O mundo dos geeks. Computadores, Brinquedos, Wallpapers, Internet, Publicidades, Blogues

→ 12/02/2012 @21:37

Robôs a tocar Marilyn Manson

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(EOL Robot Band a tocar The Beautiful People, dos Marilyn Manson. Obrigado ao Victor pela dica)

→ 09/02/2012 @23:58

A atriz de Hollywood que nos deu o telemóvel

Em 1933 aparece nua e tem um orgasmo. Esta é uma época em que falar abertamente de sexo num filme mainstream é impensável, quanto mais representá-lo.

No mesmo ano casa com um marido possessivo e controlador que mantém negócios com Hitler e outros altos oficiais nazis. Foge para Paris, daí voa para os Estados Unidos.

Na década de 40 patenteia o sistema de espalhamento espectral que formará a base da tecnologia usada em telemóveis e routers wireless, entre muitas outras aplicações.

Até meados da década de 40 é considerada uma das grandes atrizes de Hollywood, embora seja vista como pessoa demasiado independente e de temperamento difícil.

A Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) vende-a como a mulher mais bela do mundo.

Walt Disney inspira-se nela para desenhar Branca de Neve. Muitos anos depois, a Corel faz do seu rosto a imagem de marca do software CorelDraw.

Nasce a 9 de Novembro de 1914, em Viena. Dão-lhe o nome de Hedwig Kiesler, mas nos Estados Unidos ressurge como Hedy Lemarr. Assim é apresentada à América. Nos dez anos seguintes, reina na mecca do Cinema como «uma diva de mármore frio», segundo a própria. Tão cedo Hollywood conhecerá mulher tão inteligente e peculiar.

Segue-se uma breve história dos seus feitos, tumultos e contradições.

 

Em êxtase

Hitler saudado por apoiantes em Berlim

1933. O ano da derradeira ascenção dos nacionais-socialistas ao poder na Alemanha. Enquanto Hitler presta juramento como chanceler na Câmara do Reichstag, uma jovem aspirante a atriz aceita participar numa produção arriscada para lançar a carreira.

Hitler desfila pelas ruas de uma Alemanha falida e deprimida em paradas gloriosas e cheias de orgulho nacionalista.

Em breve, todos os partidos políticos são proibidos, exceto o nazi. Em breve, a ocupação militar das zonas desmilitarizadas da Alemanha, a anexação da Áustria e da Checoslováquia, a invasão da Polónia, a guerra mundial e os milhões de mortos.

Lemarr é ainda Hedwig Eva Maria Kiesler, filha de judeus convertidos ao Catolicismo. O pai é um banqueiro austríaco bem sucedido. A mãe é uma pianista húngara, razoavelmente liberal para os padrões da época e culturalmente evoluída.

Depois de uma passagem por uma escola de teatro em Viena, a  ambiciosa Hedwig frequenta em Berlim as aulas do realizador Max Reinhardt, para quem vem a trabalhar como assistente de direção e atriz secundária em dois dos seus filmes.

Os dois papéis não deixam grandes recordações entre os cinéfilos.

 

Um orgasmo para a história

À «mulher mais bonita da Europa», como já lhe chama um babado Reinhardt, é então proposto o papel principal no filme do realizador, ator e argumentista checoslovaco Gustav Machatý, «Ecstasy».

Hedwig tem 19 anos e o mundo a seus pés, se aceitar despir-se.

Vai fazer de jovem mulher insatisfeita com o marido, um sujeito mais velho e sem grande apetência para os assuntos da cama. Ela acaba por conhecer um homem mais novo e descobrir o sexo.

É uma história típica sobre a perda da inocência, mas a ausência de julgamentos moralistas sobre a liberdade sexual feminina  e a independência conquistada pela mulher torna-o num filme único.

«Ecstasy» entra para a história como o primeiro filme não-pornográfico a incluir abertamente cenas de sexo.

Apenas se usam grandes planos dos rostos, mas o da bela Hedwig – gozando um orgasmo – mostra expressões suficientemente explícitas para provocar escândalo e ser censurado em muitos países, incluindo os Estados Unidos. E também para a tornar famosa. Ler mais »

→ 31/01/2012 @4:52

Clube do Bolinha. Menina não entra

Era desta forma que o Bolinha exprimia a sua vontade de manter a Luluzinha longe do seu reduto. Seu e dos outros rapazes do grupo.

A Luluzinha era uma menina bem esperta e cheia de truques e raras eram as vezes em que não conseguia furar o esquema do Bolinha. Quando isso acontecia, a solução mais óbvia era o Bolinha mudar-se de armas e bagagens para outro clube onde invariavelmente estaria à porta o célebre «Menina não entra».

Era óbvia a tensão amorosa entre os dois. Apesar de estarem em permanente conflito todos sabíamos que no fundo a Lulu gostava do Bolinha e o inverso era também verdadeiro

Esta era uma história aos quadradinhos da minha infância, mas também é a história dos fluxos migratórios de grupos tão pequenos como os que encontramos num canal de chat, até outros de dimensões maiores, como punhado e meio de hackers de elite ou geeks esclarecidos.

O sentimento de pertença, ainda que alicerçado em coisas muito diferentes – ética e filosofia, valores ou gostos musicais – escolhe sempre uma representação física, um lugar físico ou virtual para os seus encontros. No chat era o IRC da rede X; para os geeks, há uns anos, era o Twitter, para os maçons as suas lojas. No Clube do Bolinha era o casebre de madeira (re)construído e relocalizado tantas vezes quantas as invasões das meninas.

 

Em 2012, o novo Clube do Bolinha é mais global e chama-se Internet.

Luluzinhas há muitas. São políticos ou corporações, associações ou lobbies.

As armas são diversas mas continuam a ser inteligentes como a Luluzinha. Agora chamam-se SOPA, ACTA, PIPA, PL118, SINDE.

O Bolinha estava quieto no seu clube. A Luluzinha não entrava mas queria entrar. Ela precisava do clube do Bolinha e, na realidade, o Bolinha precisava da Lulu. Da mesma forma que os políticos e corporações precisam da Internet. Os mesmos que há poucos anos olhavam com o desdém da moda passageira «as internetes», perceberam que estava ali um meio direto e barato de se darem a conhecer. A si e aos seus produtos. Músicos, partidos, empresários abriram as portas do clube exclusivo do Bolinha.

No princípio o Bolinha gostou. Viu o seu clube ser reconhecido universalmente e foi ingénuo. Atrás deles vieram as regras e os regulamentos, as penas e as polícias e, com os polícias, os ladrões.

 

Quem deve pagar pelos benefícios da Internet são as editoras.

A mesma Internet que esta invasão de regras pretende ordenar é aquela que serve para promover artistas com custos irrisórios de divulgação e, sobretudo, de distribuição.

Há poucos anos um artista dependia de uma grande editora que fizesse lobby junto das rádios, televisões e revistas, publicasse notícias, posters e anúncios. E antes era preciso gravar a música. O acesso a um estúdio de gravação era um sonho apenas ao alcance das editoras estabelecidas. E depois era preciso produzir o vinil ou o CD. Fábricas com máquinas caríssimas a debitar plástico enlatado para as lojas.

A Internet trouxe a divulgação da obra à distância de um clique. A venda do produto à distância de outro. A promoção à custa de páginas de bandas muitas vezes geridas gratuitamente pelos próprios fãs. Não me lembro de ver os internautas a pedir uma remuneração por tantas facilidades e benesses oferecidas à indústria.

 

O Bolinha deixou a menina entrar e agora luta para se manter vivo.

Se calhar é tarde demais. Se calhar a Internet que conhecemos vai ser entregue às corporações, lobbies e políticos. Se calhar, o Bolinha vai emigrar e construir um clube novo onde menina não entra. Uma Internet renovada, um Grande Cisma.

 

Começar de novo.

Há tanta forma de o fazer. Parece tarefa impossível, não parece? Puro engano. Por estranho que pareça, é hoje possível construir este espaço sobre o mesmo terreno onde vive a Internet atual. É possível comunicar usando os mesmos canais físicos e virtualizar uma Internet totalmente nova recorrendo à computação e storage distribuídos, algoritmos de cifra de informação, etc, etc.

Não sei como irá acontecer, mas sei que irá acontecer. Afinal de contas, a Internet quando surgiu também foi construída sobre os meios de comunicação regulados existentes. Era um clube do Bolinha: a ARPANet. O Bolinha chamava-se então «militares» e depois «universitários».

O ciclo de construção, regulação e destruição é tema recorrente da filosofia por ser inerente ao processo humano. É mais forte do que nós, diria.

Fico a pensar que iremos voltar a falar disto em breve.

→ 21/01/2012 @4:07

Conferência TED sobre a legislação SOPA/PIPA

Esta conferência TED dada pelo escritor e professor universitário Clay Shirky, colunista do New York Times, Wall Street Journal e Wired, entre outros, é elucidativa quanto aos objetivos da legislação SOPA/PIPA e das indústrias que a pagaram.

Shirky é um analista muitíssimo respeitado e escreve sobre as repercussões sociais e económicas da Internet há pelo menos 16 anos. Como é normal, também ele se opõe à domesticação da rede e do papel que o cartel do entretenimento reserva aos utilizadores: o de meros consumidores passivos.

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A palestra de Shirky é informal, muito informativa e deliciosamente panorâmica – acreditem, vale 13 minutos do vosso tempo. Estamos longe de chegar ao fim desta história. (No sítio TED: o mesmo vídeo, mas com legendas em inglês.)

→ 18/01/2012 @6:22

SOPA? Não, obrigado. Libertem o Justin Bieber

É uma batalha pela liberdade de expressão na Internet, dizem as empresas de tecnologia lideradas pela Google e Facebook. Não, respondem as indústrias do entretenimento apoiantes do Stop Online Piracy Act (SOPA): é uma luta contra os piratas e pela proteção da propriedade intelectual. Hoje a Net faz greve. Ninguém parece querer provar esta SOPA.

Imagine a seguinte situação: você acha que os seus dotes vocais são demasiado impressionantes para serem desperdiçados na banheira e decide partilhar com o mundo o seu talento. Como sucede com muitas outras pessoas, grava um vídeo interpretando a sua canção preferida e envia-o para o YouTube para que milhares de utilizadores o possam escolher como potencial ídolo.

Foi a cantar covers no YouTube que Justin Bieber começou a ser conhecido, por exemplo. E é por isso que uma das frases mais famosas dos ativistas anti-SOPA é «libertem Justin Bieber».

Numa Internet imersa na «SOPA» legislativa apoiada pelos representantes das grandes indústrias do entretenimento, passar do banheiro para o YouTube seria uma ação criminosa com direito a até cinco anos de prisão, se este hipotético novo Justin Bieber persistisse no incumprimento.

Em última análise, também poderia levar ao encerramento do próprio YouTube, caso este não cedesse às exigências do detentor do copyright e se recusasse a apagar o vídeo.

Imagine uma outra situação: você tem um blogue no SAPO. Não o abriu para fazer dinheiro ou partilhar conteúdo protegido por direitos de autor, mas porque adora partilhar as suas ideias e vivências com outras pessoas. Como é um bom comunicador e ajeita-se a escrever, o pequeno blogue começa gradualmente a receber visitas e comentários.

Numa Internet portuguesa imersa numa «SOPA» legislativa com os mesmos condimentos da que está a ser provada nos Estados Unidos, poderiam fechar-lhe o blogue de um dia para o outro: bastaria que um visitante colocasse na zona de comentários, sem você se aperceber, um link para um site pirata.

Em última análise, por absurdo que pareça, um único link poderia conduzir ao encerramento do próprio serviço de blogues do SAPO, caso este se recusasse a ceder às exigências do detentor de copyright do material pirateado.

 

Um novo 404

Estas são duas das possíveis consequências práticas apontadas pelos que combatem esta legislação. Gigantes da web como a Google ou fundações online como a Wikimedia e a Mozilla, responsável pelo browser Firefox, consideram que situações semelhantes poderão mesmo vir a suceder, caso os projetos de lei Stop Online Piracy Act, mais conhecido pelo acrónimo SOPA, e o Protect IP Act (PIPA), sejam aprovados pelo Senado americano.

Numa atitude sem precedentes, várias empresas – Google, Yahoo!, YouTube, Facebook, Twitter, AOL, LinkedIn, eBay, Mozilla, Reddit, a Wikimedia, entre outras – formaram uma aliança temporária para combater o SOPA e programaram para hoje, 18 de Janeiro, várias ações de protesto e pressão sobre os senadores americanos.

A Wikimedia manterá até à meia-noite a versão em língua inglesa da Wikipedia encerrada; a Google, «em nome do combate à censura», levará a sua oposição à página principal americana do seu motor de busca. Fala-se num blackout completo para o futuro, um desligar da Net que seria para os internautas um acontecimento tão inusitado como um dia de calor tropical para um esquimó.

A web americana está em greve e apela à solidariedade dos internautas de todo o mundo, lembrando-os de que a vitória do SOPA irá gerar clones legislativos em todo o lado – outro acontecimento que ficará na História da Internet, a greve e a repressão da Web à escala mundial. Até a Microsoft, signatária do consórcio anti-pirataria Business Software Aliance, não apoia esta legislação.

 

A guerra das entrelinhas

O SOPA não foi concebido para encerrar sites como o YouTube, mas para controlá-los através do poder de dissuasão – é uma espécie de filosofia de Máquina do Fim do Mundo dos tempos da Guerra Fria, mas aplicada ao campo de batalha do online; ao mesmo tempo, o SOPA procura dar aos Estados Unidos mecanismos legais de proteção contra o roubo da propriedade intelectual, incluindo o derrube de sites piratas e serviços na Web que estejam a infringir as leis do copyright.

Este mecanismo de proteção, por mais bem intencionado que seja, poderá ser eficaz no mundo do offline, mas na Internet atual é arcaico e perigoso, e revoltante quando exercido sobre o utilizador comum.

A Internet não foi concebida para funcionar a partir de um ponto de controlo localizado a partir de um centro absoluto. Não existe «um centro» na Internet. Tal como o Universo, a Internet é uma rede interligada em constante expansão, com múltiplos centros, órbitas e gravidades; cada um de nós é, simultaneamente, emissor e recetor de informação.

A chegada dos blogues e de redes sociais como o Facebook ou Twitter, que naturalmente também estão contra o SOPA, veio aumentar de forma exponencial esta dinâmica de descoberta e partilha, tornando quase impossível localizar a origem do material partilhado.

As empresas tecnológicas – lideradas pela Google – possuem modelos de negócio que assentam na incrível dinâmica que tanto aterroriza as velhas indústrias do entretenimento: os links do Google valem dinheiro e são o zapping das novas gerações; o YouTube é uma televisão particular que fornece aos espectadores a possibilidade de criar a sua própria programação e canais.

As indústrias do entretenimento conhecem bem esta realidade mas não a aceitam, pois desfavorece o seu modelo de negócio sustentado numa programação centralizada. Na ausência de um centro natural de controlo, querem estabelecer-se como uma espécie de sincronizador central. O SOPA é visto pelas empresas online como o mecanismo de repressão com o qual há muito tempo as indústrias sonham. Sob proteção legal, poderão aplicar em pleno a agressividade na caça ao emissor.

 

O Império contra-ataca

O exercício livre do poder de policiamento sobre a Internet implica que outros questionem a forma como esse poder poderá ser exercido, antecipando abusos.

O senador republicano que redigiu o Stop Online Piracy Act, Lamar Smith, já veio a público criticar as empresas que aderiram à «greve», dizendo que se trata apenas de um «golpe publicitário». «Esta lei não prejudicará a Wikipedia, os blogues pessoais ou as redes sociais. Os mentores deste protesto estão a prestar um mau serviço aos utilizadores, pois escolheram promover o medo e não os factos».

O problema nem está tanto no medo, mas precisamente nos factos.

Atentem no seguinte facto, muito recente: uma mãe gravou as gracinhas do seu filho de 18 meses. A criança pulava e gargalhava ao som de uma canção de Prince, representado pela Universal Music Group.

Esta mãe resolveu partilhar o momento e colocou no YouTube um vídeo de 29 segundos para que família e amigos mais chegados pudessem ver como é tão querido o seu bebé. Poucos dias depois, recebeu um aviso do YouTube afirmando que o vídeo teria de ser removido devido a uma queixa da Universal por uso não-autorizado do material e consequente violação dos direitos de autor.

Este não é o cenário hipotético imaginado pelos opositores do SOPA, mas um caso verídico de abuso de poder com os meios de controlo que atualmente as indústrias do entretenimento já dispõem. A mãe, temerosa mas revoltada, pediu ajuda à Electronic Frontier Foundation e contra-atacou, colocando a Universal em tribunal. Entretanto, o YouTube repôs o vídeo ofensivo.

Esta história ainda aguarda o seu desfecho mas a Universal não espera que o final seja demasiado hollywoodesco: o mais pequeno irá, inevitavelmente, perder.

 

Disparar primeiro, perguntar depois

Não se pode esperar sensatez ou sensibilidade nas ações policiais da MPAA ou RIAA, mas apenas o rugir de um predador cego, disposto a tudo para proteger o território do copyright, que é onde o dinheiro, e não a cultura ou a Humanidade, floresce. É como se os legisladores do SOPA quisessem obrigar o planeta Terra a ser plano outra vez.

Deste modo, é difícil ao internauta não desconfiar das boas intenções dos legisladores quando até uma dança de 29 segundos de um bebé pode dar origem a violações de copyright. E é quase impossível não evocar palavras tão caras como «censura» ou «liberdade».

Existem também problemas técnicos que podem colocar em causa a segurança e estabilidade da rede como, por exemplo, a possibilidade de mandar abaixo servidores DNS (Domain Name Servers). E apenas por suspeita.

O velho Oeste está de volta: os justiceiros do copyright desejam fazer da Net o seu saloon e procuram, em nome da justiça, proteção da propriedade intelectual e salvação dos empregos, aplicar a velha política de «disparar primeiro, perguntar depois». Mas serão os direitos de autor mais importantes que os direitos humanos?

E depois existe um conflito de gerações. De um lado, estão aqueles que a geração web vê como velhos do Restelo; do outro, os filhos pródigos de Tim Berners-Lee, o físico britânico a quem é atribuída a paternidade da World Wide Web e de alguns dos seus pressupostos filosóficos.

Aumentar a repressão e o poder de dissuasão sobre as empresas levará a que estas, para lutar pela sobrevivência, sejam forçadas a policiar e censurar os próprios utilizadores, aniquilando a própria essência da Internet: a rede é de todos, não é de ninguém; não obstante os seus defeitos e limitações, é um meio de partilha e de troca de informação como nenhum outro. A Internet é a pulsação da Humanidade e à Humanidade pertence.

 

SOPA azeda

A Net faz greve e preocupa-se, mas também rejubila: o SOPA está nos cuidados intensivos, não vai recuperar.

A euforia deve-se ao facto de o presidente norte-americano Barack Obama ter comunicado que não aceitaria uma legislação que colocasse em causa a liberdade de expressão dos cidadãos. Esta declaração, sustentam os mais otimistas, terá sido suficiente para estragar os planos dos lóbi do entretenimento. Yes, we can?

O senador Lamar não desanimou com a posição da Casa Branca e garantiu que aproveitará este «ponto-morto» na discussão na Câmara dos Representantes para aprofundar a lei, prometendo dedicar-lhe toda a sua atenção e dedicação. I’ll be back?

→ 17/01/2012 @5:12

Deixai que venham a mim as copiazinhas

Teria sido preferível que as delicadas mãozinhas de Gabriela Canavilhas nunca tivessem largado o piano. Recordá-la-ia apenas como a excelente intérprete das sonatas de um compositor português que dificilmente teria conhecido se não fosse a Internet, João Domingos Bomtempo.

(Obrigado, Internet, por fazeres mais pela minha cultura em duas horas do que o marketing das editoras discográficas fizeram em décadas)

A ex-ministra da Cultura optou também por assinar um projeto de lei que visa garantir, à custa do bolso dos consumidores e de uma grosseira ignorância tecnológica, a sobrevivência económica dos lobbis do copyright.

Gabriela Canavilhas (Foto: Lusa, autor não identificado)

É como se Canavilhas tivesse usado o piano de Domingos Bomtempo para acompanhar um coro da Sociedade Portuguesa de Autores cantando a besta célere de Michel Teló: Nossa, nossa / Assim você me mata / Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego / Delícia, delícia / Assim você me mata / Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego.

Ai se eu te pego é uma canção adequada para acompanhar o plano estratégico da Sociedade Portuguesa de Autores porque a SPA, com a ajuda de Canavilhas e dos outros políticos, quer pegar tudo o que conseguir: quer pegar o pirata, em nome da cultura e dos autores, claro, mas também quer pegar mais dinheiro dos consumidores, das empresas tecnológicas, dos próprios ISP, em última análise, de tudo o que se mexa na Internet.

Infelizmente, receio que só quando se lembrarem de taxar as transações nas quintinhas do Farmville no Facebook é que alguma malta vai acordar para o que está em preparação no Parlamento.

Não tenho qualquer ilusão: a justificação da pirataria é apenas uma forma de hipotecar a consciência das pessoas e levá-las a apoiar, em nome de uma ética, um projeto de lei que visa a extorsão do consumidor.

E se algum fanático do copyright defender que não se trata de extorsão, mas de «justa compensação», então estará a ser ignorante ou fazer do consumidor um ignorante.

 

Ai ai ai se eu te pego, pirata

O documento «Uma visão de futuro em defesa dos autores e da Cultura – Programa SPA 2011-2015» é, na sua essência, um manifesto através do qual se discutem as melhores possibilidades de obter receitas miminizando, às nossas custas, um resultado líquido negativo de quase 9 milhões de euros, contas de 2010.

«São duas as vias que nos propomos concretizar, com vista ao aumento da taxa de cobrança efectiva: aumentar de forma sustentada e gradual os preços e tabelas de cobrança, numa dinâmica de convergência com os países da UE; alargar a base de mercado da SPA, aumentando o número de usuários a cobrar».

A SPA considera, por isso, que áreas como a «Cópia Privada, Reprografia, Direito de Sequência, Exploração Digital são também decisivas para o crescimento das receitas da SPA e serão objecto de acompanhamento especial».

Pretende também a SPA analisar a possibilidade de lançar «uma taxa de cobrança sobre os ISP como forma de ressarcir os autores do prejuízo causado pelo download ilegal». A SPA não especifica, contudo, como conseguirá determinar quais os prejuízos causados pela pirataria.

Não pode provar inequivocamente uma ligação direta entre a pirataria e os prejuízos porque não está em condições de poder garantir que, impedido de sacar um CD na Net, o «pirata» irá correr às lojas comprá-lo. A pirataria não é apenas uma atividade considerada ilegal, é também um fenómeno sócio-cultural que não pode ser reduzido às contas de subtração feita pelos contabilistas da Cultura.

Esta lógica de merceeiro cartomante está presente na proposta de lei do PS assinada por Canavilhas, pois também pressupõe que todos aqueles que comprarem dispositivos de armazenamento irão guardar dados protegidos por direitos de autor. A SPA vive no passado, vê o presente escapar-lhe, por ignorância e ganância, mas sustenta a sua estratégia numa capacidade extra-sensorial de prever o que se passará na cabeça das pessoas no futuro. Nem a astróloga Maya se atreveria a tanto.

E acrescenta, no mesmo documento – provavelmente inspirada na Lei Sinde ou na SOPA apoiada pelos mafiosos das indústrias da Cultura -, «o lançamento da fiscalização online será essencial para as utilizações e transacções de conteúdos autorais representados pela SPA».

 

Com os políticos, corre sempre tudo sobre rodas

A iliteracia funcional da classe política não cessa de me surpreender. Se ao menos os políticos fizessem os TPC… Perante uma lei que irá obrigar tantas pessoas e empresas a gastar mais dinheiro em tempo de grave crise económica, seria de esperar que os políticos tentassem perceber as vicissitudes desta área da Internet e das tecnologias, em vez de se deixar levar pelo grito do ai que é ladrão.

Canavilhas chegou-se aos microfones da TSF e, entre risos, veio dizer que não «não vale a pena fazer tanto alarido» à volta disso. Não compreende o «alarido», claro, porque não percebe absolutamente nada do meio que pretende legislar, não escutou o ponto de vista dos consumidores – o «público» que vai aos seus concertos – e só foi capaz de ouvir as pessoas que vão beneficiar desta lei.

Num estudo da Recovery Labs divulgado ainda em Abril de 2005, revelava-se que a capacidade de armazenamento dos discos rígidos «aumentara dos 5,86 GB em média do ano 2000 para os 53,94 GB em média no ano 2004», pressupondo um «aumento de 903,24 por cento na sua capacidade». Em Setembro do ano passado, a Seagate já estava a fabricar discos rígidos externos de 4 terabytes, ou seja, 4000 gigabytes.

O desenvolvimento é imparável: ontem, a IBM anunciou que uma equipa de investigadores conseguira reduzir, através da manipulação de átomos magnetizados, de 1 milhão para 12 o número de átomos necessários para criar 1 bit de informação.

A aplicação destas memórias magnéticas, como a IBM lhes chama, permitirá a criação de dispositivos capazes de guardar 100 ou mesmo 150 terabytes no espaço onde hoje em dia guardamos 1TB. Com a «taxa de compensação» Canavilhas/SPA a crescer exponencialmente com o número de gigabytes, imaginem as fortunas que os fanáticos do copyright se preparam para extorquir.

Nada disto deveria ser novidade para os políticos, se tivessem em conta a Lei de Moore e a sua equivalente em dispositivos de armazenamento, a chamada Lei de Kryder: a cada 13 meses, a capacidade de armazenamento, o «alarido» segundo Canavilhas, irá aumentar.

O que a ex-ministra da Cultura também não percebe é o incómodo, já mencionado no meu post A Lei Minority Report, de um cidadão respeitador da lei ser tratado, a priori, como pirata e ladrão. Tão estúpido como aqueles imbecis avisos anti-pirataria que acompanham os DVD: se os estamos a ver, é porque pagámos o raio do DVD!

 

Pagas o direito à cópia, mesmo que não a possas fazer

O «alarido» também se deve a outro facto: pagamos uma taxa para usufruir do direito à cópia privada, mas Gabriela Canavilhas, o Governo, a Sociedade Portuguesa de Autores ou a Abelha Maia nada poderão fazer se os produtos pelos quais pagámos o direito legal de cópia contiverem proteções anti-cópia DRM (Digital Rights Management) – ou seja, a esmagadora maioria dos CD, DVD e Blu-ray à venda no mercado.

A única forma de podermos exercer esse direito é usando software «pirata» que permite desbloquear estas nefastas proteções. Se isolarmos este conceito negativo atribuído à pirataria e o aplicarmos nesta situação, continuaríamos a considerar esse software «pirata?» Aposto que a maioria dos consumidores o veria como uma ferramenta de combate à injustiça e à exploração. O «pirata» autor do software transformar-se-ia, aos nossos olhos, num «hacker».

Que inferno burocrático esperará todas as pessoas que desejem recuperar o dinheiro de uma «compensação» que não se lhes aplica? Por exemplo, se apenas queremos copiar aquilo que é criação nossa e a nós apenas pertence, estamos a pagar porquê e a quem? Se um músico, cineasta ou fotógrafo criar as suas obras e distribuí-las com uma licença Creative Commons, estará a pagar porquê e a quem?

A resposta é óbvia: com o patrocínio dos senhores deputados, estaremos a ajudar a Sociedade Portuguesa de Autores a atingir um dos principais objetivos a que se propôs no seu documento, ou seja, «alargar a base de mercado da SPA, aumentando o número de usuários a cobrar».

Nada disto tem a ver com a Cultura, é apenas uma questão de dinheiro. Quem são os piratas, afinal?

→ 09/01/2012 @3:41

A Lei Minority Report

No filme Minority Report, baseado num conto de Philip K. Dick, um departamento policial muito especializado chamado PreCrime consegue atuar e prender os cidadãos antes de estes cometerem a ação criminosa, graças aos poderes psíquicos de três precogs.

O Partido Socialista também tem um departamento especializado de PreCrime, pois considera que todos aqueles que comprarem discos rígidos, impressoras, pens USB, dispositivos multimédia do tipo iPod, câmaras fotográficas ou telemóveis com memória interna pretendem usá-los para guardar conteúdo protegido por direitos de autor.

Por isso, apresentaram no Parlamento um projeto de lei, o 118, que defende que todos teremos de pagar taxas sobre esses dispositivos – chamam-lhes «compensações» – as quais, em alguns casos, implicarão aumentos de 40 por cento para o consumidor.

Por exemplo, se comprares um disco rígido de 1 terabyte para guardares fotos ou filmes das tuas férias, o departamento Precrime do Partido Socialista parte do princípio de que vais usar o espaço para a pirataria. Se fores músico e quiseres guardar material original, tens de pagar a mesma taxa e pelas mesmas razões. Por causa do teu Precrime, um disco que custe uns 50 euros passará a custar quase 70. Para onde vai o dinheirinho extra?

Um elemento não identificado da SPA medita sobre o legítimo direito à presciência moral

O departamento do Partido Socialista socorreu-se de um grupo de precogs para ajudar na elaboração do projeto de lei que contempla esta presciência moral. Os precogs são formados por gente que considera que a pirataria, a livre partilha de ficheiros e os novos modelos de negócio online lhes está a dar cabo da lucrativa exploração de artistas e consumidores.

Estas pessoas consideram que o progresso tecnológico e os meios de que dispomos para trocar livremente informação são uma gigantesca conspiração para as colocar na pobreza e, como tal, todos os que têm acesso à Internet são culpados.

Os precogs são formados pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), o Instituto Nacional da Propriedade Industrial, a GDA/Cooperativa de Gestão dos Direitos dos Artistas, Intérpretes e Executantes, a Federação de Editores de Videogramas, a Associação para a Gestão da Cópia Privada, a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros e a Associação para a Gestão e Distribuição de Direitos.

O dinheiro proveniente destas taxas passará para os bolsos deste bando de carraças económicas e culturais, com algumas migalhas distribuídas pelos artistas.

Estaremos portanto a pagar pelo direito a copiar o que é nosso, mesmo nos casos em que proteções digitais baseadas em DRM – quase todos os jogos, filmes e CD’s do mercado – nos impedem de copiar o que já comprámos. Mesmo assim, pagaremos.

Graças ao projeto de lei do PS e à conivência dos políticos das restantes bancadas, todos iremos contribuir para que os precogs possam comprar um jacuzzi mais confortável para fazer predições morais. Graças ao projeto de lei socialista muitos de nós tentarão, por todos os meios, comprar esses produtos fora de Portugal, desvitalizando uma economia já imensamente empobrecida. E todos terão uma excelente justificação ética para encher o disco rígido de material pirateado.

Os socialistas e demais comparsas no Parlamento irão permitir a criação de uma sociedade de fricção científica onde todos os seres humanos são potencialmente ladrões, bandidos e parasitas – portanto, de acordo com o espírito precrime da nova lei em discussão, é justo tratar os ladrões, bandidos e parasitas da SPA como se já o fossem. É o meu direito – e ofereço-o de graça.

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