Astronomia, Física, Biologia, Estranhos Fenómenos e tudo o que tem a ver com a Ciência.

→ 16/05/2013 @15:13

Horizontes longínquos

Lua

Lua

O que não po­de­mos ex­pe­ri­men­tar com­pen­sa­mos com ima­gi­na­ção – neste caso, com a de Ron Miller, fa­moso ilus­tra­dor de pai­sa­gens es­pa­ci­ais, re­ais e fic­tí­cias, «es­pe­ci­a­li­zado em Astronomia, Ciência, Ficção Científica e Fantasia», como ex­plica o pró­prio na sua pá­gina.

Miller par­tiu do prin­cí­pio de que, afi­nal de con­tas, a mon­ta­nha sem­pre vem a Maomé, ilus­trando a mesma pai­sa­gem ter­res­tre para res­pon­der à per­gunta: e se os pla­ne­tas do Sistema Solar fos­sem co­lo­ca­dos no lu­gar da nossa lua, como apa­re­ce­riam no ho­ri­zonte? Que ta­ma­nho teriam?

E res­pon­deu da se­guinte forma:

Vénus

Vénus

Marte

Marte

Neptuno

Neptuno

Úrano

Úrano

Saturno

Saturno

Júpiter

Júpiter

Ora está aí algo que da­ria muito que pen­sar aos nos­sos mú­si­cos e po­e­tas – gi­gan­tes­cas, bri­lhan­tes luas no céu. Com Vénus à mesma dis­tân­cia que a Lua, mui­tas das noi­tes es­ta­riam mais ilu­mi­na­das do que os nos­sos dias som­brios de in­verno. E no caso de Júpiter se­ría­mos nós a lua, para começar.

A pre­sença do maior pla­neta do Sistema Solar so­bre as nos­sas ca­be­ças im­pres­si­ona. Teria sido muito pouco pro­vá­vel a so­bre­vi­vên­cia de po­e­tas ou mú­si­cos num mundo as­sim, a não ser que ti­vés­se­mos ga­nho re­sis­tên­cias à in­tensa ra­di­a­ção do pla­neta ou uma ci­vi­li­za­ção pu­desse edificar-se à re­ve­lia da força gra­vi­ta­ci­o­nal exer­cida pelo gi­gante – neste caso, con­tudo, já não se­ría­mos se­res hu­ma­nos, mas ou­tra coisa qualquer.

E a pai­sa­gem não se­ria tão tran­quila como uma noite de ve­rão: aque­les mon­tes pa­cí­fi­cos se­riam vul­cões em erup­ção e a es­trada di­fi­cil­mente se man­te­ria tão lisa, de­vido à gra­vi­dade do gi­gante ga­soso. E os oce­a­nos? Nem con­sigo ima­gi­nar a in­ten­si­dade das nos­sas ma­rés al­tas com aquele mons­tro nos céus a «pu­xar» por elas.

→ 10/05/2013 @23:17

Verdade, gambozinos e Watergate cósmico

O res­pei­tá­vel Paul Hellyer, 85 anos, en­ge­nheiro, ex-ministro da Defesa do Canadá, fi­gura po­lé­mica no país por ter fun­dido os três ra­mos das for­ças ar­ma­das numa única or­ga­ni­za­ção, teve uma epi­fa­nia ov­ni­ló­gica numa noite de fe­ve­reiro de 2005 e, desde aí, pas­sou a tra­tar os OVNIs como veí­cu­los re­ais tri­pu­la­dos por se­res ex­tra­ter­res­tres reais.

Paul Hellyer

Paul Hellyer em 2004

A his­tó­ria com os ETs co­me­çara mais cedo, em 2003, quando o ex-ministro, a fa­le­cida mu­lher e al­guns ami­gos de­ram com um OVNI nos céus.

Na al­tura não atri­buira grande im­por­tân­cia ao avis­ta­mento mas, dois anos de­pois, viu um do­cu­men­tá­rio na ABC so­bre ob­je­tos vo­a­do­res não-identificados e fi­cou muito im­pres­si­o­nado. Tendo em conta a sua pró­pria ex­pe­ri­ên­cia, o se­nhor Hellyer abriu a mente e con­cluiu que, tal como no sexo, um mais um po­dia ser igual a três.

Quanto mais pes­qui­sava, mais im­pres­si­o­nado se sen­tia: «Os OVNI são tão re­ais como os aviões que voam so­bre as nos­sas ca­be­ças», afir­mou na se­mana pas­sada em Washington. E tanto abriu a mente que agora acre­dita na exis­tên­cia de qua­tro ra­ças di­fe­ren­tes de ETs, duas das quais a tra­ba­lhar («pro­va­vel­mente», acres­cen­tou, cau­te­loso) com o go­verno dos Estados Unidos.

Hellyer fez es­tas afir­ma­ções numa au­di­ên­cia pú­blica em Washington, um evento cha­mado «The Citizen Hearing on Disclosure» que pre­tende pres­si­o­nar os go­ver­nos a re­ve­lar o que sa­bem so­bre OVNIs. O evento foi or­ga­ni­zado pela Paradigm Research Group e de­cor­reu de 29 de abril a 3 de maio. Passará à his­tó­ria, afir­ma­ram os or­ga­ni­za­do­res, como «um marco na edu­ca­ção do pú­blico em Vida Extraterrestre e Tecnologias Secretas em Espaço e Energia».

A Paradigm Research Group or­ga­niza even­tos desta na­tu­reza a um ritmo anual desde pelo me­nos 2007, mas tem sem­pre uma no­tá­vel ca­pa­ci­dade em apresentá-los de forma ex­plo­siva, como se es­ti­vés­se­mos pres­tes a des­co­brir pól­vora marciana.

Que ha­via en­tão de di­fe­rente neste evento es­pe­cí­fico? Resposta: a pres­ti­gi­ante pre­sença de cinco ex-senadores e um ex-membro do Congresso dos EUA.

 

O Cavaleiro das Flores apoia esta demanda

Ser Loras TyrellQue este evento se es­tava a re­a­li­zar já eu sa­bia há uns tem­pos, gra­ças a um tweet do ator Finn Jones, co­nhe­cido por in­ter­pre­tar Ser Loras Tyrell na sé­rie Game of Thrones.

O Cavaleiro das Flores apresentou-o como um acon­te­ci­mento com po­ten­cial para mu­dar o mundo, ma­ni­fes­tando es­tra­nheza por os me­dia não pe­ga­rem num as­sunto tão importante.

Caí que nem um pa­ti­nho, claro. O link que de­po­si­tou na ti­me­line mandou-me para o YouTube – um im­por­tante cen­tro de in­ves­ti­ga­ção ci­en­tí­fico na Web, como se sabe – e a um ví­deo no qual uma sé­rie de gente co­nhe­cida da Ovnilogia re­pe­tia ale­ga­ções já ou­vi­das há muito tempo e um pouco por todo o lado.

Creio que já co­nhe­cem bem o filme: os eles ex­tra­ter­res­tres exis­tem, mas os eles ter­res­tres não que­rem que se saiba.

An­te­ri­or­mente o Finn par­ti­lhara li­ga­ções para sí­tios onde se dis­cu­tiam «os se­gre­dos da Geometria Sagrada» e as «re­a­li­da­des trans­cen­den­tais quân­ti­cas», pelo que eu já de­via con­tar com re­ve­la­ções da mesma envergadura.

A pouco e pouco, po­rém, a im­prensa foi pe­gando no as­sunto das re­ve­la­ções ex­tra­ter­res­tres e dos en­co­bri­men­tos go­ver­na­men­tais. Até o res­pei­tá­vel The New York Times, atraído pelo facto de se­na­do­res e con­gres­sis­tas pre­si­di­rem ao evento, no­ti­ciou-o com toda a seriedade.

Que es­ta­vam en­tão os ex-senadores lá a fa­zer? Iriam re­ve­lar se­gre­dos ocul­tos? Fazer-nos uma vi­sita gui­ada à Área 51? Organizar uma ex­cur­são a Roswell com bi­lhete para a pri­meira fila de uma au­tóp­sia? Desmascarar cons­pi­ra­ções? Dar a cara pe­los ho­men­zi­nhos verdes?

A Paradigm Research Group cer­ta­mente apre­sen­tará res­pos­tas di­fe­ren­tes a es­tas ques­tões, mas quem res­pon­deu de forma fac­tual e muito su­cinta foi o The Guardian: os cinco ex-senadores e o ex-congressista (ne­nhum com for­ma­ção ci­en­tí­fica) re­ce­be­ram, cada um, 20 mil dó­la­res em ho­no­rá­rios para pre­si­di­rem ao evento e in­ter­ro­gar, du­rante cinco mi­nu­tos, as testemunhas.

E quem os pode cri­ti­car? Se me qui­ses­sem pa­gar mais de 14 mil eu­ros para pas­sar uns dias de rabo sen­tado a ou­vir uma sé­rie de malta a fa­lar de ex­tra­ter­res­tres e cons­pi­ra­ções, com a obri­ga­ção de fa­zer, du­rante cinco mi­nu­tos, umas per­gun­tas inó­cuas às tes­te­mu­nhas, ca­ramba, ali­nhava logo.

Cinco mi­nu­tos pas­sam num ins­tante e, dado que as pes­soas têm sem­pre mui­tas coi­sas im­por­tan­tes a re­ve­lar, com sorte ficava-me por uma per­gun­ti­nha a cada uma e despachava-as com um mí­nimo de brio profissional.

As tes­te­mu­nhas tam­bém não são for­ça­das a co­lo­car a mão­zi­nha so­bre a Bíblia e a ju­rar di­zer toda a ver­dade e nada mais do que a ver­dade, por­tanto o acon­te­ci­mento tem todo o ar de ser uma da­que­las ino­cen­tes fes­ti­vi­da­des mar­ci­a­nas que não fa­zem mal a ninguém.

Se ti­nham 120 mil dó­la­res para gas­tar em pro­pa­ganda cir­cense, bem po­dia ter con­tra­tado uns ci­en­tis­tas para in­ves­ti­gar as his­tó­rias con­ta­das por es­tes «ci­da­dãos uni­dos pela transparência».

É com­pre­en­sí­vel que te­nham pre­fe­rido não ar­ris­car: um ci­en­tista po­de­ria de­fen­der con­clu­sões em­ba­ra­ço­sas para as tes­te­mu­nhas; com um po­lí­tico, con­tudo, ra­ra­mente se corre o risco de que diga o que ver­da­dei­ra­mente pensa.

Roscoe G. Bartlett

Roscoe G. Bartlett

Se in­ves­ti­gar­mos mais o per­fil des­tes po­lí­ti­cos na re­forma quase che­ga­mos à con­clu­são que eles pró­prios são, tam­bém, ex­tra­ter­res­tres: por exem­plo, Roscoe Bartlett, mem­bro re­pu­bli­cano do Tea Party e com 10 anos de Congresso nas cos­tas, ex­pli­cou a sua par­ti­ci­pa­ção nos se­guin­tes ter­mos: «Extraterrestres não são anti-biblícos. Leiam o Livro de Jó – está lá tudo.»

Outro dos par­ti­ci­pan­tes foi o Republicano Merril Cook, so­bre quem re­caem his­tó­rias pouco edi­fi­can­tes so­bre «com­por­ta­men­tos er­rá­ti­cos» du­rante os anos em que es­teve no Congresso. «Merril fi­xou re­si­dên­cia per­ma­nente na terra dos ma­lu­cos», es­cre­veu a sua pró­pria chefe de ga­bi­nete num email in­terno da­tado de 2000. «Se ele vos pe­dir para man­dar a roupa in­te­rior por fax, por fa­vor façam-no».

→ 09/05/2013 @18:20

Chem­trails: a conspiração que paira sobre nós

Serve este ar­tigo para fa­zer uma breve re­fle­xão so­bre os ale­ga­dos chem­trails, te­o­ria da cons­pi­ra­ção muito em voga nos úl­ti­mos anos.

Com o nú­mero de se­gui­do­res des­tas ideias a au­men­tar em Portugal, de­cidi fa­zer uma pes­quisa mais apro­fun­dada e es­cre­ver so­bre o tema no site da Comcept – Comunidade Céptica Portuguesa [1].

Dessa pes­quisa, re­sul­ta­ram dois tex­tos. No pri­meiro ex­pli­quei o que eram os su­pos­tos chem­trails e por­que en­cai­xava isso na te­má­tica das te­o­rias da cons­pi­ra­ção; no se­gundo des­mon­tei o do­cu­men­tá­rio de pro­pa­ganda so­bre o mesmo, in­ti­tu­lado What in the world are they spraying [2], [3].

Estes tex­tos me­re­ce­ram a aten­ção dos me­dia, em par­ti­cu­lar da re­vista Visão e do Canal Q, o que, con­se­quen­te­mente, atraiu os adep­tos da te­o­ria da cons­pi­ra­ção ao nosso site. Os co­men­tá­rios que te­nho lido ser­vi­ram de base a uma me­di­ta­ção da mi­nha parte, so­bre esta temática.

 

Que ras­tos são es­ses no céu?

Nicolas Armer

Foto: Nicolas Armer

Aquelas man­chas bran­cas que ve­mos no céu, após a pas­sa­gem de aviões, são ras­tos de con­den­sa­ção ou con­trails (con­tra­ção da ex­pres­são in­glesa conden­sa­tion trails).

 

Como apa­re­cem?

São for­ma­dos pelo va­por de água li­ber­tado pe­los mo­to­res, ou por al­te­ra­ções na pres­são do ar que ocor­rem de­vido aos vór­ti­ces for­ma­dos pe­las asas dos aviões. Dependendo das con­di­ções de tem­pe­ra­tura e hu­mi­dade a ele­vada al­ti­tude, os ras­tos po­dem ser vi­sí­veis du­rante al­guns mi­nu­tos, ou até lon­gas horas.

 

Qual a polémica?

Conspiração!

Os adep­tos da te­o­ria da cons­pi­ra­ção afir­mam que es­ses ras­tos são cons­ti­tuí­dos por quí­mi­cos, daí a de­sig­na­ção de chem­trails (con­tra­ção da ex­pres­são in­glesa chemical trails).

Esses quí­mi­cos es­ta­riam a ser li­ber­ta­dos para en­ve­ne­nar a po­pu­la­ção, com o ob­je­tivo de a tor­nar do­ente e de­pen­dente de fár­ma­cos, para con­tro­lar a de­mo­gra­fia mun­dial, para fa­cil­mente ma­ni­pu­lar as pes­soa ou con­tro­lar o clima, de­pen­dendo das ver­sões. Por de­trás desta cons­pi­ra­ção es­ta­ria a Indústria Farmacêutica, a Comunidade Científica, o Governo ou al­guma as­so­ci­a­ção se­creta com ob­je­ti­vos som­brios, mais uma vez de­pen­dendo das versões.

Isto é ca­rac­te­rís­tico das te­o­rias da cons­pi­ra­ção: vão-se for­mando ra­mi­fi­ca­ções da ideia prin­ci­pal, de acordo com os re­ceios das pessoas.

 

A pro­pó­sito

Carl Sagan

Esta pa­rece uma ideia inu­si­tada, pelo que nos de­ve­ria dei­xar logo de so­bre­a­viso. Como es­cre­veu Carl Sagan: «Afirmações ex­tra­or­di­ná­rias re­que­rem pro­vas ex­tra­or­di­ná­rias».

Quais são, en­tão, as evi­dên­cias que sus­ten­tam esta “te­o­ria”? Fará, tudo isto, al­gum sentido?

As ale­ga­ções não são sus­ten­ta­das em fac­tos, são ape­nas afir­ma­ções (ou su­po­si­ções) que não vêm acom­pa­nha­das de pro­vas. A tí­tulo de exemplo:

  • es­tes ras­tos já são ob­ser­va­dos há vá­rias dé­ca­das, não sendo um fe­nó­meno recente;
  • o tempo de du­ra­ção dos mes­mos tem uma ex­pli­ca­ção conhecida;
  • não está es­ta­be­le­cida ne­nhuma re­la­ção causa-efeito en­tre os ras­tos e do­en­ças em hu­ma­nos ou de­crés­cimo na pro­du­ção agrícola;
  • a pul­ve­ri­za­ção de agen­tes quí­mi­cos a ele­vada al­ti­tude é um pro­cesso não con­tro­lado, pelo que afe­ta­ria toda a po­pu­la­ção in­dis­cri­mi­na­da­mente, in­clu­sive quem co­man­da­ria a ope­ra­ção e seus familiares.

 

Quais as fon­tes que ser­vem de apoio aos adep­tos des­tas ideias?

Google Chemtrails

Os de­fen­so­res dos chem­trails apoiam-se es­sen­ci­al­mente em si­tes de te­o­rias da cons­pi­ra­ção, em ví­deos do YouTube, e no do­cu­men­tá­rio que já men­ci­o­nei. Estes três pon­tos são co­muns às vá­rias res­pos­tas que te­mos re­ce­bido, e uma das con­clu­sões que da­qui re­tiro é que es­tas pes­soas não sa­bem se­le­ci­o­nar ou dis­cri­mi­nar fon­tes. Apesar de a Internet ser uma ex­ce­lente fer­ra­menta para ob­ter­mos co­nhe­ci­mento, tam­bém aí se en­con­tra muita desinformação.

Por exem­plo, em blo­gues ou no YouTube pode ser co­lo­cado o que cada um qui­ser, pelo que a fonte não é con­si­de­rada, por si só, fi­de­digna. É im­por­tante ver quem foi o au­tor do re­curso di­gi­tal, se é um es­pe­ci­a­lista da área, quais as fon­tes que uti­liza e ter es­pí­rito crí­tico re­la­ti­va­mente à in­for­ma­ção dis­po­ni­bi­li­zada. É in­crí­vel o nú­mero de ve­zes que me fo­ram apre­sen­ta­dos fil­mes do YouTube, quando pe­día­mos evi­dên­cias que sus­ten­tas­sem as afirmações.

O do­cu­men­tá­rio que tam­bém está a ser am­pla­mente di­vul­gado está re­pleto de er­ros me­to­do­ló­gi­cos, ci­ta­ções fora do con­texto, e de dis­curso falacioso.

 

E a Geoengenharia?

Esta é de­fi­nida como «uma in­ter­ven­ção de­li­be­rada em larga es­cala nos sis­te­mas na­tu­rais para con­tra­riar as al­te­ra­ções cli­má­ti­cas». É uma dis­ci­plina que de facto existe, é le­ci­o­nada nas uni­ver­si­da­des, são re­a­li­za­das pa­les­tras e que, por­tanto, não tem nada de secreto.

Este é mais um dos exem­plos que ca­rac­te­riza as te­o­rias da cons­pi­ra­ção: pe­gam em algo que existe (ge­o­en­ge­nha­ria) e atribuem-lhe uma aura som­bria de se­cre­tismo e de ma­ni­pu­la­ção. E as­sim surge a ideia de ras­tos de (to­dos os) aviões a se­rem li­ber­ta­dos com o ob­je­tivo in­ter­na­ci­o­nal se­creto de al­te­rar o clima. [4]

 

De onde vem a ideia das pulverizações?

As pul­ve­ri­za­ções têm sido fei­tas nas úl­ti­mas dé­ca­das com di­fe­ren­tes ob­je­ti­vos: na agri­cul­tura são pul­ve­ri­za­dos pes­ti­ci­das; no pas­sado foi fre­quente o uso de DDT (este, tendo sido pre­ju­di­cial ao am­bi­ente, foi fa­vo­rá­vel à des­trui­ção do mos­quito ve­tor da ma­lá­ria); e na guerra do Vietname foi pul­ve­ri­zado o “agente la­ranja”, po­de­roso des­fo­lhante usado com o ob­je­tivo de des­truir as fo­lhas das ár­vo­res, tor­nando vi­sí­vel a lo­ca­li­za­ção dos vi­et­na­mi­tas (no en­tanto, este pro­duto não foi de­vi­da­mente pu­ri­fi­cado, vindo a revelar-se cancerígeno).

 

Pensar pri­meiro, dis­pa­rar depois

Convém pensar

A ideia ge­ral dos chem­trails não as­senta em ne­nhuma evi­dên­cia, não tendo sido de­mons­trada, até ao mo­mento, qual­quer re­la­ção en­tre os ras­tos dos aviões e ca­sos de en­ve­ne­na­mento. As even­tu­ais ra­zões para isso ser feito tam­bém não con­ven­cem. Então por­que é que as pes­soas par­ti­lham si­tes e men­sa­gens so­bre este tema? Pelas ra­zões que a se­guir identifico:

  • Pouca li­te­ra­cia ci­en­tí­fica. Se as pes­soas do­mi­nas­sem os fun­da­men­tos da ci­ên­cia, te­riam mais fa­ci­li­dade em dis­tin­guir afir­ma­ções ci­en­tí­fi­cas de pseu­do­ci­en­tí­fi­cas, como as que sur­gem no documentário;
  • Pouco ha­bi­tu­a­das ao uso cons­tante do pen­sa­mento crí­tico. Um exer­cí­cio fun­da­men­tal é exi­gir pro­vas ou evi­dên­cias para as afir­ma­ções, con­sul­tar di­re­ta­mente as fon­tes, de­ba­ter com base na ra­zão e não em emo­ções;
    Como tive opor­tu­ni­dade de di­zer re­cen­te­mente numa en­tre­vista à Visão, a mi­nha ex­pe­ri­ên­cia en­quanto co­mu­ni­ca­dor de ci­ên­cia com o pú­blico por­tu­guês é que as pes­soas são cu­ri­o­sas, in­te­res­sa­das, e que­rem sem­pre sa­ber mais. O pro­blema surge na di­fi­cul­dade de dis­tin­guir quais as me­lho­res fon­tes a se­guir, aca­bando por con­sul­tar in­for­ma­ção de qua­li­dade duvidosa;
  • Por re­ceio. Esta te­o­ria da cons­pi­ra­ção é apre­sen­tada como um aviso con­tra “um mal” que pode pre­ju­di­car não só a saúde do re­cep­tor da men­sa­gem, mas tam­bém a dos seus en­tes que­ri­dos. Sem fun­da­men­tos ci­en­tí­fi­cos e sem re­curso ao pen­sa­mento crí­tico, esta in­for­ma­ção as­sim dada é ex­tre­ma­mente as­sus­ta­dora e re­vol­tante.
    Além do mais esta men­sa­gem é bas­tante vi­sual: as pes­soas po­dem não sa­ber muito de ci­ên­cia, mas olham para o céu e veem os ras­tos dos aviões que logo vão as­so­ciar à causa de do­en­ças e a pla­nos maquiavélicos;
  • O ini­migo tem um rosto. É cu­ri­oso re­pa­rar que esse ini­migo va­ria con­so­ante os re­ceios das pes­soas: adep­tos da extrema-direita atri­buem a culpa ao go­verno; mo­vi­men­tos anti-ciência acu­sam os ci­en­tis­tas e a in­dús­tria far­ma­cêu­tica; gru­pos am­bi­en­ta­lis­tas ex­tre­mis­tas e adep­tos de pro­du­tos na­tu­rais cul­pam gran­des em­pre­sas de bi­o­tec­no­lo­gia res­pon­sá­veis pela pro­du­ção de OGM; mo­vi­men­tos re­li­gi­o­sos e ou­tros teó­ri­cos da cons­pi­ra­ção acu­sam so­ci­e­da­des se­cre­tas, gru­pos fi­nan­cei­ros ou go­ver­nan­tes som­brios de uma ca­bala tendo por fim o con­trolo da humanidade.

 

Algo que é sem­pre co­mum a este tipo de ideias é a se­le­ção de ar­gu­men­tos fa­vo­rá­veis que apre­sen­tam, e a ocul­ta­ção de ar­gu­men­tos que apon­tam no sen­tido oposto. Também no dis­curso é re­cor­rente o re­curso à fa­lá­cia do apelo à emo­ção. Por isso, eu digo: man­te­nham o es­pí­rito crí­tico e se­jam exi­gen­tes com as pro­vas apresentadas.

→ 18/03/2013 @19:05

Criador de planetas

Emanuel Dimas de Melo PimentaNa obra do luso-brasileiro Emanuel Dimas de Melo Pimenta a mú­sica e a ar­qui­te­tura confundem-se mui­tas ve­zes. Algumas das suas par­ti­tu­ras grá­fi­cas, ge­ra­das com­pu­ta­ci­o­nal­mente, assemelham-se às cons­tru­ções de ar­qui­te­tura vir­tual que tam­bém o têm notabilizado.

Seja numa dis­ci­plina como na ou­tra, é com o es­paço que lida e com a sua ha­bi­ta­bi­li­dade. Por isso mesmo, po­de­mos di­zer que en­tende a ar­qui­te­tura como mú­sica e esta é sem­pre imersiva.

É «quente» e pro­por­ci­ona o «êx­tase», para uti­li­zar as pa­la­vras que o com­po­si­tor John Cage lhe de­di­cou pouco an­tes de morrer.

 

Antes de Second Life

Na de­fi­ni­ção do mé­todo de «ar­qui­te­tura vir­tual» que Pimenta es­ta­be­le­ceu em 1982 vem esta má­xima: «Um es­paço deve ser fa­cil­mente des­pro­gra­má­vel e re­pro­gra­má­vel, pois as pes­soas mu­dam em cada ins­tante

No re­forço desta ideia, afir­mou igual­mente o que se­gue: «Se há pa­ra­dig­mas na ar­qui­te­tura tra­di­ci­o­nal – pa­re­des, ja­ne­las, co­ber­tu­ras –, na ar­qui­te­tura vir­tual tudo está em per­ma­nen­tes mu­ta­ção, tur­bu­lên­cia e flui­dez, em con­cei­tos de luz, de fluxo, de pre­sença.»

Daí vem re­sul­tando, por exem­plo, a cri­a­ção de um me­ga­pro­jecto, ainda em curso, que an­te­ci­pou o pró­prio Second Life. O Woiksed é um pla­neta vir­tual, com as suas pró­prias ci­da­des e pai­sa­gens «naturais».

No fu­turo (quando o de­sen­vol­vi­mento tec­no­ló­gico o per­mi­tir, pois por en­quanto é de­ma­si­ado pe­sado para ser ace­dido – ou co­lo­cado – na Net por um sim­ples lap­top ou desk­top) pretende-se aberto a quem o queira vi­si­tar ou nele pre­tenda instalar-se. Será uti­li­zá­vel como um jogo in­te­ra­tivo, en­vol­vendo os sen­ti­dos vi­sual, au­di­tivo e tác­til, e para já tem tido a con­tri­bui­ção de al­guns ar­tis­tas, como o es­cul­tor suíço Francesco Mariotti.

Mais co­la­bo­ra­tivo, mas en­tron­cando com o work-in-pro­gress Woiksed, é o seu The End of the World – A Planetary Project, cujo ar­ran­que coin­ci­diu com o dia em que o mundo aca­bou, 21 de Dezembro de 2012. Abrigado pelo Streaming Museum de Nova Iorque, de que é an­fi­triã Nina Colosi, en­volve 70 ar­tis­tas, po­e­tas e fi­ló­so­fos de 11 países.

Alguns de­les por­tu­gue­ses, como António Cerveira Pinto, Carlos “Zíngaro”, Estela Guedes, João Castro Pinto, Leonel Moura e Nuno Júdice.

De re­fe­rir ainda o edi­fí­cio or­bi­tal Kairos, uma ho­me­na­gem ao cos­mo­nauta Yuri Gagarin com ins­pi­ra­ção em fi­gu­ras como Buckminster Fuller e Marshall McLuhan. Pretende ser um ob­ser­va­tó­rio da Terra, ge­rido pela so­ci­e­dade civil.

O pro­jeto tem sido apre­sen­tado em ex­po­si­ções e exis­tem um li­vro e um filme so­bre o mesmo, o úl­timo tendo como sound­track a peça «Seti», de Pimenta, com­posta e to­cada a par­tir de sons extraterrestres.

Para am­bos os do­mí­nios (mú­sica e ar­qui­te­tura) este fi­lho de emi­gran­tes da Mealhada nas­cido em S. Paulo es­ta­be­le­ceu um mesmo pro­cesso de «for­ma­ção plás­tica de pa­drões si­náp­ti­cos» a que chama «de­sign sen­so­rial», des­ti­nado a es­ta­be­le­cer «ar­ma­di­lhas ló­gi­cas».

No iní­cio, as suas par­ti­tu­ras eram bi­di­men­si­o­nais, pla­ni­mé­tri­cas, mas hoje as com­po­si­ções que de­se­nha, por­que já não se trata sim­ples­mente de uma es­crita, são sis­te­mas com qua­tro dimensões.

Este tra­ba­lho foi re­co­nhe­cido pela Merce Cunningham Dance Company, que o con­vi­dou a criar pe­ças des­ti­na­das a se­rem co­re­o­gra­fa­das, e cha­mou a aten­ção da an­tiga men­tora do ar­tista vi­sual Joseph Beuys, a ba­ro­nesa Durini, que desde en­tão tem apoi­ado a car­reira de Emanuel Pimenta.

Um ponto alto desta foi, re­cen­te­mente, a ópera elec­tró­nica «Dante», ba­se­ada na «Divina Comédia» de Dante Aligheri, de cujo li­breto foi tam­bém o autor.

Aqui fi­cam al­guns frag­men­tos das três par­tes deste ou­tro feito de di­men­sões cosmo-metafísicas, «Hell», «Purgatory» e «Paradise»…

→ 18/02/2013 @10:35

A noite em que julgámos ter descoberto ET’s

O sinal Uau

Quem es­cre­ver QWERTY sabe que esta su­ces­são de ca­rac­te­res, em­bora não te­nha ne­nhum sig­ni­fi­cado nem se­quer seja uma pa­la­vra, é  muito fa­mi­liar e fá­cil de reconhecer.

QWERTY re­pre­senta as pri­mei­ras seis le­tras da pri­meira li­nha do te­clado, um layout  uti­li­zado nos nos­sos com­pu­ta­do­res e que está con­nosco há mais de um sé­culo: desde 1873 é usado nas má­qui­nas de escrever.

Agora es­cre­vam 6EQUJ5.

Nada? É nor­mal. Esta su­ces­são de nú­me­ros e le­tras tam­bém não pos­suía ne­nhum sig­ni­fi­cado até à noite de 15 de agosto de 1977, mas desde que foi vista pas­sou a re­pre­sen­tar um si­nal da exis­tên­cia de uma ci­vi­li­za­ção ali­e­ní­gena ou, pelo me­nos, um mis­té­rio da Natureza por de­ci­frar. Um pos­sí­vel layout de um te­clado cós­mico que não éra­mos ainda ca­pa­zes de identificar.

6EQUJ5. Quem diria?

Quando o pro­fes­sor e as­tró­nomo Jerry Ehman, vo­lun­tá­rio do SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence), no­tou essa sequên­cia nos da­dos re­co­lhi­dos pelo te­les­có­pio Big Ear da Universidade Estatal de Ohio — só os viu vá­rios dias de­pois de te­rem sido re­ce­bi­dos — fi­cou tão im­pres­si­o­nado que tra­çou uma li­nha ver­me­lha à volta dos nú­me­ros e, ao lado, es­cre­veu: «Uau!» (Wow!)

Ehman de­te­tara um si­nal fo­cado, in­ter­mi­tente e de enorme po­tên­cia pro­ve­ni­ente da cons­te­la­ção de Sagitário na frequên­cia de 1.42GHz. A es­trela mais pró­xima dessa cons­te­la­ção encontra-se a 220 anos-luz.

1.42 GHz já está den­tro do es­pec­tro de frequên­cia (até 1.7GHz) onde não existe ruído de fundo. Se ci­vi­li­za­ções ex­tra­ter­res­tres es­ti­ve­rem em co­mu­ni­ca­ção umas com as ou­tras, é pos­sí­vel que apro­vei­tem esse «si­lên­cio» para se fa­zer ou­vir. A Radioastronomia chama-lhe «ja­nela de água» por cor­res­pon­der à frequên­cia do hidrogénio.

Peter GriffinDaí em di­ante, a ex­tra­or­di­ná­ria ob­ser­va­ção pas­sou a ser co­nhe­cida como Sinal Uau (The Wow Signal).

Desde 1963 que os ra­di­o­te­les­có­pios ao ser­viço do pro­jeto SETI var­riam os céus, mo­ni­to­ri­zando a ra­di­a­ção ele­tro­mag­né­tica em busca de si­nais de trans­mis­sões de ci­vi­li­za­ções ex­tra­ter­res­tres. A ten­ta­tiva de des­co­brir uma agu­lha no pa­lheiro cós­mico não dera resultados.

 

Só pode ser pi­ada, certo?

Mais de 35 anos de­pois, olho para aquele Wow! ra­bis­cado por Ehman e fico a pen­sar se Seth MacFarlane, cri­a­dor de Family Guy e amante de Astronomia, não terá de­se­nhado o queixo de Peter Griffin ins­pi­rado na forma da­quele W – ho­me­na­gem ao evento que po­de­ria ter mu­dado a nossa po­si­ção so­li­tá­ria no Cosmos.

Mas o Cosmos pode ser mais cruel nas pi­a­das que Seth MacFarlane. Este Cosmos zom­be­teiro já an­tes trans­for­mara es­pe­cu­la­ções em me­ras ane­do­tas, pelo que o pru­dente Ehman op­tou pelo mé­todo cau­tela e caldo de ga­li­nha nunca fi­ze­ram mal a nin­guém.

Tinha boas ra­zões para evi­tar con­clu­sões apres­sa­das. Em 1967, a as­tro­fí­sica Jocelyn Bell Burnell (en­tão es­tu­dante de gra­du­a­ção) des­co­briu uma fonte de rá­dio ex­tre­ma­mente po­tente e re­gu­lar que não po­dia ser atri­buída a ne­nhum tipo de de­tur­pa­ção de ruído.

Nikolai Semenovich Kardashev, as­tro­fí­sico russo e per­cur­sor de in­ves­ti­ga­ções do tipo SETI, propôs que o si­nal vi­nha de uma ci­vi­li­za­ção ex­tra­ter­res­tre mi­lha­res de mi­lhões de anos mais avan­çada que a nossa. Os ali­e­ní­ge­nas, disse Kardashev, co­mu­ni­ca­vam atra­vés de uma es­pé­cie de fa­rol ga­lác­tico. Entusiasmado e com sen­tido de hu­mor, ba­ti­zou a ob­ser­va­ção as­tro­nó­mica de Burnell com a si­gla LGM-1 (Little Green Man, alu­são aos ali­e­ní­ge­nas da fic­ção científica).

Dick Arnold, Bob Dixon, Jerry Ehman (o descobridor do Sinal Uau!), Ed Teiga e John Kraus

Da es­querda para a di­reita: os as­tró­no­mos Dick Arnold, Bob Dixon, Jerry Ehman (o des­co­bri­dor do Sinal Uau!), Ed Teiga e John Kraus exa­mi­nando os da­dos ob­ti­dos pelo te­les­có­pio Big Ear.


Surpresa! Kardashev es­tava en­ga­nado. Jocelyn Bell Burnell não des­co­brira ho­men­zi­nhos ver­des, mas a ra­di­a­ção emi­tida por uma es­trela de neu­trões in­cri­vel­mente densa e pe­quena cuja exis­tên­cia até en­tão des­co­nhe­cía­mos: uma es­trela do tipo pul­sar, as­sim ba­ti­zada de­vido ao facto de a sua ra­di­a­ção nos che­gar numa sé­rie re­gu­lar de pul­sa­ções eletromagnéticas.

Mas… 6EQUJ5? Uau! Aquilo era uma sequên­cia fan­tás­tica. No sis­tema usado en­tão no ob­ser­va­tó­rio Big Ear, cada nú­mero — de 1 a 9 — re­pre­sen­tava o ní­vel de si­nal acima do ruído de fundo. Uns e dois dis­tri­buí­dos de uma forma ho­mo­gé­nea? Teria sig­ni­fi­cado o ron­ro­nar de ga­lá­xias e sa­té­li­tes, pura es­tá­tica sem in­te­resse, uma noite de café com rotina.

Agora.. um seis e um sete? Uma in­ten­si­dade im­pres­si­o­nante para um es­paço de tempo de ob­ser­va­ção tão curto: 72 se­gun­dos. Depois ha­via le­tras, além de nú­me­ros, o que sig­ni­fi­cava in­ten­si­da­des ainda mai­o­res. A le­tra U, por exem­plo, va­lia 30. Incrível!

6EQUJ5? Aquilo era como ou­vir um dos Noturnos de Chopin e ser brus­ca­mente in­ter­rom­pido por uma fan­farra de me­tais to­cando a cé­le­bre sequên­cia de cinco tons que John Williams criou para co­lo­car se­res hu­ma­nos e ETs a co­mu­ni­car em «Encontros Imediatos de 3º Grau» (por coin­ci­dên­cia, o filme es­treou no mesmo ano).

Teria Ehman des­co­berto o fa­rol ga­lác­tico que Kardashev su­ge­rira dez anos an­tes? Um novo ob­jeto bi­zarro no Cosmos? Fosse o que fosse, ali ha­via gato — e o «gato» po­dia vir a tornar-se tão fa­moso como o de Schrödinger.

 

Uma fan­farra cós­mica por decifrar

Encontros Imediatos do 3º Grau

Dois as­pe­tos deste si­nal cha­ma­ram a aten­ção de Ehman: em pri­meiro lu­gar, 72 se­gun­dos era o tempo que o feixe de­mo­rava a var­rer um de­ter­mi­nado ponto do céu. Por isso, qual­quer si­nal vindo do es­paço te­ria de au­men­tar e di­mi­nuir de in­ten­si­dade em 72 se­gun­dos – exa­ta­mente o que acon­te­ceu no Sinal Uau.

Esta cons­ta­ta­ção eli­mi­nou a pos­si­bi­li­dade de o ruído ser in­ter­fe­rên­cia rá­dio com ori­gem na Terra.

Em se­gundo lu­gar, o si­nal não era con­tí­nuo mas in­ter­mi­tente. O Big Ear pos­suía dois fei­xes que ras­tre­a­vam a mesma área do céu, se­pa­ra­dos por um in­ter­valo de três mi­nu­tos. Dado que o si­nal apa­re­cera num feixe e não no ou­tro, tal­vez o Uau se ti­vesse «des­li­gado» en­tre um e ou­tro ras­tre­a­mento. Poderia a trans­mis­são ali­e­ní­gena ter sido in­ter­rom­pida du­rante os três mi­nu­tos que se­pa­ra­vam os fei­xes? Haveria al­gum ET a me­xer no interruptor?

Bem, se o si­nal era pe­rió­dico — por exem­plo, a ci­vi­li­za­ção ali­e­ní­gena es­ti­vesse a usar um feixe ro­ta­tivo de rá­dio que var­resse a nossa ga­lá­xia a cada cinco mi­nu­tos ou a cada cinco ho­ras — tal­vez pu­dés­se­mos vol­tar a encontrá-lo. Bastava procurar.

Nem Ehman nem a equipa do ob­ser­va­tó­rio Big Ear fo­ram ca­pa­zes de vol­tar a de­te­tar o Uau. «Talvez te­nha sido mesmo uma emis­são ter­res­tre re­fle­tida por de­trito es­pa­cial», afir­mou Ehman, dei­xando cair o assunto.

Outro in­ves­ti­ga­dor SETI, Robert Gray, re­to­mou a ta­refa e vol­tou à qui­mera cós­mica do Uau. Gray pro­cu­rou e pro­cu­rou. Nos anos que se se­gui­ram – 1987 e 1989 – usou o sis­tema META SETI de Harvard e o Very Large Array (VLA) a ver se des­co­bria o raio do si­nal. Nada.

Estava visto que aquele Uau ha­ve­ria de ser o bo­são de Higgs da Astronomia, pelo me­nos na sua ca­pa­ci­dade de per­ma­ne­cer «es­con­dido» e tes­tar a per­se­ve­rança dos investigadores.

Três brilhantes nebulosas na constelação de Sagitário

Três bri­lhan­tes ne­bu­lo­sas na cons­te­la­ção de Sagitário


Em ob­ser­va­ções fei­tas en­tre 1995 e 1998, Gray tes­tou mais três cenários:

Primeiro – e se fosse uma trans­mis­são fraca, mas es­tá­vel, cujo si­nal ti­vesse sur­gido mo­men­ta­ne­a­mente mais forte de­vido ao fe­nó­meno da cin­ti­la­ção es­te­lar? Grey não en­con­trou ne­nhuma trans­mis­são desse tipo.

Segundo – te­ria sido o Sinal Uau con­ce­bido ape­nas para atrair a aten­ção para um si­nal muito mais fraco, mas con­tí­nuo, es­tra­té­gia ób­via de uma ci­vi­li­za­ção in­te­li­gente para pou­par ener­gia e usá-la de forma mais efi­ci­ente? Mais uma vez, Grey não des­co­briu nada.

Terceiro – tal­vez o pro­blema fosse falta de pa­ci­ên­cia, pen­sou o obs­ti­nado (e pa­ci­ente) Robert Gray. E se o feixe ali­e­ní­gena en­vi­asse um si­nal com uma frequên­cia me­nor? E se o trans­mis­sor es­ti­vesse fixo num pla­neta, emi­tando um si­nal a cada 20 ou 30 horas?

Em 1998, Grey fez seis ob­ser­va­ções, ras­tre­ando a cons­te­la­ção de Sagitário por pe­río­dos de 14 ho­ras com um ra­di­o­te­les­có­pio de 26 me­tros. Nada.

O Sinal Uau nunca mais re­a­pa­re­ceu. Extraterrestres? Fenómeno na­tu­ral por ex­pli­car? A Glitch in the Matrix? Não se sabe. Ao con­trá­rio do que su­ce­deu com a des­co­berta do pul­sar, os in­ves­ti­ga­do­res não pu­de­ram be­ne­fi­ciar da re­pe­ti­ção cons­tante do fe­nó­meno de forma a estudá-lo e compreendê-lo. O Sinal Uau foi um es­pe­tá­culo de uma só noite, 72 se­gun­dos que não mais se repetiram.

Não ad­mira por isso que Seth Shostak, as­tró­nomo do pro­jeto SETI e um rosto fa­mi­liar em pro­gra­mas de di­vul­ga­ção ci­en­tí­fica, te­nha es­crito a pro­pó­sito deste epi­só­dio: «A não ser que vol­te­mos a en­con­trar o si­nal cap­tado pelo Big Ear, o Sinal Wow per­ma­ne­cerá sem­pre o Sinal What.»

→ 22/01/2013 @1:57

Um vídeo absolutamente brilhante


É o me­lhor ví­deo que vi até hoje a de­mons­trar como te­ria sido im­pos­sí­vel, em 1969, si­mu­lar a ida do Homem à Lua. É sim­ples, con­ciso e focado.

Vi-o no Facebook numa par­ti­lha do as­tró­nomo Ricardo Cardoso Reis. Não es­pero que con­vença aque­les que acre­di­tam na te­o­ria da al­dra­bice lu­nar com um fre­ne­sim de pro­feta sub-orbital, mas acre­dito que dis­si­pará dú­vi­das de quem está ainda in­de­ciso e man­tém o cé­re­bro a funcionar.

O ví­deo (fa­lado em in­glês, mas percebe-se bem) não foi con­ce­bido por um ci­en­tista ou al­guém li­gado à NASA, mas por um mul­ti­fa­ce­tado ar­tista in­de­pen­dente norte-americano de­si­lu­dido com o seu país: há nove anos mudou-se para Amesterdão e nunca mais saiu.

(Multifacetado: SG Collins é re­a­li­za­dor (di­ri­giu e es­cre­veu, em 2000, um filme in­die de baixo or­ça­mento, The Same Side of Rejection Street), pin­tor, de­sig­ner, mú­sicoes­cri­tor.)

No ví­deo «Moon Hoax Not», SG Collins re­corda um facto ir­re­fu­tá­vel: em 1969, a tec­no­lo­gia ví­deo e de efei­tos es­pe­ci­ais ne­ces­sá­ria para si­mu­lar re­a­lis­ti­ca­mente os even­tos trans­mi­ti­dos pe­las te­le­vi­sões ainda não exis­tia. Atualmente é ao con­trá­rio: te­mos tec­no­lo­gia para si­mu­lar uma vi­a­gem e um pas­seio na Lua, mas pa­re­ce­mos ter es­que­cido de como se faz para man­dar re­al­mente um ho­mem para a Lua, re­mata o in­te­li­gente Collins.

O ví­deo é de uma bri­lhante sim­pli­ci­dade (link do YouTube, se pre­fe­ri­rem) – e salta à vista não só pe­las con­clu­sões como pelo sen­tido de hu­mor do au­tor. Além disso, alerta-nos para as ver­da­dei­ras e muito ter­re­nas cons­pi­ra­ções que os ma­lu­qui­nhos das te­o­rias ro­cam­bo­les­cas pa­re­cem ig­no­rar — um ex­tra importante.

Depois de ver «Moon Hoax Not», uma pes­soa com um mí­nimo de bom senso não vol­tará a des­con­fiar que as mis­sões Apollo fo­ram for­ja­das. É uma promessa.

Aos pa­ra­que­dis­tas que ater­ra­rem na caixa de co­men­tá­rios lem­brando to­das as inú­me­ras sus­pei­tas e te­o­rias que Collins não re­fere em 12 mi­nu­tos de mo­nó­logo, fica a su­ges­tão: pro­vem pri­meiro que as suas afir­ma­ções es­tão er­ra­das an­tes de pen­sar se­quer em co­men­tar. Não con­se­guem? As vos­sas pseudo-teorias fo­ram ao ar e as pa­la­vras tornaram-se desnecessárias.

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