(Texto originalmente escrito para os nossos amigos do AstroPT e agora roubado para aqui)
Eu sou jornalista e vou aproveitar a minha posição privilegiada como observador social – desculpem, deixem-me aclarar a garganta – para explicar algumas ideias sobre pseudos, botelhos e aeróbicas quânticas.
Também tenho o hábito de arranjar sempre um pretexto para mencionar a Scarlett Johansson nos posts que escrevo para o AstroPT e quero aproveitar a oportunidade para revelar que não são referências gratuitas, mas insistências do «astrólogo do Texas».
Também eu tenho bons motivos. Considerem o fator distância e a rapariga em questão. Um cartógrafo leitor da revista Caras poderá dizer-me, com ar cético, «tu com a Scarlett? A mansão dela na Califórnia encontra-se a mais de 9 mil quilómetros, pá». Um geólogo encolherá os ombros, com ar enfadado: «a Scarlett? Duas placas tectónicas até lhe pores as mãozinhas em cima!»
Contudo, se eu perguntar a um astrónomo, é provável que este sugira observar as estrelas através de um telescópio e anuncie: «9 mil quilómetros? Isso não é nada! Olha para isto. À escala cósmica, é como se tu e a Scarlett estivessem enroscadinhos no bem-bom. Parabéns!»
Portanto aproveito este momento no AstroPT para agradecer à Astronomia tudo o que tem feito pela qualidade da minha vida sexual imaginária.
Física Quântica para tolinhos

Ainda não consegui largar as larachas porque me preparo para meter a Física Quântica ao barulho e isso deixa-me sempre à rasca porque percebo tanto de Física Quântica como a Laura Botelho.
Ao escrever aqui sinto-me como se fosse o gato de Schrödinger e o AstroPT a própria caixinha: tanto posso escrever disparates, escrever coisas acertadas ou fazer ambas em simultâneo – depende da pessoa que estiver a ler.
A Física Quântica faz parte da nossa vida, isso até a mim parece óbvio. Os conceitos da Mecânica Quântica são a base de sustentação deste mundo tecnológico que nos rodeia. De certa forma, descobrimos que Deus não é o único que está em todo o lado.
Os cientistas conseguiram compreender uma área que, tal como um polvo, tem agora os seus braços estendidos em muitas outras aplicações do conhecimento, desde lasers, passando pela estrutura das proteínas, e acabando em transístores (a eletrónica, como computadores ou microscópios, beneficiou imenso com esta área científica).
Mas é uma área de estudo e investigação tramada, desconcertante e desafiadora até para os próprios físicos. Aos leigos curiosos mas sem bases matemáticas, resta interpretar as palavras que os cientistas conseguem arranjar para transmitir uma ideia, o mais aproximada possível, de fenómenos que só podem ser descritos através da linguagem matemática. Recorrem a alegorias, metáforas, analogias, a tudo o que lhes permita evitar um pelotão de números e fórmulas.
Também vou recorrer a uma analogia para explicar-vos, físicos e matemáticos, a forma como o leigo se relaciona com que lhe é dito sobre Física Quântica.
Esse relacionamento não é diferente do que temos com a música: podemos adorar o que estamos a ouvir, podem fazer sentido notas e harmonias, mas não sabendo cantar, tocar um instrumento e não conhecendo as notas, ser-nos-á impossível reproduzi-la com exatidão.
Podemos cantarolar a música, tal como podemos «cantarolar» a Física Quântica, conseguindo algumas aproximações ao material original, mas só uma plateia de surdos se deixará convencer de que temos «unhas» para tocar um instrumento e reproduzir uma sinfonia quando só aprendemos dois acordes.
É assim que vejo pessoas como a Laura Botelho: leigos que se transformaram em «especialistas» e que por vaidade, dinheiro, desejo de poder ou mera insanidade de inspiração divino-reptilínea, procuram convencer uma plateia de surdos de que são capazes de reproduzir uma sinfonia de Mahler ou uma «oração» de Coltrane com dois acordes de guitarra.
Especialistas que tiram «cursos científicos» instantâneos e se predispõem a dar «workshops» de Física Quântica relacionam-na, sem qualquer pudor, com acontecimentos que aquela jamais descreveu ou se debruçou. Têm sucesso porque, quando o lago é pequeno, é muito mais fácil parecer um peixe graúdo. E o lago do conhecimento científico, infelizmente, é mesmo pequeno.
Mundos alternativos
O que faz uma pessoa razoavelmente inteligente noutros aspetos da sua vida a procurar orientação nestes «especialistas» em vez de procurar informar-se com cientistas? Talvez por a Ciência se recusar a responder às perguntas erradas. Dito de outra forma, por não ter em conta a religiosidade do ser humano e a sua propensão para a fantasia, e por ser muito cautelosa nas divagações.
A minha criança, sempre muito curiosa em relação à Astronomia, perguntou-me uma vez durante um daqueles documentários do National Geographic: «Pai, o que havia antes do Big Bang?» Este parece-me um exemplo de uma dessas perguntas que a Física não pode responder porque, filhota, o Tempo surgiu com o Big Bang e portanto, não havendo Tempo, não faz sentido mencionar um «antes» ou um «depois».
Parece-me compreensível que as pessoas procurem dar sentido ao que está para além do horizonte – e é aí normalmente que as imaginações costumam descobrir deuses a tomar um chazinho sentados numa nuvem piroclástica.
Os pseudos-cientistas apropriam-se da Ciência e fazem-se passar por autoridades em buracos negros e anãs castanhas disfarçados de cometas, anjos ou demónios tecnológicos a que chamam extraterrestres, misteriosos alinhamentos galácticos que por sua vez são alinhados com misteriosas profecias do passado, por aí fora – aceitam todas as premissas erradas e são especialistas em respondê-las. Oferecem o bolo existencial completo e regam-no com o doce e inebriante vinho da conspiração.
O que de outra forma seria incompreensível sem estudo torna-se de fácil e rápido entendimento. E, assim, este mundo cheio de mistérios e contradições começa a fazer sentido outra vez. Não admira por isso que teorias fantasistas, sempre fáceis e acessíveis e luminosas, sejam encaradas como «reais» e a realidade, complicada e trabalhosa e muitas vezes dececionante, seja olhada com desconfiança.
Conspiradores sem credibilidade como a Laura Botelho só me merecem desprezo, mas sinto pena das pessoas que se deixam levar por palestras de Aeróbica Quântica.
Partículas de Deus e outras ansiedades

Uma das características que mais me toca no pouco que consegui entender de Física Quântica é pensar que um eletrão se pode comportar como uma partícula ou uma onda, ou como ambas em simultâneo – mas só podermos determinar o seu estado quando o observamos.
É difícil para um leigo evitar cair na tentação de estabelecer uma associação livre e direta entre a consciência do observador (o cientista) e este fenómeno, sem cair em extrapolações metafísicas. É como se estas implicações da Física Quântica o levassem a pensar que, a nível sub-atómico, as partículas estão todas coladas umas às outras com a saliva de Deus.
Devido à sua importância e ao carácter «fantasmagórico» e primordial dos fenómenos que estuda, o leigo pode procurar na Física Quântica respostas às suas dúvidas e ansiedades religiosas.
A quântica não tem culpa nenhuma de que lhe sejam colocadas tantas expectativas metafísicas.
Mesmo quando o físico Leon Lederman chamou ao bosão de Higgs «a partícula de Deus» não o fez com o objetivo de dar uma dimensão religiosa à Física, mas para transmitir aos leigos a importância de uma eventual descoberta dessa partícula (Lederman também é conhecido pelo sentido de humor e o jeito em cunhar expressões excelentes para títulos de jornal).
Flutuações quânticas
Uma vez que a dimensão «religiosa» das revelações esteja estabelecida, é muito difícil abrir os olhos às pessoas e apontar-lhes as contradições do seu «guru».
Por exemplo, a Laura Botelho parte das peculiaridades da Física Quântica já referidas para concluir que «não se pode prever nada nesta vida» (o que é o total oposto da realidade). No entanto, apesar de anunciar que não se pode prever nada, ela pouco mais faz do que sustentar profecias.
Tudo é permitido quando o sentido crítico se desvanece. Eu até posso sustentar que o meu cabelo, ao levantar-me de manhã, é um bom exemplo de «flutuação quântica» – mas no dia em que vos disser que estou mesmo a falar a sério estão à vontade para me internar, desde que não me coloquem na mesma sala que a Botelho.
Não sei portanto qual é a solução para esta batalha que se trava entre os que defendem o conhecimento e os que o atacam – nem sei, sequer, se deve ser imputada ao cientista a responsabilidade de não conseguir chegar a mais pessoas (embora esforços como o que se faz no AstroPT já provoquem os seus efeitos).
Se vivêssemos num mundo perfeito essa responsabilidade deveria ser assumida também pelos jornalistas, os principais responsáveis em filtrar a informação científica e transformá-la em material que o grande público possa entender.
Infelizmente, os media estão mais preocupados com a Astrologia do que com a Astronomia, com o Espiritualismo do que com a Física; e quando se interessam por Ciência é para anunciar, com pomposa ignorância, que a estrela Betelgeuse vai explodir em 2012 ou que foram anunciadas «provas irrefutáveis» da existência do Abominável Homem das Neves…