaria a discutir este jogo. Até mesmo os jornais mais sérios lhe dedicariam várias páginas. Uns senhores de ar grave e pensativo reunir-se-iam vezes sem conta nas televisões para discutir o futuro do futebol português. O povo, os jornalistas e os comentadores exigiriam de imediato um rigoroso inquérito para apurar responsabilidades. Um secretário de estado, um ministro ou vários ao mesmo tempo prometeriam uma resposta o mais breve possÃvel, tudo em nome da Transparência.
Como é informática e não futebol, a única Transparência que conta para o caso é a das janelinhas do Aero, a shell do Windows Vista – a outra, a dos polÃticos, é uma palavra sem qualquer significado. Leiam o post que se segue do Paulo Trezentos.
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2 comentários
será que a microsoft aprendeu com o pinto da costa?
A opinião pública está muito longe de estar sensibilizada para questões da informática. Muitas vezes reina o pensamento “isso é coisa para nerds, eu uso o XP para jogar e ir à net e chega muito bem” sem que as pessoas se apercebam o quanto estão dependentes dos sistemas de informação locais e globais e o quanto isso lhes custa, quer em tempo e dinheiro, quer em privacidade, e muito menos pensam se daqui a 5 anos vão poder abrir documentos que guardaram hoje. As pessoas tendem a confiar muito dos computadores sem sequer querer saber o que está por trás e o que estão a por em jogo — basta ver a facilidade com que se apanham dados pessoais na internet. Por outro lado também há quem pense que o Open Source “é coisa de pobre”, e ficam contentes por usarem produtos mais caros ainda que seja de forma ilegal, sem sequer terem tido o cuidado de escolher o software (“se é tão caro deve ser bom”). Para os média o assunto vale pouco — “são cenas geek que não interessam a ninguém”… não vende. Mas quando sai um windows ou um office novo até mostram as lojas a serem invadidas por “entusiastas” a meio da noite para serem os primeiros a comprar. À Harry Potter.