
Quem escrever QWERTY sabe que esta sucessão de caracteres, embora não tenha nenhum significado nem sequer seja uma palavra, é muito familiar e fácil de reconhecer.
QWERTY representa as primeiras seis letras da primeira linha do teclado, um layout utilizado nos nossos computadores e que está connosco há mais de um século: desde 1873 é usado nas máquinas de escrever.
Agora escrevam 6EQUJ5.
Nada? É normal. Esta sucessão de números e letras também não possuía nenhum significado até à noite de 15 de agosto de 1977, mas desde que foi vista passou a representar um sinal da existência de uma civilização alienígena ou, pelo menos, um mistério da Natureza por decifrar. Um possível layout de um teclado cósmico que não éramos ainda capazes de identificar.
6EQUJ5. Quem diria?
Quando o professor e astrónomo Jerry Ehman, voluntário do SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence), notou essa sequência nos dados recolhidos pelo telescópio Big Ear da Universidade Estatal de Ohio — só os viu vários dias depois de terem sido recebidos — ficou tão impressionado que traçou uma linha vermelha à volta dos números e, ao lado, escreveu: «Uau!» (Wow!)
Ehman detetara um sinal focado, intermitente e de enorme potência proveniente da constelação de Sagitário na frequência de 1.42GHz. A estrela mais próxima dessa constelação encontra-se a 220 anos-luz.
1.42 GHz já está dentro do espectro de frequência (até 1.7GHz) onde não existe ruído de fundo. Se civilizações extraterrestres estiverem em comunicação umas com as outras, é possível que aproveitem esse «silêncio» para se fazer ouvir. A Radioastronomia chama-lhe «janela de água» por corresponder à frequência do hidrogénio.
Daí em diante, a extraordinária observação passou a ser conhecida como Sinal Uau (The Wow Signal).
Desde 1963 que os radiotelescópios ao serviço do projeto SETI varriam os céus, monitorizando a radiação eletromagnética em busca de sinais de transmissões de civilizações extraterrestres. A tentativa de descobrir uma agulha no palheiro cósmico não dera resultados.
Só pode ser piada, certo?
Mais de 35 anos depois, olho para aquele Wow! rabiscado por Ehman e fico a pensar se Seth MacFarlane, criador de Family Guy e amante de Astronomia, não terá desenhado o queixo de Peter Griffin inspirado na forma daquele W – homenagem ao evento que poderia ter mudado a nossa posição solitária no Cosmos.
Mas o Cosmos pode ser mais cruel nas piadas que Seth MacFarlane. Este Cosmos zombeteiro já antes transformara especulações em meras anedotas, pelo que o prudente Ehman optou pelo método cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém.
Tinha boas razões para evitar conclusões apressadas. Em 1967, a astrofísica Jocelyn Bell Burnell (então estudante de graduação) descobriu uma fonte de rádio extremamente potente e regular que não podia ser atribuída a nenhum tipo de deturpação de ruído.
Nikolai Semenovich Kardashev, astrofísico russo e percursor de investigações do tipo SETI, propôs que o sinal vinha de uma civilização extraterrestre milhares de milhões de anos mais avançada que a nossa. Os alienígenas, disse Kardashev, comunicavam através de uma espécie de farol galáctico. Entusiasmado e com sentido de humor, batizou a observação astronómica de Burnell com a sigla LGM-1 (Little Green Man, alusão aos alienígenas da ficção científica).

Da esquerda para a direita: os astrónomos Dick Arnold, Bob Dixon, Jerry Ehman (o descobridor do Sinal Uau!), Ed Teiga e John Kraus examinando os dados obtidos pelo telescópio Big Ear.
Surpresa! Kardashev estava enganado. Jocelyn Bell Burnell não descobrira homenzinhos verdes, mas a radiação emitida por uma estrela de neutrões incrivelmente densa e pequena cuja existência até então desconhecíamos: uma estrela do tipo pulsar, assim batizada devido ao facto de a sua radiação nos chegar numa série regular de pulsações eletromagnéticas.
Mas… 6EQUJ5? Uau! Aquilo era uma sequência fantástica. No sistema usado então no observatório Big Ear, cada número — de 1 a 9 — representava o nível de sinal acima do ruído de fundo. Uns e dois distribuídos de uma forma homogénea? Teria significado o ronronar de galáxias e satélites, pura estática sem interesse, uma noite de café com rotina.
Agora.. um seis e um sete? Uma intensidade impressionante para um espaço de tempo de observação tão curto: 72 segundos. Depois havia letras, além de números, o que significava intensidades ainda maiores. A letra U, por exemplo, valia 30. Incrível!
6EQUJ5? Aquilo era como ouvir um dos Noturnos de Chopin e ser bruscamente interrompido por uma fanfarra de metais tocando a célebre sequência de cinco tons que John Williams criou para colocar seres humanos e ETs a comunicar em «Encontros Imediatos de 3º Grau» (por coincidência, o filme estreou no mesmo ano).
Teria Ehman descoberto o farol galáctico que Kardashev sugerira dez anos antes? Um novo objeto bizarro no Cosmos? Fosse o que fosse, ali havia gato — e o «gato» podia vir a tornar-se tão famoso como o de Schrödinger.
Uma fanfarra cósmica por decifrar

Dois aspetos deste sinal chamaram a atenção de Ehman: em primeiro lugar, 72 segundos era o tempo que o feixe demorava a varrer um determinado ponto do céu. Por isso, qualquer sinal vindo do espaço teria de aumentar e diminuir de intensidade em 72 segundos – exatamente o que aconteceu no Sinal Uau.
Esta constatação eliminou a possibilidade de o ruído ser interferência rádio com origem na Terra.
Em segundo lugar, o sinal não era contínuo mas intermitente. O Big Ear possuía dois feixes que rastreavam a mesma área do céu, separados por um intervalo de três minutos. Dado que o sinal aparecera num feixe e não no outro, talvez o Uau se tivesse «desligado» entre um e outro rastreamento. Poderia a transmissão alienígena ter sido interrompida durante os três minutos que separavam os feixes? Haveria algum ET a mexer no interruptor?
Bem, se o sinal era periódico — por exemplo, a civilização alienígena estivesse a usar um feixe rotativo de rádio que varresse a nossa galáxia a cada cinco minutos ou a cada cinco horas — talvez pudéssemos voltar a encontrá-lo. Bastava procurar.
Nem Ehman nem a equipa do observatório Big Ear foram capazes de voltar a detetar o Uau. «Talvez tenha sido mesmo uma emissão terrestre refletida por detrito espacial», afirmou Ehman, deixando cair o assunto.
Outro investigador SETI, Robert Gray, retomou a tarefa e voltou à quimera cósmica do Uau. Gray procurou e procurou. Nos anos que se seguiram – 1987 e 1989 – usou o sistema META SETI de Harvard e o Very Large Array (VLA) a ver se descobria o raio do sinal. Nada.
Estava visto que aquele Uau haveria de ser o bosão de Higgs da Astronomia, pelo menos na sua capacidade de permanecer «escondido» e testar a perseverança dos investigadores.

Três brilhantes nebulosas na constelação de Sagitário
Em observações feitas entre 1995 e 1998, Gray testou mais três cenários:
Primeiro – e se fosse uma transmissão fraca, mas estável, cujo sinal tivesse surgido momentaneamente mais forte devido ao fenómeno da cintilação estelar? Grey não encontrou nenhuma transmissão desse tipo.
Segundo – teria sido o Sinal Uau concebido apenas para atrair a atenção para um sinal muito mais fraco, mas contínuo, estratégia óbvia de uma civilização inteligente para poupar energia e usá-la de forma mais eficiente? Mais uma vez, Grey não descobriu nada.
Terceiro – talvez o problema fosse falta de paciência, pensou o obstinado (e paciente) Robert Gray. E se o feixe alienígena enviasse um sinal com uma frequência menor? E se o transmissor estivesse fixo num planeta, emitando um sinal a cada 20 ou 30 horas?
Em 1998, Grey fez seis observações, rastreando a constelação de Sagitário por períodos de 14 horas com um radiotelescópio de 26 metros. Nada.
O Sinal Uau nunca mais reapareceu. Extraterrestres? Fenómeno natural por explicar? A Glitch in the Matrix? Não se sabe. Ao contrário do que sucedeu com a descoberta do pulsar, os investigadores não puderam beneficiar da repetição constante do fenómeno de forma a estudá-lo e compreendê-lo. O Sinal Uau foi um espetáculo de uma só noite, 72 segundos que não mais se repetiram.
Não admira por isso que Seth Shostak, astrónomo do projeto SETI e um rosto familiar em programas de divulgação científica, tenha escrito a propósito deste episódio: «A não ser que voltemos a encontrar o sinal captado pelo Big Ear, o Sinal Wow permanecerá sempre o Sinal What.»