Conversas com pessoas que têm algo para dizer.

→ 25/07/2011 @15:06

Júlio Resende: sentir tudo de todas as maneiras

Júlio Resende (Foto: não-assinada)

Algumas lu­fa­das de ar fresco têm sur­gido no jazz de pro­du­ção na­ci­o­nal e uma de­las é-nos pro­por­ci­o­nada por Júlio Resende. À ter­ceira apa­ri­ção dis­co­grá­fica, o jo­vem mú­sico al­gar­vio troca o for­mato de quar­teto pe­las ló­gi­cas ine­ren­tes ao trio de piano.

«You Taste Like a Song» (Clean Feed), o novo tí­tulo do pi­a­nista e com­po­si­tor, in­tro­duz uma in­fle­xão de rumo na fór­mula que an­tes pro­pu­sera em «Da Alma» e «Assim Falava Jazzatustra»: «Esta é, com cer­teza, uma nova etapa. Com uma he­rança vasta na his­tó­ria do jazz, o piano-trio exige uma abor­da­gem di­fe­rente, pois os te­mas são pen­sa­dos para se­rem to­ca­dos pelo pi­ano, em vez de pelo sa­xo­fone. Este tem um som cor­tante, que não se in­co­moda tanto com o vo­lume da ba­te­ria»

Já o pi­ano «pre­cisa de ter mais es­paço so­noro para se fa­zer ou­vir».

Assim, o pró­prio con­ceito passa por en­con­trar esse es­paço… «Também in­ter­firo com o li­rismo pi­a­nís­tico e dou-lhe um lado mais “bruto”, mais “agreste”, quando sinto que tal é ne­ces­sá­rio.»

Como con­fessa Júlio, «este é um for­mato que muito exige do pi­a­nista – dá-lhe mais tempo para ex­plo­rar as ideias, mas para isso é pre­ciso que haja ideias».

«Também é um de­sa­fio maior para o con­tra­bai­xista, que não só con­quista mais ter­reno para agir como é cha­mado mais ve­zes a so­lar.» Essa res­pon­sa­bi­li­dade foi dada a Ole Morten Vagan.

 

Às ve­zes não se per­cebe o quão di­fí­cil é es­cre­ver uma boa can­ção, e nesse par­ti­cu­lar devo muito a Chico Buarque, Radiohead, Pink Floyd, Jorge Palma e Pedro Esteves

 

Como o pró­prio nome deste pro­jeto in­dica, Júlio Resende adota por in­teiro o mo­delo da can­ção. A esse ní­vel, não he­sita mesmo em pe­gar em te­mas pop de con­fi­gu­ra­ção es­pe­ci­al­mente bem con­se­guida, como de resto tem sido ha­bi­tual no seu percurso.

No novo ál­bum, en­tre ori­gi­nais seus e uma ver­são de um no­bre exem­plar do song­book norte-americano con­ti­nu­a­mente re­pe­gado por vá­rias ge­ra­ções de mú­si­cos de jazz,  «Straight No Chaser», de Thelonious Monk, a es­co­lha re­cai so­bre «Airbag», dos Radiohead.

«Às ve­zes não se per­cebe o quão di­fí­cil é es­cre­ver uma boa can­ção, e nesse par­ti­cu­lar devo muito a Chico Buarque, Radiohead, Pink Floyd, Jorge Palma e Pedro Esteves. Uma boa can­ção tem de ser muito só­lida e al­ta­mente ins­pi­ra­dora, e a ver­dade é que o uni­verso pop-rock tem desde sem­pre cul­ti­vado essa ac­ção.»

É, por­tanto, uma área mu­si­cal so­bre a qual Júlio se de­bruça re­pe­ti­da­mente. «Airbag” acompanha-me desde os tem­pos em que fre­quen­tava as au­las de pi­ano do Conservatório de Faro e é a pri­meira faixa de um disco ma­ra­vi­lhoso cha­mado “OK Computer”, que eu li­te­ral­mente de­vo­rei», elu­cida.

Se, no que res­peita à can­ção, o es­pó­lio dos stan­dards do jazz muito tem para ofe­re­cer, o facto de Júlio Resende ra­ra­mente re­cor­rer a essa fonte (o mesmo, para to­dos os efei­tos, aplicando-se em re­la­ção ao pa­tri­mó­nio da pop), tem um sig­ni­fi­cado com o re­levo de um sta­te­ment.

«É prá­tica cor­rente no jazz in­ter­pre­tar os stan­dards, mas acho que to­car as mi­nhas pró­prias com­po­si­ções diz mais so­bre mim do que pe­gar em par­ti­tu­ras de ter­cei­ros. Tocar os meus te­mas re­vela a mi­nha iden­ti­dade de modo mais agudo e acho que isso dá à mi­nha per­sona ar­tís­tica um cu­nho muito mais vin­cado. Mas é claro que não pro­curo isolar-me no meu mundo e re­tiro grande pra­zer em to­car pe­ças de gran­des mú­si­cos que muito ad­miro e muito me ensinaram.»

 

Sítios bem agradáveis

Foto: Hélio Gomes

Tenham sido es­cri­tas por si ou pe­di­das em­pres­ta­das a ou­tros, as can­ções jazz de Júlio Resende têm duas ca­rac­te­rís­ti­cas bem vin­ca­das e ime­di­a­ta­mente per­cep­tí­veis: são me­lo­di­ca­mente su­ges­ti­vas e es­tão su­por­ta­das num beat ir­re­qui­eto e intenso.

«Gosto, sem dú­vida, de me­lo­dias for­tes, o que, como já disse, não é fá­cil de ob­ter. No que res­peita ao ritmo, o gro­ove vem das mi­nhas cos­te­las la­tina e afri­cana. Sempre ouvi mú­sica afri­cana e a mãe-África não dá hi­pó­te­ses. É, de qual­quer modo, e so­bre­tudo, na har­mo­nia que torno as coi­sas mais den­sas. Gosto da ubi­qui­dade en­tre sim­ples e com­plexo, pois nada na vida é de ape­nas uma cor.»

Na mú­sica de Júlio, a sim­pli­ci­dade es­tru­tu­ral da can­ção mistura-se com a com­ple­xi­dade das im­pro­vi­sa­ções, e é esse jogo que o atrai. «Aprecio os de­sa­fios e a es­pon­ta­nei­dade e neste ál­bum de­cidi mesmo que­brar a or­dem de tra­ba­lhos para ve­ri­fi­car onde po­día­mos che­gar – fi­ze­mos uma im­pro­vi­sa­ção sem pré-texto em cada dia das gra­va­ções e um re­gisto disso surge no ali­nha­mento do CD. Conseguimos che­gar a um sí­tio bem agra­dá­vel…»

É este tipo de abor­da­gem que «des­pen­teia» a mú­sica de Resende e a torna or­gâ­nica, afastando-a das prá­ti­cas mais con­for­mis­tas do trio de pi­ano: «Dou um grande es­paço aos so­los, fa­zendo com que os mú­si­cos in­ter­ve­ni­en­tes co­mu­ni­quem en­tre si de modo muito atento, em su­ces­si­vas perguntas-respostas, com apreço pela li­ber­dade dos ou­tros e res­peito pela co­mu­nhão que se pode atin­gir neste as­cen­dente diá­logo.»

 

O que faz do meu jazz um jazz vivo é o facto de es­tar ali­nhado co­migo, de ser au­tên­tico no sen­tido de que res­pira atra­vés de mim. Aprendeu tudo o que ha­via à volta para apren­der, mas é da mi­nha ca­beça e das mi­nhas mãos que sai

 

O con­tra­bai­xista Morten Vagan tem «a vir­tude de im­pul­si­o­nar a li­ber­dade per­for­ma­tiva sem es­que­cer a forma». Pelo seu lado, Joel Silva é «um ba­te­rista su­pe­ra­lerta que, com grande sen­si­bi­li­dade, re­força e in­cre­menta as su­ges­tões dos so­lis­tas, para além de ele mesmo ser um óp­timo so­lista».

Em con­junto, «ten­ta­mos fa­zer da mú­sica com­posta por mim algo que não es­teja amar­rado a uma ideia pri­mor­dial, dei­xando a per­for­mance de­ci­dir o ca­mi­nho, ou os ca­mi­nhos, a tri­lhar».

Procuram abor­dar cada tema de ma­neira di­fe­rente, e boas sur­pre­sas acon­te­cem quando se faz isso. «Abandonar pre­con­cei­tos é ou­tra ta­refa di­fí­cil que ten­ta­mos co­lo­car em exe­cu­ção.»

Por essa or­dem de ra­zões, o tra­ba­lho de Júlio Resende vem agra­dando tanto aos apre­ci­a­do­res do jazz mains­tream como aos que pre­fe­rem as  pro­pos­tas mais pro­gres­si­vas deste idi­oma musical.

Afirma o mú­sico a pro­pó­sito que qual­quer es­forço que faça para se ca­ta­lo­gar é «uma perda de ener­gia.

Fernando Pessoa disse-o bem: “Sentir tudo de to­das as ma­nei­ras / Ser a mesma coisa de to­dos os mo­dos pos­sí­veis ao mesmo tempo.”

Este é um bom “slo­gan” para o jazz que se clama como uma mú­sica li­vre e como uma lin­gua­gem uni­ver­sal. O me­lhor mesmo é ser­mos mais au­to­crí­ti­cos e ser­mos nós a re­ti­rar con­clu­sões so­bre o que fa­ze­mos, em vez de nos dei­xar­mos guiar por ca­tá­lo­gos ou por juí­zos alheios.»

A for­ma­ção do pi­a­nista em Filosofia ajudou-o a co­lo­car tudo em ques­tão, «e in­clu­sive a mim mesmo acho que essa é uma ati­tude que ne­nhum ar­tista de­via dis­pen­sar».

«O que faz do meu jazz um jazz vivo é o facto de es­tar ali­nhado co­migo, de ser au­tên­tico no sen­tido de que res­pira atra­vés de mim. Aprendeu tudo o que ha­via à volta para apren­der, mas é da mi­nha ca­beça e das mi­nhas mãos que sai. Ao con­trá­rio do que se faz muito ac­tu­al­mente, não se­gue qual­quer re­ceita co­mer­cial, nem re­pro­duz os pa­drões de ou­tros su­jei­tos ar­tís­ti­cos.»

Apenas os seus, com a sal­va­guarda de que, diz, não é «um ere­mita»…

→ 03/02/2011 @12:57

Victor Afonso e o carrossel de sons

Um mú­sico, um pro­jecto. Kubik: o Sol con­ti­nua a bri­lhar com in­ten­si­dade em Shina-Kak

O se­gundo en­tre­vis­tado desta sé­rie é mú­sico, pro­fes­sor de Música, blog­ger, já foi pro­gra­ma­dor cul­tu­ral e ac­tu­al­mente é res­pon­sá­vel pelo Serviço Educativo do Teatro Municipal da Guarda.

Chama-se Victor Afonso e é dele um dos pro­jec­tos mais ori­gi­nais e em­pol­gan­tes que co­nheço na mú­sica por­tu­guesa: Kubik.

Ele é tam­bém a pes­soa que um dia me en­viou um email garantindo-me que a mi­nha cos­tela zap­pi­ana e ecléc­tica não iria re­sis­tir ao grupo por­tu­guês LUME.

Acompanhava e co­nhe­cia o Victor Afonso blog­ger por ser lei­tor d’O Homem Que Sabia Demasiado, mas não co­nhe­cia a sua fa­ceta como mú­sico e o seu pro­jecto Kubik.

Finalmente, de­pois de vá­rias tro­cas de emails a pro­pó­sito do LUME e de ou­tros as­sun­tos, ca­lhou enviar-me um link para um ví­deo pro­mo­ci­o­nal do seu ter­ceiro ál­bum, Psicotic Jazz Hall.

Fui apa­nhado de surpresa.

Cheguei a pen­sar «Caramba, eu sim­pa­tizo com o tipo; se não gos­tar disto te­rei de lhe di­zer di­rec­ta­mente, o que é uma cha­tice; ou en­tão calar-me para sem­pre, o que é uma cha­tice ainda maior».

Quando co­me­cei a ou­vir Shina-Kak, o tal tema do ví­deo pro­mo­ci­o­nal, o meu in­sig­ni­fi­cante di­lema mo­ral desfez-se em pó. Três mi­nu­tos de­pois, es­tava de queixo caído a pen­sar por onde an­dara este gajo e por que ra­zão ne­nhum CD de Kubik me vi­era pa­rar às mãos.

Um quarto de hora de­pois já lhe es­tava a en­viar um email a pedinchar-lhe dis­cos em MP3. Sou um pi­rata de­sen­ver­go­nhado, eu sei.

Dez dias de­pois, quando pen­sei em fa­zer en­tre­vis­tas no Bitaites e de­cidi que as pes­soas a en­tre­vis­tar per­ten­ce­riam es­pe­ci­fi­ca­mente a três áreas – Ciência, Arte e Tecnologia –, já ti­nha na ca­beça que o pri­meiro mú­sico a en­tre­vis­tar se­ria pre­ci­sa­mente o Victor Afonso.

Victor Afonso es­co­lheu o nome Kubik por ser curto, fi­car no ou­vido e na me­mó­ria, mas a as­so­ci­a­ção com o re­a­li­za­dor Stanley Kubrick ou até o fa­moso cubo de Rubik foi imediata.

Esta as­so­ci­a­ção é ne­gada pelo mú­sico, mas acaba por fa­zer todo o sen­tido, pelo me­nos no que diz res­peito ao cineasta.

Kubrick re­pre­senta o lado ci­ne­ma­to­grá­fico das com­po­si­ções de Kubik: a mú­sica faz sur­gir fil­mes ima­gi­ná­rios, mas os fil­mes já exis­ten­tes tam­bém po­dem fa­zer sur­gir as mú­si­cas. É uma as­so­ci­a­ção en­tre som e ima­gem in­des­tru­tí­vel – essa li­ga­ção é es­sen­cial e tão pro­funda que ra­pi­da­mente o ou­vinte se apro­pria dela, para seu pró­prio deleite.

Por exem­plo, os so­pros ini­ci­ais de «Shina-Kak» soaram-me a uma pe­quena fan­farra psi­có­tica, trans­mi­tindo o mesmo tipo de gozo ar­tís­tico que le­vou Tarantino a fa­zer um zoom su­per­só­nico ao rosto vin­ga­tivo de Uma Thurman em Kill Bill.

E de­pois dançamos.

Outro exem­plo: o pri­meiro tema do EP How Blue Is My SkyHe Is The Voice – é uma brin­ca­deira com a voz sam­plada de um tí­pico cro­o­ner pop/jazz e res­pec­tiva or­ques­tra: a elec­tró­nica insinua-se na in­ter­pre­ta­ção as­sép­tica do can­tor e na mar­ga­rina dos vi­o­li­nos, for­mando um con­tra­ponto sar­cás­tico, de­mente, sub­ver­sivo, à pom­po­si­dade da­quela voz e da­quela orquestra.

E dou por mim trans­por­tado para os cor­re­do­res do Overlook Hotel, de The Shining, quando Jack Nicholson des­liza ao som de uma banda de fan­tas­mas ou a câ­mara ini­cia um lento tra­vel­ling fi­nal em di­rec­ção à foto de Jack emol­du­rada na parede.

Mesmo que Victor Afonso nunca te­nha pen­sado em Tarantino ou Kubrick, a cum­pli­ci­dade fica es­ta­be­le­cida: é fa­bu­lo­sa­mente di­ver­tido criar mú­sica, diz o com­po­si­tor, e é fa­bu­lo­sa­mente di­ver­tido ouvi-la, res­pon­de­mos nós.

Ele criou o seu car­ros­sel de sons e ima­gens, nós ab­sor­ve­mos a di­nâ­mica e se­gui­mos no nosso pró­prio car­ros­sel par­ti­cu­lar – e o que une mú­sico e ou­vinte é o facto de nem um nem ou­tro sa­be­rem re­sis­tir à ten­ta­ção de as­so­ciar mú­sica e ima­gem de forma instantânea.

Depois, Kubik mis­tura to­dos es­tes sons com o de­leite de um co­zi­nheiro ex­pe­ri­men­tando os in­gre­di­en­tes de uma re­ceita secreta.

O sen­tido de hu­mor, o gosto ecléc­tico, a sub­ver­são de gé­ne­ros e con­ven­ções, a apro­pri­a­ção dos cli­chés só por­que dá tanto gozo destruí-los, os mo­men­tos pu­ra­mente abs­trac­tos, ex­pe­ri­men­tais, to­das es­tas ca­rac­te­rís­ti­cas já fa­zem parte do có­digo ge­né­tico mu­si­cal de qual­quer po­ten­cial fã de Kubik, quer goste de elec­tró­nica ou não.

O es­tra­nho soa fa­mi­liar. Próximo. E até o de­sen­vol­vi­mento noise de al­guns te­mas faz sen­tido para mim, mesmo não sendo par­ti­cu­lar­mente atraído por es­sas texturas.

E as­sim, quase um mês de­pois de ter car­re­gado no bo­tão de play do ví­deo, do­mi­nado por pen­sa­men­tos di­plo­má­ti­cos, eis que a his­tó­ria chega fi­nal­mente ao fim com o me­lhor des­fe­cho pos­sí­vel para o blo­gue: eu nas per­gun­tas, ele nas respostas.

Toca a co­me­çar. Objectivo: uma con­versa tão di­nâ­mica e atra­ente como as li­nhas de baixo de Shina-Kak.

Era uma vez em Shina-Kak (um sí­tio se­creto na Guarda)

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Pensas na tua mú­sica como a banda so­nora de um filme ima­gi­ná­rio ou com­pões ban­das so­no­ras para fil­mes que já fo­ram re­a­li­za­dos por outros?

Victor Afonso — É ver­dade que desde o meu pri­meiro ál­bum — Oblique Musique (2001) — a crí­tica atri­buiu à mi­nha mú­sica qua­li­da­des cinematográficas.

Até houve quem fi­zesse re­la­ções en­tre o nome do pro­jecto, Kubik, com Kubrick.


Os crí­ti­cos de mú­sica não per­ce­bem nada. Aposto que che­gaste ao nome do pro­jecto de­pois de pen­sa­res as­sim: «Se o Kubrick ti­vesse in­ven­tado o cubo de Rubik, que nome lhe daria?»

V. A. – Não pen­sei mas é muito bem pen­sado! O cu­ri­oso é que o meu pro­jecto sur­giu no ano em que Kubrick mor­reu (1999). Mais: Kubik fi­cou co­nhe­cido por ter ga­nho 4 «Prémios Maqueta» de um con­curso para no­vos va­lo­res da mú­sica por­tu­guesa, em Março de 1999.

Kubrick mor­reu no dia 7 de Março e a ce­ri­mó­nia de en­trega dos tais pré­mios (no Porto) acon­te­ceu uns dias de­pois. Lembro-me de ter agra­de­cido e de ter in­vo­cado o nome de Kubrick como ins­pi­ra­ção, dedicando-lhe, sim­bo­li­ca­mente, o pré­mio re­ce­bido. Por isso, eu pró­prio con­tri­buí um pouco para essa as­so­ci­a­ção Kubik – Kubrick.

A mú­sica sem­pre foi a ma­té­ria mais im­por­tante para mim, desde miúdo, quando aprendi a to­car gui­tarra. A pai­xão pelo ci­nema veio mais tarde, no fi­nal da ado­les­cên­cia, de­pois de ter visto em sala uma epo­peia cha­mada «Apocalypse Now».

Anos mais tarde, en­tro para a Licenciatura de Educação Musical, que me pos­si­bi­li­tou ter o pri­meiro con­tacto com tec­no­lo­gia MIDI e elec­tró­nica. Foi por essa al­tura que criei a pri­meira banda so­nora ori­gi­nal para te­a­tro, a que se se­gui­ram di­ver­sos tra­ba­lhos para ci­nema mudo: «Un Chien Andalou» (1928), de Luis Buñuel e Salvador Dalí, «Entr’Acte» (1924), de René Clair, ou «A Felicidade» (1932), de Medvedkine.

Sempre me in­te­res­sou o ci­nema en­quanto re­fle­xão so­bre o ho­mem e o mundo, como es­pe­lho da vida e da arte. Fascina-me es­ta­be­le­cer re­la­ções en­tre ima­gens e sons

 

Para com­pen­sar o facto de não ter tido mú­sica nos seus tem­pos ori­gi­nais, o ci­nema mudo ti­nha uma forte com­po­nente vi­sual e plás­tica, que ate­nu­ava a au­sên­cia de som. O que eu fiz com es­tas com­po­si­ções foi en­fa­ti­zar as ima­gens e, ao con­trá­rio, sub­ver­ter o sen­tido des­sas ima­gens por puro pra­zer estético.

É es­ti­mu­lante com­por para fil­mes sur­re­a­lis­tas (como os ci­ta­dos), por­que co­lo­cam per­ma­nen­tes de­sa­fios de lin­gua­gem e de ex­pres­são. Entretanto, fiz ou­tros tra­ba­lhos para di­ver­sas curtas-metragens, te­a­tro e tam­bém para bai­lado con­tem­po­râ­neo. São sem­pre ex­pe­ri­ên­cias di­fe­ren­tes, por­que nes­tas oca­siões a me­to­do­lo­gia de tra­ba­lho é ou­tra, logo, in­flu­en­cia tam­bém o pro­cesso cri­a­tivo. Sempre me in­te­res­sou o ci­nema en­quanto re­fle­xão so­bre o ho­mem e o mundo, como es­pe­lho da vida e da arte. Fascina-me es­ta­be­le­cer re­la­ções en­tre ima­gens e sons, en­tre aquilo que se vê e aquilo que a mú­sica pode po­ten­ciar en­quanto ex­pres­são artística.

Quando faço mú­sica para os meus ál­buns como en­ti­dade Kubik (o ter­ceiro vem a ca­mi­nho), penso sem­pre em ima­gens. Algumas já exis­tem no meu ima­gi­ná­rio (e to­dos os dis­cos têm re­fe­rên­cias ci­né­fi­las) e servem-me de ins­pi­ra­ção; ou­tras ve­zes é a mú­sica que faço que des­po­leta ima­gens de fil­mes ima­gi­ná­rios. No novo disco há um tema que se ins­pira to­tal­mente no uni­verso de Andrei Tarkovski…



Algum filme es­pe­cí­fico de Tarkovski?

V. A. – Para mim to­dos os fil­mes de Tarkovski são «es­pe­cí­fi­cos», na­quele sen­tido de es­pe­ci­ais, úni­cos. Teria uns 17 anos quando um amigo mais ve­lho me in­cu­tiu o gosto pelo ci­nema do re­a­li­za­dor russo: «Tens de ver Tarkovski. Um re­a­li­za­dor me­ta­fí­sico, mís­tico, que faz lon­gos planos-sequência, que re­flecte so­bre o es­pí­rito do ho­mem, a solidão…».

Essa des­cri­ção fascinou-me e fui à pro­cura – num tempo ainda sem Internet – dos fil­mes de Tarkovski. Aos pou­cos fui con­se­guindo vê-los to­dos na te­le­vi­são ou em gra­va­ções nas ve­lhi­nhas VHS (aju­dou o facto de só ter sete longas-metragens) e des­co­bri uma sen­si­bi­li­dade es­té­tica rara, uma ma­neira de fil­mar mi­nu­ci­osa, uma no­tá­vel qua­li­dade plás­tica da fo­to­gra­fia, uma vi­são fi­lo­só­fica e es­pi­ri­tual do mundo e uma ori­gi­nal mú­sica elec­tró­nica (pelo me­nos em me­tade dos seus fil­mes) de Eduard Artemiev.

Para ser mais con­ciso em re­la­ção à per­gunta: «Stalker», «O Espelho» e «O sa­cri­fí­cio» ocu­pam o pó­dio das mi­nhas pre­fe­rên­cias; de­pois, muito perto, «Nostalgia», «A Infância de Ivan» e «Andrei Rubliev».

Vamos imaginar-te num mundo per­feito. Tu numa bo­nita vi­venda em Los Angeles, sa­bo­rando vodka-laranja à beira de uma pis­cina. Estás à es­pera que te ba­tam à porta para te en­co­men­dar a com­po­si­ção de uma banda so­nora. Cinco re­a­li­za­do­res vão tocar-te à cam­paí­nha, mas só po­des acei­tar um tra­ba­lho. Dado que este é um mundo per­feito, não pre­ci­sas de te pre­o­cu­par com por­me­no­res in­sig­ni­fi­can­tes como cer­ti­dões de óbito. Neste mundo só a vida existe. Quais são os cinco re­a­li­za­do­res e, des­tes, quem escolherias?

V. A . – Os cinco re­a­li­za­do­res se­riam Tim Burton, Gus Van Sant, Martin Scorsese, Béla Tarr e Jim Jarmusch (Tarantino se­ria o sexto da lista). Todos eles, à sua ma­neira, são re­a­li­za­do­res que, ape­sar de se­rem muito di­fe­ren­tes en­tre si, de­ram sem­pre uma es­pe­cial aten­ção às ban­das so­no­ras dos seus filmes.

São cinco ci­ne­as­tas com um per­curso sin­gu­lar, com um uni­verso es­té­tico per­so­na­li­zado no qual a mú­sica de­sem­pe­nha um pa­pel pre­pon­de­rante. De to­dos es­tes, te­ria de dei­xar qua­tro re­a­li­za­do­res à porta da vi­venda e con­vi­da­ria para en­trar… hum… Tim Burton.

Desde há mui­tos anos que sou ad­mi­ra­dor do seu ci­nema e do com­po­si­tor ha­bi­tual – Danny Elfman. A mi­nha mú­sica tem uma ver­tente que se adap­ta­ria muito bem ao ima­gi­ná­rio de Tim Burton. Mas claro que esta co­la­bo­ra­ção de­pen­de­ria muito dos va­lo­res do cachet!




Já es­tou aqui todo da­nado con­tigo por não te­res in­cluído o mes­tre Kubrick.
V. A. – Ah, mas eu pen­sei que ti­nham de ser re­a­li­za­do­res… vi­vos! Senão faço-te já uma lista de re­a­li­za­do­res de­sa­pa­re­ci­dos para os quais ado­ra­ria fa­zer mú­sica para os seus fil­mes: Kubrick (claro está), Hitchcock, Eisenstein, Tarkovski e Tati.


Dez mú­si­cos que con­si­de­res ab­so­lu­ta­mente es­sen­ci­ais para a tua saúde ar­tís­tica.
V. A. – Hoje são es­tes, ama­nhã po­de­riam ser ou­tros: Erik Satie, Igor Stravinsky, Pascal Comelade, Mike Patton, Amon Tobin, Aphex Twin, Ornette Coleman, Philip Glass, Brian Eno, Ian Curtis.

A brin­car, a brin­car, vai-se fa­zendo jazz

O mú­sico fran­cês Pascal Comelade e os seus brin­que­dos musicais

O teu ter­ceiro ál­bum – «Psicotic Jazz Hall» — é apre­sen­tado em Maio no Teatro Municipal da Guarda – a tua ci­dade. Escolheste Shina-Kak para tema de apre­sen­ta­ção por ser o teu pre­fe­rido ou por re­co­nhe­ce­res que tem mais po­ten­cial para agu­çar a cu­ri­o­si­dade em re­la­ção ao resto?

V. A. – Precisamente pe­los dois mo­ti­vos: é mesmo um dos meus pre­fe­ri­dos do disco (o que não quer di­zer que o resto do disco não te­nha ou­tros te­mas com o mesmo po­ten­cial) e por­que con­grega, es­ti­lis­ti­ca­mente fa­lando, um con­junto de ca­rac­te­rís­ti­cas do meu tra­ba­lho: a fu­são de re­fe­rên­cias so­no­ras, a sim­bi­ose de es­tí­mu­los e gé­ne­ros (cruza jazz, funk, spoken-word ja­po­nês, gui­tar­ras heavy-metal e can­tos dos bu­dis­tas ti­be­ta­nos) e a des­cons­tru­ção da lin­gua­gem jazz, que é co­mum a (quase) todo o disco.


Como é que te lem­braste desse tí­tulo, «Psicotic Jazz Hall?»

V.A. – «Psicotic Jazz Hall» re­mete para um tí­tulo de um ál­bum do mú­sico fran­cês Pascal Comelade, «Psicotic Music Hall». Comelade é um co­nhe­cido mú­sico que usa ins­tru­men­tos mu­si­cais de brin­car com um sen­tido lú­dico e algo bi­zarro. Adaptei o termo «jazz» no tí­tulo por­que grande parte dos te­mas con­tém re­fe­rên­cias à lin­gua­gem jazz, mas sem­pre com um cu­nho sub­ver­sivo, sem­pre mis­tu­rado com uma abor­da­gem frag­men­tá­ria de es­ti­los e so­no­ri­da­des. O ál­bum tem uma du­ra­ção re­la­ti­va­mente curta, 42 mi­nu­tos.


Nos teus es­pec­tá­cu­los, pas­sam frag­men­tos de ima­gens e fil­mes num ecrã mon­tado no palco. Tens a mesma no­ção de es­pec­tá­culo mul­ti­mé­dia que, por exem­plo, a Laurie Anderson, no qual to­dos os ele­men­tos – mú­sica, ci­nema, te­a­tro, po­e­sia, li­te­ra­tura – se con­jun­gam numa só apresentação?

V.A. – Tenho tido pre­o­cu­pa­ções vi­su­ais com os con­cer­tos, mas não ao ní­vel de uma Laurie Anderson, que cria com­ple­xos es­pec­tá­cu­los mul­ti­mé­dia. O que faço é bem mais sim­ples e trata-se de in­cluir, em de­ter­mi­na­das pas­sa­gens do con­certo, al­guns ví­deos que com­ple­men­tem a com­po­nente mu­si­cal. Certos vi­de­o­clips são con­ce­bi­dos por mim, ou­tros são fei­tos por ami­gos.


O ví­deo de Shina-Kak foi feito por ti?

V. A. — Sim, foi. O nome Soundnest Creator é o meu alter-ego «vi­de­o­grá­fico».


És tu a to­car to­dos os ins­tru­men­tos? São sam­ples de ou­tras mú­si­cas que tu jun­tas, trans­for­mas, cor­tas e co­las para criar algo to­tal­mente novo? É uma mis­tura de am­bos? Qual é o ins­tru­mento em que te sen­tes mais à von­tade? Guitarra, per­cus­são, baixo?

V. A. – Brian Eno lan­çou uma te­o­ria de­pois de fa­zer o se­mi­nal ál­bum (com David Byrne) «My Life in The Bush of Ghosts», em 1981: O fu­turo da mú­sica vai ser 80% de re­ci­cla­gem e 20% oriunda de inspiração.

Queria com isto di­zer que a ideia de re­cons­tru­ção de ma­te­rial pré-concebido se­ria a base para criar no­vas ideias, no­vas for­mas e con­cei­tos mu­si­cais. E bem se viu (e ou­viu) que, em parte, Eno ti­nha razão.

O que eu faço vai ao en­con­tro desse con­ceito de re­ci­clar re­fe­rên­cias mu­si­cais e de re­cons­truir algo de novo. Isto refere-se, so­bre­tudo, à forma como ma­ni­pulo e re­monto os sam­ples de ins­tru­men­tos ou de sequên­cias mu­si­cais. É tudo me­nos um pro­cesso cri­a­tivo ori­gi­nal: saco aqui, saco ali e, se­guindo o meu ins­tinto es­té­tico, re­cons­truo e trans­formo toda essa in­for­ma­ção sonora.

É um pro­cesso frag­men­tá­rio e muito mi­nu­ci­oso, por­que to­dos os de­ta­lhes con­tam para com­ple­tar e dar forma ao corpo fi­nal. Mas tam­bém toco e mis­turo com ins­tru­men­tos re­ais, al­guns to­ca­dos por mim, ou­tros to­ca­dos por mú­si­cos con­vi­da­dos (Old Jerusalem, Adolfo Luxúria Canibal, Bypass, no meu ál­bum anterior).

A mi­nha for­ma­ção desde miúdo é de gui­tarra, mas toco tam­bém te­cla­dos MIDI, baixo e ba­te­ria. E toda uma pa­ra­fer­ná­lia de ou­tros ins­tru­men­tos ao vivo – har­mó­nica, ma­rimba, flau­tas ori­en­tais, con­cer­tina…

As 12 fai­xas de Psicotic Jazz Hall, se­gundo Kubik

1. Damnation – Uma in­tro­du­ção curta que per­mite per­ce­ber qual vai ser o rumo do disco.
2. Shina-Kak – O tal tema do vídeo-promo. Tem a par­ti­ci­pa­ção do ar­tista ja­po­nês Kenji Siratori.
3. Liquid Paper – Começa com um ritmo e uma li­nha de baixo “swin­gada” e de­sem­boca numa vi­a­gem elec­tró­nica quase si­de­ral.
4. Gerry & Gerry – Título re­ti­rado do filme “Gerry” de Gus Van Sant. Primeiro mo­mento mu­si­cal mais con­tem­pla­tivo, com sa­xo­fo­nes a to­mar o rumo da mú­sica.
5. Psicotic Jazz Hall – Tema-título do ál­bum. Beats jaz­zís­ti­cos tra­ta­dos elec­tro­ni­ca­mente com gui­tar­ras as­sa­nha­das.
6. Selatius, 17th Century – Citação de um cé­le­bre per­so­na­gem de um cé­le­bre filme de um cé­le­bre re­a­li­za­dor. Outra vi­a­gem jaz­zís­tica im­pre­vi­sí­vel que co­meça de forma or­to­doxa mas que não se sabe como ter­mina.
7. Imagetica – A pul­são jaz­zís­tica sente-se com a li­nha de con­tra­baixo, mas intromete-se uma voz ét­nica e sons elec­tró­ni­cos di­ver­sos.
8. I Think I Am – Referência di­recta a Tarkovski. É mais rock e o único tema que conta com a mi­nha voz.
9. Shlomo Venezia is Not Dead Yet – Shlomo Venezia é um so­bre­vi­vente de Auschwitz. Li um li­vro onde re­lata as suas ex­pe­ri­ên­cias. A par­tir disto, ima­gi­nem a mú­sica.
10. Children of the Revolution – Um tema que já foge às re­fe­rên­cias do jazz, para en­trar numa ex­pe­ri­ên­cia elec­tro com can­tos de cri­an­ças do Bangladesh.
11. Come and See – Título do filme de guerra de Elem Klimov. Mistura Spiritualized com Sonic Youth. Parece men­tira mas é isso.
12. Dema– Gôd — Tema curto que en­cerra o disco. Um puro de­va­neio jaz­zís­tico com uma voz… des­vai­rada.
 

Kubik na grande terra da Partilha

Enquanto mú­sico, diz-me o que pen­sas so­bre a pi­ra­ta­ria da Net que as­so­ci­a­ções como a ACAPOR ou, nos Estados Unidos, a RIAA, tão de­ses­pe­ra­da­mente pro­cu­ram com­ba­ter. Se des­ses com um disco teu a ser par­ti­lhado na Web, como reagirias?

V.A. — Por acaso já dei com dis­cos meus par­ti­lha­dos na Internet. Não me cho­cou. Pelo con­trá­rio. Seria até mau sin­toma que não hou­vesse mú­sica mi­nha par­ti­lhada na Web. Seria si­nal de in­di­fe­rença para com o meu trabalho.

Eu não vivo da mú­sica, te­nho uma ac­ti­vi­dade pro­fis­si­o­nal. Eu ainda acre­dito na im­por­tân­cia do ob­jecto fí­sico do disco (cada vez me­nos) e no va­lor de com­prar o disco num for­mato de CD ou vi­nil. Mas à ex­cep­ção de um rol re­la­ti­va­mente pe­queno de mú­si­cos e ban­das que con­se­guem vi­ver da venda dos dis­cos, a ver­dade é que a es­ma­ga­dora mai­o­ria dos ar­tis­tas so­bre­vive, hoje, dos con­cer­tos e do merchandising.


O mer­cado das edi­to­ras dis­co­grá­fi­cas e res­pec­ti­vas dis­tri­bui­do­ras con­ti­nua a ser muito mal ge­rido, no afã do lu­cro e pre­ju­di­cando os in­te­res­ses do consumidor

 

Até o Pedro Abrunhosa, que ou­trora ven­dia de­ze­nas de mi­lha­res de dis­cos, veio en­fa­ti­zar esta ideia. Se eu vi­vesse da mú­sica, não po­dia es­pe­rar ter gran­des ren­di­men­tos da venda de dis­cos, por­que te­nho plena cons­ci­ên­cia que, mesmo que fi­zesse mú­sica co­mer­cial, se­ria muito di­fí­cil so­bre­vi­ver por­que a re­a­li­dade da era di­gi­tal impôs, quer se que­ria quer não, no­vas for­mas de con­sumo e de partilha.

A ver­dade é esta: o mp3 e ou­tros fi­chei­ros di­gi­tais es­tão a subs­ti­tuir o disco como su­porte de in­for­ma­ção, e a par­ti­lha des­ses fi­chei­ros na Internet é ab­so­lu­ta­mente im­pos­sí­vel de con­tro­lar. Depois a po­lí­tica de pre­ços dos dis­cos só vem pi­o­rar a si­tu­a­ção: va­mos à Fnac pro­cu­rar um disco re­cente, cons­ta­mos que custa 18 ou 20 eu­ros, mas sa­be­mos que basta che­gar a casa e, à dis­tân­cia de um cli­que e em es­cas­sos mi­nu­tos, con­se­gui­mos o mesmo disco sem gas­tar um cêntimo.

O mer­cado das edi­to­ras dis­co­grá­fi­cas e res­pec­ti­vas dis­tri­bui­do­ras con­ti­nua a ser muito mal ge­rido, no afã do lu­cro e pre­ju­di­cando os in­te­res­ses do consumidor.

Por isso, as me­di­das que a ACAPOR ten­tou im­ple­men­tar (friso: ten­tou) são con­tra­pro­du­cen­tes para com os pró­prios in­te­res­ses co­mer­ci­ais desta as­so­ci­a­ção (ou da con­gé­nere ame­ri­cana). É uma as­so­ci­a­ção com uma vi­são re­du­tora do fe­nó­meno que, de forma de­ses­pe­rada, tenta com­ba­ter a par­ti­lha ile­gal de fi­chei­ros ame­a­çando os uti­li­za­do­res e fa­zendo chan­ta­gem. Medidas com­ple­ta­mente de­sa­jus­ta­das e infrutíferas.


O MP3 e ou­tros fi­chei­ros di­gi­tais es­tão a subs­ti­tuir o disco como su­porte de in­for­ma­ção, e a par­ti­lha des­ses fi­chei­ros na Internet é ab­so­lu­ta­mente im­pos­sí­vel de controlar

 

Músicos como tu são pre­ju­di­ca­dos pela forma como a ca­beça de grande parte das pes­soas está for­ma­tada para re­co­nhe­cer ape­nas o for­mato can­ção. Sem um re­frão, fi­cam per­di­das, sem sa­ber como ab­sor­ver a mú­sica. O jazz, a im­pro­vi­sa­ção, é um corpo es­tra­nho por­que não têm nada a que se agar­rar. A sen­sa­ção de fa­mi­li­a­ri­dade de uma li­nha me­ló­dica de um des­ses su­ces­sos é cap­tada como «me­lo­dia que fica no ou­vido», mas na re­a­li­dade o que fica no ou­vido é a tre­menda falta de ori­gi­na­li­dade des­sas can­ções. Não achas que a car­reira de mú­si­cos como tu é uma luta in­ces­sante e in­gló­ria de se fa­zer ou­vir en­tre todo esse ruído co­mer­cial que ocupa as rá­dios e as te­le­vi­sões? Sentes essa luta ou já es­tás a marimbar-te para o assunto?

V.A. – Compreendo o que que­res di­zer. Por in­crí­vel que pa­reça, já houve mais es­paço para di­vul­gar mú­sica al­ter­na­tiva do que agora, com os pro­gra­mas do António Sérgio ou os pro­gra­mas de te­le­vi­são do tipo “Pop-Off”.

Hoje a for­ma­ta­ção e a di­ta­dura das play­lists do­mi­nam todo o espectro.

Já o pró­prio António Sérgio di­zia, pouco an­tes de fa­le­cer, que nin­guém apren­dia nada a ou­vir a rá­dio ac­tual, por­que a rá­dio já não es­ti­mu­lava no­vas des­co­ber­tas. O mesmo se passa com a te­le­vi­são, ca­bal e in­fe­liz exem­plo de pa­ra­si­tismo e in­du­tor do gosto massificado.

Felizmente que uma ex­tra­or­di­ná­ria fer­ra­menta de co­mu­ni­ca­ção cha­mada Internet re­vo­lu­ci­o­nou a forma de ace­der à in­for­ma­ção. Quem quer ou­vir mú­sica di­fe­rente da­quela que os meios de co­mu­ni­ca­ção trans­mi­tem, basta ir à Internet. É nesta pla­ta­forma que se joga a pro­mo­ção e di­vul­ga­ção de um pro­jecto mu­si­cal. Eu já co­nheci mui­tas ban­das e mú­si­cos na in­ter­net (Last.fm, rá­dio on­line, MySpace…) que nunca vi re­fe­ren­ci­a­dos nas rá­dios ou nos jor­nais. Mas mesmo para pro­cu­rar pro­pos­tas boas na Internet é pre­ciso sa­ber es­co­lher e não se dei­xar con­ta­mi­nar pelo gosto maioritário.

É ver­dade que não é fá­cil, um jo­vem com a ca­beça for­ma­tada, con­se­guir ou­vir, com pra­zer ime­di­ato, um disco de jazz, de mú­sica im­pro­vi­sada, de elec­tró­nica, de rock mais ex­pe­ri­men­tal ou de fu­são. São es­ti­los que fo­gem à pre­vi­si­bi­li­dade, à con­ven­ção da es­tru­tura de can­ção, e que, como re­fe­riste, des­con­cer­tam e desorientam.

A mi­nha mú­sica passa, pre­ci­sa­mente, por esta li­nha­gem de ex­pe­ri­men­ta­ção de no­vas fór­mu­las, de in­ter­sec­ção de gé­ne­ros sem ponto car­deal à vista. Gosto de de­sa­fiar os ou­vi­dos de quem me ouve. Por isso com­pre­endo que, para mui­tos mú­si­cos como eu, haja pouco es­paço de di­vul­ga­ção. Mas tam­bém es­tou cons­ci­ente que, quem gosta deste tipo de mú­sica, a pro­cura pe­los seus pró­prios meios e vai dar de ca­ras, mais cedo ou mais tarde, com a mi­nha mú­sica.


A maior parte das pes­soas ouve mú­sica em for­mato MP3. Na pro­du­ção do teu disco, nunca te pas­sou pela ca­beça qual­quer ideia do gé­nero «Não vale a pena man­ter as sub­ti­le­zas es­pa­ci­ais dos sons – só to­tal­mente per­cep­tí­veis quando es­ta­mos num con­certo ao vivo -, é pre­fe­rí­vel pu­xar ape­nas pe­las frequên­cias so­no­ras que o MP3 su­porta»?

V. A. – Sinceramente, não ligo muita im­por­tân­cia a esse as­pecto. Até por­que não sou um grande co­nhe­ce­dor, em ter­mos téc­ni­cos, das frequên­cias do MP3.

Aliás, não de­dico muito tempo a es­tu­dar ao por­me­nor os ma­nu­ais de uti­li­za­ção de um de­ter­mi­nado soft­ware de edi­ção áu­dio, por exem­plo. Preocupo-me com a ge­ne­ra­li­dade da qua­li­dade do som, da pro­du­ção, gra­va­ção e mas­te­ri­za­ção, mas faço-o de forma in­tui­tiva, sem se­guir cri­té­rios ri­go­ro­sos que um téc­nico de som ex­pe­ri­men­tado seguiria.

Concentro-me so­bre­tudo na cri­a­ção mu­si­cal, no de­sen­vol­vi­mento de ideias cri­a­ti­vas con­cre­tas que pos­sam ir ao en­con­tro do que me pro­po­nho fa­zer. Apesar disso, em ter­mos so­no­ros, a mi­nha mú­sica é re­pleta de por­me­no­res e de­ta­lhes que só ou­vindo di­ver­sas ve­zes se con­se­gue per­ce­ber. Por ve­zes cons­truo te­mas que são ca­ma­das atrás de ca­ma­das de ele­men­tos so­no­ros, mui­tas das ve­zes, em con­fronto, em ebu­li­ção, em per­ma­nente es­tado de des­co­berta de um sen­tido.

E agora, algo com­ple­ta­mente diferente

És ca­sado, tens duas fi­lhas me­no­res. Também pas­saste a fase em que quase ar­ran­ca­vas os ca­be­los por ou­vi­res tan­tas ve­zes a Rihanna ou o pai já está a tratar-lhes da edu­ca­ção musical?

V. A. – É fun­da­men­tal acom­pa­nhar a edu­ca­ção mu­si­cal desde a mais tenra idade. Estudos ci­en­tí­fi­cos com­pro­vam a im­por­tân­cia que a mú­sica tem para o de­sen­vol­vi­mento emo­ci­o­nal e cog­ni­tivo das cri­an­ças. Como mú­sico e pro­fes­sor de mú­sica, sem­pre in­cuti o gosto pela mú­sica, mas não de forma im­po­si­tiva e autoritária.

Acho que há ida­des para ou­vir de tudo e o gosto mu­si­cal bem edu­cado consegue-se com o pas­sar do tempo, em vá­rias fa­ses. As mi­nhas fi­lhas co­me­ça­ram a ou­vir mú­sica ti­pi­ca­mente in­fan­til até aos 5 ou 6 anos de idade. Depois pas­sa­ram a gos­tar de Hannah Montana, Jonas Brothers e ban­das do gé­nero (por acaso Rihanna nunca gos­ta­ram!) e, hoje, com 8 e 11 anos, gos­tam de Arcade Fire e U2. Claro que com uma in­fluên­cia di­recta dos pais, mas tam­bém é im­por­tante dei­xar es­paço para as pró­prias des­co­ber­tas que fa­zem com ami­gos ou que des­co­brem na internet.

Por ou­tro lado, am­bas es­tu­dam for­mal­mente mú­sica no Conservatório: uma toca vi­o­lino e a ou­tra toca pi­ano, facto que con­tri­bui para um de­sen­vol­vi­mento das ca­pa­ci­da­des au­di­ti­vas, o sen­tido es­té­tico, a dis­ci­plina, a con­cen­tra­ção e a auto-estima.


O facto de vi­ve­res na Guarda, tão afas­tado de Lisboa, é uma des­van­ta­gem ou vantagem?

V. A. – É cu­ri­oso que já vá­rias ve­zes me fi­ze­ram esta per­gunta, a qual con­si­dero per­ti­nente. Na ver­dade, acho que vi­ver na Guarda é uma vantagem.

Com a so­ci­e­dade da co­mu­ni­ca­ção glo­bal, não pre­ci­sei de vi­ver em Lisboa para Mike Patton co­nhe­cer o meu tra­ba­lho e me con­vi­dar para to­car na Aula Magna an­tes dos Fantômas. Não pre­ci­sei de vi­ver em Lisboa para que os meus dois dis­cos te­nham sido con­si­de­ra­dos uns dos me­lho­res dis­cos por­tu­gue­ses de cada ano (2001 e 2005). Não pre­ci­sei de vi­ver em Lisboa para ter ga­nho 4 pré­mios de ori­gi­na­li­dade, ter to­cado no Festival Paredes de Coura, ter to­cado com uma or­ques­tra na aber­tura do fes­ti­val de ci­nema Imago, ter feito ban­das so­no­ras para fil­mes mu­dos, ter sido con­vi­dado para fa­zer a mú­sica ori­gi­nal de um bai­lado con­tem­po­râ­neo que es­treou na Culturgest ou para fa­zer a mú­sica para re­a­li­za­do­res da Capital.

A ques­tão, para mim, é me­ra­mente ge­o­grá­fica. E uma vez um crí­tico disse que a mi­nha mú­sica, feita na Guarda, era de tal forma con­tem­po­râ­nea que po­dia ser um mú­sico de Londres ou Nova Iorque. É as­sim que sinto o meu tra­ba­lho: uni­ver­sal. Para além disso, vivo na ci­dade con­ti­nen­tal mais alta, logo o ar é mais puro, logo a ins­pi­ra­ção é mais espontânea.

→ 30/01/2011 @18:56

Carlos Oliveira, o emigrante cósmico

O as­tró­nomo e um re­pre­sen­tante in­su­flá­vel do «ge­o­cen­trismo psi­co­ló­gico» (Foto: Pedro Ferrari/DN)

Faz sen­tido que para o lan­ça­mento desta ru­brica de en­tre­vis­tas te­nha es­co­lhido um astrónomo.

«Lançamento» é uma pa­la­vra cara a to­dos aque­les que se in­te­res­sam pe­los mis­té­rios do Cosmos: das mis­sões Apollo ao Hubble, das son­das Viking aos robôs que ex­plo­ram a su­per­fí­cie mar­ci­ana, as suas his­tó­rias me­diá­ti­cas co­me­ça­ram sem­pre com a no­tí­cia de um lan­ça­mento bem su­ce­dido em di­rec­ção ao Espaço.

Também o as­tró­nomo e edu­ca­dor ci­en­tí­fico Carlos Oliveira, 37 anos, teve o seu cru­cial mo­mento de lan­ça­mento, quando em 2001 (ou­tra data mar­cante do ci­nema de fic­ção ci­en­tí­fica) voou so­bre o Oceano Atlântico para ir tra­ba­lhar nos Estados Unidos, no Maryland Science Center, em Baltimore, du­rante 5 me­ses. Em 2003, já es­tava na Universidade do Texas, em Austin.

Diz ter saído de Portugal por que­rer ir para um país onde fosse dada a «opor­tu­ni­dade de mu­dar as coi­sas e fa­zer­mos o que que­re­mos, evo­luir­mos, tra­zer­mos ori­gi­na­li­dade à área que gos­ta­mos.»

Não es­conde o or­gu­lho em re­la­ção aos seus fei­tos aca­dé­mi­cos. Na pá­gina de per­fil dos co­la­bo­ra­do­res do blo­gue de Astronomia Astro.PT, o por­tu­guês Carlos Oliveira re­vela ser o cri­a­dor e pro­fes­sor de um «ino­va­dor» curso de Astrobiologia na Universidade ame­ri­cana. A pá­gina pode ser con­sul­tada aqui. É o pri­meiro da lista.

Quis ir para «um sí­tio onde se ava­li­as­sem ob­jec­ti­va­mente as pes­soas, pelo seu mé­rito — em vez da me­di­o­cri­dade do fac­tor cu­nha.» Saiu, en­fim, por uma ques­tão de men­ta­li­dade: «Não me re­via na men­ta­li­dade fe­chada, ne­ga­tiva, de cons­tan­tes quei­xas, que existe em Portugal».

A ex­pe­ri­ên­cia está a cor­rer muito bem. Carlos Oliveira não se tor­nou «um es­tra­nho numa terra es­tra­nha», como o mar­ci­ano da no­vela de fic­ção ci­en­tí­fica de Robert H. Heinlein. Os acor­des do fado-saudade tam­bém não lhe cau­sam es­pe­cial res­so­nân­cia no cé­re­bro: é um emi­grante por­tu­guês, mas a sua casa é o Cosmos — não pensa se­quer vol­tar para Portugal.

Tenciona sair dos EUA no pró­ximo ano, «ter uma ex­pe­ri­ên­cia di­fe­rente nou­tro país». Quando che­gar o mo­mento de re­gres­sar, o des­tino será no­va­mente os Estados Unidos. Porque a vida pes­soal «não tem sido tra­di­ci­o­nal», con­ti­nua sol­teiro. «Talvez da­qui a cinco anos as coi­sas se­jam to­tal­mente di­fe­ren­tes».

Nesta en­tre­vista, Carlos Oliveira dis­cute as fron­tei­ras do Universo, a te­o­ria dos Multiversos, Matéria Negra, Energia Negra, os li­mi­tes da ve­lo­ci­dade da luz, os gra­vi­tões, o Big Bang, as des­co­ber­tas da Física Quântica, a busca por vida ex­tra­ter­res­tre, a Ficção Científica, os OVNI, a Astrologia e Deus.

Oliveira é um ho­mem di­recto e as­ser­tivo – nas suas res­pos­tas não há es­paço para flo­re­a­dos di­plo­má­ti­cos. As opi­niões in­co­mo­dam, isto é, de­sa­fiam.


[Nota: Carlos Oliveira faz al­gu­mas ci­ta­ções em in­glês — re­solvi traduzi-las, pelo que qual­quer erro é da mi­nha res­pon­sa­bi­li­dade, não dele]


«Eu não gosto de di­ver­sas te­o­rias científicas»

Lemaître: pa­dre ca­tó­lico, pro­fes­sor de Física e Astronomia, cri­a­dor da Teoria do Big Bang

O Telescópio Espacial Hubble des­co­briu o ob­jecto mais dis­tante ja­mais visto, uma ga­lá­xia for­mada quando o Universo era um jo­vem com ape­nas 480 mi­lhões de anos. Em 2014, o Telescópio Espacial James Webb, su­ces­sor do Hubble, con­se­guirá cap­tar a ima­gem das pri­mei­ras ga­lá­xias que se for­ma­ram. Até quando po­de­re­mos re­cuar no tempo? Qual o li­mite ab­so­luto a par­tir do qual já não po­de­re­mos ob­ser­var mais nada?

Carlos Oliveira — Supostamente se­ria o Tempo de Planck: 10^-43 se­gun­dos após o Big Bang.

No en­tanto, o Universo foi «opaco» du­rante muito tempo, cheio de plasma io­ni­zado. Só de­pois disso fi­cou «trans­pa­rente», ou seja, pas­sí­vel de ser visto. Podemos pen­sar num li­mite tal­vez de cerca de 380 mil anos após o Big Bang. No en­tanto, o Universo nesta al­tura se­ria «ne­gro»… Ainda lhe falta a luz que é dada pe­las estrelas.

As ga­lá­xias tal­vez se te­nham for­mado 200 mi­lhões de anos após o Big Bang. O Telescópio Espacial James Webb, se con­se­guir che­gar a es­tas, já será excelente.


A Teoria do Big Bang foi in­ven­tada por um pa­dre que que­ria en­con­trar o mo­mento em que Deus criou o Universo: não gosto dela


A te­o­ria do Multiverso se­gundo a qual o Espaço-Tempo abarca não ape­nas o nosso Universo, mas uma sé­rie de­les, era vista como um con­ceito de Ficção Científica. As des­co­ber­tas quân­ti­cas e a Teoria da Relatividade pa­re­cem de­mons­trar que, afi­nal, é mesmo pos­sí­vel que exis­tam múl­ti­plos uni­ver­sos. Qual é a sua opi­nião so­bre o assunto?

C. O. — Eu não gosto de di­ver­sas te­o­rias ci­en­tí­fi­cas. Sigo o Princípio da Mediocridade, se­gundo o qual so­mos in­sig­ni­fi­can­tes no Universo. Não so­mos o cen­tro, nem se­quer so­mos especiais.

Devido a isso, há vá­rias ideias e te­o­rias de que não gosto.

Exemplos:

- SETI: ape­sar de re­co­nhe­cer o pa­pel que o SETI teve no de­sen­vol­vi­mento de com­pu­ta­do­res e rádio-telescópios, não gosto da sua fi­lo­so­fia. Tanto o SETI como ou­tras áreas da as­tro­bi­o­lo­gia so­frem da falta de ima­gi­na­ção de es­ta­rem à pro­cura de hu­ma­nos no es­paço! Não pro­cu­ram ex­tra­ter­res­tres, mas sim hu­ma­nos, com o mesmo tipo de ra­ci­o­cí­nio, a mesma ma­te­má­tica, o mesmo de­sen­vol­vi­mento, a mesma tec­no­lo­gia, etc.

- Quântica: te­nho a ideia de Einstein, de que existe algo «mais abaixo» (mais pro­fundo) que ex­pli­cará as apa­ren­tes pro­ba­bi­li­da­des da Quântica. Por ou­tro lado, não gosto da forma como as ob­ser­va­ções de­pen­dem do ob­ser­va­dor (de nós), por­que, no­va­mente, é pôr-nos no cen­tro do Universo, ser­mos mui­tos especiais.

- Big Bang: re­co­nheço as evi­dên­cias ci­en­tí­fi­cas para esta te­o­ria, mas não gosto dela, so­bre­tudo por­que foi pen­sada por um pa­dre que que­ria en­con­trar o mo­mento em que Deus criou o Universo. Como não gosto de mo­ti­vos re­li­gi­o­sos (por­que nos põem no cen­tro da aten­ção de «al­guém», as­su­mindo que so­mos es­pe­ci­ais e muito im­por­tan­tes no Universo), en­tão toda a te­o­ria, para mim, so­fre dessa falha.


O Universo não quer sa­ber do que eu penso e das mi­nhas fi­lo­so­fias. Os re­sul­ta­dos ci­en­tí­fi­cos nem sem­pre são aque­les que eu gosto


- Multiverso: a ideia do Multiverso nas­ceu da falsa no­ção de que se só existe este Universo, en­tão ele está feito para nós: as suas pro­pri­e­da­des fí­si­cas es­tão fei­tas para a nossa exis­tên­cia. Ou seja, so­fre do mesmo pro­blema dos exem­plos acima.

Se o Universo fosse di­fe­rente, po­de­ria ha­ver vida to­tal­mente di­fe­rente da nossa, e se ca­lhar essa vida es­ta­ria a pen­sar que o Universo foi feito para ela, e que o seu mundo es­tava no cen­tro do Universo. No en­tanto, isto é algo que nem se­quer é ima­gi­nado por quem pensa que o Universo está feito para nós. Ora, para con­tra­ba­lan­çar esta ideia ini­cial de que o Universo está feito para nós, en­tão imaginou-se que este se­ria só um de mui­tos uni­ver­sos, e daí que não ha­via nada de es­pe­cial nele. O que eu penso é que a ideia ini­cial está er­rada, logo não é pre­ciso con­tra­ba­lan­çar nada.

Sempre que penso nes­tas coi­sas lembro-me das pa­la­vras de Xenophanes. Este fi­ló­sofo grego, que vi­veu cerca de 100 anos, di­zia há mais de 2500 anos que se as va­cas e os ca­va­los con­se­guis­sem de­se­nhar, ima­gi­na­riam deu­ses à sua ima­gem. Hoje, ele di­ria o mesmo dos ex­tra­ter­res­tres da fic­ção ci­en­tí­fica, por exem­plo. Ou seja, te­mos sem­pre a in­crí­vel ma­nia de ima­gi­nar que os ou­tros são como nós. E porquê? Porque nos acha­mos o que de mais im­por­tante existe, por isso os ou­tros têm que ser como nós. O mesmo se passa nes­tes exem­plos que co­lo­quei em cima, in­cluindo na ideia ini­cial para o Multiverso.

Finalizo di­zendo algo que me pa­rece que é bas­tante im­por­tante para aqui: isto são so­mente opi­niões mi­nhas. É so­mente a mi­nha fi­lo­so­fia para a vida e para o universo.

E uma das coi­sas que já aprendi nes­tes 37 anos, é que o Universo não quer sa­ber do que eu penso e das mi­nhas fi­lo­so­fias. Os re­sul­ta­dos ci­en­tí­fi­cos nem sem­pre são aque­les que eu gosto. E são es­ses re­sul­ta­dos que con­tam, e não o que eu penso.

Admitindo que a to­ta­li­dade do Espaço-Tempo é cons­ti­tuída por múl­ti­plos uni­ver­sos, isso deixa o Homem numa po­si­ção ainda mais in­sig­ni­fi­cante no Cosmos. Até ver, so­mos a única es­pé­cie in­te­li­gente no Universo, a única que de­sen­vol­veu cons­ci­ên­cia, não o per­turba ve­ri­fi­car quão ir­re­le­van­tes so­mos verdadeiramente?

C. O. — Pelo contrário.

Acho ver­da­dei­ra­mente fe­no­me­nal ser­mos in­sig­ni­fi­can­tes, ir­re­le­van­tes, no Universo.

A maior parte das pes­soas no mundo pensa que é tão im­por­tante no Universo que tem al­guém sem­pre muito atento a ela (seja Deus, ou ET’s que pi­lo­tam OVNIs). A crença em OVNI’s não é mais do que uma re­li­gião (como pro­vou George Adamski).

Parece-me um pro­blema de ego que leva à es­tag­na­ção, por­que to­das as res­pos­tas po­dem ser da­das por quem está «acima de nós» (seja Deus ou ET’s avan­ça­dos). Alguém disse: «Give a man a fish, and you’ll feed him for a day; give him a re­li­gion, and he’ll starve to de­ath while praying for a fish.» [Dê um peixe a um ho­mem e você alimentá-lo-á por um dia; dê-lhe uma re­li­gião e ele mor­rerá de fome en­quanto reza por um peixe]

Arthur C. Clarke, no seu li­vro Profiles of the Future, abor­dou o mesmo tema di­zendo que os hu­ma­nos de­ve­riam pro­gre­dir, ar­ris­car, avan­çar: «A bil­lion mil­lion ye­ars ago the more con­ser­va­tive fishes said exac­tly the same to their amphi­bian re­la­ti­ons. Existence on dry land be­ars not the re­mo­test re­sem­blance to fishy like un­der wa­ter. We shall stay where we are. And that is what they did. This is why they are still fishes”. [Há mil mi­lhões de anos, os pei­xes mais con­ser­va­do­res dis­se­ram exac­ta­mente o mesmo aos seus pa­ren­tes an­fí­bios: “A exis­tên­cia nas ter­ras se­cas não terá a mais re­mota se­me­lhança com a da vida aquá­tica. Fiquemos onde es­ta­mos!” E foi o que fi­ze­ram. Por isso ainda hoje são pei­xes]

Ou seja, po­dem ser in­sig­ni­fi­can­tes pei­xes, mas se ar­ris­ca­rem, se avan­ça­rem, po­de­rão evo­luir imenso e che­gar longe. A ou­tra hi­pó­tese será con­ti­nu­a­rem no mesmo sí­tio, es­tag­na­dos, à es­pera que «al­guém faça algo acon­te­cer», sem eles pró­prios fa­ze­rem nada por isso.

Eu sigo a ideia do «so­nho ame­ri­cano»: al­guém in­sig­ni­fi­cante con­se­guir che­gar longe. Como acon­te­ceu com os men­to­res do Google, Microsoft, Facebook ou Twitter.

O mesmo es­pero para o fu­turo da hu­ma­ni­dade: al­guém to­tal­mente in­sig­ni­fi­cante no Universo con­se­guir não só des­co­brir os se­gre­dos desse Universo, mas até se es­pa­lhar por ele.


Há muito, muito tempo, numa ga­lá­xia muito, muito distante

Não su­bes­ti­mes o Lado Negro da Energia, Luke

O fí­sico di­na­marquês Niels Bohr afir­mou o se­guinte: só quem não com­pre­ende as im­pli­ca­ções das des­co­ber­tas quân­ti­cas não fica cho­cado com elas. O que o choca mais na Física Quântica?

C. O. — Ia para di­zer tudo… mas se quer só uma ca­rac­te­rís­tica, en­tão será o «en­tan­gle­ment». Como é que uma par­tí­cula pode «sa­ber» ins­tan­ta­ne­a­mente as ca­rac­te­rís­ti­cas de ou­tra par­tí­cula no ou­tro lado do Universo, é algo que pa­rece uma ideia «pseudo». Mesmo Einstein chamou-lhe: «spo­oky ac­tion at a dis­tance» [ac­ção fan­tas­ma­gó­rica à dis­tân­cia]

É algo que me choca pro­fun­da­mente! E daí que, para mim, seja algo sim­ples­mente fan­tás­tico e genial!

Quando con­se­guir­mos per­ce­ber com­ple­ta­mente essa ca­rac­te­rís­tica, o Universo nunca mais será o mesmo. Tenho a im­pres­são de que muito do que sa­be­mos hoje será dei­tado ao cai­xote do lixo…


Será que você vai ser a pes­soa a con­se­guir fazer-nos en­ten­der a nós, lei­gos, o que raio é a Matéria Negra e por que ra­zão é tão im­por­tante?

C. O. — A ma­té­ria ne­gra é algo nor­mal.
É ma­té­ria nor­mal, mas que não con­se­gui­mos ver (de­tec­tar). Só de­tec­ta­mos os seus efei­tos gra­vi­ta­ci­o­nais na ma­té­ria a que cha­ma­mos de normal.

Parece-me que a des­co­berta das par­tí­cu­las que for­mam a ma­té­ria ne­gra será um anti-clímax, por­que na re­a­li­dade é sim­ples­mente algo que para já não con­se­gui­mos de­tec­tar mas que é “normal”.

Dou-lhe um exem­plo: o Sol, como qual­quer es­trela, emite ra­di­a­ção.
Essa ra­di­a­ção pode, por exem­plo, ser em forma de luz vi­sí­vel, e ve­mos o Sol.
Não ve­mos a ra­di­a­ção in­fra­ver­me­lha, mas sa­be­mos que ela existe por­que ve­mos os seus efei­tos (ca­lor).
Não ve­mos a ra­di­a­ção ul­tra­vi­o­leta, mas sa­be­mos que ela existe por­que ve­mos os seus efei­tos (can­cro da pele).
Ou seja, não ve­mos di­ver­sos ti­pos de ra­di­a­ção, mas sa­be­mos que eles exis­tem por­que ve­mos os seus efei­tos. Mas a ra­di­a­ção, em di­fe­ren­tes com­pri­men­tos de onda, é algo nor­mal e que faz parte do es­pec­tro electromagnético.

É im­por­tante para con­se­guir­mos com­pre­en­der o todo.
Existe mais ma­té­ria ne­gra que ma­té­ria «vi­sí­vel», por isso é im­por­tante com­pre­en­der­mos a maior parte da ma­té­ria do Universo.
Da mesma forma que se só com­pre­en­de­mos a luz vi­sí­vel, es­ta­ría­mos li­mi­ta­dos a um pe­queno es­paço do es­pec­tro elec­tro­mag­né­tico sem con­se­guir­mos com­pre­en­der o resto, e o todo.

Se a per­gunta fosse so­bre Energia Negra, aí já se­ria mais com­pli­cado…


Considere esta per­gunta uma forma de lhe com­pli­car a vida! Pode falar-nos um pouco so­bre essa mis­te­ri­osa Energia Negra?

C. O. — Supostamente, a ener­gia ne­gra é uma ener­gia que fun­ci­ona de modo con­trá­rio à gra­vi­dade: é re­pul­siva, e está a ex­pan­dir o Universo.

Como está a ex­pan­dir o Universo no seu todo, en­tão não tem que se­guir as re­gras «den­tro do Universo». Exemplo: den­tro do Universo te­mos o li­mite de ve­lo­ci­dade que é a ve­lo­ci­dade da luz no vá­cuo (ac­tu­al­mente pensa-se em C como uma bar­reira e não como um li­mite, mas essa é ou­tra his­tó­ria). Ora, para o todo do Universo esse li­mite não existe, por isso o Universo pode per­fei­ta­mente expandir-se a ve­lo­ci­da­des su­pe­ri­o­res à da luz, como pe­los vis­tos faz.

O pro­blema da Energia Negra é que não sa­be­mos o que é.

Na ver­dade, não sa­be­mos nada!

Ideias e te­o­rias não fal­tam. Possíveis so­lu­ções abun­dam.

Respostas é que nem vê-las.

Não se sabe o que é, nem se­quer se sabe se é uma força (cu­ri­o­sa­mente, eu tam­bém digo que a gra­vi­dade não é uma força, mas essa é ou­tra his­tó­ria), nem se­quer se é ne­gra, nem se­quer se é ener­gia! Este é um as­sunto em que a nossa ig­no­rân­cia é muito su­pe­rior ao nosso conhecimento.

Para a Energia Negra assume-se que o Universo se está a ex­pan­dir… mas há quem ache que não está! Por exem­plo, há ci­en­tis­tas que pen­sam que é o Tempo que está a abran­dar. O pró­prio Hubble, que des­co­briu que os gru­pos de ga­lá­xias «fu­giam» de nós, não en­ve­re­dou por di­zer que isso era fruto de que o Universo se es­tava a expandir.

Claramente es­ta­mos num ter­reno em que não sa­be­mos o que pensar…

Até por­que es­ta­mos a fa­lar do Universo Observável… e não re­al­mente no Universo no seu todo, e nin­guém sabe o que ha­verá para lá do Universo Observável…

E a pró­pria di­vul­ga­ção desta ideia, in­cluindo com os di­a­gra­mas da NASA, não ajuda nada, por­que re­flec­tem con­cep­ções er­ra­das. É caso desta fa­mosa ima­gem feita pela NASA, como ex­pli­quei aqui.

Olhando para uma pers­pec­tiva his­tó­rica so­bre «coi­sas que não sa­bía­mos», ve­mos isto (al­guns exemplos):

- percebeu-se dis­cre­pân­cias na ór­bita de Úrano. Em 1 ano, descobriu-se Neptuno, ou seja, algo (pla­neta) que já co­nhe­cía­mos em sí­tios que sa­be­mos exis­tir. Ou seja, em 1 ano descobriu-se mais da­quilo que já sa­bía­mos (pla­ne­tas) — «more stuff».

- percebeu-se dis­cre­pân­cias na es­trela Sirius. Em 20 anos descobriu-se a sua com­pa­nheira anã. Não se sa­bia o que eram anãs bran­cas, mas é algo que vem de algo que já co­nhe­ce­mos (es­tre­las). Ou seja, demorou-se 20 anos para se des­co­brir no­vas coi­sas, algo di­fe­rente, mas ba­se­ado em algo que já co­nhe­cía­mos — «dif­fe­rent stuff».

- percebeu-se dis­cre­pân­cias na ór­bita de Mercúrio. Pensou-se, como em cima, que se­ria um pla­neta mais perto do Sol a pro­vo­car isso, e chamou-se Vulcan a esse pla­neta. No en­tanto, essa ex­pli­ca­ção es­tava er­rada por­que nunca se en­con­trou esse pla­neta. Mas em 70 anos, Einstein ex­pli­cou o porquê des­sas dis­cre­pân­cias na ór­bita de Mercúrio, com uma nova te­o­ria da gra­vi­dade. Ou seja, de­mo­rou 70 anos para se ex­pli­car es­sas dis­cre­pân­cias e teve que se criar uma nova fí­sica (Relatividade) para isso — «new physics».

Ora, a ideia de que o Universo está a ex­pan­dir e que existe uma força re­pul­siva res­pon­sá­vel por essa ex­pan­são já tem mui­tas dé­ca­das. Olhando para essa li­ção his­tó­rica, en­tão penso que a res­posta para o que é a Energia Negra está numa Nova Física, algo com­ple­ta­mente di­fe­rente da­quilo que pen­sa­mos actualmente.

No en­tanto, tendo em conta que se ca­lhar te­re­mos que sa­ber o que se passa na parte do Universo que nem sa­be­mos o que é, por­que não é Universo Observável, en­tão a res­posta para este mis­té­rio torna-se pra­ti­ca­mente «im­pos­sí­vel». A ver­dade é que há imenso Universo para lá da­quilo que con­se­gui­mos observar/detectar.

Concluindo, eu sou da opi­nião do cos­mó­logo Karl Gebhardt: não sa­be­mos.


«Actualmente pensa-se na ve­lo­ci­dade da Luz como uma bar­reira e não como um li­mite, mas essa é ou­tra his­tó­ria». «A gra­vi­dade não é uma força, mas essa é ou­tra his­tó­ria». Pelas mi­nhas con­tas, já são duas his­tó­rias por contar.

C. O. — Taquiões. Pensa-se que po­de­rão exis­tir par­tí­cu­las que vi­a­jam mais rá­pido que a luz. Ou seja, é pos­sí­vel vi­a­jar abaixo de C, mas não ul­tra­pas­sar essa bar­reira. E po­derá ser pos­sí­vel vi­a­jar acima de C, mas não abran­dar ao ponto de pas­sar «para baixo» dessa bar­reira. C não será um li­mite, mas sim uma barreira.

Einstein disse que a Gravidade é uma pro­pri­e­dade do espaço-tempo… ou seja, será sim­ples­mente uma pro­pri­e­dade no te­cido do espaço-tempo. Não me pa­rece que será uma força no sen­tido con­ven­ci­o­nal do termo. Logo, para mim, não exis­ti­rão os fa­mo­sos gra­vi­tões que tanta gente anda à procura…

Kevin Spacey no filme de culto K-Pax

Se pu­desse em­bar­car na «nave da ima­gi­na­ção» de Carl Sagan, qual o lo­cal do Universo que gos­ta­ria de vi­si­tar em pri­meiro lu­gar, e porquê?

C. O. — Todo o pla­neta Terra.

Acho es­tra­nho quando as pes­soas vão ver mu­seus ou ou­tros lo­cais im­por­tan­tes nou­tras ci­da­des, mas nunca os vi­ram na sua pró­pria ci­dade. Daí que acho que an­tes de ver ou­tras coi­sas nou­tros la­dos, gos­ta­ria de ver o nosso pró­prio planeta.

Depois disso, gos­ta­ria de vi­a­jar com o prot, de K-Pax, com os cons­tru­to­res dos bu­ra­cos de verme, de Contacto, ou com os Q, de Star Trek. Eles, me­lhor que eu, sa­be­riam quais os me­lho­res sí­tios a vi­si­tar se­gui­da­mente. Eu con­fi­a­ria nes­ses «guias turísticos».


Pode-se es­pe­rar que por todo o Universo, e nas con­di­ções mais ad­ver­sas, possa exis­tir vida sim­ples. No en­tanto, vida com­plexa será rara, e vida in­te­li­gente ainda mais difícil


Interessa-se tam­bém pela nossa busca por si­nais de vida ex­tra­ter­res­tre, in­te­li­gente ou não. No en­tanto, é vi­sí­vel em mui­tos dos ar­ti­gos que es­creve uma enorme ir­ri­ta­ção em re­la­ção ao fe­nó­meno OVNI. A Ovnilogia é uma área le­gí­tima de in­ves­ti­ga­ção ou con­si­dera que é com­posta ape­nas por charlatães?

C. O. — Há mui­tos in­ves­ti­ga­do­res do fe­nó­meno OVNI que não são charlatães.

Dou-lhe, por exem­plo, o caso da PUFOI, uma so­ci­e­dade por­tu­guesa que in­ves­tiga es­ses fe­nó­me­nos. O lema de­les é que passa tudo pelo cé­re­bro hu­mano. Esses são sérios.

O que me «ir­rita» é o ge­o­cen­trismo psi­co­ló­gico evi­den­ci­ado pe­los outros.

Como ex­pli­quei, sigo o Princípio da Mediocridade.

Irrita-me que as pes­soas se­jam tão pouco ima­gi­na­ti­vas, que pre­fe­rem se­guir a vi­são re­li­gi­osa se­gundo a qual as na­ves ETs são como as nos­sas no sé­culo XX, os ETs es­tão a «vi­giar», nós so­mos tão es­pe­ci­ais que so­mos o cen­tro da aten­ção de ETs, os ETs são como nós, os ETs pen­sam da mesma forma que nós, os ETs têm tec­no­lo­gia se­me­lhante à nossa, etc.

É tudo so­bre nós.

É uma forma de nos sen­tir­mos es­pe­ci­ais, de nos sen­tir­mos interessantes.

É o ego hu­mano a fun­ci­o­nar, ali­ado a uma tre­menda falta de ima­gi­na­ção para pen­sar em vida to­tal­mente di­fe­rente da nossa.

Vida «hu­ma­na­mente in­te­li­gente» parece-me ex­tre­ma­mente im­pro­vá­vel, se­não im­pos­sí­vel. Da mesma forma que não há ou­tro Carlos Oliveira com as mes­mas ca­rac­te­rís­ti­cas das mi­nhas no mundo


Esquecendo a parte dos OVNI, quais são as suas ex­pec­ta­ti­vas em re­la­ção à pos­si­bi­li­dade de vida ex­tra­ter­res­tre inteligente?

C. O. — O que é vida in­te­li­gente? Como se de­fine inteligência?

Serão os hu­ma­nos inteligentes?

Quando me fa­lam em in­te­li­gên­cia, penso sem­pre no Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, do Douglas Adams, e no Solaris do Stanislaw Lem. Parece-me, no­va­mente, um con­ceito hu­mano e antropocêntrico.

No en­tanto… va­mos as­su­mir, «for the sake of the ar­gu­ment», que até so­mos in­te­li­gen­tes, e so­mos a única es­pé­cie ter­res­tre inteligente.

Então, é isto que penso: a vida que para já co­nhe­ce­mos existe na Terra.

A evo­lu­ção da vida na Terra diz-nos que pra­ti­ca­mente sem­pre exis­tiu vida (desde que existe Terra), que du­rante 4 mil mi­lhões de anos essa vida foi sim­ples, que a vida com­plexa é re­cente, e que a vida in­te­li­gente é ainda mais re­cente. O ca­len­dá­rio cós­mico de Sagan de­mons­trou isto na perfeição.

É pre­ciso per­ce­ber tam­bém que a vida sim­ples con­ti­nua a exis­tir em todo o lado. Mesmo ha­vendo vida in­te­li­gente (nós), essa vida in­te­li­gente é feita de mi­lhões de bac­té­rias. Nós não con­se­gui­ría­mos so­bre­vi­ver sem bac­té­rias. Já as bac­té­rias so­bre­vi­vem bem sem nós.

Assim, pode-se es­pe­rar que a vida es­teja es­pa­lhada por todo o Universo (já que foi fá­cil ela apa­re­cer na Terra), e que a grande mai­o­ria dessa vida seja sim­ples. Vida com­plexa pode ha­ver, mas é rara. Vida in­te­li­gente pode ser sim­ples­mente uma «sorte».

Vida «hu­ma­na­mente in­te­li­gente» parece-me ex­tre­ma­mente im­pro­vá­vel, se­não im­pos­sí­vel. Da mesma forma que não há ou­tro Carlos Oliveira com as mes­mas ca­rac­te­rís­ti­cas das mi­nhas no mundo. Será que se for­mos ao tempo de Cristo, con­si­de­ra­re­mos os hu­ma­nos in­te­li­gen­tes? Duvido. Será que se for­mos ao tempo dos Neandertais, os con­si­de­ra­re­mos in­te­li­gen­tes? Duvido. No en­tanto, es­ta­mos a pen­sar em pe­río­dos de tempo muito cur­tos: 2000 anos e 100.000 anos, res­pec­ti­va­mente. Da mesma forma que hu­ma­nos no ano 100.000 nos con­si­de­ra­rão ex­tre­ma­mente atra­sa­dos. E 100.000 anos não é nada, em 13 mil mi­lhões de anos. Daí que es­pe­rar que ex­tra­ter­res­tres es­te­jam no nosso ní­vel de de­sen­vol­vi­mento in­te­lec­tual e tec­no­ló­gico, é não ter qual­quer no­ção de tempo.

Em ter­mos de dis­tri­bui­ção de vida na Terra, ve­mos que a vida sim­ples se en­con­tra em todo o lado, mesmo em sí­tios «im­pos­sí­veis». Extremófilos encontram-se em pra­ti­ca­mente to­dos os can­tos da Terra, desde os sí­tios mais quen­tes até aos mais ge­la­dos, desde o cimo das nu­vens até três qui­ló­me­tros den­tro de pe­dras. Vida com­plexa pre­cisa de con­di­ções muito mais mo­de­ra­das para so­bre­vi­ver. Vida in­te­li­gente pre­cisa de con­di­ções ainda mais mo­de­ra­das, além de con­di­ções que se man­te­nham as mes­mas du­rante mi­lhões de anos.

Como disse Darwin, tudo de­pende da adap­ta­ção ao am­bi­ente da al­tura. A vida sim­ples é ex­ce­lente nisso. A vida com­plexa morre ra­pi­da­mente com mu­dan­ças brus­cas no seu am­bi­ente. Podemos ver isso não só em ter­mos de am­bi­ente numa certa al­tura, mas até ao longo dos anos. Por exem­plo, as ci­a­no­bac­té­rias mu­da­ram a at­mos­fera com­ple­ta­mente: de 0% de oxi­gé­nio para 21% de oxi­gé­nio, sendo que já houve pe­río­dos com 31% de oxi­gé­nio. Os Humanos não so­bre­vi­ve­riam sem o oxi­gé­nio es­sen­cial na at­mos­fera. A vida sim­ples so­bre­vive, mesmo sem isso.

Assim, pode-se es­pe­rar que por todo o Universo, e nas con­di­ções mais ad­ver­sas, possa exis­tir vida sim­ples. No en­tanto, vida com­plexa será rara, e vida in­te­li­gente ainda mais difícil.

Repare-se num por­me­nor: duas for­mas in­de­pen­den­tes de ver a vida na Terra dão exac­ta­mente o mesmo re­sul­tado do que se pode es­pe­rar no exterior.

A ha­ver vida com­plexa nou­tros pla­ne­tas, eu apos­ta­ria em algo se­me­lhante a in­sec­tos (já que na Terra são uma forma de vida ex­tre­ma­mente bem su­ce­dida) que voe à-vontade (a me­lhor forma de lo­co­mo­ção), ou en­tão algo se­me­lhante a pol­vos (ani­mal bas­tante in­te­li­gente) em am­bi­en­tes aquá­ti­cos nou­tros pla­ne­tas. Ou en­tão, a jun­ção dos dois: «pol­vos vo­a­do­res», pa­re­ci­dos com os Eosapien do fan­tás­tico do­cu­men­tá­rio Alien Planet.

No en­tanto, se ti­vesse que apos­tar em algo mesmo, apos­ta­ria em algo que não con­sigo se­quer ima­gi­nar!

Fotomontagem evo­cando a cé­le­bre frase de Einstein: «Deus não joga aos dados»

É cé­le­bre o co­men­tá­rio de Einstein às con­clu­sões da Física Quântica: «Deus não joga aos da­dos». Mesmo para um fí­sico como Einstein, Deus era visto como o Criador. E você, acre­dita em Deus? Perguntando de ou­tra forma: sente a imen­si­dade do Cosmos ape­nas numa di­men­são ci­en­tí­fica ou sente-a tam­bém como uma es­pé­cie de ex­pe­ri­ên­cia religiosa?

C. O. — Qual é a de­fi­ni­ção de Deus?

Um ho­mem de bar­bas sen­tado num trono acima das nu­vens, que não tem mais nada o que fa­zer se­não con­ta­bi­li­zar as ve­zes que digo as­nei­ras, para se vin­gar de mim, como juíz, quando eu morrer?

Nesse Deus não acre­dito. Acho, no­va­mente, uma forma de pen­sar de­ma­si­ado an­tro­po­cên­trica. É um Deus cri­ado pe­los hu­ma­nos que so­frem de ge­o­cen­trismo psicológico.

O que é uma «ex­pe­ri­ên­cia re­li­gi­osa»? Existem ci­en­tis­tas que di­zem que têm algo se­me­lhante a ex­pe­ri­ên­cias re­li­gi­o­sas quando têm os mo­men­tos «eu­reka» nas ex­pe­ri­ên­cias que fa­zem em laboratórios.

Eu pre­firo acre­di­tar nes­ses hu­ma­nos. Prefiro sa­ber que foi um mé­dico que sal­vou a vida de uma cri­ança, por exem­plo, após um ter­ra­moto (pre­firo di­zer que foi Graças ao Médico), do que me pôr a gri­tar Graças a Deus que foi salva essa cri­ança (o que leva à con­sequên­cia que esse mesmo Deus dei­xou que to­das as ou­tras cri­an­ças morressem).

Quem grita «Graças a Deus» não me pa­rece que está a ter uma ex­pe­ri­ên­cia re­li­gi­osa. Está, sim, a acu­sar Deus de ter morto to­das as ou­tras cri­an­ças, o que ni­ti­da­mente é um pe­cado ca­pi­tal. Mas so­bre­tudo está a ser muito mal-agradecido ao mé­dico que sal­vou a cri­ança, ou seja, é tí­pico de al­guém que não sabe dar mé­rito a quem re­al­mente o tem.

Eu pre­firo dar va­lor aos hu­ma­nos, e não a ami­gos ima­gi­ná­rios que tive em criança.

Infelizmente, vi­ve­mos numa de­mo­cra­cia em que a maior parte das pes­soas so­fre de ili­te­ra­cia fun­ci­o­nal. Se vi­ves­se­mos num sis­tema de me­ri­to­cra­cia, es­tas ques­tões de «agra­de­cer ao Pai Natal» nem se punham.

Por ou­tro lado, mesmo al­guns as­tró­no­mos di­zem que têm o que pa­rece ser uma «ex­pe­ri­ên­cia re­li­gi­osa» ao ve­rem ne­bu­lo­sas pla­ne­tá­rias, ao es­tu­da­rem o iní­cio do Universo, etc. Neil de­Grasse Tyson farta-se de di­zer isso.

Einstein di­zia que o seu «Deus» eram as leis da na­tu­reza. Tal como Spinoza di­zia. Einstein che­gou mesmo a di­zer: «The further the spi­ri­tual evo­lu­tion of man­kind ad­van­ces, the more cer­tain it se­ems to me that the path to ge­nuine re­li­gi­o­sity does not lie th­rough the fear of life, the fear of de­ath and blind faith but th­rough stri­ving af­ter ra­ti­o­nal kno­wledge». [Quanto mais avança a evo­lu­ção es­pi­ri­tual da Humanidade, mais cor­recto me pa­rece que o ca­mi­nho para uma ge­nuína re­li­gi­o­si­dade não re­side no medo da vida, da morte ou na fé cega, mas no es­forço de al­can­çar­mos o co­nhe­ci­mento ra­ci­o­nal]

No li­vro Contacto, de Carl Sagan, a per­so­na­gem Eda, fí­sico, diz que teve mui­tas ex­pe­ri­ên­cias re­li­gi­o­sas, como por exem­plo quando com­pre­en­deu as leis da Gravidade de Newton, quando com­pre­en­deu a Relatividade de Einstein, etc. Tinha tido imen­sas ex­pe­ri­ên­cias re­li­gi­o­sas, sem­pre den­tro da ci­ên­cia, e nunca fora da ci­ên­cia. Como me pa­rece claro, sigo a es­pi­ri­tu­a­li­dade de Carl Sagan.


A re­a­li­dade não se com­pa­dece com his­tó­rias in­fan­tis com o ob­jec­tivo de ame­dron­tar as pes­soas, fazendo-as crer que no fu­turo irão ser jul­ga­das por al­guém que está ob­ce­cado por es­sas mes­mas pessoas


Entre a es­pec­ta­cu­la­ri­dade que existe no mundo na­tu­ral, ou o con­forto de uma fa­lá­cia in­ven­tada para con­tro­lar cri­an­ças (assume-se as pes­soas como cri­an­ças sem res­pon­sa­bi­li­dade in­di­vi­dual), como o Pai Natal, ou Deus, pre­firo ob­vi­a­mente a be­leza da ver­dade que existe no mundo natural.

Daí que pre­firo sa­ber (que é o con­trá­rio de acre­di­tar) que os áto­mos no meu corpo são ba­si­ca­mente iguais aos áto­mos que exis­tem na mesa onde está o com­pu­ta­dor em que es­tou a es­cre­ver. Prefiro sa­ber que to­dos es­ses áto­mos, in­cluindo to­dos os do meu corpo, já fo­ram parte de es­tre­las, já fi­ze­ram parte da cons­ti­tui­ção do pla­neta, já fi­ze­ram parte de as­te­rói­des, já exis­ti­ram em nebulosas…

E quando eu mor­rer, es­tes meus áto­mos, cons­ti­tuin­tes do meu corpo, irão vol­tar às es­tre­las, irão espalhar-se pela Lua, por ne­bu­lo­sas pla­ne­tá­rias, por ga­lá­xias distantes.

Dizendo por ou­tras pa­la­vras, pre­firo sa­ber (ter co­nhe­ci­mento, que é con­trá­rio de «acre­di­tar») que já fui parte de vá­rias es­tre­las, que os áto­mos que me cons­ti­tuem já fi­ze­ram parte de es­tre­las e pla­ne­tas, e que, quando mor­rer, esse meu ser irá no­va­mente fa­zer parte de es­tre­las, pla­ne­tas, ne­bu­lo­sas, e do Universo no seu todo.

Ou seja, tudo o que existe em mim já es­teve es­pa­lhado pelo Universo, e para o Universo irá vol­tar as­sim que eu mor­rer (como re­fere o Vincent no fi­nal do filme Gattaca: «For so­me­one who was ne­ver me­ant for this world, I must con­fess I’m sud­denly ha­ving a hard time le­a­ving it. Of course, they say every atom in our bo­dies was once part of a star. Maybe I’m not le­a­ving… maybe I’m going home») [Para al­guém que nunca foi feito para este mundo, devo con­fes­sar que es­tou a ter sé­rias di­fi­cul­da­des em deixá-lo. Claro, eles di­zem que cada átomo dos nos­sos cor­pos fez, ou­trora, parte de uma es­trela. Talvez não es­teja a par­tir… tal­vez es­teja a vol­tar para casa]

Eu faço parte do Universo, e o Universo faz parte de mim. Sempre foi as­sim, con­ti­nua a ser as­sim, e as­sim con­ti­nu­ará para toda a eternidade.

Isto não são cren­ças; isto é a re­a­li­dade do Universo.

E a re­a­li­dade é muito mais fan­tás­tica do que uma his­tó­ria para crianças.

A re­a­li­dade não mete medo: é de­ma­si­ado ma­ra­vi­lhosa para me­ter medo. A re­a­li­dade não se com­pa­dece com his­tó­rias in­fan­tis com o ob­jec­tivo de ame­dron­tar as pes­soas, fazendo-as crer que no fu­turo irão ser jul­ga­das por al­guém que está ob­ce­cado por es­sas mes­mas pessoas.

Pode-se clas­si­fi­car isto como uma es­pi­ri­tu­a­li­dade num con­texto universal/cósmico.

A re­a­li­dade dos co­nhe­ci­men­tos as­tro­nó­mi­cos (fa­ze­mos parte do Universo, e o Universo faz parte de nós) traz uma es­pi­ri­tu­a­li­dade muito mais abran­gente, pa­cí­fica, sem me­dos, e ima­gi­na­tiva, que qual­quer re­li­gião hu­mana (ne­nhuma re­li­gião, nem ne­nhuma crença pseudo, al­guma vez lhe che­gou aos calcanhares).

É neste co­nhe­ci­mento que me ba­seio. Não é uma ques­tão de acre­di­tar, mas sim de sa­ber. E é neste «Deus» que acre­dito: no ser hu­mano que atra­vés da sua in­te­li­gên­cia, ra­ci­o­na­li­dade, e pen­sa­mento crí­tico, irá evo­luir para com­pre­en­der cada vez me­lhor o Universo que o rodeia.

Há quem chame a isto hu­ma­nismo se­cu­lar. Mas eu não gosto do facto de o Humanismo co­lo­car os hu­ma­nos como o que de mais im­por­tante existe no Universo. Como disse an­te­ri­or­mente, sigo o Principio da Mediocridade. Essa é a única ga­veta com que me iden­ti­fico. De resto, a com­ple­xi­dade e a di­ver­si­dade são a or­dem do dia… e ainda bem!

Daí que lhe pre­firo cha­mar: «a fi­lo­so­fia do Carlos», uma fi­lo­so­fia ba­se­ada nos co­nhe­ci­men­tos de Carl Sagan, que vê a imen­si­dão do Universo por aquilo que é, e que per­cebe que os hu­ma­nos são ac­to­res in­sig­ni­fi­can­tes e tem­po­rá­rios no grande es­quema das coi­sas ape­sar tam­bém de com­pre­en­der que, ao evo­lui­rem, os hu­ma­nos irão com­pre­en­der cada vez mais esse palco cósmico.


Ficção Científica e Universos sexy

No seu per­fil do AstroPT está es­crito que você se li­cen­ciou em Ficção Científica. Explique aos lei­to­res do Bitaites o que é ser li­cen­ci­ado em Ficção Científica. Parece-me uma li­cen­ci­a­tura fascinante.

C. O. — A mi­nha li­cen­ci­a­tura é em Astronomia, Ficção Científica, e Comunicação Científica. Ou seja, a Ficção Científica foi parte dela, mas é uma parte me­nor, sendo que a Astronomia foi o «bolo» prin­ci­pal das dis­ci­pli­nas, com a com­po­nente de comunicação.

Sempre ado­rei Ficção Científica, e penso que é um com­ple­mento pre­ci­oso para não só en­ten­der a hu­ma­ni­dade, mas tam­bém para es­ti­car os li­mi­tes da ima­gi­na­ção científica.

Star Trek, por exem­plo, era uma sé­rie so­bre­tudo so­bre os pro­ble­mas hu­ma­nos da al­tura: ra­cismo, se­xismo, guerra fria, gays ou di­rei­tos hu­ma­nos. No en­tanto, tam­bém foi a sé­rie Star Trek que ins­pi­rou jo­vens para anos mais tarde in­ven­ta­rem por­tas que se abrem au­to­ma­ti­ca­mente, com­pu­ta­do­res pes­so­ais, te­le­mó­veis, mo­to­res a iões, etc. Gosto bas­tante do Contacto, de Carl Sagan, Black Cloud, de Fred Hoyle, Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, de Douglas Adams, e de vá­rios li­vros do Stanislaw Lem.



A Astrobiologia é tão sexy como se diz?

C. O. — Sim, claro. A vida é sexy. Por isso, a vida no Universo é sexy por todo o lado!


Uma vez que o Homem nunca foi à Lua e a Lua pro­va­vel­mente ainda é feita de queijo, acha que os Observatórios de­vem des­pe­dir os Astrónomos e substitui-los por cozinheiros?

C. O. — Não. Porque se­não os ex­tra­ter­res­tres na Lua, morriam.

Passo a ex­pli­car: o Observatório da mi­nha Universidade é um dos pou­cos no mundo que en­via fei­xes de la­ser para a Lua de modo a cons­tan­te­mente se sa­ber a que dis­tân­cia está a Lua. Pode-se fa­zer isso, por­que as seis mis­sões à Lua dei­xa­ram lá ins­tru­men­tos, como por exem­plo, re­flec­to­res. Se o Homem não foi à Lua, en­tão não exis­tem re­flec­to­res, e o que fa­ze­mos no nosso Observatório será en­tão ali­men­tar os ETs por­que toda a gente sabe que os ETs na Lua se ali­men­tam de fei­xes de luz. Os co­zi­nhei­ros criam a co­mida, fei­xes de luz, e os as­tró­no­mos enviam-os para a Lua.


Qual é o seu signo? Identifica-se com as ca­rac­te­rís­ti­cas de per­so­na­li­dade que lhe são atribuídas?

C.O. — Leão. Sim, identifico-me com­ple­ta­mente com as ca­rac­te­rís­ti­cas de Leão, so­bre­tudo com as ca­rac­te­rís­ti­cas ne­ga­ti­vas. Curiosamente, como a Astrologia não quer sa­ber da Precessão, quando eu nasci na ver­dade a cons­te­la­ção era Caranguejo. Ou seja, na re­a­li­dade, eu nasci sob o signo Caranguejo. E por in­crí­vel que pa­reça, tam­bém te­nho ca­rac­te­rís­ti­cas desse signo. E ainda mais es­tra­nho, tam­bém te­nho ca­rac­te­rís­ti­cas de Touro e de ou­tros sig­nos que es­ta­vam bas­tante dis­tan­tes da po­si­ção do Sol na al­tura do meu nascimento.

Claro que isto não tem nada de es­tra­nho. Todos te­mos ca­rac­te­rís­ti­cas de to­dos os sig­nos, por­que na re­a­li­dade os sig­nos não nos di­zem nada so­bre nós.

A as­tro­lo­gia con­ti­nua pa­rada no tempo, no (des)conhecimento de há 2000 anos atrás. Continua a pen­sar que é o cen­tro do Universo. Como ex­pli­quei an­te­ri­or­mente para ou­tros ca­sos, a as­tro­lo­gia so­fre tam­bém de ge­o­cen­trismo psicológico.


Trocar um dia de guerra por um mês em Marte

Água em Marte, oce­a­nos sub­ter­râ­neos em Europa e Enceladus, la­gos de me­tano em Titã, vida ba­se­ada em ar­sé­nio – dir-se-ia que es­ta­mos quase, quase, a fa­zer a grande des­co­berta da Astrobiologia. É op­ti­mista quanto a esta possibilidade?

C. O. — Uma das mi­nhas ca­rac­te­rís­ti­cas pes­so­ais é ser bas­tante op­ti­mista… para tudo. Por isso, sou op­ti­mista tam­bém em re­la­ção à as­tro­bi­o­lo­gia. No en­tanto, sou re­a­lista em re­la­ção à po­lí­tica e à eco­no­mia. Nós ainda não des­co­bri­mos muito mais so­bre es­ses lu­ga­res de que fa­lou por mo­ti­vos eco­nó­mi­cos (não há maior in­ves­ti­mento nesse sen­tido) e por mo­ti­vos po­lí­ti­cos (não há von­tade po­lí­tica para apos­tar nesse sector).

E, con­tudo, os gas­tos eco­nó­mi­cos de um só dia de guerra no Iraque, por exem­plo, da­riam per­fei­ta­mente para uma mis­são a Marte…

Existem mui­tos mo­ti­vos para se apos­tar na ex­plo­ra­ção es­pa­cial, mas cer­ta­mente que os mai­o­res se­rão para a so­bre­vi­vên­cia da hu­ma­ni­dade, e para um maior con­forto, um me­lhor ní­vel de vida. Entre um maior co­nhe­ci­mento do Universo, um me­lhor ní­vel de vida e a so­bre­vi­vên­cia da hu­ma­ni­dade, ou an­dar às guer­ri­nhas por uma pe­que­nís­sima parte num mi­nús­culo es­paço de pó no Universo, o po­der po­lí­tico pre­fere an­dar a ma­tar ou­tros humanos…

→ 07/06/2010 @10:43

O eurodeputado que quer dar 1500 euros

Rui TavaresO eu­ro­de­pu­tado por­tu­guês Rui Tavares vai lan­çar bol­sas de es­tudo que co­brem vá­rias áreas pro­fis­si­o­nais. As bol­sas vão ser fi­nan­ci­a­das por ele: Tavares pres­cin­dirá de 1500 eu­ros por mês, sen­si­vel­mente 1/4 do seu or­de­nado, para aju­dar can­di­da­tos a bolsistas.

Quem es­ti­ver in­te­res­sado em candidatar-se, deve pe­dir in­for­ma­ções para este email: bol­sas ar­roba rui­ta­va­res ponto net. O re­gu­la­mento será pu­bli­cado no blo­gue do eu­ro­de­pu­tado até ao fi­nal deste mês.

Nos me­ses de Julho, Agosto e Setembro será feita a re­co­lha das can­di­da­tu­ras. «Tenciono co­me­çar a dar as bol­sas a par­tir de Outubro», re­vela Rui Tavares em con­versa te­le­fó­nica comigo.

As bol­sas não te­rão li­mite de idade, cri­té­rios de na­ci­o­na­li­dade ou res­tri­ções te­má­ti­cas. A verba po­derá cor­res­pon­der a duas bol­sas de 750 eu­ros ou a uma de 1500, de­pen­dendo do in­te­resse do projecto.

Quem vai ava­liar os pro­jec­tos é o pró­prio Rui Tavares, em­bora possa «mostrá-lo a pes­soas que tra­ba­lham co­migo, co­le­gas no Parlamento, so­li­ci­tar uma opi­nião no caso em que es­ti­ver in­se­rido numa área que não do­mino».

Para lim­par a ini­ci­a­tiva, Tavares res­salva que os can­di­da­tos a es­tas bol­sas ex­clui­rão gente com quem te­nha re­la­ções pes­so­ais, fun­ci­o­ná­rios do Parlamento Europeu, Parlamento por­tu­guês e do Bloco de Esquerda (BE), o par­tido que o ele­geu. «Por lapso, as pri­mei­ras no­tí­cias afir­ma­vam que os mi­li­tan­tes do BE es­ta­riam ex­cluí­dos, mas não é ver­dade, ape­nas os fun­ci­o­ná­rios o es­tão», afirma.

1500 eu­ros é muita massa, pelo que das acu­sa­ções de de­ma­go­gia ba­rata deve es­tar safo. Os pró­xi­mos tem­pos dir-nos-ão se o jo­vem eu­ro­de­pu­tado (é ir­re­le­vante neste caso o par­tido a que per­tence) não será mais uma ví­tima da forma como o por­tu­guês en­cara a classe po­lí­tica: por um lado, os po­lí­ti­cos são chu­los que não fa­zem nada; por ou­tro, de­ma­go­gos que só agem para ca­çar votos.

Eis o que o pró­prio Rui Tavares tem a di­zer so­bre o assunto.


«Demagogia? Estou-me nas tintas!»

Está pre­pa­rado para as acu­sa­ções de de­ma­go­gia e o que tem a di­zer aos que o acu­sam de ser uma de­ci­são populista?

Rui Tavares — Não es­tou pre­o­cu­pado com isso. Já ti­nha a ideia de o fa­zer há muito tempo. Era uma pro­messa a mim pró­prio, uma es­pé­cie de ca­pri­cho, quando a pos­si­bi­li­dade de ser eleito para o Parlamento Europeu era ainda muito re­mota. Estou-me nas tin­tas se é vista como uma de­ci­são de­ma­gó­gica ou po­pu­lista. Tenho uma enorme sa­tis­fa­ção pes­soal em fazê-lo.

 

Também há quem o acuse de brin­car à ca­ri­da­de­zi­nha, como can­tava o José Barata Moura.

R.T. – Não. A mi­nha pre­o­cu­pa­ção não é ava­liar a po­breza dos can­di­da­tos, mas con­tri­buir para que as pes­soas con­cre­ti­zem os seus ob­jec­ti­vos baseando-me na ava­li­a­ção que for feita à qua­li­dade dos seus pro­jec­tos — al­guns dos quais, es­tou certo disso, até eu gos­ta­ria de fa­zer. O que sei é que fi­ca­rei muito con­tente por os ver concretizados.

Existe ou­tra acu­sa­ção: o facto de eu ter di­vul­gado esta ini­ci­a­tiva, não a ter man­tido para mim. Acontece que a di­vul­ga­ção é ne­ces­sá­ria para que sur­jam bons pro­jec­tos. É de­se­já­vel que as­so­ci­a­ções, ins­ti­tui­ções e ONG’s sai­bam. Gostaria que se tor­nasse um ca­ta­li­sa­dor, le­vasse mais pes­soas a envolver-se. Existiram ou­tras ini­ci­a­ti­vas que só a mim me di­zem res­peito, mas neste caso achei que se­ria po­si­tivo divulgar.

 

Tenciona tor­nar a sua ini­ci­a­tiva num pro­jecto mais abran­gente, aberto a to­dos os que quei­ram aderir?

R.T. – Dou-lhe um exem­plo: o jor­nal Público, onde es­crevo uma cró­nica se­ma­nal, disponibilizou-se a re­ce­ber na sua re­dac­ção um des­ses bol­sei­ros, caso a área de es­tudo seja com­pa­tí­vel. Seria óp­timo que as­so­ci­a­ções ou ONG’s se­guis­sem este exemplo.

 

Durante quanto tempo man­terá esta iniciativa?

R.T. – Até ao fim do meu man­dato como eurodeputado.

 

Afirma que a verba po­derá cor­res­pon­der a duas bol­sas de 750 eu­ros ou a uma de 1500, de­pen­dendo do in­te­resse do pro­jecto. É você quem irá ava­liar os projectos?

R. T. – Sim, a ava­li­a­ção é pes­soal. Posso mos­trar os pro­jec­tos a pes­soas que tra­ba­lham co­migo, co­le­gas no Parlamento, so­li­ci­tar uma opi­nião no caso em que es­ti­ver in­se­rido numa área que não do­mino, mas a ava­li­a­ção é feita por mim.

 

Já al­gum co­lega de­pu­tado o abor­dou di­zendo «Agora é que me li­xaste, abriste uma caixa de Pandora»?

R. T. – Não, ainda nin­guém fa­lou co­migo. Os co­le­gas do Bloco de Esquerda que sem­pre sou­be­ram desta ini­ci­a­tiva – Miguel Portas e Marisa Matias – apoiaram-me, acha­ram uma boa ideia. Por isso, a res­posta é não.

 

De 1 a 10, numa es­cala de in­sa­ni­dade, que va­lor atri­bui à sua decisão?

R.T. (ri­sos) – Bem, é uma in­sa­ni­dade bem in­ten­ci­o­nada, qua­li­ta­tiva. Prefiro não res­pon­der com números!

→ 16/04/2006 @20:06

O Benjamim da Fotografia

Os vi­si­tan­tes do Bitaites conhecem-no bem, pois já al­gu­mas ve­zes as suas fo­tos fo­ram “rou­ba­das” do seu blo­gue – FotoBen – e ex­pos­tas aqui.

A his­tó­ria do blo­gue é sim­ples: desde 1 de Abril de 2005 (iro­nia do des­tino: o dia das men­ti­ras) que Benjamim Fonseca e Silva se com­pro­me­teu a co­lo­car on­line uma nova foto to­dos os dias. O de­sa­fio foi-lhe lan­çado pelo amigo José Nunes, do ex­tinto Contra-Indicado e ac­tual Foram-se os Anéis.

Nem sem­pre con­se­guiu cum­prir, como ex­plica nesta en­tre­vista, tendo sido obri­gado a re­cor­rer ao ar­quivo para col­ma­tar even­tu­ais falhas.

Benjamim não é ape­nas um ex­ce­lente fo­tó­grafo, mas tam­bém um gajo por­reiro: acei­tou res­pon­der às per­gun­tas que lhe en­viei e ainda se deu ao tra­ba­lho de es­co­lher qua­tro fo­to­gra­fias pre­fe­ri­das en­tre as cen­te­nas que já pu­bli­cou no FotoBen — uma ta­refa quase tão di­fí­cil como de­sen­can­tar uma foto por dia de­pois de um dia de tra­ba­lho e com a fa­mí­lia à es­pera. Mas es­co­lheu — e até acei­tou jus­ti­fi­car cada uma das opções.

 

Você foi de­sa­fi­ado por José Nunes, do Contra-Indicado, a ti­rar uma foto por dia para pu­bli­car on­line no FotoBen. Nunca lhe acon­te­ceu es­tar can­sado, sem mo­tivo, ou sim­ples­mente pouco ins­pi­rado, e pen­sar Que se lixe! Hoje não tiro foto nenhuma?

Benjamim Fonseca e Silva – Cansado… Muitas ve­zes. O tra­ba­lho, a fa­mí­lia e os pro­ble­mas do dia-a-dia, tudo mis­tu­rado, às ve­zes fica-se can­sado. Ficar sem mo­tivo é um dos pro­ble­mas mai­o­res com que te­nho de li­dar, até por­que não gosto muito de re­pe­tir fo­tos de lo­cais ou te­mas, tento di­ver­si­fi­car o mais pos­sí­vel, o que torna o de­sa­fio do José Nunes mais di­fí­cil. Convém lem­brar que o de­sa­fio dele não é só uma foto por dia, tem mais umas re­gras que fa­zem com que seja di­fí­cil fi­car de­sins­pi­rado e cri­a­ram em mim uma ca­pa­ci­dade de vi­su­a­li­za­ção muito mais apu­rada. O FotoBen foi como um des­per­tar e to­dos os dias fi­cava cu­ri­oso por ver o que con­se­guia fazer.

Quais eram as re­gras adi­ci­o­nais?
B. F. S. — Eram as se­guin­tes: du­rante um ano co­lo­car to­dos os dias uma foto; o que fo­to­grafo hoje é co­lo­cado no blo­gue no dia se­guinte; e a foto tem que ser na ho­ri­zon­tal (esta re­gra quebrei-a al­gu­mas vezes).

Considera que o com­pro­misso de mos­trar uma foto por dia — ainda por cima ocu­pado com a sua em­presa — se pode re­flec­tir ne­ga­ti­va­mente na qua­li­dade fi­nal da fo­to­gra­fia? Qual é o se­gredo? Tira mui­tas fo­tos num dia e guarda-as para as mos­trar di­a­ri­a­mente? A ges­tão do blo­gue é feita assim?

B. F. S. — Claro que sim. É muito di­fí­cil man­ter sem­pre um ní­vel ele­vado de qua­li­dade. Quem se­gue o FotoBen com mais aten­ção fa­cil­mente se aper­cebe quando es­tou com mais tra­ba­lho ou de mau hu­mor. Mas não há se­gre­dos. Tenho sem­pre cerca de 15 fo­tos em ar­quivo, o que me per­mite es­tar fora uns dias. Por exem­plo, tive de ir ao Porto em tra­ba­lho du­rante uns dias e como não ti­nha acesso à net tive que usar fo­tos fei­tas nou­tros dias.

Olhando para a data em que a pri­meira foto foi pu­bli­cada — 1 de Abril de 2005 — con­si­dera que o per­curso fo­to­grá­fico do blo­gue é tam­bém a his­tó­ria da sua evo­lu­ção como fotógrafo?

B. F. S. — Não, de ma­neira ne­nhuma. O que o FotoBen fez por mim foi algo muito me­lhor. Repare que quando tento ser cri­a­tivo com os tra­ba­lhos que exe­cuto para os meus cli­en­tes, a mai­o­ria das ve­zes, se­não sem­pre, di­zem que isso não in­te­ressa, eles que­rem o que ide­a­li­za­ram no pa­pel e a mim só me com­pete fa­zer o que me pe­dem. O FotoBen per­mite fa­zer o que eu gosto sem ter al­guém a di­zer que é me­lhor as­sim ou assado.

Os pré­dios são o seu ob­jecto fo­to­grá­fico pre­fe­rido, que pro­cura cap­tar com grande cui­dado ao ní­vel da téc­nica e do en­qua­dra­mento. Quais são as suas pre­o­cu­pa­ções quando fo­to­grafa pes­soas, por exemplo?

B. F. S. — Sei lá… Não te­nho jeito ne­nhum para fo­to­gra­far pes­soas. Por norma, vejo se a luz é boa e a si­tu­a­ção e o lo­cal em que a pes­soa está é pro­pí­cia a uma boa foto… E é só isso, mais nada!

Quais são os seus fo­tó­gra­fos pre­fe­ri­dos? E porquê?

B. F. S. — Julgo que não te­nho ne­nhum as­sim tipo o fo­tó­grafo x é muito bom por­que do­mina o preto e branco me­lhor que nin­guém ou o ou­tro que anda nos sí­tios pi­o­res do mundo a fo­to­gra­far os des­gra­ça­dos da guerra. Talvez o Wynn Bullock por se ter ini­ci­ado na fo­to­gra­fia com 40 anos e ter tra­ba­lhado com o Edward Weston e o Ansel Adams. Por ou­tro lado, gosto muito de ver as fo­tos do Alex Majoli que, ac­tu­al­mente, tra­ba­lha com 4 ou 5 câ­ma­ras Olympus C-8080 ao pes­coço e ga­nha pré­mios de me­lhor fo­tó­grafo de reportagem.

 

Quatro fo­tos co­men­ta­das pelo próprio

Um dia de muito ca­lor, a falta de água pelo país todo. No Cais do Sodré um cano roto pa­re­cia não in­co­mo­dar nin­guém. Passei por ele pre­o­cu­pado com as fo­tos que ti­nha que fa­zer e pouca im­por­tân­cia lhe dei — só mais tarde, já no Saldanha, me lem­brei que aquela água no chão po­dia dar uma boa foto. Voltei ao lo­cal na es­pe­rança de que o cano ainda es­ti­vesse por re­men­dar, dei umas vol­tas ao lo­cal na busca de uma boa luz e cli­que, já te­nho a foto do dia. Link

Esta foi a pri­meira foto do gé­nero que ti­rei — e numa noite de muito frio! Nunca a te­ria feito se não fosse o FotoBen, pois ainda não ti­nha fo­to­gra­fado nada nesse dia e já que­ria es­tar na cama a dor­mir. Estive quase para não pôr nada no blo­gue e só a muito custo é que a fiz. Link

O meu fi­lho, o sor­riso, o mo­vi­mento, a fe­li­ci­dade e, no fundo, o chão cheio de pas­ti­lhas. Link

Por ve­zes há lo­cais que sa­be­mos que dão uma boa foto só que não sa­be­mos onde… E eu sa­bia que ti­nha uma foto boa aqui, só que le­vei al­guns dias a des­co­brir o ân­gulo certo, de­pois foi ne­ces­sá­rio mais uns dias até ter a pes­soa e a luz no lo­cal certo, o re­sul­tado fi­nal fez com que me sen­tisse re­a­li­zado. Link

→ 11/04/2005 @12:10

A Trezentos à hora

Paulo Trezentos, 28, é ca­sado e pai de um ra­paz de qua­tro anos. Dá au­las de Arquitecturas de Computadores e Sistemas Operativos no ISCTE, é in­ves­ti­ga­dor na ADETTI, um cen­tro de in­ves­ti­ga­ção do ISCTE, é o Director-Técnico da dis­tri­bui­ção por­tu­guesa de Linux, a Caixa Mágica, fun­dou o GUL (Grupo de Utilizadores de Linux) e o Poli (Projecto Português de Documentação de Linux), ini­ciou ou co­la­bora em de­ze­nas de ou­tros pro­jec­tos e es­creve re­gu­lar­mente ar­ti­gos e li­vros de di­vul­ga­ção des­ti­na­dos ao uti­li­za­dor co­mum. Não há dú­vida de que o ape­lido Trezentos lhe as­senta que nem uma luva: fica-se com a ideia de que só vi­vendo os dias a tre­zen­tos à hora o ho­mem con­se­gue ter tempo para tudo.

 

Você é o rosto mais co­nhe­cido de uma equipa de por­tu­gue­ses que criou uma dis­tri­bui­ção Linux cha­mada Caixa Mágica. A te­le­vi­são, em tem­pos, foi vista como a “caixa má­gica” que se­ria ca­paz de re­vo­lu­ci­o­nar o mundo. O mo­delo de ne­gó­cio do Software Livre tem o po­der de re­vo­lu­ci­o­nar o mer­cado por­tu­guês? Ou procura-se an­tes uma contra-revolução?

Geralmente, as re­vo­lu­ções não são sen­ti­das como tal quando es­tão a acon­te­cer. Com a ajuda do tempo, é que os ho­mens ten­dem a cha­mar de re­vo­lu­ção a uma de­ter­mi­nada al­te­ra­ção do re­gime vi­gente. O Software Livre/Aberto (SL/A) é hoje um mo­delo le­gal e téc­nico de de­sen­vol­ver soft­ware que va­ria do mo­delo clás­sico ou pro­pri­e­tá­rio. O ne­gó­cio passa a es­tar na pres­ta­ção de ser­vi­ços e na for­ma­ção e não no pa­ga­mento de li­cen­ças. Surgiu na­tu­ral­mente e tem-se im­posto em paí­ses com os Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha de forma na­tu­ral e su­ave. Tem vindo a cres­cer por­que serve as ne­ces­si­da­des de quem pro­cura so­lu­ções in­for­má­ti­cas (o cli­ente) e serve quem ofe­rece es­sas mes­mas so­lu­ções (o for­ne­ce­dor). Como é bom para am­bos, fun­ci­ona como bola de neve que vai in­te­grando cada vez mais ele­men­tos sem dis­rup­ção da re­a­li­dade exis­tente. Não está a acon­te­cer de forma brusca, vi­o­lenta ou fun­da­men­ta­lista. O mer­cado por­tu­guês é muito con­ser­va­dor. Tem pouca mo­bi­li­dade e não se move ao ritmo de eco­no­mias mais di­nâ­mi­cas. Assim, a mu­dança está acon­te­cer de forma mais lenta do que nou­tros paí­ses mas tam­bém cá de forma irreversível.

 

O Linux Caixa Mágica é ofi­ci­al­mente lan­çado a 14 de Abril, du­rante o evento Linux 2005. Só a pró­pria ideia da exis­tên­cia de uma dis­tri­bui­ção por­tu­guesa de Software Livre é lou­vá­vel mas, quanto à im­ple­men­ta­ção dessa ideia, há quem afirme que a CM, em re­la­ção a ou­tras dis­tri­bui­ções, está sem­pre um passo atrás. Considera a crí­tica vá­lida, justa? Quer rebatê-la?

Em cinco anos de de­sen­vol­vi­mento já ou­vi­mos bas­tan­tes crí­ti­cas e to­das elas úteis. Algumas ver­da­dei­ras, ou­tras nem tanto. Mas to­das ser­vi­ram para per­ce­ber o que é que os uti­li­za­do­res de Linux e Windows gos­ta­riam de ter no seu desk­top. A base tec­no­ló­gica da Caixa Mágica 10 — in­tei­ra­mente de­sen­vol­vida em Portugal — não fica aquém de ou­tras dis­tri­bui­ções. As ver­sões an­te­ri­o­res fo­ram sendo pro­gres­si­va­mente me­lho­ra­das e con­si­dero que esta ver­são che­gou a um es­tado de ma­tu­ri­dade tec­no­ló­gica muito in­te­res­sante. Sendo con­creto: é fá­cil ins­ta­lar pa­co­tes, é fá­cil con­fi­gu­rar hard­ware, o desk­top está bem cui­dado, etc… Nos la­bo­ra­tó­rios tes­ta­mos sem­pre seis a sete dis­tri­bui­ções para sa­ber o que de me­lhor se faz em cada uma. O nosso mé­rito é se­lec­ci­o­nar a me­lhor de cada uma, acres­cen­tar a nossa parte e disponibilizá-la ao uti­li­za­dor. A ver­são Desktop 10 é uma al­ter­na­tiva viá­vel para o desk­top, da mesma forma que acre­di­ta­mos que quando a ver­são Servidor 10 for lan­çada, em Julho, irá revelar-se uma mais-valia para mui­tas organizações.

 

Na fase de de­sen­vol­vi­mento do Caixa Máxica, não será tre­men­da­mente com­pli­cado a uma pes­soa na sua po­si­ção ten­tar per­ce­ber como tor­nar as ope­ra­ções mais user-friendly? E nesse sen­tido – ape­nas nesse sen­tido – não será o Windows uma fonte inspiradora?

Em 2000 e 2001 for di­fí­cil mas agora acaba por não o ser. Existe um con­junto de pes­soas na equipa da Caixa Mágica que tem uma es­pe­cial sen­si­bi­li­dade para a ques­tão de tor­nar um sis­tema “user-friendly”. Questões tão sim­ples como: “Se re­ce­ber um mail com um PDF em at­tach, será que con­sigo abrir com um du­plo cli­que?” Esse é o tipo de frus­tra­ções a que não que­re­mos que os uti­li­za­do­res da Caixa Mágica se­jam su­jei­tos. Assim, a in­te­gra­ção do soft­ware, bin­dings, lo­ca­li­za­ção de links e organização/selecção do soft­ware é hoje claro para nós como deve ser feita. Podem ha­ver al­guns contra-tempos de su­porte de hard­ware mas em ge­ral o sis­tema deve fun­ci­o­nar como o uti­li­za­dor es­pere que fun­ci­one. O Windows é uma fonte ins­pi­ra­dora mas não é a única. Como já disse, as ou­tras dis­tri­bui­ções são ana­li­sa­das ao de­ta­lhe. Fazemos gre­lhas com o que cada uma tem e não tem. Ao Windows va­mos ab­sor­ver al­guns dos con­cei­tos de uti­li­za­ção de soft­ware. Até para que a mi­gra­ção para Linux não seja muito brusca.

Paulo TrezentosO meu ape­lido vem do tempo das guer­ras na­po­leó­ni­cas em que um as­cen­dente nosso era o sol­dado nú­mero 300. E as­sim fi­cou. Penso que ainda existe uma fo­to­gra­fia desse pri­meiro Trezentos

 

No do­cu­mento que es­cre­veu a 28 de Agosto do ano pas­sado — “As 11 má­xi­mas do Software Livre” — você co­meça por di­zer: “O Software Livre é um mo­delo de de­sen­vol­vi­mento, não uma re­li­gião”. Preocupa-o as­sim tanto o fun­da­men­ta­lismo de al­guns uti­li­za­do­res do Linux a ponto de co­lo­car essa má­xima logo em pri­meiro lu­gar? Considera-o pre­ju­di­cial a quem aposta no Software Livre como mo­delo de negócio?

O mo­vi­mento SL/A em Portugal tem duas pes­soas que re­flec­tem muito bem as sen­si­bi­li­da­des de cada um dos gru­pos que forma a co­mu­ni­dade num sen­tido vasto, num sen­tido de co­mu­ni­da­des vir­tu­ais de Castells. Um des­ses opinion-makers re­pre­senta a co­mu­ni­dade que se revê na face ide­o­ló­gica li­de­rada por Richard Stallman, no soft­ware fi­lo­so­fi­ca­mente “Livre”. Outro re­flecte a face prag­má­tica do SL/A e revê-se na OSI (Open Source Initiative) mais as­so­ci­ada aos mo­de­los de ne­gó­cio. Ou seja, no soft­ware “Aberto”.

Um des­tes dias co­me­ça­ram numa mai­ling list pú­blica a ali­men­tar uma po­lé­mica um con­tra o ou­tro so­bre uma ques­tão me­nor. Enviei-lhes um email e co­me­çá­mos os três a tro­car al­gu­mas ideias. Rapidamente che­gá­mos a um de­no­mi­na­dor co­mum: to­dos que­re­mos que o SL/A te­nha su­cesso mas encaramo-lo de di­fe­ren­tes ma­nei­ras. Não me choca que al­guns ve­jam o SL/A como um novo Maio de 69, ou seja, uma ma­neira de re­for­mar a so­ci­e­dade, e ou­tros o ve­jam como um ne­gó­cio como qual­quer ou­tro. O que é im­por­tante é não ser fun­da­men­ta­lista e com­pre­en­der as ra­zões de quem está do mesmo lado da bar­ri­cada. Mesmo que não se­jam as suas. É como es­tar num barco de náu­fra­gos em di­rec­ção a uma ilha. Um pode ver a ilha como um re­fú­gio de va­lo­res e ou­tro como a me­lhor ma­neira de ter su­cesso ma­te­rial atra­vés da ex­por­ta­ção de ma­dei­ras exó­ti­cas. Mas am­bos têm de re­mar na mesma di­rec­ção ou ne­nhum che­gará à ilha.

 

Provavelmente já deve ter ou­vido mui­tas pi­a­di­nhas e tro­ca­di­lhos com o seu ape­lido. Importa-se de ex­pli­car de onde vem esse ape­lido tão pouco ha­bi­tual, “Trezentos”?

Já ouvi todo o tipo de tro­ca­di­lhos e adoro-os. Mas a ra­zão do nome é ori­gi­nal. Até aos 20 anos des­co­nhe­cia de onde vi­nha. O meu pai já se cha­mava as­sim, o meu avô tam­bém, o meu bi­savô tam­bém e as­sim por di­ante. Como em to­das as fa­mí­lias. Nessa al­tura fui a um pro­grama do Herman José como con­cor­rente, ele fez-me a mesma per­gunta e eu res­pondi que não sa­bia de onde vi­nha o nome. À noite tive uma cha­mada de uma tia mi­nha da zona de Ourém a ex­pli­car que vi­nha do tempo das guer­ras na­po­leó­ni­cas em que um as­cen­dente nosso era o sol­dado nú­mero 300. E as­sim fi­cou. Penso que ainda existe uma fo­to­gra­fia desse pri­meiro Trezentos. Também já te­nho um Trezentinhos com 4 anos e os meus pri­mos vá­rios, pelo que acho que vão ter de nos aguen­tar pelo me­nos mais uma geração.

 

Você tem uma fa­ceta mais des­co­nhe­cida, um hobby no qual se sai até bas­tante bem: a fo­to­gra­fia. De onde vem esse gosto? Ou é ape­nas uma forma de ali­viar o stress?

A fo­to­gra­fia é um gosto an­tigo que fui ali­men­tando em banho-maria. Apanhar a re­a­li­dade atra­vés da ob­jec­tiva da má­quina torna-se uma ne­ces­si­dade de cap­tu­rar um mo­mento. Com um sen­tido es­té­tico que é o nosso e que não tem ne­ces­sa­ri­a­mente que cor­res­pon­der ao do ou­tros. Ao con­trá­rio de ou­tras áreas em que gosto de me sen­tir efi­ci­ente, na fo­to­gra­fia não me pre­o­cupa se o que es­tou a fa­zer é bom ou não. Basta sentir-me bem com o re­sul­tado. Gosto muito de fa­zer re­ve­la­ção a preto-e-branco em casa mas o tempo já co­meça a ser curto.

 

Você é tido como uma pes­soa es­sen­ci­al­mente sen­sata. Alguns che­gam a afir­mar que, de­vido à sua pos­tura di­a­lo­gante e pouco be­li­ge­rante, tem um ex­ce­lente per­fil para um mi­nis­té­rio das Tecnologias. Outros di­zem que não, que será mesmo Ministro das Tecnologias, é só uma ques­tão de tempo. Provocação dos ami­gos a uma pes­soa que já es­cre­veu que “Software Livre não é de Esquerda ou Direita, de par­tido X ou Y?”

É pro­vo­ca­ção mas não deixo de in­ter­pre­tar como um elo­gio. A nossa ge­ra­ção co­meça a per­ce­ber que não basta ter bons en­ge­nhei­ros, não basta ter bons mé­di­cos ou bons ar­qui­tec­tos. Precisa de ter bons po­lí­ti­cos que sai­bam in­di­car para onde o barco vai. Qual o ca­mi­nho para a ilha. Existem bons po­lí­ti­cos em Portugal e a ten­dên­cia é me­lho­ra­rem. Como di­ria um amigo meu: “a ge­ra­ção pós-25 de Abril é uma grande colheita”.