
Roy A. Gallant
Somos um bocadinho malucos quando resolvemos imaginar vidas extraterrestres – mesmo quando a intenção é brincar com o conceito.
Esta adorável criatura vive em Vénus – chama-se Oucher-poucher e é fruto da imaginação de Roy A. Gallant, que publicou em 1995 – quando Plutão ainda era um planeta – um livro de Astronomia chamado National Geographic Picture Atlas of Our Universe, com informações sobre o Cosmos dirigidas aos mais novos.
Um dos capítulos chamava-se «What If…» e era um exercício imaginativo e bem-humorado de como seriam as formas de vida nos outros planetas do Sistema Solar – se tais vidas existissem, claro.
E assim voltamos aos adoráveis Oucher-poucher – Ouch significa ai, poucher é um apelido americano e pouch quer dizer bolsa.
Explica o autor que o ai ai ai do nome pretende imitar o som que estes bichos produzem sempre que os rabos tocam na superfície sobre-aquecida de Vénus. Esqueçam o comilão que se banqueteia com os restos da sonda soviética Venera e reparem na expressão dolorosa da criatura em segundo plano.
Tem toda a razão, o pequeno Oucher-poucher.
Imagino que num dia excepcionalmente frio em Vénus a temperatura desça aos 400 graus. Uma mãe-galinha venusiana diria então ao seu filho «Se vais lá para fora veste um casaco», mas nós ficaríamos transformados numa torradinha de manteiga em dois segundos.
E como o planeta demora mais tempo a rodar sobre si próprio (243 dias terrestres) do que a completar uma órbita à volta do Sol (224 dias), um dia venusiano é mais longo do que um ano.
(Por um lado não deixa de ser uma vantagem interessante: imaginem receber o subsídio de férias antes do almoço e o subsídio de Natal logo a seguir ao jantar. Todos os dias).
O autor da ilustração assume que o espaço entre as nádegas destes venusianos segue os mesmos princípios biológicos que nós. Sendo assim, a energia necessária para saltar é obtida expelindo lava pelo rego – enfim, não basta ser extraterrestre: há que parecê-lo.
Vénus, esse paraíso tropical

Um dia típico em Vénus
As aparências iludem – e a expressão tanto se aplica às pessoas como aos planetas.
Vénus sempre foi visto como um planeta-irmão: tem um diâmetro apenas 650 quilómetros mais pequeno do que a Terra e está a 108 milhões de quilómetros de distância do Sol – mais perto 41 milhões de quilómetros do que nós.
(São distâncias médias: a órbita da Terra é elíptica, tal como a da generalidade dos corpos celestes; portanto às vezes está mais perto do Sol e outras mais longe. No caso da Terra a variação é mínima, não chega à meia-dúzia de milhões de quilómetros.
Quando está mais próximo do Sol, diz-se que está no periélio; quanto está mais longe, diz-se afélio. Da próxima vez que estiveres escarrapachado numa esplanada do hemisfério Sul a gozar o calorzinho, faz um brinde ao senhor periélio – olha que ele merece).
Antes de sabermos as verdadeiras condições em Vénus, imaginámo-lo como um pântano tropical luxuriante, um planeta de jacuzzis, ou, nas visões mais pessimistas, como um deserto do tipo Saara onde possíveis beduínos extraterrestres se passeavam em dromedários de oito patas.
É por causa deste tipo de especulações que convém manter a lucidez quanto à atual busca de Terras em órbita de outras estrelas.
Imaginem uma civilização com o mesmo avanço tecnológico que o nosso e que, tal como nós, ande a tentar descobrir exoplanetas habitáveis. Que diriam esses ET’s se descobrissem Vénus? Aposto que poderiam concluir, cheios de entusiasmo, que aquele planeta rochoso teria todas as condições para suportar «a vida tal como a conhecemos».
A Natureza tem uma capacidade incrível de nos surpreender. E pouco lhe importa se as notícias são más.
Alguma vez essa hipotética civilização veria a «estrela brilhante» Vénus como um inferno?
Até americanos e russos sobrevoarem e aterrarem no planeta, respetivamente, não nos passava pela cabeça que as condições fossem tão hostis: nuvens de ácido sulfúrico, 500 graus à superfície e uma atmosfera de dióxido de carbono tão densa que, se estivéssemos lá, equivaleria a suportarmos o peso de um oceano terrestre a 1000 metros de profundidade. Vénus não é um bom local para se curar uma dor de costas.
Por causa desta atmosfera tão densa, uma simples brisa em Vénus é um furacão. E tamanha quantidade de dióxido de carbono provocou um poderoso efeito de estufa – nenhum calor escapa da sua superfície.
Os astrólogos da Babilónia chamavam-lhe «Brilhante Rainha do Céu», mas Vénus é, nos nossos dias, uma «Brilhante Rainha do Aquecimento Global.»
É por causa desse efeito de estufa radical que o destino daquele planeta é apontado por alguns cientistas como um exemplo do que poderá acontecer à nossa Terra se continuarmos a intoxicar o ar com dióxido de carbono e outras merdas venenosas vomitadas pelos tubos de escape deste mundo.
50 mil anos depois de o Homo Sapiens atingir a maioridade antropológica, ainda precisamos de ser recordados de que uma Civilização só sobrevive se tiver muito juízinho.
E embora o ser humano — como qualquer outra criatura na Terra — seja fantasticamente adaptável, não será a expelir lava pelo cu como o Oucher-poucher que conseguirá safar-se da extinção, se persistir em transformar este precioso planeta repleto de vida num segundo Vénus.