Astronomia, Física, Biologia, Estranhos Fenómenos e tudo o que tem a ver com a Ciência.

→ 28/08/2011 @19:06

Deus em debate: Richard Dawkins e John Lennox

Este é um de­bate im­pres­cin­dí­vel para to­dos os que se pre­o­cu­pam com ques­tões es­sen­ci­ais da nossa exis­tên­cia: quem so­mos, de onde vi­mos, para onde va­mos, Deus existe?

Durante uma hora, dois ci­en­tis­tas que re­pre­sen­tam duas vi­sões an­ta­gó­ni­cas do mundo, a ateísta e a cristã, de­ba­tem es­tas ques­tões e, so­bre­tudo, os te­mas prin­ci­pais con­ti­dos no li­vro The God Delusion (O Delírio de Deus, tra­du­zido em Portugal para A Desilusão de Deus)

O re­pre­sen­tante do Ateísmo é, ob­vi­a­mente, o au­tor desse li­vro: o bió­logo Richard Dawkins, fer­vo­roso darwi­nista; o re­pre­sen­tante do Cristianismo é ou­tro ho­mem no­tá­vel: John Lennox, pro­fes­sor de Matemática da Universidade de Oxford.

O ob­je­tivo do de­bate é sa­ber quais des­tas duas vi­sões – ateísta e cristã – é, na ver­dade, um de­lí­rio. Vale a pena per­der uma hora e pi­cos da nossa vida para as­sis­tir a este de­bate — e está (bem) le­gen­dado em por­tu­guês do Brasil.

→ 27/08/2011 @19:26

O suicídio do astronauta

A aven­tura dos vai-vem co­me­çou a 12 de abril de 1981 e ter­mi­nou quase 30 anos de­pois, a 21 de ju­lho deste ano.

Com os pla­nos de uma nova mis­são tri­pu­lada à Lua can­ce­la­dos de­vido a cor­tes or­ça­men­tais, o fo­tó­grafo norte-americano Neil de Costa ima­gi­nou o po­bre as­tro­nauta cor­roído pelo di­lema de uma exis­tên­cia sem sentido.

Neil –  tem o mesmo nome do pri­meiro ser hu­mano a pi­sar a su­per­fí­cie lu­nar – criou en­tão uma sé­rie de fo­to­gra­fias atra­vés das quais en­ce­nou a de­pres­são e o sub­se­quente sui­cí­dio do astronauta.

 

Neil de Costa criou si­tu­a­ções ab­sur­das com uma in­ten­ção quase hu­mo­rís­tica mas, ao mesmo tempo, re­ve­lou uma re­a­li­dade in­qui­e­tante para o fu­turo da ex­plo­ra­ção es­pa­cial tri­pu­lada: os cor­tes orçamentais.

O pro­grama Constellation pla­ne­ava fa­zer re­gres­sar o ho­mem à Lua e criar os ali­cer­ces de fu­tu­ras vi­a­gens tri­pu­la­das a Marte e ou­tros des­ti­nos ainda mais lon­gín­quos do Sistema Solar.

Por não ha­ver di­nheiro para in­ves­tir na ex­plo­ra­ção es­pa­cial, a ad­mi­nis­tra­ção Obama propôs o can­ce­la­mento do programa.

Com o can­ce­la­mento do pro­grama Constellation ter­mi­na­ram tam­bém os tra­ba­lhos de de­sen­vol­vi­mento de um novo fo­gue­tão, o Ares I. Este fo­gue­tão se­ria o veí­culo de lan­ça­mento de um novo mó­dulo es­pa­cial, o Orion, ca­paz de trans­por­tar uma tri­pu­la­ção de qua­tro a seis as­tro­nau­tas numa vi­a­gem de ida e volta à Lua.

O Orion so­bre­vi­veu par­ci­al­mente aos cor­tes or­ça­men­tais, mas es­tará mais ori­en­tado para fun­ci­o­nar como um ob­jeto NEO – acró­nimo de Near-Earth Object, ob­jecto pró­ximo da Terra. Por en­quanto, nada de mis­sões tri­pu­la­das à Lua. Marte? Se exis­ti­rem boas ra­zões comerciais…

Que resta ao nosso as­tro­nauta de­pri­mido? Participar no de­sen­vol­vi­mento do Orion, re­bap­ti­zado Orion MPCV (Multi-Purpose Crew Vehicle), con­ti­nuar na Estação Espacial Internacional e ob­ser­var em­pre­sas pri­va­das to­mando conta da ex­plo­ra­ção espacial.

 

Visões & Explorações

A re­sis­tên­cia do mó­dulo Orion MPCV (Multi-Purpose Crew Vehicle) está a ser tes­tada para um even­tual ce­ná­rio de ater­ra­gem for­çada no oce­ano (NASA/Sean Smith)

Curiosity: o novo ro­ver que ex­plo­rará Marte de­verá ser lan­çado en­tre Novembro e Dezembro deste ano, prevendo-se que pouse no pla­neta em agosto de 2012. Principal mis­são: des­co­brir se as con­di­ções am­bi­en­tais no lo­cal de ater­ra­gem su­por­tam vida mi­cro­bió­tica e pro­cu­rar pis­tas so­bre a exis­tên­cia de vida se­me­lhante num pas­sado dis­tante (NASA/JPL-Caltech)

Vista a bordo da Estação Espacial Internacional: a costa atlân­tica dos Estados Unidos (NASA/JSC)

A bordo da Estação Espacial Internacional, o as­tro­nauta Ron Garan fo­to­gra­fou o fu­ra­cão Irene so­bre as Caraíbas (NASA/Ron Garan)

Vista da cra­tera Tycho, na Lua, a par­tir da nave Lunar Reconnaissance Orbiter (NASA/GSFC/Arizona State University)

Imagem cap­tada a 29 de ju­lho deste ano pela sonda Cassini. Os anéis e cinco das luas de Saturno são, da es­querda para a di­reita, Jano, Pandora, Encélado, Mimas e Reia (NASA/JPL/Space Science Institute)

A mis­te­ri­osa lua de Saturno, Titã, fo­to­gra­fada pela sonda Cassini a 2.3 mi­lhões de qui­ló­me­tros de dis­tân­cia. Os anéis do pla­neta «cor­tam» o sa­té­lite. (NASA/JPL/Space Science Institute)

A 2 de agosto deste ano, a Cassini fo­to­gra­fou, a mais de 600 mil qui­ló­me­tros de dis­tân­cia, nu­vens de uma enorme tem­pes­tade em Saturno (NASA/JPL/Space Science Institute)

→ 24/08/2011 @4:13

É melhor não expelirmos lava pelo rabo

Roy A. Gallant

Somos um bo­ca­di­nho ma­lu­cos quando re­sol­ve­mos ima­gi­nar vi­das ex­tra­ter­res­tres – mesmo quando a in­ten­ção é brin­car com o conceito.

Esta ado­rá­vel cri­a­tura vive em Vénus – chama-se Oucher-poucher e é fruto da ima­gi­na­ção de Roy A. Gallant, que pu­bli­cou em 1995 – quando Plutão ainda era um pla­neta –  um li­vro de Astronomia cha­mado National Geographic Picture Atlas of Our Universe, com in­for­ma­ções so­bre o Cosmos di­ri­gi­das aos mais novos.

Um dos ca­pí­tu­los chamava-se «What If…» e era um exer­cí­cio ima­gi­na­tivo e bem-humorado de como se­riam as for­mas de vida nos ou­tros pla­ne­tas do Sistema Solar – se tais vi­das exis­tis­sem, claro.

E as­sim vol­ta­mos aos ado­rá­veis Oucher-poucher Ouch sig­ni­fica ai, pou­cher é um ape­lido ame­ri­cano e pouch quer di­zer bolsa.

Explica o au­tor que o ai ai ai do nome pre­tende imi­tar o som que es­tes bi­chos pro­du­zem sem­pre que os ra­bos to­cam na su­per­fí­cie sobre-aquecida de Vénus. Esqueçam o co­mi­lão que se ban­que­teia com os res­tos da sonda so­vié­tica Venera e re­pa­rem na ex­pres­são do­lo­rosa da cri­a­tura em se­gundo plano.

Tem toda a ra­zão, o pe­queno Oucher-poucher.

Imagino que num dia ex­cep­ci­o­nal­mente frio em Vénus a tem­pe­ra­tura desça aos 400 graus. Uma mãe-galinha ve­nu­si­ana di­ria en­tão ao seu fi­lho «Se vais lá para fora veste um ca­saco», mas nós fi­ca­ría­mos trans­for­ma­dos numa tor­ra­di­nha de man­teiga em dois segundos.

E como o pla­neta de­mora mais tempo a ro­dar so­bre si pró­prio (243 dias ter­res­tres) do que a com­ple­tar uma ór­bita à volta do Sol (224 dias), um dia ve­nu­si­ano é mais longo do que um ano.

(Por um lado não deixa de ser uma van­ta­gem in­te­res­sante: ima­gi­nem re­ce­ber o sub­sí­dio de fé­rias an­tes do al­moço e o sub­sí­dio de Natal logo a se­guir ao jan­tar. Todos os dias).

O au­tor da ilus­tra­ção as­sume que o es­paço en­tre as ná­de­gas des­tes ve­nu­si­a­nos se­gue os mes­mos prin­cí­pios bi­o­ló­gi­cos que nós. Sendo as­sim, a ener­gia ne­ces­sá­ria para sal­tar é ob­tida ex­pe­lindo lava pelo rego –  en­fim, não basta ser ex­tra­ter­res­tre: há que parecê-lo.

 

Vénus, esse pa­raíso tropical

Um dia tí­pico em Vénus

As apa­rên­cias ilu­dem – e a ex­pres­são tanto se aplica às pes­soas como aos planetas.

Vénus sem­pre foi visto como um planeta-irmão: tem um di­â­me­tro ape­nas 650 qui­ló­me­tros mais pe­queno do que a Terra e está a 108 mi­lhões de qui­ló­me­tros de dis­tân­cia do Sol – mais perto 41 mi­lhões de qui­ló­me­tros do que nós.

(São dis­tân­cias mé­dias: a ór­bita da Terra é elíp­tica, tal como a da ge­ne­ra­li­dade dos cor­pos ce­les­tes; por­tanto às ve­zes está mais perto do Sol e ou­tras mais longe. No caso da Terra a va­ri­a­ção é mí­nima, não chega à meia-dúzia de mi­lhões de quilómetros.

Quando está mais pró­ximo do Sol, diz-se que está no pe­rié­lio; quanto está mais longe, diz-se afé­lio. Da pró­xima vez que es­ti­ve­res es­car­ra­pa­chado numa es­pla­nada do he­mis­fé­rio Sul a go­zar o ca­lor­zi­nho, faz um brinde ao se­nhor pe­rié­lio –  olha que ele merece).

Antes de sa­ber­mos as ver­da­dei­ras con­di­ções em Vénus, imaginámo-lo como um pân­tano tro­pi­cal lu­xu­ri­ante, um pla­neta de ja­cuz­zis, ou, nas vi­sões mais pes­si­mis­tas, como um de­serto do tipo Saara onde pos­sí­veis be­duí­nos ex­tra­ter­res­tres se pas­se­a­vam em dro­me­dá­rios de oito patas.

É por causa deste tipo de es­pe­cu­la­ções que con­vém man­ter a lu­ci­dez quanto à atual busca de Terras em ór­bita de ou­tras estrelas.

Imaginem uma ci­vi­li­za­ção com o mesmo avanço tec­no­ló­gico que o nosso e que, tal como nós, ande a ten­tar des­co­brir exo­pla­ne­tas ha­bi­tá­veis. Que di­riam es­ses ET’s se des­co­bris­sem Vénus? Aposto que po­de­riam con­cluir, cheios de en­tu­si­asmo, que aquele pla­neta ro­choso te­ria to­das as con­di­ções para su­por­tar «a vida tal como a conhecemos».

A Natureza tem uma ca­pa­ci­dade in­crí­vel de nos sur­pre­en­der. E pouco lhe im­porta se as no­tí­cias são más.

Alguma vez essa hi­po­té­tica ci­vi­li­za­ção ve­ria a «es­trela bri­lhante» Vénus como um inferno?

Até ame­ri­ca­nos e rus­sos so­bre­vo­a­rem e ater­ra­rem no pla­neta, res­pe­ti­va­mente, não nos pas­sava pela ca­beça que as con­di­ções fos­sem tão hos­tis: nu­vens de ácido sul­fú­rico, 500 graus à su­per­fí­cie e uma at­mos­fera de dió­xido de car­bono tão densa que, se es­ti­vés­se­mos lá, equi­va­le­ria a su­por­tar­mos o peso de um oce­ano ter­res­tre a 1000 me­tros de pro­fun­di­dade. Vénus não é um bom lo­cal para se cu­rar uma dor de costas.

Por causa desta at­mos­fera tão densa, uma sim­ples brisa em Vénus é um fu­ra­cão. E ta­ma­nha quan­ti­dade de dió­xido de car­bono pro­vo­cou um po­de­roso efeito de es­tufa – ne­nhum ca­lor es­capa da sua superfície.

Os as­tró­lo­gos da Babilónia chamavam-lhe «Brilhante Rainha do Céu», mas Vénus é, nos nos­sos dias, uma «Brilhante Rainha do Aquecimento Global

É por causa desse efeito de es­tufa ra­di­cal que o des­tino da­quele pla­neta é apon­tado por al­guns ci­en­tis­tas como um exem­plo do que po­derá acon­te­cer à nossa Terra se con­ti­nu­ar­mos a in­to­xi­car o ar com dió­xido de car­bono e ou­tras mer­das ve­ne­no­sas vo­mi­ta­das pe­los tu­bos de es­cape deste mundo.

50 mil anos de­pois de o Homo Sapiens atin­gir a mai­o­ri­dade an­tro­po­ló­gica, ainda pre­ci­sa­mos de ser re­cor­da­dos de que uma Civilização só so­bre­vive se ti­ver muito juízinho.

E em­bora o ser hu­mano — como qual­quer ou­tra cri­a­tura na Terra — seja fan­tas­ti­ca­mente adap­tá­vel, não será a ex­pe­lir lava pelo cu como o Oucher-poucher que con­se­guirá safar-se da ex­tin­ção, se per­sis­tir em trans­for­mar este pre­ci­oso pla­neta re­pleto de vida num se­gundo Vénus.

→ 20/08/2011 @16:59

Bach em Marte, Vénus e Titã

Considerem a fa­mosa peça para ór­gão – Tocata e Fuga em Ré Menor, de Johann Sebastian Bach.

Considerem agora as di­fe­ren­ças at­mos­fé­ri­cas en­tre a Terra, Marte, Vénus e a maior lua de Saturno, Titã. Imaginemos que as im­pi­e­do­sas con­di­ções à su­per­fí­cie des­ses mun­dos ali­e­ní­ge­nas – com­po­si­ção e pres­são at­mos­fé­ri­cas hos­tis, tem­pe­ra­tu­ras de­ma­si­ado bai­xas ou ele­va­das –  não nos im­pe­di­riam de mon­tar um con­certo ao ar li­vre e fa­zer de uma cra­tera o nosso «fosso de orquestra».

Como so­a­ria a Tocata e Fuga em Ré Menor se fosse exe­cu­tada em Marte, Vénus e Titã?

Tim Leighton – pro­fes­sor de ultra-sons e acús­tica sub-aquática da Universidade de Southampton – e o fí­sico ro­meno Andi Petculescu par­ti­lha­vam esta cu­ri­o­si­dade em re­la­ção aos sons em ou­tros mun­dos e juntaram-se para ob­ter a si­mu­la­ção mais re­a­lista possível.

Basearam-se nos da­dos de que dis­po­mos das con­di­ções at­mos­fé­ri­cas em Marte, Vénus e Titã e, com o au­xí­lio de um com­pu­ta­dor, de­ram iní­cio aos cál­cu­los do con­certo celestial.

Segundo Petculescu, a at­mos­fera de Vénus «afina» a Tocata em ré me­nor para fá me­nor – o que sig­ni­fica que a voz de uma cri­ança em Vénus so­a­ria como a de um smurf. As at­mos­fe­ras de Marte e Titã man­dam o som para baixo (sol sus­te­nido me­nor e fá sus­te­nido me­nor, res­pe­ti­va­mente), o que sig­ni­fica, se­gundo as pa­la­vras do fí­sico, que «a voz da mi­nha fi­lha de 10 anos so­a­ria como a de um adulto» nes­ses dois mundos.

Enquanto em Titã o som se pro­paga muito me­lhor do que na Terra, em Marte a at­mos­fera absorve-o de tal forma que, a 20 me­tros de dis­tân­cia do nosso hi­po­té­tico to­ca­dor de ór­gão, dei­xa­ría­mos de con­se­guir ou­vir a música.

Na re­por­ta­gem (em in­glês) de Ari Daniel Shapiro so­bre este ex­pe­ri­ên­cia, po­de­mos sa­ber como so­a­ria Bach nes­tes es­tra­nhos e fas­ci­nan­tes mun­dos. Fonte

→ 16/08/2011 @4:42

Planetas exosolares e coisas ‘cêntricas’

A Enciclopédia de Planetas Exosolares re­gista — da­dos atu­a­li­za­dos a 11 de Agosto deste ano — um to­tal de 573 pla­ne­tas fora do nosso Sistema Solar. Alguns são mun­dos incríveis.

Por exem­plo, o gi­gante de car­bono WASP-12b (os as­tró­no­mos têm cá um jeito para ba­ti­zar ob­je­tos ce­les­tes!) é 83 por cento maior do que Júpiter e está 40 ve­zes mais perto da sua es­trela que a Terra do Sol. A es­trela (com o ima­gi­na­tivo nome de WASP-12) está a 800 anos-luz de dis­tân­cia e tem um raio e uma massa se­me­lhante à nossa.

WASP-12b: quente, quentinho

O pla­neta é tão quente que, por com­pa­ra­ção, as tem­pe­ra­tu­ras em Vénus pa­re­cem bri­sas pri­ma­ve­ris: se exis­tisse um ter­mó­me­tro ca­paz de fun­ci­o­nar em WASP-12b, re­gis­ta­ria mais de 2200 graus.

TrES-2b: mais preto que o carvão

Um bo­ca­di­nho mais perto – a 750 anos-luz – está ou­tro pla­neta fan­tas­ti­ca­mente bi­zarro. O TrES-2b (es­tes no­mes, pá!) tem a iné­dita ca­rac­te­rís­tica de ser um gi­gante ga­soso mais preto que o pró­prio car­vão. Reflete me­nos de 1 por cento da luz da sua es­trela e ir­ra­dia uma cor ver­me­lha muito es­cura. É ou­tra brasa: 1000 graus de temperatura.

E ainda mais perto de nós – a uns me­ros 10 anos-luz –  está Epsilon Eridani b, ou­tro urso ga­soso. Orbita de­ma­si­ado longe da sua es­trela e nin­guém acre­dita que por lá exista vida, mas é pos­sí­vel que passe à his­tó­ria como o pri­meiro pla­neta exo­so­lar cuja luz con­se­gui­mos cap­tar diretamente.

(Inferimos a pre­sença des­tes cor­pos ce­les­tes por causa da in­fluên­cia gra­vi­ta­ci­o­nal que exer­cem so­bre a es­trela que or­bi­tam e me­dindo va­ri­a­ções de ve­lo­ci­dade des­ses sóis: o cha­mado mé­todo de ve­lo­ci­dade ra­dial. É um dos mé­to­dos mais uti­li­za­dos para de­te­tar exo­pla­ne­tas mas não é o único: con­sul­tar ar­tigo na Wikipédia).

 

As tais coi­sas ‘cêntricas’

Ainda es­ta­mos numa fase ini­cial de des­co­berta, mas não deixa de ser uma fase entusiasmante.

Por mui­tas ra­zões que te­nha­mos para pro­cu­rar pla­ne­tas em ór­bita de ou­tras es­tre­las, a prin­ci­pal – a mais im­por­tante e pro­funda – é a pos­si­bi­li­dade de des­co­brir­mos pla­ne­tas ca­pa­zes de sus­ten­tar a vida.

Porque, em úl­tima aná­lise, é de ex­tra­ter­res­tres que an­da­mos à pro­cura. Extraterrestres ra­ci­o­nais, se pos­sí­vel. Primos, mas não no sen­tido chim­panzé do termo.

Por mais que a pos­si­bi­li­dade dessa des­co­berta me en­tu­si­asme, fico na dú­vida se se­ria bem aco­lhida por toda a gente.

A Terra já não é o cen­tro do Universo – um enorme des­gosto que cus­tou mui­tas vi­das a ul­tra­pas­sar; o Sol de cuja ener­gia de­pen­de­mos to­tal­mente não passa de uma par­tí­cula de luz fi­nita e quase in­vi­sí­vel – ou­tro de­sa­pon­ta­mento. O sis­tema so­lar ocupa uma po­si­ção pe­ri­fé­rica na Via Láctea. A nossa ga­lá­xia tem 78 mil anos-luz de di­men­são e mesmo as­sim, à es­cala cós­mica, é tão in­vi­sí­vel como o pró­prio Sol.

E o nosso sol aca­bará os seus dias in­chando como uma bor­bu­lha in­fe­tada, sub­mer­gindo no seu pus nu­clear to­dos os mo­nu­men­tos que er­gue­mos em honra da sua pre­sença eterna.

Já es­ta­mos mais ou me­nos pre­pa­ra­dos para ad­mi­tir a nossa in­sig­ni­fi­cân­cia e fra­gi­li­dade no plano fí­sico. Vamos su­por en­tão que um dia de­te­ta­mos si­nais in­con­fun­dí­veis da exis­tên­cia de uma ci­vi­li­za­ção in­te­li­gente al­gu­res: o sis­tema de cren­ças gra­ças ao qual te­mos con­se­guido man­ter o nosso lu­gar como cen­tro es­pi­ri­tual do Universo será tam­bém abalado.

Os nos­sos deu­ses po­de­rão tornar-se tão pe­ri­fé­ri­cos e pe­que­nos e fi­ni­tos como o Sol. Nunca mais po­de­re­mos di­zer que o Universo foi feito para «nós» por­que o «ou­tro» po­derá ser tão ra­di­cal­mente di­fe­rente que qual­quer tipo de con­ci­li­a­ção en­tre as nos­sas cren­ças e as de­les, se as ti­ve­rem, será impossível.

Talvez seja a per­ce­ção deste pe­rigo que faz com que tanta gente acre­dite em OVNI.

Os ado­ra­do­res de OVNI vam­pi­ri­za­ram as des­co­ber­tas da Ciência para fa­zer do Cosmos um novo Céu.

O sis­tema de crença que fo­mos pro­gres­si­va­mente mon­tando à volta da mi­to­lo­gia dos dis­cos vo­a­do­res não é mais do que uma forma de re­sol­ver­mos este medo de dei­xar­mos de ser es­pe­ci­ais. Eles des­ce­ram dos céus para nos vi­si­tar. Eles observam-nos. Eles conhecem-nos. Eles es­tão aten­tos. Eles não fa­zem ou­tra coisa. Eles es­tão ob­ce­ca­dos connosco.

Quer os ima­gi­ne­mos ami­gá­veis (an­jos) ou hos­tis (de­mó­nios), a sua pre­sença é sem­pre trans­cen­dente. Não têm asas, mas na­ves es­pa­ci­ais. Não são vi­si­tan­tes, são apa­ri­ções. Para os ado­ra­do­res dos OVNI o Espaço é o novo Além – um ho­ri­zonte lon­gín­quo e sa­grado para além do qual to­das as pro­mes­sas são pos­sí­veis de con­cre­ti­zar e as len­das se re­er­guem en­tre os es­com­bros das ve­lhas religiões.

Quanto aos ci­en­tis­tas, os pa­râ­me­tros de busca são ainda an­tro­po­cên­tri­cos: pro­cu­ra­mos um re­flexo do nosso pró­prio pla­neta. Rochas, oce­a­nos. Uma nova Terra. Água lí­quida. Zonas ha­bi­tá­veis do sis­tema so­lar. Olhos na ou­tra ponta do te­les­có­pio –  ou qual­quer ór­gão sen­so­rial que pos­sa­mos com­pre­en­der. Estamos ainda do­mi­na­dos pelo pre­con­ceito de que a vida só pode ocor­rer em cir­cuns­tân­cias e for­mas se­me­lhan­tes às nossas.

E por ve­zes fico com a ideia de que es­tes as­tró­no­mos ca­ça­do­res de pla­ne­tas têm a se­creta es­pe­rança de po­der vir a en­con­trar no céu ou­tros as­tró­no­mos exa­ta­mente como eles.

→ 13/08/2011 @23:57

Uma janelinha em Marte

NASA/JPL-Caltech/Cornell/ASU

Uma vé­nia de ad­mi­ra­ção e res­peito pela per­sis­tên­cia de uma sonda tão pe­quena como um carro de golfe e muito mais lenta: há cerca de três anos, a Opportunity tre­pou a cra­tera Victoria e se­guiu para su­deste. Objetivo: a cra­tera Endeavour, a 12 qui­ló­me­tros de distância.

Esperava-se que a «ca­mi­nhada» da Opportunity es­ti­vesse con­cluída em me­nos de um ano: 23 me­ses – o equi­va­lente a um ano marciano.

A 5 de maio de 2010, os res­pon­sá­veis da mis­são fo­ram for­ça­dos a fa­zer des­vios para evi­tar du­nas po­ten­ci­al­mente pe­ri­go­sas para a es­ta­bi­li­dade do veí­culo: por causa des­tes zi­gue­za­gues cau­te­lo­sos, a dis­tân­cia que o ro­ver teve de per­cor­rer au­men­tou para 21 quilómetros.

Mas a nossa tar­ta­ruga mar­ci­ana che­gou fi­nal­mente ao seu des­tino – e ti­rou fo­to­gra­fias! Esta aqui em cima é uma de­las, re­ce­bida na Terra a 6 de Agosto. A ima­gem foi co­li­gida a par­tir de vá­rias ex­po­si­ções da câ­mara pa­no­râ­mica da sonda.

 

Vale Deadvlei, no Deserto da Namíbia

Os su­búr­bios da cra­tera Endeavour – tem 22 qui­ló­me­tros de di­â­me­tro — são si­mul­ta­ne­a­mente ali­e­ní­ge­nas e fa­mi­li­a­res, como de resto quase tudo o que ve­mos em Marte.

Os mon­tes ar­gi­lo­sos do vale Deadvlei, no Deserto da Namíbia, po­diam pas­sar por mar­ci­a­nos. Só a pre­sença de ve­ge­ta­ção e o céu azul nos di­zem que ainda es­ta­mos na Terra.

Podemos olhar para a pai­sa­gem cap­tada pela Opportunity e imaginar-nos den­tro de um li­vro do Douglas Adams, re­fas­te­la­dos na es­pla­nada Endeavour, os de­di­nhos dos pés en­fi­a­dos nas areias de Marte, os olhos hip­no­ti­za­dos por aquele céu de cor cerveja-choca (por causa da poeira).

E se nos man­ti­ver­mos den­tro do li­vro con­ti­nu­a­re­mos imu­nes ao clima as­sas­sino de Marte. Enquanto es­pe­ra­mos que nos seja ser­vido o al­moço na es­pla­nada, po­de­mos ima­gi­nar, com ar so­nha­dor, aquele jipe-robô tão fo­fa­mente ru­di­men­tar que um dia, há mais de 500 anos, se ar­ras­tou até ali para ana­li­sar uns ter­re­nos des­co­nhe­ci­dos – muito mais an­ti­gos que qual­quer ou­tro ter­reno ob­ser­vado até então.

São aque­les ali, su­gere o nosso tu­rista do fu­turo apon­tando um dedo à en­costa cor de barro. «Os ma­te­ri­ais ar­gi­lo­sos que se for­ma­ram quando Marte era mais quente e mo­lhado, e re­pleto de vida ex­tra­ter­res­tre mi­cro­bió­tica

Eu sei, es­tou a esquecer-me da re­a­li­dade.

A re­a­li­dade é um bo­ca­di­nho abor­re­cida para um tu­rista em Marte: se fos­se­mos tele-transportados sem qual­quer pro­te­ção para as ime­di­a­ções da cra­tera Endeavour – uma ope­ra­ção do tipo «festa de pi­jama», mas apli­cada ao pla­neta ver­me­lho – não nos aguen­ta­ría­mos mais de um minuto.

Como a at­mos­fera mar­ci­ana pos­sui 95,72% de dió­xido de car­bono e 0,2% de oxi­gé­nio, fi­ca­ría­mos in­cons­ci­en­tes em se­gun­dos. Uma más­cara de oxi­gé­nio po­dia aju­dar a evi­tar o en­ve­ne­na­mento, mas ra­pi­da­mente fi­ca­ría­mos con­ge­la­dos: a tem­pe­ra­tura mé­dia à su­per­fí­cie é de 55 graus negativos.

Ainda te­mos as fre­quen­tes tem­pes­ta­des de po­eira. E a radiação.

Na re­a­li­dade ainda não des­co­bri­mos ab­so­lu­ta­mente nada que nos prove que al­gu­res num pas­sado lon­gín­quo exis­tiu vida em Marte – muito me­nos se existe ainda. Mas aquele carrinho-robô está a esforçar-se muito. Há sete anos que anda por lá, ex­plo­ra­dor in­can­sá­vel e de­ter­mi­nado. Há mui­tos me­ses que tra­ba­lha no li­mite. E ainda não se esgotou.

Este pe­queno e pa­te­ti­ca­mente lento veí­culo ainda vai a tempo de con­tri­buir para a maior des­co­berta da his­tó­ria da Ciência.