Conversas com pessoas que têm algo para dizer.

→ 25/07/2011 @15:06

Júlio Resende: sentir tudo de todas as maneiras

Júlio Resende (Foto: não-assinada)

Algumas lufadas de ar fresco têm surgido no jazz de produção nacional e uma delas é-nos proporcionada por Júlio Resende. À terceira aparição discográfica, o jovem músico algarvio troca o formato de quarteto pelas lógicas inerentes ao trio de piano.

«You Taste Like a Song» (Clean Feed), o novo título do pianista e compositor, introduz uma inflexão de rumo na fórmula que antes propusera em «Da Alma» e «Assim Falava Jazzatustra»: «Esta é, com certeza, uma nova etapa. Com uma herança vasta na história do jazz, o piano-trio exige uma abordagem diferente, pois os temas são pensados para serem tocados pelo piano, em vez de pelo saxofone. Este tem um som cortante, que não se incomoda tanto com o volume da bateria»

Já o piano «precisa de ter mais espaço sonoro para se fazer ouvir».

Assim, o próprio conceito passa por encontrar esse espaço… «Também interfiro com o lirismo pianístico e dou-lhe um lado mais “bruto”, mais “agreste”, quando sinto que tal é necessário.»

Como confessa Júlio, «este é um formato que muito exige do pianista – dá-lhe mais tempo para explorar as ideias, mas para isso é preciso que haja ideias».

«Também é um desafio maior para o contrabaixista, que não só conquista mais terreno para agir como é chamado mais vezes a solar.» Essa responsabilidade foi dada a Ole Morten Vagan.

 

Às vezes não se percebe o quão difícil é escrever uma boa canção, e nesse particular devo muito a Chico Buarque, Radiohead, Pink Floyd, Jorge Palma e Pedro Esteves

 

Como o próprio nome deste projeto indica, Júlio Resende adota por inteiro o modelo da canção. A esse nível, não hesita mesmo em pegar em temas pop de configuração especialmente bem conseguida, como de resto tem sido habitual no seu percurso.

No novo álbum, entre originais seus e uma versão de um nobre exemplar do songbook norte-americano continuamente repegado por várias gerações de músicos de jazz,  «Straight No Chaser», de Thelonious Monk, a escolha recai sobre «Airbag», dos Radiohead.

«Às vezes não se percebe o quão difícil é escrever uma boa canção, e nesse particular devo muito a Chico Buarque, Radiohead, Pink Floyd, Jorge Palma e Pedro Esteves. Uma boa canção tem de ser muito sólida e altamente inspiradora, e a verdade é que o universo pop-rock tem desde sempre cultivado essa acção.»

É, portanto, uma área musical sobre a qual Júlio se debruça repetidamente. «Airbag” acompanha-me desde os tempos em que frequentava as aulas de piano do Conservatório de Faro e é a primeira faixa de um disco maravilhoso chamado “OK Computer”, que eu literalmente devorei», elucida.

Se, no que respeita à canção, o espólio dos standards do jazz muito tem para oferecer, o facto de Júlio Resende raramente recorrer a essa fonte (o mesmo, para todos os efeitos, aplicando-se em relação ao património da pop), tem um significado com o relevo de um statement.

«É prática corrente no jazz interpretar os standards, mas acho que tocar as minhas próprias composições diz mais sobre mim do que pegar em partituras de terceiros. Tocar os meus temas revela a minha identidade de modo mais agudo e acho que isso dá à minha persona artística um cunho muito mais vincado. Mas é claro que não procuro isolar-me no meu mundo e retiro grande prazer em tocar peças de grandes músicos que muito admiro e muito me ensinaram.»

 

Sítios bem agradáveis

Foto: Hélio Gomes

Tenham sido escritas por si ou pedidas emprestadas a outros, as canções jazz de Júlio Resende têm duas características bem vincadas e imediatamente perceptíveis: são melodicamente sugestivas e estão suportadas num beat irrequieto e intenso.

«Gosto, sem dúvida, de melodias fortes, o que, como já disse, não é fácil de obter. No que respeita ao ritmo, o groove vem das minhas costelas latina e africana. Sempre ouvi música africana e a mãe-África não dá hipóteses. É, de qualquer modo, e sobretudo, na harmonia que torno as coisas mais densas. Gosto da ubiquidade entre simples e complexo, pois nada na vida é de apenas uma cor.»

Na música de Júlio, a simplicidade estrutural da canção mistura-se com a complexidade das improvisações, e é esse jogo que o atrai. «Aprecio os desafios e a espontaneidade e neste álbum decidi mesmo quebrar a ordem de trabalhos para verificar onde podíamos chegar – fizemos uma improvisação sem pré-texto em cada dia das gravações e um registo disso surge no alinhamento do CD. Conseguimos chegar a um sítio bem agradável…»

É este tipo de abordagem que «despenteia» a música de Resende e a torna orgânica, afastando-a das práticas mais conformistas do trio de piano: «Dou um grande espaço aos solos, fazendo com que os músicos intervenientes comuniquem entre si de modo muito atento, em sucessivas perguntas-respostas, com apreço pela liberdade dos outros e respeito pela comunhão que se pode atingir neste ascendente diálogo.»

 

O que faz do meu jazz um jazz vivo é o facto de estar alinhado comigo, de ser autêntico no sentido de que respira através de mim. Aprendeu tudo o que havia à volta para aprender, mas é da minha cabeça e das minhas mãos que sai

 

O contrabaixista Morten Vagan tem «a virtude de impulsionar a liberdade performativa sem esquecer a forma». Pelo seu lado, Joel Silva é «um baterista superalerta que, com grande sensibilidade, reforça e incrementa as sugestões dos solistas, para além de ele mesmo ser um óptimo solista».

Em conjunto, «tentamos fazer da música composta por mim algo que não esteja amarrado a uma ideia primordial, deixando a performance decidir o caminho, ou os caminhos, a trilhar».

Procuram abordar cada tema de maneira diferente, e boas surpresas acontecem quando se faz isso. «Abandonar preconceitos é outra tarefa difícil que tentamos colocar em execução.»

Por essa ordem de razões, o trabalho de Júlio Resende vem agradando tanto aos apreciadores do jazz mainstream como aos que preferem as  propostas mais progressivas deste idioma musical.

Afirma o músico a propósito que qualquer esforço que faça para se catalogar é «uma perda de energia.

Fernando Pessoa disse-o bem: “Sentir tudo de todas as maneiras / Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo.”

Este é um bom “slogan” para o jazz que se clama como uma música livre e como uma linguagem universal. O melhor mesmo é sermos mais autocríticos e sermos nós a retirar conclusões sobre o que fazemos, em vez de nos deixarmos guiar por catálogos ou por juízos alheios.»

A formação do pianista em Filosofia ajudou-o a colocar tudo em questão, «e inclusive a mim mesmo acho que essa é uma atitude que nenhum artista devia dispensar».

«O que faz do meu jazz um jazz vivo é o facto de estar alinhado comigo, de ser autêntico no sentido de que respira através de mim. Aprendeu tudo o que havia à volta para aprender, mas é da minha cabeça e das minhas mãos que sai. Ao contrário do que se faz muito actualmente, não segue qualquer receita comercial, nem reproduz os padrões de outros sujeitos artísticos.»

Apenas os seus, com a salvaguarda de que, diz, não é «um eremita»…

→ 03/02/2011 @12:57

Victor Afonso e o carrossel de sons

Um músico, um projecto. Kubik: o Sol continua a brilhar com intensidade em Shina-Kak

O segundo entrevistado desta série é músico, professor de Música, blogger, já foi programador cultural e actualmente é responsável pelo Serviço Educativo do Teatro Municipal da Guarda.

Chama-se Victor Afonso e é dele um dos projectos mais originais e empolgantes que conheço na música portuguesa: Kubik.

Ele é também a pessoa que um dia me enviou um email garantindo-me que a minha costela zappiana e ecléctica não iria resistir ao grupo português LUME.

Acompanhava e conhecia o Victor Afonso blogger por ser leitor d’O Homem Que Sabia Demasiado, mas não conhecia a sua faceta como músico e o seu projecto Kubik.

Finalmente, depois de várias trocas de emails a propósito do LUME e de outros assuntos, calhou enviar-me um link para um vídeo promocional do seu terceiro álbum, Psicotic Jazz Hall.

Fui apanhado de surpresa.

Cheguei a pensar «Caramba, eu simpatizo com o tipo; se não gostar disto terei de lhe dizer directamente, o que é uma chatice; ou então calar-me para sempre, o que é uma chatice ainda maior».

Quando comecei a ouvir Shina-Kak, o tal tema do vídeo promocional, o meu insignificante dilema moral desfez-se em pó. Três minutos depois, estava de queixo caído a pensar por onde andara este gajo e por que razão nenhum CD de Kubik me viera parar às mãos.

Um quarto de hora depois já lhe estava a enviar um email a pedinchar-lhe discos em MP3. Sou um pirata desenvergonhado, eu sei.

Dez dias depois, quando pensei em fazer entrevistas no Bitaites e decidi que as pessoas a entrevistar pertenceriam especificamente a três áreas – Ciência, Arte e Tecnologia –, já tinha na cabeça que o primeiro músico a entrevistar seria precisamente o Victor Afonso.

Victor Afonso escolheu o nome Kubik por ser curto, ficar no ouvido e na memória, mas a associação com o realizador Stanley Kubrick ou até o famoso cubo de Rubik foi imediata.

Esta associação é negada pelo músico, mas acaba por fazer todo o sentido, pelo menos no que diz respeito ao cineasta.

Kubrick representa o lado cinematográfico das composições de Kubik: a música faz surgir filmes imaginários, mas os filmes já existentes também podem fazer surgir as músicas. É uma associação entre som e imagem indestrutível – essa ligação é essencial e tão profunda que rapidamente o ouvinte se apropria dela, para seu próprio deleite.

Por exemplo, os sopros iniciais de «Shina-Kak» soaram-me a uma pequena fanfarra psicótica, transmitindo o mesmo tipo de gozo artístico que levou Tarantino a fazer um zoom supersónico ao rosto vingativo de Uma Thurman em Kill Bill.

E depois dançamos.

Outro exemplo: o primeiro tema do EP How Blue Is My SkyHe Is The Voice – é uma brincadeira com a voz samplada de um típico crooner pop/jazz e respectiva orquestra: a electrónica insinua-se na interpretação asséptica do cantor e na margarina dos violinos, formando um contraponto sarcástico, demente, subversivo, à pomposidade daquela voz e daquela orquestra.

E dou por mim transportado para os corredores do Overlook Hotel, de The Shining, quando Jack Nicholson desliza ao som de uma banda de fantasmas ou a câmara inicia um lento travelling final em direcção à foto de Jack emoldurada na parede.

Mesmo que Victor Afonso nunca tenha pensado em Tarantino ou Kubrick, a cumplicidade fica estabelecida: é fabulosamente divertido criar música, diz o compositor, e é fabulosamente divertido ouvi-la, respondemos nós.

Ele criou o seu carrossel de sons e imagens, nós absorvemos a dinâmica e seguimos no nosso próprio carrossel particular – e o que une músico e ouvinte é o facto de nem um nem outro saberem resistir à tentação de associar música e imagem de forma instantânea.

Depois, Kubik mistura todos estes sons com o deleite de um cozinheiro experimentando os ingredientes de uma receita secreta.

O sentido de humor, o gosto ecléctico, a subversão de géneros e convenções, a apropriação dos clichés só porque dá tanto gozo destruí-los, os momentos puramente abstractos, experimentais, todas estas características já fazem parte do código genético musical de qualquer potencial fã de Kubik, quer goste de electrónica ou não.

O estranho soa familiar. Próximo. E até o desenvolvimento noise de alguns temas faz sentido para mim, mesmo não sendo particularmente atraído por essas texturas.

E assim, quase um mês depois de ter carregado no botão de play do vídeo, dominado por pensamentos diplomáticos, eis que a história chega finalmente ao fim com o melhor desfecho possível para o blogue: eu nas perguntas, ele nas respostas.

Toca a começar. Objectivo: uma conversa tão dinâmica e atraente como as linhas de baixo de Shina-Kak.

Era uma vez em Shina-Kak (um sítio secreto na Guarda)

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Pensas na tua música como a banda sonora de um filme imaginário ou compões bandas sonoras para filmes que já foram realizados por outros?

Victor Afonso – É verdade que desde o meu primeiro álbum – Oblique Musique (2001) – a crítica atribuiu à minha música qualidades cinematográficas.

Até houve quem fizesse relações entre o nome do projecto, Kubik, com Kubrick.


Os críticos de música não percebem nada. Aposto que chegaste ao nome do projecto depois de pensares assim: «Se o Kubrick tivesse inventado o cubo de Rubik, que nome lhe daria?»

V. A. – Não pensei mas é muito bem pensado! O curioso é que o meu projecto surgiu no ano em que Kubrick morreu (1999). Mais: Kubik ficou conhecido por ter ganho 4 «Prémios Maqueta» de um concurso para novos valores da música portuguesa, em Março de 1999.

Kubrick morreu no dia 7 de Março e a cerimónia de entrega dos tais prémios (no Porto) aconteceu uns dias depois. Lembro-me de ter agradecido e de ter invocado o nome de Kubrick como inspiração, dedicando-lhe, simbolicamente, o prémio recebido. Por isso, eu próprio contribuí um pouco para essa associação Kubik – Kubrick.

A música sempre foi a matéria mais importante para mim, desde miúdo, quando aprendi a tocar guitarra. A paixão pelo cinema veio mais tarde, no final da adolescência, depois de ter visto em sala uma epopeia chamada «Apocalypse Now».

Anos mais tarde, entro para a Licenciatura de Educação Musical, que me possibilitou ter o primeiro contacto com tecnologia MIDI e electrónica. Foi por essa altura que criei a primeira banda sonora original para teatro, a que se seguiram diversos trabalhos para cinema mudo: «Un Chien Andalou» (1928), de Luis Buñuel e Salvador Dalí, «Entr’Acte» (1924), de René Clair, ou «A Felicidade» (1932), de Medvedkine.

Sempre me interessou o cinema enquanto reflexão sobre o homem e o mundo, como espelho da vida e da arte. Fascina-me estabelecer relações entre imagens e sons

 

Para compensar o facto de não ter tido música nos seus tempos originais, o cinema mudo tinha uma forte componente visual e plástica, que atenuava a ausência de som. O que eu fiz com estas composições foi enfatizar as imagens e, ao contrário, subverter o sentido dessas imagens por puro prazer estético.

É estimulante compor para filmes surrealistas (como os citados), porque colocam permanentes desafios de linguagem e de expressão. Entretanto, fiz outros trabalhos para diversas curtas-metragens, teatro e também para bailado contemporâneo. São sempre experiências diferentes, porque nestas ocasiões a metodologia de trabalho é outra, logo, influencia também o processo criativo. Sempre me interessou o cinema enquanto reflexão sobre o homem e o mundo, como espelho da vida e da arte. Fascina-me estabelecer relações entre imagens e sons, entre aquilo que se vê e aquilo que a música pode potenciar enquanto expressão artística.

Quando faço música para os meus álbuns como entidade Kubik (o terceiro vem a caminho), penso sempre em imagens. Algumas já existem no meu imaginário (e todos os discos têm referências cinéfilas) e servem-me de inspiração; outras vezes é a música que faço que despoleta imagens de filmes imaginários. No novo disco há um tema que se inspira totalmente no universo de Andrei Tarkovski…



Algum filme específico de Tarkovski?

V. A. – Para mim todos os filmes de Tarkovski são «específicos», naquele sentido de especiais, únicos. Teria uns 17 anos quando um amigo mais velho me incutiu o gosto pelo cinema do realizador russo: «Tens de ver Tarkovski. Um realizador metafísico, místico, que faz longos planos-sequência, que reflecte sobre o espírito do homem, a solidão…».

Essa descrição fascinou-me e fui à procura – num tempo ainda sem Internet – dos filmes de Tarkovski. Aos poucos fui conseguindo vê-los todos na televisão ou em gravações nas velhinhas VHS (ajudou o facto de só ter sete longas-metragens) e descobri uma sensibilidade estética rara, uma maneira de filmar minuciosa, uma notável qualidade plástica da fotografia, uma visão filosófica e espiritual do mundo e uma original música electrónica (pelo menos em metade dos seus filmes) de Eduard Artemiev.

Para ser mais conciso em relação à pergunta: «Stalker», «O Espelho» e «O sacrifício» ocupam o pódio das minhas preferências; depois, muito perto, «Nostalgia», «A Infância de Ivan» e «Andrei Rubliev».

Vamos imaginar-te num mundo perfeito. Tu numa bonita vivenda em Los Angeles, saborando vodka-laranja à beira de uma piscina. Estás à espera que te batam à porta para te encomendar a composição de uma banda sonora. Cinco realizadores vão tocar-te à campaínha, mas só podes aceitar um trabalho. Dado que este é um mundo perfeito, não precisas de te preocupar com pormenores insignificantes como certidões de óbito. Neste mundo só a vida existe. Quais são os cinco realizadores e, destes, quem escolherias?

V. A . – Os cinco realizadores seriam Tim Burton, Gus Van Sant, Martin Scorsese, Béla Tarr e Jim Jarmusch (Tarantino seria o sexto da lista). Todos eles, à sua maneira, são realizadores que, apesar de serem muito diferentes entre si, deram sempre uma especial atenção às bandas sonoras dos seus filmes.

São cinco cineastas com um percurso singular, com um universo estético personalizado no qual a música desempenha um papel preponderante. De todos estes, teria de deixar quatro realizadores à porta da vivenda e convidaria para entrar… hum… Tim Burton.

Desde há muitos anos que sou admirador do seu cinema e do compositor habitual – Danny Elfman. A minha música tem uma vertente que se adaptaria muito bem ao imaginário de Tim Burton. Mas claro que esta colaboração dependeria muito dos valores do cachet!




Já estou aqui todo danado contigo por não teres incluído o mestre Kubrick.
V. A. – Ah, mas eu pensei que tinham de ser realizadores… vivos! Senão faço-te já uma lista de realizadores desaparecidos para os quais adoraria fazer música para os seus filmes: Kubrick (claro está), Hitchcock, Eisenstein, Tarkovski e Tati.


Dez músicos que consideres absolutamente essenciais para a tua saúde artística.
V. A. – Hoje são estes, amanhã poderiam ser outros: Erik Satie, Igor Stravinsky, Pascal Comelade, Mike Patton, Amon Tobin, Aphex Twin, Ornette Coleman, Philip Glass, Brian Eno, Ian Curtis.

A brincar, a brincar, vai-se fazendo jazz

O músico francês Pascal Comelade e os seus brinquedos musicais

O teu terceiro álbum – «Psicotic Jazz Hall» – é apresentado em Maio no Teatro Municipal da Guarda – a tua cidade. Escolheste Shina-Kak para tema de apresentação por ser o teu preferido ou por reconheceres que tem mais potencial para aguçar a curiosidade em relação ao resto?

V. A. – Precisamente pelos dois motivos: é mesmo um dos meus preferidos do disco (o que não quer dizer que o resto do disco não tenha outros temas com o mesmo potencial) e porque congrega, estilisticamente falando, um conjunto de características do meu trabalho: a fusão de referências sonoras, a simbiose de estímulos e géneros (cruza jazz, funk, spoken-word japonês, guitarras heavy-metal e cantos dos budistas tibetanos) e a desconstrução da linguagem jazz, que é comum a (quase) todo o disco.


Como é que te lembraste desse título, «Psicotic Jazz Hall?»

V.A. – «Psicotic Jazz Hall» remete para um título de um álbum do músico francês Pascal Comelade, «Psicotic Music Hall». Comelade é um conhecido músico que usa instrumentos musicais de brincar com um sentido lúdico e algo bizarro. Adaptei o termo «jazz» no título porque grande parte dos temas contém referências à linguagem jazz, mas sempre com um cunho subversivo, sempre misturado com uma abordagem fragmentária de estilos e sonoridades. O álbum tem uma duração relativamente curta, 42 minutos.


Nos teus espectáculos, passam fragmentos de imagens e filmes num ecrã montado no palco. Tens a mesma noção de espectáculo multimédia que, por exemplo, a Laurie Anderson, no qual todos os elementos – música, cinema, teatro, poesia, literatura – se conjungam numa só apresentação?

V.A. – Tenho tido preocupações visuais com os concertos, mas não ao nível de uma Laurie Anderson, que cria complexos espectáculos multimédia. O que faço é bem mais simples e trata-se de incluir, em determinadas passagens do concerto, alguns vídeos que complementem a componente musical. Certos videoclips são concebidos por mim, outros são feitos por amigos.


O vídeo de Shina-Kak foi feito por ti?

V. A. – Sim, foi. O nome Soundnest Creator é o meu alter-ego «videográfico».


És tu a tocar todos os instrumentos? São samples de outras músicas que tu juntas, transformas, cortas e colas para criar algo totalmente novo? É uma mistura de ambos? Qual é o instrumento em que te sentes mais à vontade? Guitarra, percussão, baixo?

V. A. – Brian Eno lançou uma teoria depois de fazer o seminal álbum (com David Byrne) «My Life in The Bush of Ghosts», em 1981: O futuro da música vai ser 80% de reciclagem e 20% oriunda de inspiração.

Queria com isto dizer que a ideia de reconstrução de material pré-concebido seria a base para criar novas ideias, novas formas e conceitos musicais. E bem se viu (e ouviu) que, em parte, Eno tinha razão.

O que eu faço vai ao encontro desse conceito de reciclar referências musicais e de reconstruir algo de novo. Isto refere-se, sobretudo, à forma como manipulo e remonto os samples de instrumentos ou de sequências musicais. É tudo menos um processo criativo original: saco aqui, saco ali e, seguindo o meu instinto estético, reconstruo e transformo toda essa informação sonora.

É um processo fragmentário e muito minucioso, porque todos os detalhes contam para completar e dar forma ao corpo final. Mas também toco e misturo com instrumentos reais, alguns tocados por mim, outros tocados por músicos convidados (Old Jerusalem, Adolfo Luxúria Canibal, Bypass, no meu álbum anterior).

A minha formação desde miúdo é de guitarra, mas toco também teclados MIDI, baixo e bateria. E toda uma parafernália de outros instrumentos ao vivo – harmónica, marimba, flautas orientais, concertina…

As 12 faixas de Psicotic Jazz Hall, segundo Kubik

1. Damnation – Uma introdução curta que permite perceber qual vai ser o rumo do disco.
2. Shina-Kak – O tal tema do vídeo-promo. Tem a participação do artista japonês Kenji Siratori.
3. Liquid Paper – Começa com um ritmo e uma linha de baixo “swingada” e desemboca numa viagem electrónica quase sideral.
4. Gerry & Gerry – Título retirado do filme “Gerry” de Gus Van Sant. Primeiro momento musical mais contemplativo, com saxofones a tomar o rumo da música.
5. Psicotic Jazz Hall – Tema-título do álbum. Beats jazzísticos tratados electronicamente com guitarras assanhadas.
6. Selatius, 17th Century – Citação de um célebre personagem de um célebre filme de um célebre realizador. Outra viagem jazzística imprevisível que começa de forma ortodoxa mas que não se sabe como termina.
7. Imagetica – A pulsão jazzística sente-se com a linha de contrabaixo, mas intromete-se uma voz étnica e sons electrónicos diversos.
8. I Think I Am – Referência directa a Tarkovski. É mais rock e o único tema que conta com a minha voz.
9. Shlomo Venezia is Not Dead Yet – Shlomo Venezia é um sobrevivente de Auschwitz. Li um livro onde relata as suas experiências. A partir disto, imaginem a música.
10. Children of the Revolution – Um tema que já foge às referências do jazz, para entrar numa experiência electro com cantos de crianças do Bangladesh.
11. Come and See – Título do filme de guerra de Elem Klimov. Mistura Spiritualized com Sonic Youth. Parece mentira mas é isso.
12. Dema- Gôd – Tema curto que encerra o disco. Um puro devaneio jazzístico com uma voz… desvairada.
 

Kubik na grande terra da Partilha

Enquanto músico, diz-me o que pensas sobre a pirataria da Net que associações como a ACAPOR ou, nos Estados Unidos, a RIAA, tão desesperadamente procuram combater. Se desses com um disco teu a ser partilhado na Web, como reagirias?

V.A. – Por acaso já dei com discos meus partilhados na Internet. Não me chocou. Pelo contrário. Seria até mau sintoma que não houvesse música minha partilhada na Web. Seria sinal de indiferença para com o meu trabalho.

Eu não vivo da música, tenho uma actividade profissional. Eu ainda acredito na importância do objecto físico do disco (cada vez menos) e no valor de comprar o disco num formato de CD ou vinil. Mas à excepção de um rol relativamente pequeno de músicos e bandas que conseguem viver da venda dos discos, a verdade é que a esmagadora maioria dos artistas sobrevive, hoje, dos concertos e do merchandising.


O mercado das editoras discográficas e respectivas distribuidoras continua a ser muito mal gerido, no afã do lucro e prejudicando os interesses do consumidor

 

Até o Pedro Abrunhosa, que outrora vendia dezenas de milhares de discos, veio enfatizar esta ideia. Se eu vivesse da música, não podia esperar ter grandes rendimentos da venda de discos, porque tenho plena consciência que, mesmo que fizesse música comercial, seria muito difícil sobreviver porque a realidade da era digital impôs, quer se queria quer não, novas formas de consumo e de partilha.

A verdade é esta: o mp3 e outros ficheiros digitais estão a substituir o disco como suporte de informação, e a partilha desses ficheiros na Internet é absolutamente impossível de controlar. Depois a política de preços dos discos só vem piorar a situação: vamos à Fnac procurar um disco recente, constamos que custa 18 ou 20 euros, mas sabemos que basta chegar a casa e, à distância de um clique e em escassos minutos, conseguimos o mesmo disco sem gastar um cêntimo.

O mercado das editoras discográficas e respectivas distribuidoras continua a ser muito mal gerido, no afã do lucro e prejudicando os interesses do consumidor.

Por isso, as medidas que a ACAPOR tentou implementar (friso: tentou) são contraproducentes para com os próprios interesses comerciais desta associação (ou da congénere americana). É uma associação com uma visão redutora do fenómeno que, de forma desesperada, tenta combater a partilha ilegal de ficheiros ameaçando os utilizadores e fazendo chantagem. Medidas completamente desajustadas e infrutíferas.


O MP3 e outros ficheiros digitais estão a substituir o disco como suporte de informação, e a partilha desses ficheiros na Internet é absolutamente impossível de controlar

 

Músicos como tu são prejudicados pela forma como a cabeça de grande parte das pessoas está formatada para reconhecer apenas o formato canção. Sem um refrão, ficam perdidas, sem saber como absorver a música. O jazz, a improvisação, é um corpo estranho porque não têm nada a que se agarrar. A sensação de familiaridade de uma linha melódica de um desses sucessos é captada como «melodia que fica no ouvido», mas na realidade o que fica no ouvido é a tremenda falta de originalidade dessas canções. Não achas que a carreira de músicos como tu é uma luta incessante e inglória de se fazer ouvir entre todo esse ruído comercial que ocupa as rádios e as televisões? Sentes essa luta ou já estás a marimbar-te para o assunto?

V.A. – Compreendo o que queres dizer. Por incrível que pareça, já houve mais espaço para divulgar música alternativa do que agora, com os programas do António Sérgio ou os programas de televisão do tipo “Pop-Off”.

Hoje a formatação e a ditadura das playlists dominam todo o espectro.

Já o próprio António Sérgio dizia, pouco antes de falecer, que ninguém aprendia nada a ouvir a rádio actual, porque a rádio já não estimulava novas descobertas. O mesmo se passa com a televisão, cabal e infeliz exemplo de parasitismo e indutor do gosto massificado.

Felizmente que uma extraordinária ferramenta de comunicação chamada Internet revolucionou a forma de aceder à informação. Quem quer ouvir música diferente daquela que os meios de comunicação transmitem, basta ir à Internet. É nesta plataforma que se joga a promoção e divulgação de um projecto musical. Eu já conheci muitas bandas e músicos na internet (Last.fm, rádio online, MySpace…) que nunca vi referenciados nas rádios ou nos jornais. Mas mesmo para procurar propostas boas na Internet é preciso saber escolher e não se deixar contaminar pelo gosto maioritário.

É verdade que não é fácil, um jovem com a cabeça formatada, conseguir ouvir, com prazer imediato, um disco de jazz, de música improvisada, de electrónica, de rock mais experimental ou de fusão. São estilos que fogem à previsibilidade, à convenção da estrutura de canção, e que, como referiste, desconcertam e desorientam.

A minha música passa, precisamente, por esta linhagem de experimentação de novas fórmulas, de intersecção de géneros sem ponto cardeal à vista. Gosto de desafiar os ouvidos de quem me ouve. Por isso compreendo que, para muitos músicos como eu, haja pouco espaço de divulgação. Mas também estou consciente que, quem gosta deste tipo de música, a procura pelos seus próprios meios e vai dar de caras, mais cedo ou mais tarde, com a minha música.


A maior parte das pessoas ouve música em formato MP3. Na produção do teu disco, nunca te passou pela cabeça qualquer ideia do género «Não vale a pena manter as subtilezas espaciais dos sons – só totalmente perceptíveis quando estamos num concerto ao vivo -, é preferível puxar apenas pelas frequências sonoras que o MP3 suporta»?

V. A. – Sinceramente, não ligo muita importância a esse aspecto. Até porque não sou um grande conhecedor, em termos técnicos, das frequências do MP3.

Aliás, não dedico muito tempo a estudar ao pormenor os manuais de utilização de um determinado software de edição áudio, por exemplo. Preocupo-me com a generalidade da qualidade do som, da produção, gravação e masterização, mas faço-o de forma intuitiva, sem seguir critérios rigorosos que um técnico de som experimentado seguiria.

Concentro-me sobretudo na criação musical, no desenvolvimento de ideias criativas concretas que possam ir ao encontro do que me proponho fazer. Apesar disso, em termos sonoros, a minha música é repleta de pormenores e detalhes que só ouvindo diversas vezes se consegue perceber. Por vezes construo temas que são camadas atrás de camadas de elementos sonoros, muitas das vezes, em confronto, em ebulição, em permanente estado de descoberta de um sentido.

E agora, algo completamente diferente

És casado, tens duas filhas menores. Também passaste a fase em que quase arrancavas os cabelos por ouvires tantas vezes a Rihanna ou o pai já está a tratar-lhes da educação musical?

V. A. – É fundamental acompanhar a educação musical desde a mais tenra idade. Estudos científicos comprovam a importância que a música tem para o desenvolvimento emocional e cognitivo das crianças. Como músico e professor de música, sempre incuti o gosto pela música, mas não de forma impositiva e autoritária.

Acho que há idades para ouvir de tudo e o gosto musical bem educado consegue-se com o passar do tempo, em várias fases. As minhas filhas começaram a ouvir música tipicamente infantil até aos 5 ou 6 anos de idade. Depois passaram a gostar de Hannah Montana, Jonas Brothers e bandas do género (por acaso Rihanna nunca gostaram!) e, hoje, com 8 e 11 anos, gostam de Arcade Fire e U2. Claro que com uma influência directa dos pais, mas também é importante deixar espaço para as próprias descobertas que fazem com amigos ou que descobrem na internet.

Por outro lado, ambas estudam formalmente música no Conservatório: uma toca violino e a outra toca piano, facto que contribui para um desenvolvimento das capacidades auditivas, o sentido estético, a disciplina, a concentração e a auto-estima.


O facto de viveres na Guarda, tão afastado de Lisboa, é uma desvantagem ou vantagem?

V. A. – É curioso que já várias vezes me fizeram esta pergunta, a qual considero pertinente. Na verdade, acho que viver na Guarda é uma vantagem.

Com a sociedade da comunicação global, não precisei de viver em Lisboa para Mike Patton conhecer o meu trabalho e me convidar para tocar na Aula Magna antes dos Fantômas. Não precisei de viver em Lisboa para que os meus dois discos tenham sido considerados uns dos melhores discos portugueses de cada ano (2001 e 2005). Não precisei de viver em Lisboa para ter ganho 4 prémios de originalidade, ter tocado no Festival Paredes de Coura, ter tocado com uma orquestra na abertura do festival de cinema Imago, ter feito bandas sonoras para filmes mudos, ter sido convidado para fazer a música original de um bailado contemporâneo que estreou na Culturgest ou para fazer a música para realizadores da Capital.

A questão, para mim, é meramente geográfica. E uma vez um crítico disse que a minha música, feita na Guarda, era de tal forma contemporânea que podia ser um músico de Londres ou Nova Iorque. É assim que sinto o meu trabalho: universal. Para além disso, vivo na cidade continental mais alta, logo o ar é mais puro, logo a inspiração é mais espontânea.

→ 30/01/2011 @18:56

Carlos Oliveira, o emigrante cósmico

O astrónomo e um representante insuflável do «geocentrismo psicológico» (Foto: Pedro Ferrari/DN)

Faz sentido que para o lançamento desta rubrica de entrevistas tenha escolhido um astrónomo.

«Lançamento» é uma palavra cara a todos aqueles que se interessam pelos mistérios do Cosmos: das missões Apollo ao Hubble, das sondas Viking aos robôs que exploram a superfície marciana, as suas histórias mediáticas começaram sempre com a notícia de um lançamento bem sucedido em direcção ao Espaço.

Também o astrónomo e educador científico Carlos Oliveira, 37 anos, teve o seu crucial momento de lançamento, quando em 2001 (outra data marcante do cinema de ficção científica) voou sobre o Oceano Atlântico para ir trabalhar nos Estados Unidos, no Maryland Science Center, em Baltimore, durante 5 meses. Em 2003, já estava na Universidade do Texas, em Austin.

Diz ter saído de Portugal por querer ir para um país onde fosse dada a «oportunidade de mudar as coisas e fazermos o que queremos, evoluirmos, trazermos originalidade à área que gostamos.»

Não esconde o orgulho em relação aos seus feitos académicos. Na página de perfil dos colaboradores do blogue de Astronomia Astro.PT, o português Carlos Oliveira revela ser o criador e professor de um «inovador» curso de Astrobiologia na Universidade americana. A página pode ser consultada aqui. É o primeiro da lista.

Quis ir para «um sítio onde se avaliassem objectivamente as pessoas, pelo seu mérito – em vez da mediocridade do factor cunha.» Saiu, enfim, por uma questão de mentalidade: «Não me revia na mentalidade fechada, negativa, de constantes queixas, que existe em Portugal».

A experiência está a correr muito bem. Carlos Oliveira não se tornou «um estranho numa terra estranha», como o marciano da novela de ficção científica de Robert H. Heinlein. Os acordes do fado-saudade também não lhe causam especial ressonância no cérebro: é um emigrante português, mas a sua casa é o Cosmos – não pensa sequer voltar para Portugal.

Tenciona sair dos EUA no próximo ano, «ter uma experiência diferente noutro país». Quando chegar o momento de regressar, o destino será novamente os Estados Unidos. Porque a vida pessoal «não tem sido tradicional», continua solteiro. «Talvez daqui a cinco anos as coisas sejam totalmente diferentes».

Nesta entrevista, Carlos Oliveira discute as fronteiras do Universo, a teoria dos Multiversos, Matéria Negra, Energia Negra, os limites da velocidade da luz, os gravitões, o Big Bang, as descobertas da Física Quântica, a busca por vida extraterrestre, a Ficção Científica, os OVNI, a Astrologia e Deus.

Oliveira é um homem directo e assertivo – nas suas respostas não há espaço para floreados diplomáticos. As opiniões incomodam, isto é, desafiam.


[Primeira nota: a extensão deste post obrigou-me a dividi-lo em páginas. Quem acompanha pelo feed tem vir cá para ler a entrevista completa.]

[Segunda: Carlos Oliveira faz algumas citações em inglês - resolvi traduzi-las, pelo que qualquer erro é da minha responsabilidade, não dele]


«Eu não gosto de diversas teorias científicas»

Lemaître: padre católico, professor de Física e Astronomia, criador da Teoria do Big Bang

O Telescópio Espacial Hubble descobriu o objecto mais distante jamais visto, uma galáxia formada quando o Universo era um jovem com apenas 480 milhões de anos. Em 2014, o Telescópio Espacial James Webb, sucessor do Hubble, conseguirá captar a imagem das primeiras galáxias que se formaram. Até quando poderemos recuar no tempo? Qual o limite absoluto a partir do qual já não poderemos observar mais nada?

Carlos Oliveira – Supostamente seria o Tempo de Planck: 10^-43 segundos após o Big Bang.

No entanto, o Universo foi «opaco» durante muito tempo, cheio de plasma ionizado. Só depois disso ficou «transparente», ou seja, passível de ser visto. Podemos pensar num limite talvez de cerca de 380 mil anos após o Big Bang. No entanto, o Universo nesta altura seria «negro»… Ainda lhe falta a luz que é dada pelas estrelas.

As galáxias talvez se tenham formado 200 milhões de anos após o Big Bang. O Telescópio Espacial James Webb, se conseguir chegar a estas, já será excelente.


A Teoria do Big Bang foi inventada por um padre que queria encontrar o momento em que Deus criou o Universo: não gosto dela


A teoria do Multiverso segundo a qual o Espaço-Tempo abarca não apenas o nosso Universo, mas uma série deles, era vista como um conceito de Ficção Científica. As descobertas quânticas e a Teoria da Relatividade parecem demonstrar que, afinal, é mesmo possível que existam múltiplos universos. Qual é a sua opinião sobre o assunto?

C. O. – Eu não gosto de diversas teorias científicas. Sigo o Princípio da Mediocridade, segundo o qual somos insignificantes no Universo. Não somos o centro, nem sequer somos especiais.

Devido a isso, há várias ideias e teorias de que não gosto.

Exemplos:

- SETI: apesar de reconhecer o papel que o SETI teve no desenvolvimento de computadores e rádio-telescópios, não gosto da sua filosofia. Tanto o SETI como outras áreas da astrobiologia sofrem da falta de imaginação de estarem à procura de humanos no espaço! Não procuram extraterrestres, mas sim humanos, com o mesmo tipo de raciocínio, a mesma matemática, o mesmo desenvolvimento, a mesma tecnologia, etc.

- Quântica: tenho a ideia de Einstein, de que existe algo «mais abaixo» (mais profundo) que explicará as aparentes probabilidades da Quântica. Por outro lado, não gosto da forma como as observações dependem do observador (de nós), porque, novamente, é pôr-nos no centro do Universo, sermos muitos especiais.

- Big Bang: reconheço as evidências científicas para esta teoria, mas não gosto dela, sobretudo porque foi pensada por um padre que queria encontrar o momento em que Deus criou o Universo. Como não gosto de motivos religiosos (porque nos põem no centro da atenção de «alguém», assumindo que somos especiais e muito importantes no Universo), então toda a teoria, para mim, sofre dessa falha.


O Universo não quer saber do que eu penso e das minhas filosofias. Os resultados científicos nem sempre são aqueles que eu gosto


- Multiverso: a ideia do Multiverso nasceu da falsa noção de que se só existe este Universo, então ele está feito para nós: as suas propriedades físicas estão feitas para a nossa existência. Ou seja, sofre do mesmo problema dos exemplos acima.

Se o Universo fosse diferente, poderia haver vida totalmente diferente da nossa, e se calhar essa vida estaria a pensar que o Universo foi feito para ela, e que o seu mundo estava no centro do Universo. No entanto, isto é algo que nem sequer é imaginado por quem pensa que o Universo está feito para nós. Ora, para contrabalançar esta ideia inicial de que o Universo está feito para nós, então imaginou-se que este seria só um de muitos universos, e daí que não havia nada de especial nele. O que eu penso é que a ideia inicial está errada, logo não é preciso contrabalançar nada.

Sempre que penso nestas coisas lembro-me das palavras de Xenophanes. Este filósofo grego, que viveu cerca de 100 anos, dizia há mais de 2500 anos que se as vacas e os cavalos conseguissem desenhar, imaginariam deuses à sua imagem. Hoje, ele diria o mesmo dos extraterrestres da ficção científica, por exemplo. Ou seja, temos sempre a incrível mania de imaginar que os outros são como nós. E porquê? Porque nos achamos o que de mais importante existe, por isso os outros têm que ser como nós. O mesmo se passa nestes exemplos que coloquei em cima, incluindo na ideia inicial para o Multiverso.

Finalizo dizendo algo que me parece que é bastante importante para aqui: isto são somente opiniões minhas. É somente a minha filosofia para a vida e para o universo.

E uma das coisas que já aprendi nestes 37 anos, é que o Universo não quer saber do que eu penso e das minhas filosofias. Os resultados científicos nem sempre são aqueles que eu gosto. E são esses resultados que contam, e não o que eu penso.

Admitindo que a totalidade do Espaço-Tempo é constituída por múltiplos universos, isso deixa o Homem numa posição ainda mais insignificante no Cosmos. Até ver, somos a única espécie inteligente no Universo, a única que desenvolveu consciência, não o perturba verificar quão irrelevantes somos verdadeiramente?

C. O. – Pelo contrário.

Acho verdadeiramente fenomenal sermos insignificantes, irrelevantes, no Universo.

A maior parte das pessoas no mundo pensa que é tão importante no Universo que tem alguém sempre muito atento a ela (seja Deus, ou ET’s que pilotam OVNIs). A crença em OVNI’s não é mais do que uma religião (como provou George Adamski).

Parece-me um problema de ego que leva à estagnação, porque todas as respostas podem ser dadas por quem está «acima de nós» (seja Deus ou ET’s avançados). Alguém disse: «Give a man a fish, and you’ll feed him for a day; give him a religion, and he’ll starve to death while praying for a fish.» [Dê um peixe a um homem e você alimentá-lo-á por um dia; dê-lhe uma religião e ele morrerá de fome enquanto reza por um peixe]

Arthur C. Clarke, no seu livro Profiles of the Future, abordou o mesmo tema dizendo que os humanos deveriam progredir, arriscar, avançar: «A billion million years ago the more conservative fishes said exactly the same to their amphibian relations. Existence on dry land bears not the remotest resemblance to fishy like under water. We shall stay where we are. And that is what they did. This is why they are still fishes”. [Há mil milhões de anos, os peixes mais conservadores disseram exactamente o mesmo aos seus parentes anfíbios: “A existência nas terras secas não terá a mais remota semelhança com a da vida aquática. Fiquemos onde estamos!” E foi o que fizeram. Por isso ainda hoje são peixes]

Ou seja, podem ser insignificantes peixes, mas se arriscarem, se avançarem, poderão evoluir imenso e chegar longe. A outra hipótese será continuarem no mesmo sítio, estagnados, à espera que «alguém faça algo acontecer», sem eles próprios fazerem nada por isso.

Eu sigo a ideia do «sonho americano»: alguém insignificante conseguir chegar longe. Como aconteceu com os mentores do Google, Microsoft, Facebook ou Twitter.

O mesmo espero para o futuro da humanidade: alguém totalmente insignificante no Universo conseguir não só descobrir os segredos desse Universo, mas até se espalhar por ele.


Há muito, muito tempo, numa galáxia muito, muito distante

Não subestimes o Lado Negro da Energia, Luke

O físico dinamarquês Niels Bohr afirmou o seguinte: só quem não compreende as implicações das descobertas quânticas não fica chocado com elas. O que o choca mais na Física Quântica?

C. O. – Ia para dizer tudo… mas se quer só uma característica, então será o «entanglement». Como é que uma partícula pode «saber» instantaneamente as características de outra partícula no outro lado do Universo, é algo que parece uma ideia «pseudo». Mesmo Einstein chamou-lhe: «spooky action at a distance» [acção fantasmagórica à distância]

É algo que me choca profundamente! E daí que, para mim, seja algo simplesmente fantástico e genial!

Quando conseguirmos perceber completamente essa característica, o Universo nunca mais será o mesmo. Tenho a impressão de que muito do que sabemos hoje será deitado ao caixote do lixo…


Será que você vai ser a pessoa a conseguir fazer-nos entender a nós, leigos, o que raio é a Matéria Negra e por que razão é tão importante?

C. O. – A matéria negra é algo normal.
É matéria normal, mas que não conseguimos ver (detectar). Só detectamos os seus efeitos gravitacionais na matéria a que chamamos de normal.

Parece-me que a descoberta das partículas que formam a matéria negra será um anti-clímax, porque na realidade é simplesmente algo que para já não conseguimos detectar mas que é “normal”.

Dou-lhe um exemplo: o Sol, como qualquer estrela, emite radiação.
Essa radiação pode, por exemplo, ser em forma de luz visível, e vemos o Sol.
Não vemos a radiação infravermelha, mas sabemos que ela existe porque vemos os seus efeitos (calor).
Não vemos a radiação ultravioleta, mas sabemos que ela existe porque vemos os seus efeitos (cancro da pele).
Ou seja, não vemos diversos tipos de radiação, mas sabemos que eles existem porque vemos os seus efeitos. Mas a radiação, em diferentes comprimentos de onda, é algo normal e que faz parte do espectro electromagnético.

É importante para conseguirmos compreender o todo.
Existe mais matéria negra que matéria «visível», por isso é importante compreendermos a maior parte da matéria do Universo.
Da mesma forma que se só compreendemos a luz visível, estaríamos limitados a um pequeno espaço do espectro electromagnético sem conseguirmos compreender o resto, e o todo.

Se a pergunta fosse sobre Energia Negra, aí já seria mais complicado…


Considere esta pergunta uma forma de lhe complicar a vida! Pode falar-nos um pouco sobre essa misteriosa Energia Negra?

C. O. – Supostamente, a energia negra é uma energia que funciona de modo contrário à gravidade: é repulsiva, e está a expandir o Universo.

Como está a expandir o Universo no seu todo, então não tem que seguir as regras «dentro do Universo». Exemplo: dentro do Universo temos o limite de velocidade que é a velocidade da luz no vácuo (actualmente pensa-se em C como uma barreira e não como um limite, mas essa é outra história). Ora, para o todo do Universo esse limite não existe, por isso o Universo pode perfeitamente expandir-se a velocidades superiores à da luz, como pelos vistos faz.

O problema da Energia Negra é que não sabemos o que é.

Na verdade, não sabemos nada!

Ideias e teorias não faltam. Possíveis soluções abundam.

Respostas é que nem vê-las.

Não se sabe o que é, nem sequer se sabe se é uma força (curiosamente, eu também digo que a gravidade não é uma força, mas essa é outra história), nem sequer se é negra, nem sequer se é energia! Este é um assunto em que a nossa ignorância é muito superior ao nosso conhecimento.

Para a Energia Negra assume-se que o Universo se está a expandir… mas há quem ache que não está! Por exemplo, há cientistas que pensam que é o Tempo que está a abrandar. O próprio Hubble, que descobriu que os grupos de galáxias «fugiam» de nós, não enveredou por dizer que isso era fruto de que o Universo se estava a expandir.

Claramente estamos num terreno em que não sabemos o que pensar…

Até porque estamos a falar do Universo Observável… e não realmente no Universo no seu todo, e ninguém sabe o que haverá para lá do Universo Observável…

E a própria divulgação desta ideia, incluindo com os diagramas da NASA, não ajuda nada, porque reflectem concepções erradas. É caso desta famosa imagem feita pela NASA, como expliquei aqui.

Olhando para uma perspectiva histórica sobre «coisas que não sabíamos», vemos isto (alguns exemplos):

- percebeu-se discrepâncias na órbita de Úrano. Em 1 ano, descobriu-se Neptuno, ou seja, algo (planeta) que já conhecíamos em sítios que sabemos existir. Ou seja, em 1 ano descobriu-se mais daquilo que já sabíamos (planetas) – «more stuff».

- percebeu-se discrepâncias na estrela Sirius. Em 20 anos descobriu-se a sua companheira anã. Não se sabia o que eram anãs brancas, mas é algo que vem de algo que já conhecemos (estrelas). Ou seja, demorou-se 20 anos para se descobrir novas coisas, algo diferente, mas baseado em algo que já conhecíamos – «different stuff».

- percebeu-se discrepâncias na órbita de Mercúrio. Pensou-se, como em cima, que seria um planeta mais perto do Sol a provocar isso, e chamou-se Vulcan a esse planeta. No entanto, essa explicação estava errada porque nunca se encontrou esse planeta. Mas em 70 anos, Einstein explicou o porquê dessas discrepâncias na órbita de Mercúrio, com uma nova teoria da gravidade. Ou seja, demorou 70 anos para se explicar essas discrepâncias e teve que se criar uma nova física (Relatividade) para isso – «new physics».

Ora, a ideia de que o Universo está a expandir e que existe uma força repulsiva responsável por essa expansão já tem muitas décadas. Olhando para essa lição histórica, então penso que a resposta para o que é a Energia Negra está numa Nova Física, algo completamente diferente daquilo que pensamos actualmente.

No entanto, tendo em conta que se calhar teremos que saber o que se passa na parte do Universo que nem sabemos o que é, porque não é Universo Observável, então a resposta para este mistério torna-se praticamente «impossível». A verdade é que há imenso Universo para lá daquilo que conseguimos observar/detectar.

Concluindo, eu sou da opinião do cosmólogo Karl Gebhardt: não sabemos.


«Actualmente pensa-se na velocidade da Luz como uma barreira e não como um limite, mas essa é outra história». «A gravidade não é uma força, mas essa é outra história». Pelas minhas contas, já são duas histórias por contar.

C. O. – Taquiões. Pensa-se que poderão existir partículas que viajam mais rápido que a luz. Ou seja, é possível viajar abaixo de C, mas não ultrapassar essa barreira. E poderá ser possível viajar acima de C, mas não abrandar ao ponto de passar «para baixo» dessa barreira. C não será um limite, mas sim uma barreira.

Einstein disse que a Gravidade é uma propriedade do espaço-tempo… ou seja, será simplesmente uma propriedade no tecido do espaço-tempo. Não me parece que será uma força no sentido convencional do termo. Logo, para mim, não existirão os famosos gravitões que tanta gente anda à procura…

Kevin Spacey no filme de culto K-Pax

Se pudesse embarcar na «nave da imaginação» de Carl Sagan, qual o local do Universo que gostaria de visitar em primeiro lugar, e porquê?

C. O. – Todo o planeta Terra.

Acho estranho quando as pessoas vão ver museus ou outros locais importantes noutras cidades, mas nunca os viram na sua própria cidade. Daí que acho que antes de ver outras coisas noutros lados, gostaria de ver o nosso próprio planeta.

Depois disso, gostaria de viajar com o prot, de K-Pax, com os construtores dos buracos de verme, de Contacto, ou com os Q, de Star Trek. Eles, melhor que eu, saberiam quais os melhores sítios a visitar seguidamente. Eu confiaria nesses «guias turísticos».


Pode-se esperar que por todo o Universo, e nas condições mais adversas, possa existir vida simples. No entanto, vida complexa será rara, e vida inteligente ainda mais difícil


Interessa-se também pela nossa busca por sinais de vida extraterrestre, inteligente ou não. No entanto, é visível em muitos dos artigos que escreve uma enorme irritação em relação ao fenómeno OVNI. A Ovnilogia é uma área legítima de investigação ou considera que é composta apenas por charlatães?

C. O. – Há muitos investigadores do fenómeno OVNI que não são charlatães.

Dou-lhe, por exemplo, o caso da PUFOI, uma sociedade portuguesa que investiga esses fenómenos. O lema deles é que passa tudo pelo cérebro humano. Esses são sérios.

O que me «irrita» é o geocentrismo psicológico evidenciado pelos outros.

Como expliquei, sigo o Princípio da Mediocridade.

Irrita-me que as pessoas sejam tão pouco imaginativas, que preferem seguir a visão religiosa segundo a qual as naves ETs são como as nossas no século XX, os ETs estão a «vigiar», nós somos tão especiais que somos o centro da atenção de ETs, os ETs são como nós, os ETs pensam da mesma forma que nós, os ETs têm tecnologia semelhante à nossa, etc.

É tudo sobre nós.

É uma forma de nos sentirmos especiais, de nos sentirmos interessantes.

É o ego humano a funcionar, aliado a uma tremenda falta de imaginação para pensar em vida totalmente diferente da nossa.

Vida «humanamente inteligente» parece-me extremamente improvável, senão impossível. Da mesma forma que não há outro Carlos Oliveira com as mesmas características das minhas no mundo


Esquecendo a parte dos OVNI, quais são as suas expectativas em relação à possibilidade de vida extraterrestre inteligente?

C. O. – O que é vida inteligente? Como se define inteligência?

Serão os humanos inteligentes?

Quando me falam em inteligência, penso sempre no Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, do Douglas Adams, e no Solaris do Stanislaw Lem. Parece-me, novamente, um conceito humano e antropocêntrico.

No entanto… vamos assumir, «for the sake of the argument», que até somos inteligentes, e somos a única espécie terrestre inteligente.

Então, é isto que penso: a vida que para já conhecemos existe na Terra.

A evolução da vida na Terra diz-nos que praticamente sempre existiu vida (desde que existe Terra), que durante 4 mil milhões de anos essa vida foi simples, que a vida complexa é recente, e que a vida inteligente é ainda mais recente. O calendário cósmico de Sagan demonstrou isto na perfeição.

É preciso perceber também que a vida simples continua a existir em todo o lado. Mesmo havendo vida inteligente (nós), essa vida inteligente é feita de milhões de bactérias. Nós não conseguiríamos sobreviver sem bactérias. Já as bactérias sobrevivem bem sem nós.

Assim, pode-se esperar que a vida esteja espalhada por todo o Universo (já que foi fácil ela aparecer na Terra), e que a grande maioria dessa vida seja simples. Vida complexa pode haver, mas é rara. Vida inteligente pode ser simplesmente uma «sorte».

Vida «humanamente inteligente» parece-me extremamente improvável, senão impossível. Da mesma forma que não há outro Carlos Oliveira com as mesmas características das minhas no mundo. Será que se formos ao tempo de Cristo, consideraremos os humanos inteligentes? Duvido. Será que se formos ao tempo dos Neandertais, os consideraremos inteligentes? Duvido. No entanto, estamos a pensar em períodos de tempo muito curtos: 2000 anos e 100.000 anos, respectivamente. Da mesma forma que humanos no ano 100.000 nos considerarão extremamente atrasados. E 100.000 anos não é nada, em 13 mil milhões de anos. Daí que esperar que extraterrestres estejam no nosso nível de desenvolvimento intelectual e tecnológico, é não ter qualquer noção de tempo.

Em termos de distribuição de vida na Terra, vemos que a vida simples se encontra em todo o lado, mesmo em sítios «impossíveis». Extremófilos encontram-se em praticamente todos os cantos da Terra, desde os sítios mais quentes até aos mais gelados, desde o cimo das nuvens até três quilómetros dentro de pedras. Vida complexa precisa de condições muito mais moderadas para sobreviver. Vida inteligente precisa de condições ainda mais moderadas, além de condições que se mantenham as mesmas durante milhões de anos.

Como disse Darwin, tudo depende da adaptação ao ambiente da altura. A vida simples é excelente nisso. A vida complexa morre rapidamente com mudanças bruscas no seu ambiente. Podemos ver isso não só em termos de ambiente numa certa altura, mas até ao longo dos anos. Por exemplo, as cianobactérias mudaram a atmosfera completamente: de 0% de oxigénio para 21% de oxigénio, sendo que já houve períodos com 31% de oxigénio. Os Humanos não sobreviveriam sem o oxigénio essencial na atmosfera. A vida simples sobrevive, mesmo sem isso.

Assim, pode-se esperar que por todo o Universo, e nas condições mais adversas, possa existir vida simples. No entanto, vida complexa será rara, e vida inteligente ainda mais difícil.

Repare-se num pormenor: duas formas independentes de ver a vida na Terra dão exactamente o mesmo resultado do que se pode esperar no exterior.

A haver vida complexa noutros planetas, eu apostaria em algo semelhante a insectos (já que na Terra são uma forma de vida extremamente bem sucedida) que voe à-vontade (a melhor forma de locomoção), ou então algo semelhante a polvos (animal bastante inteligente) em ambientes aquáticos noutros planetas. Ou então, a junção dos dois: «polvos voadores», parecidos com os Eosapien do fantástico documentário Alien Planet.

No entanto, se tivesse que apostar em algo mesmo, apostaria em algo que não consigo sequer imaginar!

Fotomontagem evocando a célebre frase de Einstein: «Deus não joga aos dados»

É célebre o comentário de Einstein às conclusões da Física Quântica: «Deus não joga aos dados». Mesmo para um físico como Einstein, Deus era visto como o Criador. E você, acredita em Deus? Perguntando de outra forma: sente a imensidade do Cosmos apenas numa dimensão científica ou sente-a também como uma espécie de experiência religiosa?

C. O. – Qual é a definição de Deus?

Um homem de barbas sentado num trono acima das nuvens, que não tem mais nada o que fazer senão contabilizar as vezes que digo asneiras, para se vingar de mim, como juíz, quando eu morrer?

Nesse Deus não acredito. Acho, novamente, uma forma de pensar demasiado antropocêntrica. É um Deus criado pelos humanos que sofrem de geocentrismo psicológico.

O que é uma «experiência religiosa»? Existem cientistas que dizem que têm algo semelhante a experiências religiosas quando têm os momentos «eureka» nas experiências que fazem em laboratórios.

Eu prefiro acreditar nesses humanos. Prefiro saber que foi um médico que salvou a vida de uma criança, por exemplo, após um terramoto (prefiro dizer que foi Graças ao Médico), do que me pôr a gritar Graças a Deus que foi salva essa criança (o que leva à consequência que esse mesmo Deus deixou que todas as outras crianças morressem).

Quem grita «Graças a Deus» não me parece que está a ter uma experiência religiosa. Está, sim, a acusar Deus de ter morto todas as outras crianças, o que nitidamente é um pecado capital. Mas sobretudo está a ser muito mal-agradecido ao médico que salvou a criança, ou seja, é típico de alguém que não sabe dar mérito a quem realmente o tem.

Eu prefiro dar valor aos humanos, e não a amigos imaginários que tive em criança.

Infelizmente, vivemos numa democracia em que a maior parte das pessoas sofre de iliteracia funcional. Se vivessemos num sistema de meritocracia, estas questões de «agradecer ao Pai Natal» nem se punham.

Por outro lado, mesmo alguns astrónomos dizem que têm o que parece ser uma «experiência religiosa» ao verem nebulosas planetárias, ao estudarem o início do Universo, etc. Neil deGrasse Tyson farta-se de dizer isso.

Einstein dizia que o seu «Deus» eram as leis da natureza. Tal como Spinoza dizia. Einstein chegou mesmo a dizer: «The further the spiritual evolution of mankind advances, the more certain it seems to me that the path to genuine religiosity does not lie through the fear of life, the fear of death and blind faith but through striving after rational knowledge». [Quanto mais avança a evolução espiritual da Humanidade, mais correcto me parece que o caminho para uma genuína religiosidade não reside no medo da vida, da morte ou na fé cega, mas no esforço de alcançarmos o conhecimento racional]

No livro Contacto, de Carl Sagan, a personagem Eda, físico, diz que teve muitas experiências religiosas, como por exemplo quando compreendeu as leis da Gravidade de Newton, quando compreendeu a Relatividade de Einstein, etc. Tinha tido imensas experiências religiosas, sempre dentro da ciência, e nunca fora da ciência. Como me parece claro, sigo a espiritualidade de Carl Sagan.


A realidade não se compadece com histórias infantis com o objectivo de amedrontar as pessoas, fazendo-as crer que no futuro irão ser julgadas por alguém que está obcecado por essas mesmas pessoas


Entre a espectacularidade que existe no mundo natural, ou o conforto de uma falácia inventada para controlar crianças (assume-se as pessoas como crianças sem responsabilidade individual), como o Pai Natal, ou Deus, prefiro obviamente a beleza da verdade que existe no mundo natural.

Daí que prefiro saber (que é o contrário de acreditar) que os átomos no meu corpo são basicamente iguais aos átomos que existem na mesa onde está o computador em que estou a escrever. Prefiro saber que todos esses átomos, incluindo todos os do meu corpo, já foram parte de estrelas, já fizeram parte da constituição do planeta, já fizeram parte de asteróides, já existiram em nebulosas…

E quando eu morrer, estes meus átomos, constituintes do meu corpo, irão voltar às estrelas, irão espalhar-se pela Lua, por nebulosas planetárias, por galáxias distantes.

Dizendo por outras palavras, prefiro saber (ter conhecimento, que é contrário de «acreditar») que já fui parte de várias estrelas, que os átomos que me constituem já fizeram parte de estrelas e planetas, e que, quando morrer, esse meu ser irá novamente fazer parte de estrelas, planetas, nebulosas, e do Universo no seu todo.

Ou seja, tudo o que existe em mim já esteve espalhado pelo Universo, e para o Universo irá voltar assim que eu morrer (como refere o Vincent no final do filme Gattaca: «For someone who was never meant for this world, I must confess I’m suddenly having a hard time leaving it. Of course, they say every atom in our bodies was once part of a star. Maybe I’m not leaving… maybe I’m going home») [Para alguém que nunca foi feito para este mundo, devo confessar que estou a ter sérias dificuldades em deixá-lo. Claro, eles dizem que cada átomo dos nossos corpos fez, outrora, parte de uma estrela. Talvez não esteja a partir... talvez esteja a voltar para casa]

Eu faço parte do Universo, e o Universo faz parte de mim. Sempre foi assim, continua a ser assim, e assim continuará para toda a eternidade.

Isto não são crenças; isto é a realidade do Universo.

E a realidade é muito mais fantástica do que uma história para crianças.

A realidade não mete medo: é demasiado maravilhosa para meter medo. A realidade não se compadece com histórias infantis com o objectivo de amedrontar as pessoas, fazendo-as crer que no futuro irão ser julgadas por alguém que está obcecado por essas mesmas pessoas.

Pode-se classificar isto como uma espiritualidade num contexto universal/cósmico.

A realidade dos conhecimentos astronómicos (fazemos parte do Universo, e o Universo faz parte de nós) traz uma espiritualidade muito mais abrangente, pacífica, sem medos, e imaginativa, que qualquer religião humana (nenhuma religião, nem nenhuma crença pseudo, alguma vez lhe chegou aos calcanhares).

É neste conhecimento que me baseio. Não é uma questão de acreditar, mas sim de saber. E é neste «Deus» que acredito: no ser humano que através da sua inteligência, racionalidade, e pensamento crítico, irá evoluir para compreender cada vez melhor o Universo que o rodeia.

Há quem chame a isto humanismo secular. Mas eu não gosto do facto de o Humanismo colocar os humanos como o que de mais importante existe no Universo. Como disse anteriormente, sigo o Principio da Mediocridade. Essa é a única gaveta com que me identifico. De resto, a complexidade e a diversidade são a ordem do dia… e ainda bem!

Daí que lhe prefiro chamar: «a filosofia do Carlos», uma filosofia baseada nos conhecimentos de Carl Sagan, que vê a imensidão do Universo por aquilo que é, e que percebe que os humanos são actores insignificantes e temporários no grande esquema das coisas apesar também de compreender que, ao evoluirem, os humanos irão compreender cada vez mais esse palco cósmico.


Ficção Científica e Universos sexy

No seu perfil do AstroPT está escrito que você se licenciou em Ficção Científica. Explique aos leitores do Bitaites o que é ser licenciado em Ficção Científica. Parece-me uma licenciatura fascinante.

C. O. – A minha licenciatura é em Astronomia, Ficção Científica, e Comunicação Científica. Ou seja, a Ficção Científica foi parte dela, mas é uma parte menor, sendo que a Astronomia foi o «bolo» principal das disciplinas, com a componente de comunicação.

Sempre adorei Ficção Científica, e penso que é um complemento precioso para não só entender a humanidade, mas também para esticar os limites da imaginação científica.

Star Trek, por exemplo, era uma série sobretudo sobre os problemas humanos da altura: racismo, sexismo, guerra fria, gays ou direitos humanos. No entanto, também foi a série Star Trek que inspirou jovens para anos mais tarde inventarem portas que se abrem automaticamente, computadores pessoais, telemóveis, motores a iões, etc. Gosto bastante do Contacto, de Carl Sagan, Black Cloud, de Fred Hoyle, Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, de Douglas Adams, e de vários livros do Stanislaw Lem.



A Astrobiologia é tão sexy como se diz?

C. O. – Sim, claro. A vida é sexy. Por isso, a vida no Universo é sexy por todo o lado!


Uma vez que o Homem nunca foi à Lua e a Lua provavelmente ainda é feita de queijo, acha que os Observatórios devem despedir os Astrónomos e substitui-los por cozinheiros?

C. O. – Não. Porque senão os extraterrestres na Lua, morriam.

Passo a explicar: o Observatório da minha Universidade é um dos poucos no mundo que envia feixes de laser para a Lua de modo a constantemente se saber a que distância está a Lua. Pode-se fazer isso, porque as seis missões à Lua deixaram lá instrumentos, como por exemplo, reflectores. Se o Homem não foi à Lua, então não existem reflectores, e o que fazemos no nosso Observatório será então alimentar os ETs porque toda a gente sabe que os ETs na Lua se alimentam de feixes de luz. Os cozinheiros criam a comida, feixes de luz, e os astrónomos enviam-os para a Lua.


Qual é o seu signo? Identifica-se com as características de personalidade que lhe são atribuídas?

C.O. – Leão. Sim, identifico-me completamente com as características de Leão, sobretudo com as características negativas. Curiosamente, como a Astrologia não quer saber da Precessão, quando eu nasci na verdade a constelação era Caranguejo. Ou seja, na realidade, eu nasci sob o signo Caranguejo. E por incrível que pareça, também tenho características desse signo. E ainda mais estranho, também tenho características de Touro e de outros signos que estavam bastante distantes da posição do Sol na altura do meu nascimento.

Claro que isto não tem nada de estranho. Todos temos características de todos os signos, porque na realidade os signos não nos dizem nada sobre nós.

A astrologia continua parada no tempo, no (des)conhecimento de há 2000 anos atrás. Continua a pensar que é o centro do Universo. Como expliquei anteriormente para outros casos, a astrologia sofre também de geocentrismo psicológico.


Trocar um dia de guerra por um mês em Marte

Água em Marte, oceanos subterrâneos em Europa e Enceladus, lagos de metano em Titã, vida baseada em arsénio – dir-se-ia que estamos quase, quase, a fazer a grande descoberta da Astrobiologia. É optimista quanto a esta possibilidade?

C. O. – Uma das minhas características pessoais é ser bastante optimista… para tudo. Por isso, sou optimista também em relação à astrobiologia. No entanto, sou realista em relação à política e à economia. Nós ainda não descobrimos muito mais sobre esses lugares de que falou por motivos económicos (não há maior investimento nesse sentido) e por motivos políticos (não há vontade política para apostar nesse sector).

E, contudo, os gastos económicos de um só dia de guerra no Iraque, por exemplo, dariam perfeitamente para uma missão a Marte…

Existem muitos motivos para se apostar na exploração espacial, mas certamente que os maiores serão para a sobrevivência da humanidade, e para um maior conforto, um melhor nível de vida. Entre um maior conhecimento do Universo, um melhor nível de vida e a sobrevivência da humanidade, ou andar às guerrinhas por uma pequeníssima parte num minúsculo espaço de pó no Universo, o poder político prefere andar a matar outros humanos…

→ 07/06/2010 @10:43

O eurodeputado que quer dar 1500 euros

Rui TavaresO eurodeputado português Rui Tavares vai lançar bolsas de estudo que cobrem várias áreas profissionais. As bolsas vão ser financiadas por ele: Tavares prescindirá de 1500 euros por mês, sensivelmente 1/4 do seu ordenado, para ajudar candidatos a bolsistas.

Quem estiver interessado em candidatar-se, deve pedir informações para este email: bolsas arroba ruitavares ponto net. O regulamento será publicado no blogue do eurodeputado até ao final deste mês.

Nos meses de Julho, Agosto e Setembro será feita a recolha das candidaturas. «Tenciono começar a dar as bolsas a partir de Outubro», revela Rui Tavares em conversa telefónica comigo.

As bolsas não terão limite de idade, critérios de nacionalidade ou restrições temáticas. A verba poderá corresponder a duas bolsas de 750 euros ou a uma de 1500, dependendo do interesse do projecto.

Quem vai avaliar os projectos é o próprio Rui Tavares, embora possa «mostrá-lo a pessoas que trabalham comigo, colegas no Parlamento, solicitar uma opinião no caso em que estiver inserido numa área que não domino».

Para limpar a iniciativa, Tavares ressalva que os candidatos a estas bolsas excluirão gente com quem tenha relações pessoais, funcionários do Parlamento Europeu, Parlamento português e do Bloco de Esquerda (BE), o partido que o elegeu. «Por lapso, as primeiras notícias afirmavam que os militantes do BE estariam excluídos, mas não é verdade, apenas os funcionários o estão», afirma.

1500 euros é muita massa, pelo que das acusações de demagogia barata deve estar safo. Os próximos tempos dir-nos-ão se o jovem eurodeputado (é irrelevante neste caso o partido a que pertence) não será mais uma vítima da forma como o português encara a classe política: por um lado, os políticos são chulos que não fazem nada; por outro, demagogos que só agem para caçar votos.

Eis o que o próprio Rui Tavares tem a dizer sobre o assunto.


«Demagogia? Estou-me nas tintas!»

Está preparado para as acusações de demagogia e o que tem a dizer aos que o acusam de ser uma decisão populista?

Rui Tavares – Não estou preocupado com isso. Já tinha a ideia de o fazer há muito tempo. Era uma promessa a mim próprio, uma espécie de capricho, quando a possibilidade de ser eleito para o Parlamento Europeu era ainda muito remota. Estou-me nas tintas se é vista como uma decisão demagógica ou populista. Tenho uma enorme satisfação pessoal em fazê-lo.

 

Também há quem o acuse de brincar à caridadezinha, como cantava o José Barata Moura.

R.T. – Não. A minha preocupação não é avaliar a pobreza dos candidatos, mas contribuir para que as pessoas concretizem os seus objectivos baseando-me na avaliação que for feita à qualidade dos seus projectos – alguns dos quais, estou certo disso, até eu gostaria de fazer. O que sei é que ficarei muito contente por os ver concretizados.

Existe outra acusação: o facto de eu ter divulgado esta iniciativa, não a ter mantido para mim. Acontece que a divulgação é necessária para que surjam bons projectos. É desejável que associações, instituições e ONG’s saibam. Gostaria que se tornasse um catalisador, levasse mais pessoas a envolver-se. Existiram outras iniciativas que só a mim me dizem respeito, mas neste caso achei que seria positivo divulgar.

 

Tenciona tornar a sua iniciativa num projecto mais abrangente, aberto a todos os que queiram aderir?

R.T. – Dou-lhe um exemplo: o jornal Público, onde escrevo uma crónica semanal, disponibilizou-se a receber na sua redacção um desses bolseiros, caso a área de estudo seja compatível. Seria óptimo que associações ou ONG’s seguissem este exemplo.

 

Durante quanto tempo manterá esta iniciativa?

R.T. – Até ao fim do meu mandato como eurodeputado.

 

Afirma que a verba poderá corresponder a duas bolsas de 750 euros ou a uma de 1500, dependendo do interesse do projecto. É você quem irá avaliar os projectos?

R. T. – Sim, a avaliação é pessoal. Posso mostrar os projectos a pessoas que trabalham comigo, colegas no Parlamento, solicitar uma opinião no caso em que estiver inserido numa área que não domino, mas a avaliação é feita por mim.

 

Já algum colega deputado o abordou dizendo «Agora é que me lixaste, abriste uma caixa de Pandora»?

R. T. – Não, ainda ninguém falou comigo. Os colegas do Bloco de Esquerda que sempre souberam desta iniciativa – Miguel Portas e Marisa Matias – apoiaram-me, acharam uma boa ideia. Por isso, a resposta é não.

 

De 1 a 10, numa escala de insanidade, que valor atribui à sua decisão?

R.T. (risos) – Bem, é uma insanidade bem intencionada, qualitativa. Prefiro não responder com números!

→ 16/04/2006 @20:06

O Benjamim da Fotografia

Os visitantes do Bitaites conhecem-no bem, pois já algumas vezes as suas fotos foram “roubadas” do seu blogue – FotoBen – e expostas aqui.

A história do blogue é simples: desde 1 de Abril de 2005 (ironia do destino: o dia das mentiras) que Benjamim Fonseca e Silva se comprometeu a colocar online uma nova foto todos os dias. O desafio foi-lhe lançado pelo amigo José Nunes, do extinto Contra-Indicado e actual Foram-se os Anéis.

Nem sempre conseguiu cumprir, como explica nesta entrevista, tendo sido obrigado a recorrer ao arquivo para colmatar eventuais falhas.

Benjamim não é apenas um excelente fotógrafo, mas também um gajo porreiro: aceitou responder às perguntas que lhe enviei e ainda se deu ao trabalho de escolher quatro fotografias preferidas entre as centenas que já publicou no FotoBen – uma tarefa quase tão difícil como desencantar uma foto por dia depois de um dia de trabalho e com a família à espera. Mas escolheu – e até aceitou justificar cada uma das opções.

 

Você foi desafiado por José Nunes, do Contra-Indicado, a tirar uma foto por dia para publicar online no FotoBen. Nunca lhe aconteceu estar cansado, sem motivo, ou simplesmente pouco inspirado, e pensar Que se lixe! Hoje não tiro foto nenhuma?

Benjamim Fonseca e Silva – Cansado… Muitas vezes. O trabalho, a família e os problemas do dia-a-dia, tudo misturado, às vezes fica-se cansado. Ficar sem motivo é um dos problemas maiores com que tenho de lidar, até porque não gosto muito de repetir fotos de locais ou temas, tento diversificar o mais possível, o que torna o desafio do José Nunes mais difícil. Convém lembrar que o desafio dele não é só uma foto por dia, tem mais umas regras que fazem com que seja difícil ficar desinspirado e criaram em mim uma capacidade de visualização muito mais apurada. O FotoBen foi como um despertar e todos os dias ficava curioso por ver o que conseguia fazer.

Quais eram as regras adicionais?
B. F. S. – Eram as seguintes: durante um ano colocar todos os dias uma foto; o que fotografo hoje é colocado no blogue no dia seguinte; e a foto tem que ser na horizontal (esta regra quebrei-a algumas vezes).

Considera que o compromisso de mostrar uma foto por dia – ainda por cima ocupado com a sua empresa – se pode reflectir negativamente na qualidade final da fotografia? Qual é o segredo? Tira muitas fotos num dia e guarda-as para as mostrar diariamente? A gestão do blogue é feita assim?

B. F. S. – Claro que sim. É muito difícil manter sempre um nível elevado de qualidade. Quem segue o FotoBen com mais atenção facilmente se apercebe quando estou com mais trabalho ou de mau humor. Mas não há segredos. Tenho sempre cerca de 15 fotos em arquivo, o que me permite estar fora uns dias. Por exemplo, tive de ir ao Porto em trabalho durante uns dias e como não tinha acesso à net tive que usar fotos feitas noutros dias.

Olhando para a data em que a primeira foto foi publicada – 1 de Abril de 2005 – considera que o percurso fotográfico do blogue é também a história da sua evolução como fotógrafo?

B. F. S. – Não, de maneira nenhuma. O que o FotoBen fez por mim foi algo muito melhor. Repare que quando tento ser criativo com os trabalhos que executo para os meus clientes, a maioria das vezes, senão sempre, dizem que isso não interessa, eles querem o que idealizaram no papel e a mim só me compete fazer o que me pedem. O FotoBen permite fazer o que eu gosto sem ter alguém a dizer que é melhor assim ou assado.

Os prédios são o seu objecto fotográfico preferido, que procura captar com grande cuidado ao nível da técnica e do enquadramento. Quais são as suas preocupações quando fotografa pessoas, por exemplo?

B. F. S. – Sei lá… Não tenho jeito nenhum para fotografar pessoas. Por norma, vejo se a luz é boa e a situação e o local em que a pessoa está é propícia a uma boa foto… E é só isso, mais nada!

Quais são os seus fotógrafos preferidos? E porquê?

B. F. S. – Julgo que não tenho nenhum assim tipo o fotógrafo x é muito bom porque domina o preto e branco melhor que ninguém ou o outro que anda nos sítios piores do mundo a fotografar os desgraçados da guerra. Talvez o Wynn Bullock por se ter iniciado na fotografia com 40 anos e ter trabalhado com o Edward Weston e o Ansel Adams. Por outro lado, gosto muito de ver as fotos do Alex Majoli que, actualmente, trabalha com 4 ou 5 câmaras Olympus C-8080 ao pescoço e ganha prémios de melhor fotógrafo de reportagem.

 

Quatro fotos comentadas pelo próprio

Um dia de muito calor, a falta de água pelo país todo. No Cais do Sodré um cano roto parecia não incomodar ninguém. Passei por ele preocupado com as fotos que tinha que fazer e pouca importância lhe dei – só mais tarde, já no Saldanha, me lembrei que aquela água no chão podia dar uma boa foto. Voltei ao local na esperança de que o cano ainda estivesse por remendar, dei umas voltas ao local na busca de uma boa luz e clique, já tenho a foto do dia. Link

Esta foi a primeira foto do género que tirei – e numa noite de muito frio! Nunca a teria feito se não fosse o FotoBen, pois ainda não tinha fotografado nada nesse dia e já queria estar na cama a dormir. Estive quase para não pôr nada no blogue e só a muito custo é que a fiz. Link

O meu filho, o sorriso, o movimento, a felicidade e, no fundo, o chão cheio de pastilhas. Link

Por vezes há locais que sabemos que dão uma boa foto só que não sabemos onde… E eu sabia que tinha uma foto boa aqui, só que levei alguns dias a descobrir o ângulo certo, depois foi necessário mais uns dias até ter a pessoa e a luz no local certo, o resultado final fez com que me sentisse realizado. Link

→ 11/04/2005 @12:10

A Trezentos à hora

Paulo Trezentos, 28, é casado e pai de um rapaz de quatro anos. Dá aulas de Arquitecturas de Computadores e Sistemas Operativos no ISCTE, é investigador na ADETTI, um centro de investigação do ISCTE, é o Director-Técnico da distribuição portuguesa de Linux, a Caixa Mágica, fundou o GUL (Grupo de Utilizadores de Linux) e o Poli (Projecto Português de Documentação de Linux), iniciou ou colabora em dezenas de outros projectos e escreve regularmente artigos e livros de divulgação destinados ao utilizador comum. Não há dúvida de que o apelido Trezentos lhe assenta que nem uma luva: fica-se com a ideia de que só vivendo os dias a trezentos à hora o homem consegue ter tempo para tudo.

 

Você é o rosto mais conhecido de uma equipa de portugueses que criou uma distribuição Linux chamada Caixa Mágica. A televisão, em tempos, foi vista como a “caixa mágica” que seria capaz de revolucionar o mundo. O modelo de negócio do Software Livre tem o poder de revolucionar o mercado português? Ou procura-se antes uma contra-revolução?

Geralmente, as revoluções não são sentidas como tal quando estão a acontecer. Com a ajuda do tempo, é que os homens tendem a chamar de revolução a uma determinada alteração do regime vigente. O Software Livre/Aberto (SL/A) é hoje um modelo legal e técnico de desenvolver software que varia do modelo clássico ou proprietário. O negócio passa a estar na prestação de serviços e na formação e não no pagamento de licenças. Surgiu naturalmente e tem-se imposto em países com os Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha de forma natural e suave. Tem vindo a crescer porque serve as necessidades de quem procura soluções informáticas (o cliente) e serve quem oferece essas mesmas soluções (o fornecedor). Como é bom para ambos, funciona como bola de neve que vai integrando cada vez mais elementos sem disrupção da realidade existente. Não está a acontecer de forma brusca, violenta ou fundamentalista. O mercado português é muito conservador. Tem pouca mobilidade e não se move ao ritmo de economias mais dinâmicas. Assim, a mudança está acontecer de forma mais lenta do que noutros países mas também cá de forma irreversível.

 

O Linux Caixa Mágica é oficialmente lançado a 14 de Abril, durante o evento Linux 2005. Só a própria ideia da existência de uma distribuição portuguesa de Software Livre é louvável mas, quanto à implementação dessa ideia, há quem afirme que a CM, em relação a outras distribuições, está sempre um passo atrás. Considera a crítica válida, justa? Quer rebatê-la?

Em cinco anos de desenvolvimento já ouvimos bastantes críticas e todas elas úteis. Algumas verdadeiras, outras nem tanto. Mas todas serviram para perceber o que é que os utilizadores de Linux e Windows gostariam de ter no seu desktop. A base tecnológica da Caixa Mágica 10 – inteiramente desenvolvida em Portugal – não fica aquém de outras distribuições. As versões anteriores foram sendo progressivamente melhoradas e considero que esta versão chegou a um estado de maturidade tecnológica muito interessante. Sendo concreto: é fácil instalar pacotes, é fácil configurar hardware, o desktop está bem cuidado, etc… Nos laboratórios testamos sempre seis a sete distribuições para saber o que de melhor se faz em cada uma. O nosso mérito é seleccionar a melhor de cada uma, acrescentar a nossa parte e disponibilizá-la ao utilizador. A versão Desktop 10 é uma alternativa viável para o desktop, da mesma forma que acreditamos que quando a versão Servidor 10 for lançada, em Julho, irá revelar-se uma mais-valia para muitas organizações.

 

Na fase de desenvolvimento do Caixa Máxica, não será tremendamente complicado a uma pessoa na sua posição tentar perceber como tornar as operações mais user-friendly? E nesse sentido – apenas nesse sentido – não será o Windows uma fonte inspiradora?

Em 2000 e 2001 for difícil mas agora acaba por não o ser. Existe um conjunto de pessoas na equipa da Caixa Mágica que tem uma especial sensibilidade para a questão de tornar um sistema “user-friendly”. Questões tão simples como: “Se receber um mail com um PDF em attach, será que consigo abrir com um duplo clique?” Esse é o tipo de frustrações a que não queremos que os utilizadores da Caixa Mágica sejam sujeitos. Assim, a integração do software, bindings, localização de links e organização/selecção do software é hoje claro para nós como deve ser feita. Podem haver alguns contra-tempos de suporte de hardware mas em geral o sistema deve funcionar como o utilizador espere que funcione. O Windows é uma fonte inspiradora mas não é a única. Como já disse, as outras distribuições são analisadas ao detalhe. Fazemos grelhas com o que cada uma tem e não tem. Ao Windows vamos absorver alguns dos conceitos de utilização de software. Até para que a migração para Linux não seja muito brusca.

Paulo TrezentosO meu apelido vem do tempo das guerras napoleónicas em que um ascendente nosso era o soldado número 300. E assim ficou. Penso que ainda existe uma fotografia desse primeiro Trezentos

 

No documento que escreveu a 28 de Agosto do ano passado – “As 11 máximas do Software Livre” – você começa por dizer: “O Software Livre é um modelo de desenvolvimento, não uma religião”. Preocupa-o assim tanto o fundamentalismo de alguns utilizadores do Linux a ponto de colocar essa máxima logo em primeiro lugar? Considera-o prejudicial a quem aposta no Software Livre como modelo de negócio?

O movimento SL/A em Portugal tem duas pessoas que reflectem muito bem as sensibilidades de cada um dos grupos que forma a comunidade num sentido vasto, num sentido de comunidades virtuais de Castells. Um desses opinion-makers representa a comunidade que se revê na face ideológica liderada por Richard Stallman, no software filosoficamente “Livre”. Outro reflecte a face pragmática do SL/A e revê-se na OSI (Open Source Initiative) mais associada aos modelos de negócio. Ou seja, no software “Aberto”.

Um destes dias começaram numa mailing list pública a alimentar uma polémica um contra o outro sobre uma questão menor. Enviei-lhes um email e começámos os três a trocar algumas ideias. Rapidamente chegámos a um denominador comum: todos queremos que o SL/A tenha sucesso mas encaramo-lo de diferentes maneiras. Não me choca que alguns vejam o SL/A como um novo Maio de 69, ou seja, uma maneira de reformar a sociedade, e outros o vejam como um negócio como qualquer outro. O que é importante é não ser fundamentalista e compreender as razões de quem está do mesmo lado da barricada. Mesmo que não sejam as suas. É como estar num barco de náufragos em direcção a uma ilha. Um pode ver a ilha como um refúgio de valores e outro como a melhor maneira de ter sucesso material através da exportação de madeiras exóticas. Mas ambos têm de remar na mesma direcção ou nenhum chegará à ilha.

 

Provavelmente já deve ter ouvido muitas piadinhas e trocadilhos com o seu apelido. Importa-se de explicar de onde vem esse apelido tão pouco habitual, “Trezentos”?

Já ouvi todo o tipo de trocadilhos e adoro-os. Mas a razão do nome é original. Até aos 20 anos desconhecia de onde vinha. O meu pai já se chamava assim, o meu avô também, o meu bisavô também e assim por diante. Como em todas as famílias. Nessa altura fui a um programa do Herman José como concorrente, ele fez-me a mesma pergunta e eu respondi que não sabia de onde vinha o nome. À noite tive uma chamada de uma tia minha da zona de Ourém a explicar que vinha do tempo das guerras napoleónicas em que um ascendente nosso era o soldado número 300. E assim ficou. Penso que ainda existe uma fotografia desse primeiro Trezentos. Também já tenho um Trezentinhos com 4 anos e os meus primos vários, pelo que acho que vão ter de nos aguentar pelo menos mais uma geração.

 

Você tem uma faceta mais desconhecida, um hobby no qual se sai até bastante bem: a fotografia. De onde vem esse gosto? Ou é apenas uma forma de aliviar o stress?

A fotografia é um gosto antigo que fui alimentando em banho-maria. Apanhar a realidade através da objectiva da máquina torna-se uma necessidade de capturar um momento. Com um sentido estético que é o nosso e que não tem necessariamente que corresponder ao do outros. Ao contrário de outras áreas em que gosto de me sentir eficiente, na fotografia não me preocupa se o que estou a fazer é bom ou não. Basta sentir-me bem com o resultado. Gosto muito de fazer revelação a preto-e-branco em casa mas o tempo já começa a ser curto.

 

Você é tido como uma pessoa essencialmente sensata. Alguns chegam a afirmar que, devido à sua postura dialogante e pouco beligerante, tem um excelente perfil para um ministério das Tecnologias. Outros dizem que não, que será mesmo Ministro das Tecnologias, é só uma questão de tempo. Provocação dos amigos a uma pessoa que já escreveu que “Software Livre não é de Esquerda ou Direita, de partido X ou Y?”

É provocação mas não deixo de interpretar como um elogio. A nossa geração começa a perceber que não basta ter bons engenheiros, não basta ter bons médicos ou bons arquitectos. Precisa de ter bons políticos que saibam indicar para onde o barco vai. Qual o caminho para a ilha. Existem bons políticos em Portugal e a tendência é melhorarem. Como diria um amigo meu: “a geração pós-25 de Abril é uma grande colheita”.

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