Fotografia, Música, Cinema, Vídeo, Pintura, Ilustração, Design, Leitura, Podcast. Cenas Artamente.

→ 08/05/2013 @21:06

A dita cuja de Iggy Pop

Faz este ano 66 de vida e acaba de lan­çar um ál­bum com tí­tulo pro­vo­ca­tó­rio, «Ready to Die».

Recentemente, um jor­na­lista fez-lhe a per­gunta que nin­guém ainda ti­vera a co­ra­gem de di­ri­gir ao ve­te­rano can­tor que é um dos mai­o­res sím­bo­los se­xu­ais do rock, ao lado de Jim Morrison, Lou Reed, David Bowie e Mick Jagger: se a sua re­la­ção com a pila ti­nha mu­dado com a idade…

Fazia todo o sen­tido. Em tem­pos que lá vão, James Osterberg – de seu ver­da­deiro nome – gos­tava de os­ten­tar o seu «grande e belo» (se­gundo Erik Hedegaard, hoje um dos edi­to­res da re­vista Rolling Stone) mem­bro nos pal­cos e di­ante das câ­ma­ras e volta e meia sur­giam no­tí­cias so­bre as suas no­vas na­mo­ra­das. Que fo­ram muitas.

Iggy Pop

Iggy Pop em Memphis, 2007

Além de que muito se es­pe­cu­lou so­bre a sua li­ga­ção a Bowie nos anos (de 1976 a 78) em que tra­ba­lha­ram jun­tos em Berlim. Iggy Pop ne­gou que te­nha ha­vido idas di­re­tas do es­tú­dio para a cama, e se o ex-Ziggy Stardust nunca o ad­mi­tiu, tam­bém nunca disse que não.

Pouca im­porta, na ver­dade. A sua ima­gem se­xual desde os tem­pos dos Stooges é tão car­re­gada que se tor­nou homo-erótica. Se mui­tas ra­pa­ri­gas sus­pi­ra­ram ao vê-lo can­tar de tronco nu, a não me­nos ra­pa­zes ins­pi­rou va­len­tes ereções.

Veja-se, de resto, a per­so­na­gem de Curt Wild no filme “Velvet Goldmine», nele inspirada…

O certo é que Iggy res­pon­deu ao jor­na­lista com esta enig­má­tica (ou nem tanto as­sim) frase: «Se an­tes o meu pé­nis era como todo um par­tido po­lí­tico, hoje di­ria que se pa­rece mais com uma ten­dên­cia or­ga­ni­zada den­tro de um par­tido.»

 

Olhar para os pássaros

O certo é que a sua longa his­tó­ria de amor com Nina Alu, um quarto de sé­culo mais nova do que ele (mas adulta!), o acal­mou. Já não é o mesmo que, aos 20 anos, an­dava atrás de miú­das de 13, 14 e 15, o que, se fosse agora, lhe te­ria va­lido umas pe­nas de pri­são por pedofilia.

Confessou Nina, se­pa­rando o ho­mem pú­blico e o ho­mem pri­vado: «Gosto de Iggy Pop e respeito-o, mas acho que não con­se­gui­ria vi­ver com ele. O Jim já é ou­tra coisa. O Jim é doce, é sos­se­gado e é ro­mân­tico. Quando es­ta­mos a jan­tar ou a fa­zer amor é o Jim que te­nho ali, não o Iggy, e às ve­zes apanho-o a olhar para as ár­vo­res e para os pás­sa­ros.»

De facto, mui­tas coi­sas se al­te­ra­ram na exis­tên­cia de Iggy: a de­pen­dên­cia da he­roína é uma in­fe­li­ci­dade do pas­sado, dei­xou de chei­rar coca e de fu­mar gan­zas, bebe um copo de vi­nho ape­nas ao jan­tar e já não con­some ta­baco. Só man­tém um ví­cio: café forte, cu­bano de preferência.

Continua a ser um re­cluso, mas em vez de se fe­char em casa vai para o campo pra­ti­car Tai Chi.

Não que isso lhe te­nha mu­dado a verve e a re­bel­dia. É o mesmo Iggy Pop, o an­te­ces­sor do punk nos Sixties, que berra para o mi­cro­fone, cheio de ener­gia, fú­ria e escárnio.

Só não se aven­tura mais em stage di­vings, com uma ou ou­tra ex­ce­ção quando a adre­na­lina lhe dis­para, e já não o ve­mos a ro­lar so­bre vi­dro par­tido e a golpear-se com ba­que­tas de ba­te­ria, o san­gue escorrendo-lhe pela cara e pelo peito.

Tem as fei­ções quase tão mar­ca­das pela vida que le­vou quanto as de Keith Richards (como já disse: «O meu look devo-o ao de­bo­che»), mas ainda pos­sui um ven­tre liso e duro que faz in­veja a muito jo­vem roc­ker e con­ti­nua a al­te­rar o ritmo car­díaco a quem não re­siste a tanta te­a­tra­li­za­ção da sua masculinidade…

Iggy Pop pode já ter-se pre­pa­rado para mor­rer, mas os seus fãs ainda não. Aquela pila mar­cou a mú­sica e não vão que­rer deixá-la ir.

→ 08/05/2013 @19:52

Lágrimas de sangue

Será com cer­teza uma das fo­tos do ano, este der­ra­deiro abraço.

Recorda-nos que a nossa exis­tên­cia, o nosso mundo e tudo o que co­nhe­ce­mos tam­bém pode ter co­me­çado as­sim, com um abraço en­tre um ho­mem e uma mu­lher. O con­traste mata-nos, de certa forma. Estes são os úl­ti­mos mo­men­tos da vida de dois tra­ba­lha­do­res traí­dos por um pré­dio em co­lapso, con­di­ções mi­se­rá­veis de se­gu­rança e de tra­ba­lho, e a cri­mi­nosa ne­gli­gên­cia de quem os con­tra­tou e ape­nas os viu como números.

Taslima Akhter

A ima­gem de fo­tó­grafa e ati­vista ben­ga­lesa Taslima Akhter mata dis­tân­cias cul­tu­rais ou ide­o­ló­gi­cas, coloca-nos ine­qui­vo­ca­mente de acordo quanto às con­sequên­cias da ex­plo­ra­ção do ho­mem pelo ho­mem: a desumanização.

«Perturbadora, mas as­sus­ta­do­ra­mente bela», afir­mou a fo­tó­grafa à re­vista Time. «A sua ter­nura ergue-se so­bre os es­com­bros para nos to­car onde so­mos mais vul­ne­rá­veis. Torna-a pes­soal, e recusa-se a deixar-nos. Atormenta os nos­sos so­nhos. Silenciosamente, diz-nos: nunca mais.»

A fo­tó­grafa não con­se­guiu sa­ber mais so­bre es­tas duas pes­soas: quem eram, que re­la­ção ti­nham um com o ou­tro, se eram co­le­gas de tra­ba­lho que não qui­se­ram en­fren­tar a morte sozinhos.

Talvez agora mui­tos se sin­tam cu­ri­o­sos em conhecê-los; en­quanto pro­cu­ram his­tó­rias de ro­mance e so­nhos per­di­dos, deparar-se-ão com as con­di­ções em que tra­ba­lha­ram e de como os ban­di­dos res­pon­sá­veis pela ma­nu­ten­ção do edi­fí­cio ig­no­ra­ram os avi­sos de perigo.

A 24 de abril, o edi­fí­cio Rana Plaza, perto de Dacca, Bangladesh, co­lap­sou. Aí tra­ba­lham cerca de três mil pes­soas. 802 912 mor­re­ram na der­ro­cada, mas ainda é pos­sí­vel que mais se­jam en­con­tra­das nos es­com­bros. No edi­fí­cio de nove an­da­res fun­ci­o­na­vam cinco fá­bri­cas têx­teis, duas de­las a tra­ba­lhar para duas mar­cas de roupa oci­den­tais – a bri­tâ­nica Primark e a es­pa­nhola Mango.

Os tra­ba­lha­do­res já ti­nham aler­tado para a exis­tên­cia de fen­das no edi­fí­cio. Ninguém lhes pres­tou aten­ção. E o edi­fí­cio caiu.

Taslima Akhter pas­sou o dia todo en­tre os es­com­bros, tes­te­mu­nhando o es­forço das equi­pas de sal­va­mento, os olhos as­sus­ta­dos dos fa­mi­li­a­res. Finalmente, já «exausta fí­sica e men­tal­mente», descobriu-os.

«Sempre que olho para a foto, sinto-me des­con­for­tá­vel – assombra-me. Como se es­ti­ves­sem a dizer-me: não so­mos nú­me­ros, ape­nas mão-de-obra e vi­das ba­ra­tas».

→ 22/04/2013 @23:30

Olhem quem esteve cá

Samuel James fotografado por Jon Reece

Samuel James fo­to­gra­fado por Jon Reece

Foram ouvi-lo ao Centro Cultural de Belém no pas­sado fim-de-semana? Esteve in­cluído na pro­gra­ma­ção do Dias da Música, este ano de­di­cado ao tema Romantismo.

Deram um pulo, no sá­bado à noite, à Trem Azul, loja de dis­cos es­pe­ci­a­li­zada em jazz da Rua do Alecrim que se jun­tou às co­me­mo­ra­ções do Record Store Day com a aber­tura do seu pró­prio bar? Era ele o Mr. X do concerto-surpresa agendado…

Viram-no no Sargo Bar, da praia da Parede, quando por lá to­cou há dias o trio de free jazz Saka? Pois era ele quem, de ca­beça ra­pada, bra­ços cheios de ta­tu­a­gens, con­ver­sa­dor, chu­pava o seu ci­garro ele­tró­nico di­ante da avas­sa­la­dora in­ves­tida dos no­ru­e­gue­ses, para não ter de fu­mar um verdadeiro.


Se res­pon­de­ram a tudo afir­ma­ti­va­mente, sorte a vossa.

Se não, não sa­bem o que per­de­ram, mu­si­cal­mente ou ape­nas ouvindo-o fa­lar. Ou por esta al­tura já o per­ce­be­ram, se vi­ram o ví­deo acima.

Samuel James es­teve em Lisboa, com o fu­ra­cão que se esperava.

Trouxe con­sigo uma gui­tarra de caixa pla­ti­nada, um banjo e uma har­mó­nica, e o que nos ofe­re­ceu foi… blues.

Blues de raiz, da­que­les nas­ci­dos no delta do Mississippi, se bem que os usos vo­cais deste jo­vem e no­tá­vel re­cu­pe­ra­dor das tra­di­ções da ne­gri­tude nos Estados Unidos lem­brem por ve­zes um James Brown e até um Tom Waits, indo para des­fe­chos que fo­ram ali­men­ta­dos pe­los blues, mas que já não são blues.

Ou se­rão? O certo é que, se fi­ca­mos en­can­ta­dos com os seus do­tes como gui­tar­rista, às tan­tas esquecemo-nos de que se trata de blues ou se­quer de mú­sica, pois ele é, so­bre­tudo, um con­ta­dor de histórias.

É um story­tel­ler na ve­lha ace­ção da pa­la­vra, remetendo-nos para um tempo em que fa­mí­lias e ami­gos par­ti­lha­vam me­mó­rias e ima­gi­na­ções nas va­ran­das das ca­sas de ma­deira dos cam­pos do Louisiana, do Texas, do Maine, da Califórnia, qual­quer lu­gar onde, do ou­tro lado do Atlântico, se cul­ti­va­vam uns hec­ta­res de mi­lho ou ha­via uma pe­quena pocilga.

Digamos que ele é um rap­per ru­ral, um MC de ou­tros tem­pos que ainda vi­vem, fe­liz­mente, neste tempo de hoje.

Lembrando-nos que o re­ló­gio e o ca­len­dá­rio es­tão em per­ma­nente con­ta­gem, mas o que so­mos to­dos é o que fo­mos an­tes. E o que se­re­mos de­pois. Porque tudo muda me­nos o essencial…

→ 16/04/2013 @20:47

Jason Moran ou o jazz estrábico

Jason Moran

Não obs­tante a sua per­ma­nente ca­pa­ci­dade de rein­ven­ção, o campo do jazz não se dis­tin­gue dos de­mais as­pe­tos da cri­a­ti­vi­dade hu­mana quando so­ci­al­mente considerados.

Na sua his­tó­ria, mas so­bre­tudo nos es­pe­cí­fi­cos pe­río­dos em que uma ou ou­tra das for­ças em pre­sença pre­do­mi­nou, de­ter­mi­nando um pa­ra­digma, houve sem­pre quem qui­sesse ir mais além e sem­pre quem fi­zesse ques­tão de recuar.

Por exem­plo, se a dé­cada de 1960 foi re­vo­lu­ci­o­ná­ria, impondo-se no­vos en­ten­di­men­tos e no­vas prá­ti­cas mu­si­cais, já a de 80 foi de pre­ser­va­ção do pa­tri­mó­nio adquirido.

A cé­le­bre po­lé­mica en­tre Anthony Braxton e Wynton Marsalis so­bre o que é e não é jazz in­di­cou, muito sim­ples­mente, que o tempo não é um fluxo con­tí­nuo e uni­forme em di­re­ção ao que vem de­pois, mas sim um rio em que duas cor­ren­tes se con­tra­riam, uma des­cendo até ao es­tuá­rio, na pro­cura de um fu­turo dis­tinto, ou­tra su­bindo com es­for­ços de truta para re­des­co­brir no pas­sado a fonte original.

Até que, no fi­nal dos anos 1990, sur­giu um pi­a­nista so­bre­do­tado de nome curto e fa­cil­mente me­mo­ri­zá­vel, Jason Moran, e com ele ou­tros tan­tos jo­vens mú­si­cos com uma pers­pe­tiva di­fe­rente das coisas.

Seja por in­ge­nui­dade, um fa­tor que até é bem mais po­si­tivo do que se julga, ou por vi­si­o­na­rismo to­tal­mente cons­ci­ente e vo­lun­ta­ri­oso, o que agora pouco im­porta con­si­de­rar, Moran vem de­mons­trando com o seu pró­prio exem­plo que não só o fu­turo in­clui o pas­sado de al­guma ma­neira como, in­clu­sive, que no pas­sado o fu­turo já es­tava delineado.

Ou seja, a água do rio é sem­pre ou­tra, mas tam­bém sem­pre a mesma: água.

 

O grande paradoxo

A arte pi­a­nís­tica de Jason Moran re­sulta de um es­tudo pro­fundo da his­tó­ria do jazz desde as suas ori­gens no stride e é pre­ci­sa­mente com base nesse co­nhe­ci­mento, não na sua ne­ga­ção, não em ru­tura ou em con­flito, que vem cons­truindo uma abor­da­gem ino­va­dora, ex­plo­ra­tó­ria e de pes­quisa das mais iné­di­tas possibilidades.

Este po­si­ci­o­na­mento vem tendo uma mul­ti­pli­ci­dade de im­pli­ca­ções, tam­bém elas con­tri­buindo para a des­mon­ta­gem do que pa­re­cia ser o grande pa­ra­doxo do jazz e o seu drama (com en­ce­na­ção no aceso diá­logo de Braxton e Marsalis acima referido).

Uma é o de­fi­ni­tivo der­rube do con­ceito de «van­guarda», que im­pli­cava a exis­tên­cia de uma su­posta re­ta­guarda, não ha­vendo ar­gu­men­tos su­fi­ci­en­tes para dis­tin­guir os que «vão à frente» dos que «fi­cam atrás», até por­que es­tes úl­ti­mos, re­gra ge­ral, não se­guiam os batedores.

Outra é a morte da no­ção de mains­tream, para mais numa al­tura em que a eco­no­mia tra­tou de ti­rar o jazz das auto-estradas da cul­tura – ou o que passa por esta na ide­o­lo­gia do entretenimento.

Jason e a sua ge­ra­ção destacaram-se, pre­ci­sa­mente, por in­cor­po­rar nas com­po­si­ções ele­men­tos vin­dos tanto das prá­ti­cas ex­pe­ri­men­tais como do âm­bito da pop.

Nesse mo­dus ope­randi co­lo­cando de lado an­ti­gos pre­con­cei­tos se­pa­ra­tis­tas re­la­ti­va­mente às con­di­ções «eru­dita» e «po­pu­lar» que co­lo­ca­vam o jazz na es­qui­zo­fré­nica si­tu­a­ção de am­bi­ci­o­nar o es­ta­tuto da pri­meira, num pro­cesso de gra­dual in­te­lec­tu­a­li­za­ção, ape­sar do seu berço na segunda.

Entre uma es­pe­cial de­vo­ção pelo con­tra­ponto de Bach (que, como já disse, «te­ria gos­tado de ver e ou­vir a im­pro­vi­sar»), um en­tu­si­as­mado in­te­resse pe­las fór­mu­las rít­mi­cas re­pe­ti­ti­vas do hip-hop e uma pai­xão pe­los fra­se­a­dos que­bra­dos e com pou­cas no­tas («me­nos é mais», sus­tenta) de Thelonious Monk, Jason Moran não quis fa­zer op­ções: jun­tou tudo.

 

Retro-futurismo

Todas es­sas di­men­sões co­e­xis­tem no seu riquís­simo vo­ca­bu­lá­rio ao pi­ano e na sua es­crita mul­ti­fa­ce­tada e retro-futurista para o Bandwagon, trio com Tarus Mateen e Nasheet Waits que alude a um filme es­tre­lado por Fred Astaire.

Estão em evi­dên­cia, ainda, nas sur­pre­en­den­tes e pouco or­to­do­xas ver­sões que gra­vou e que toca ao vivo de Monk, como não po­dia dei­xar de ser, de Jaki Byard e de Andrew Hill, seus professores.

Também de Fats Waller to­cado com um Fender Rhodes, em par­ce­ria com a can­tora soul Meshell Ndegeocello, de Conlon Nancarrow, com­po­si­tor para a me­câ­nica pi­a­nola que fu­rava o pa­pel em vez de de­se­nhar fás e si be­móis, ou de Afrika Bambaataa, pi­o­neiro do rap.

Juntou tudo, tam­bém, na cu­ri­osa in­cur­são que fez pela trans­po­si­ção das mo­du­la­ções da fala para a mú­sica, ins­pi­ra­das nas mi­me­ti­za­ções do canto dos pás­sa­ros ope­ra­das por Olivier Messiaen.

De resto, as­sim en­trando num es­treito rol de trans­la­da­do­res vo­cais em que fi­gu­ram Steve Reich, Paul DeMarinis, Hermeto Pascoal, Frank Zappa, Renée Lussier e Ben Neill.

Esta pre­dis­po­si­ção para a trans­ver­sa­li­dade le­vou Jason, in­clu­sive, a bus­car re­fe­rên­cias fora da mú­sica, de­sig­na­da­mente na pin­tura, em ar­tis­tas como Jean-Michel Basquiat, Egon Schiele e Robert Rauschenberg, e na per­for­mance, na dança e na vídeo-arte, áreas em que, de resto, co­la­bo­rou com Alonzo King, Glenn Ligon, Kara Walker, Joan Jonas e Adrian Piper.

O es­pec­tá­culo in­ter­me­dia «In My Mind: Monk at Town Hall, 1959» foi uma das con­sequên­cias. Nele não pro­cu­rou re­pro­du­zir a mú­sica de Thelonious Monk nesse len­dá­rio con­certo, mas sim re­la­tar o pro­cesso que nele resultou.

Se o «edi­fí­cio» já era do co­nhe­ci­mento pú­blico, gra­ças ao disco em que o mesmo fi­cou do­cu­men­tado, o que fez foi re­ve­lar os alicerces.

Costuma afir­mar este de­fen­sor de uma lei­tura não-Monk do song­book mon­ki­ano: «Quando se toca um tema de Thelonious Monk é como se fi­cás­se­mos pos­suí­dos. Temos de que­brar o fei­tiço. Temos de re­cor­dar que so­mos in­di­ví­duos, que não so­mos o Monk.»

 

Citações ele­tró­ni­cas

A vo­ca­ção trans­dis­ci­pli­nar deste na­tu­ral de Houston, no Texas, im­plica o re­curso à tec­no­lo­gia, mas se esta in­flui na sua mú­sica, so­bre­tudo me­di­ante a in­clu­são de ci­ta­ções ele­tró­ni­cas (como um fe­ed­back de gui­tarra pro­du­zido por Jimi Hendrix em Monterey), mais uma vez o mi­ni­ma­lismo ope­ra­tivo se impõe…

Em vez de um com­pu­ta­dor por­tá­til ou de um te­clado MIDI, é um mi­ni­disc re­ti­rado do bolso que serve a Jason Moran para dis­pa­rar os «sons en­con­tra­dos» de que faz fre­quente uso.

O mi­ni­disc de Jason é, de resto, sim­bó­lico, por­que a ati­tude do mú­sico face ao que tem a fa­zer é a de uma cri­ança ao li­dar com um brin­quedo (ou com um es­tojo de quí­mica – es­cre­veu um crí­tico que o au­tor de «Gangsterism» fun­ci­ona como se mis­tu­rasse um ácido com ou­tro para ve­ri­fi­car o que acon­tece, e o que acon­tece é uma ma­ra­vi­lhosa explosão).

Jogar uma lei­tura de um dis­so­nante épico como Prokofiev com uma co­ver da mais re­quin­tada cul­tora da can­ção, Bjork, e in­te­grar numa mesma ló­gica dis­cur­siva as sín­co­pes ba­lan­çan­tes de James P. Johnson com as po­lir­rit­mias do «caos-como-ordem» de Cecil Taylor não são, à par­tida, com­bi­na­ções plausíveis.

O certo é que ex­pli­cam o fe­nó­meno Jason Moran.

E não se trata ape­nas de um re­cei­tuá­rio de apli­ca­ção nas de­am­bu­la­ções do grupo de Moran, seja no seu for­mato ori­gi­nal, seja em quar­teto (já se fez acres­cen­tar por Sam Rivers e por Marvin Sewell), em quin­teto (com a jun­ção de Ralph Alessi e Abdou Mboup) ou em di­men­são or­ques­tral, en­quanto Big Bandwagon.

Em exer­cí­cio como con­sul­tor da pro­gra­ma­ção de jazz (leia-se: cu­ra­dor) do Kennedy Center, em Washington D.C., desde Outubro de 2012, o «mais pro­vo­ca­tivo pen­sa­dor do jazz atual», se­gundo a re­vista Rolling Stone, se­gue exa­ta­mente os mes­mos princípios.

Pela sua mão, já lá es­ti­ve­ram o «van­guar­dista» Anthony Braxton, um dos re­pre­sen­tan­tes do jazz que ainda se atreve a dan­çar, Eddie Palmieri, e um trio que pro­fessa um se­me­lhante (re­la­ti­va­mente à fór­mula Bandwagon) atra­ves­sa­mento de fron­tei­ras, Medeski, Martin & Wood.

 

Jazz para dançar


Aliás, e já que aludi à dança, uma das pri­mei­ras ini­ci­a­ti­vas de Moran foi trans­for­mar o átrio do Kennedy Center no que de­sig­nou por Supersized Jazz Club, com pista para a dita, bar, me­sas al­tas e ape­nas uns so­fás e ca­dei­ras em lo­ca­li­za­ções laterais.

A inau­gu­ra­ção foi com a sua «Fats Waller Dance Party», o que muito significa.

Para de­pois, fi­ca­ram mar­ca­das atu­a­ções de «his­tó­ri­cos» ainda a me­xer, como Lonnie Smith com o seu Hammond B-3, Dave Holland, o bai­xista do pri­meiro pe­ríodo elé­trico de Miles Davis, Kenny Barron, o pi­a­nista mais lí­rico do be bop, e Charles Lloyd, um so­bre­vi­vente do flower power jaz­zís­tico a cuja banda prin­ci­pal Jason Moran per­tence en­quanto si­de­man.

Na pers­pe­tiva deste recém-estreado pro­gra­ma­dor, «é pre­ciso ter do ca­non do jazz uma vi­são alar­gada».

Entretanto, Jason or­ga­ni­zou ses­sões mis­tas de jazz com co­mé­dia, na re­po­si­ção de uma re­a­li­dade que re­monta ao vau­de­ville e que, hoje, po­derá con­tri­buir para que este gé­nero de mú­sica não se leve de­ma­si­ado a sério.

E por­que há ques­tões que de­vem ser en­ca­ra­das com maior so­bri­e­dade pro­mo­veu, igual­mente, a sé­rie Election Night, as­so­ci­ando o jazz po­lí­tico ao ba­la­dismo folk de cam­pa­nha e à ele­tró­nica de fun­da­men­ta­ção hip-hop.

É este re­pre­sen­tante de uma ter­ceira via de com­pre­en­são da na­tu­reza e do pa­pel do jazz que al­gu­mas ve­zes já ti­ve­mos en­tre nós – a úl­tima no iní­cio deste ano, no Grande Auditório da Culturgest.

Habituei-me a imaginá-lo es­trá­bico quando en­tra no palco com os seus com­pa­nhei­ros de mis­são. Não o é de apa­rên­cia, mas to­dos sa­be­mos como as apa­rên­cias ilu­dem: na ver­dade, mira com um olho o que foi e vis­lum­bra com o ou­tro o que virá.

Porque os seus pi­a­nis­mos es­tão na tran­si­ção ri­tual en­tre es­ses dois tem­pos, per­ce­be­mos de­pressa que Jason Moran é o ter­ceiro olho, aquele que lhe ve­mos nas­cer no meio da testa à me­dida que a mú­sica desce e sobe o seu curso.

→ 28/03/2013 @17:41

Norbert Stein e o jazz patafísico

Há um jazz pa­ta­fí­sico e o seu ex­po­ente mais as­su­mido dá pelo nome de Norbert Stein.

É ale­mão, os anos embranqueceram-lhe o ca­belo, mas não as ar­tes sa­xo­fo­nís­ti­cas e da com­po­si­ção, e o seu pro­jeto Pata Music tem mais um, e bri­lhante, epi­só­dio: o disco «Pata on the Cadillac».


Os ví­deos que veem e ou­vem neste ar­tigo são de con­cer­tos que o an­te­ce­de­ram. No es­tú­dio, aos ins­tru­men­tos en­vol­vi­dos acrescentaram-se um con­tra­baixo e uma ba­te­ria. O que sig­ni­fica que o jazz de câ­mara do ab­surdo da abor­da­gem Cadillac fi­cou, no CD, mais jazz e me­nos câ­mara, mas tão ab­surdo como sempre…

Absurdo, disse? Precisamente: a pa­ta­mú­sica de Stein é como o pa­ta­te­a­tro de Alfred Jarry, o in­ven­tor da pseu­do­ci­ên­cia que dá pelo nome de Patafísica (ape­sar de o dra­ma­turgo e po­eta da pas­sa­gem do sé­culo XIX para o XX ter im­pu­tado a um tal Dr. Faustroll a gé­nese da coisa).

Ou seja, joga com pa­ra­do­xos, incongruências.

Digamos que a Patafísica é como o bu­dismo Zen, com a di­fe­rença de que tro­cou o as­ce­tismo ali­men­tar pela in­ges­tão abu­siva de ab­sinto. Aliás, conta-se que, sob a in­fluên­cia dos va­po­res da be­bida alu­ci­no­gé­nia da cor das plan­tas, Jarry cir­cu­lava como um louco pe­las ruas de Paris com a sua bi­ci­cleta, pin­tado de verde.

Um com­por­ta­mento nele ha­bi­tual, de resto. Costumava pra­ti­car tiro ao alvo em casa e certa vez uma vi­zi­nha queixou-se de que co­lo­cava a vida dos seus fi­lhos em risco. A res­posta deste pi­o­neiro do van­guar­dismo es­té­tico é elu­ci­da­tiva: «Não se pre­o­cupe, mi­nha se­nhora. Se isso acon­te­cer, te­rei todo o pra­zer em fa­zer ou­tros con­sigo.»

 

Soluções ima­gi­ná­rias


Assim, o tal de jazz pa­ta­fí­sico é uma mú­sica de «so­lu­ções ima­gi­ná­rias». Nisso, teve bons an­te­ce­den­tes, se bem que re­gra ge­ral fora deste idi­oma da arte dos sons e até fora da arte dos sons pro­pri­a­mente dita. Foram pata-absurdos, por exem­plo, o pin­tor Max Ernst, o fo­tó­grafo Man Ray, o ator có­mico Groucho Marx, o fi­ló­sofo Jean Baudrillard.

Mais re­cen­te­mente, tam­bém o es­cri­tor Umberto Eco.

Norbert Stein juntou-se ao grupo por­que, ao ler «Ubu Roi», de Alfred Jarry, per­ce­beu que «há mais coi­sas para além das fron­tei­ras da nor­ma­li­dade». Coisas que «se po­dem sen­tir, mesmo que ainda se des­co­nhe­çam».

E não, não se trata de ou­tro nome para a me­ta­fí­sica. A Patafísica surge quando a me­ta­fí­sica es­gota as suas vir­tu­a­li­da­des. Tal como a ci­ên­cia con­ven­ci­o­nal, aquela dedica-se às ge­ne­ra­li­da­des, en­quanto a Patafísica pre­fere muito ob­vi­a­mente o que é par­ti­cu­lar, o que con­tra­ria as ten­dên­cias gerais.

Ora, o nosso pa­ta­mú­sico acha que há mais mun­dos para além deste a que cha­ma­mos real, pelo que de­ci­diu par­tir da re­a­li­dade do jazz para pro­cu­rar ou­tras re­a­li­da­des pos­sí­veis ou im­pos­sí­veis, e é isso que anda a fa­zer tei­mo­sa­mente desde há décadas.

Nesse pé­ri­plo, ab­sor­veu tanto ele­men­tos da eru­di­ção eu­ro­peia quanto do bur­lesco, com a cons­ci­ên­cia de que «as cul­tu­ras mu­si­cais são ape­nas ocor­rên­cias lo­ca­li­za­das, to­das elas à pro­cura do mesmo: cap­tu­rar tudo o que a mú­sica pode cap­tu­rar».

A de­fi­ni­ção da sua obra pode ser a mesma que Klaus Voelker deu ao con­ceito de Patafísica:

«Trata-se de uma ló­gica não-realista e de uma re­a­li­dade que está para além das apa­rên­cias ex­ter­nas e dos prin­cí­pios de cau­sa­li­dade. Tudo é pas­sí­vel de ser me­xido, de ser trans­for­mado, de ser vi­rado do avesso e tro­cado: coi­sas, tem­pos e lu­ga­res. Mas nada é ar­bi­trá­rio, o que acon­tece é que a sim­pli­ci­dade con­siste numa com­ple­xi­dade inter-relacionada e au­to­pe­ne­trante.»

 

Evitar re­gras

Em ter­mos prá­ti­cos, as com­po­si­ções de Stein nunca são por si ter­mi­na­das. Os mú­si­cos com quem toca é que as con­cluem, de forma es­pon­tâ­nea e in­te­ra­tiva. São «pata-pautas», ou, como já as de­sig­nou, me­ros «horários».

As pe­ças es­tão em per­ma­nente de­sen­vol­vi­mento, pelo que ne­nhuma per­for­mance das mes­mas é se­me­lhante às an­te­ri­o­res. O único fa­tor im­por­tante é «evi­tar re­gras e tra­di­ções ra­ci­o­nais ri­go­ro­sas, sem des­res­pei­tar as que exis­tem».

Quer tudo isto di­zer que a mente in­to­xi­cada de Jarry não in­flu­en­ciou ape­nas o mo­vi­mento Dada e o Surrealismo. O seu le­gado per­sis­tiu até à atu­a­li­dade, pri­meiro atra­vés do Collège de Pataphysique (1948), de­di­cado a «in­ves­ti­gar o inú­til» – Boris Vian, o trom­pe­tista, crí­tico de jazz e ro­man­cista, foi mem­bro da or­ga­ni­za­ção – e desde o ano 2000 tendo como prin­ci­pal veí­culo ins­ti­tu­ci­o­nal o London Institut of Pataphysics.

Este é cons­ti­tuído por seis de­par­ta­men­tos, sendo os mais in­te­res­san­tes, tal­vez, o Bureau for Hirsutism and Pogonotrophy, que se ocupa em de­ter­mi­nar mé­to­dos de fer­ti­li­za­ção para a barba, e o Department of Potassons, que tem por fi­na­li­dade sa­ti­ri­zar os pro­je­tos dos ou­tros gabinetes.

O Cadillac de Norbert Stein cir­cula por aqui perto…

→ 21/03/2013 @15:32

Sunflare: produto nacional

Não, o psi­ca­de­lismo rock tuga não se fica pe­los mas­todôn­ti­cos Black Bombaim…

Os seus mais pró­xi­mos ri­vais dão pelo nome de Sunflare, tam­bém um power trio de gui­tarra, baixo e ba­te­ria. Constituem-no Guilherme Canhão, Rui Nogueiro e Raphael Soares.

Têm dois EPs a ro­dar, «Young Love» (2011) e «Ghetto Blast» (2012), tendo o pri­meiro sido en­tu­si­as­ti­ca­mente elo­gi­ado no seu blo­gue de crí­tica mu­si­cal por nem me­nos do que Julian Cope.

Exacto, o mú­sico bri­tâ­nico que che­gou a fa­zer parte dos Teardrop Explodes e que en­ce­tou um per­curso como mu­si­có­logo re­sul­tante na edi­ção de dois li­vros fun­da­men­tais, «Krautrocksampler» e «Japrocksampler».

O sto­ner rock da banda lis­bo­eta tem sido com­pa­rado com o dos High Rise de Makoto Kawabata, mais co­nhe­cido pe­los seus des­va­rios gui­tar­rís­ti­cos nos Acid Mother Temple. Bem que o fuzz de Canhão está à al­tura do japa cabeludo.

O que te­mos aqui é uma des­cida aos in­fer­nos do rock ‘n’ roll, o dos Sessentas e Setentas, e tem re­fe­rên­cia his­tó­rica: Blue Cheer. Mas trata-se só de re­fe­rên­cia, por­que o resto é pro­duto na­ci­o­nal do sé­culo XXI.

Ora oi­çam e ve­jam lá…

Página 2 de 951234510Última »