Os posts em que falamos de nós, das nossas vidas e do que nos mais nos toca intimamente.

→ 16/02/2012 @0:36

ACTA em estado de coma? Que pena.

A confirmar-se a providencial sentença de Joseph Daul, líder do conservador PPE – «ACTA, c’est fini» – é bem possível que todos os defensores da Internet como espaço de liberdade e partilha venham nas próximas horas a comemorar uma importante vitória.

Esta declaração junta-se às críticas feitas segunda-feira pelo presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, ao considerar que o acordo ACTA não equilibrava a proteção dos direitos de autor e a liberdade dos cibernautas.

O PPE tinha votado contra a resolução crítica que há dois anos muitos deputados do Parlamento Europeu tinham submetido – com a declaração do líder Joseph Daul e a consequente nega dos conservadores ao ACTA, é muito provável que o império do copyright venha a perder mais esta batalha.

Não será a última. A guerra pela submissão deste espaço livre e descentralizado está longe de terminar. Nos dias que correm, a desatenção é um luxo. Chegarão novos ACTAS.

→ 03/02/2012 @23:48

ACTA e nós (II)

Man with Dog, 1953 — Francis Bacon

No dia em que se publicar uma nova História da Internet é possível que à consciência democrática de Kader Arif, 56 anos, francês nascido na Argélia, seja concedida um lugar de destaque.

Kader Arif, relator do Parlamento Europeu designado para o ACTA, demitiu-se em protesto pela forma como tem sido conduzido o processo de elaboração do acordo.

E disse porquê.

«Condeno todo o processo que levou à assinatura deste acordo», afirmou aos jornalistas. «Sem consulta da sociedade cível, falta de transparência desde o início das negociações, atrasos repetidos da assinatura do texto sem qualquer explicação, rejeição das recomendações do Parlamento dadas em várias resoluções da nossa assembleia».

As negociações do acordo ACTA foram feitas com grande secretismo – «é normal que as negociações sejam confidenciais», justifica-se a Comissão Europeia. «De outra forma, como se negoceia?»

O «negócio» da confidencialidade correu bem, na verdade. Pouquíssimas palavras foram lidas nos jornais tradicionais, pelo menos durante a gestação do acordo. Nem uma referência nas televisões, a não ser para mostrar, há poucos dias, um grupo de «indignados» com máscaras de Guy Fawkes protestando na Polónia.

22 dos 27 países membros da União Europeia subscreveram o ACTA.

Portugal foi um deles, mas pouco mais sabemos do que isto: «alguém», a mando de «alguém», colocou a sua assinatura, em nome do povo português e à revelia deste, dando o seu aval a um acordo visto por milhões como uma criminosa delimitação da liberdade dos cidadãos e do seu direito à privacidade – um bom «negócio», sem dúvida.

 

Uma força policial

Infelizmente para as indústrias comerciais que apoiam de corpo e alma esta iniciativa e da qual são as principais beneficiárias, um documento – o rascunho de um capítulo do acordo intitulado «Fiscalização na Internet» – apareceu a Fevereiro de 2010 na rede e estragou a alma do negócio.

Uma das propostas nesses documentos do acordo ACTA continha a responsabilização criminal dos ISP (Internet Service Providers) pelos downloads e uploads dos seus clientes.

Para evitar um processo em tribunal movido pelas grandes editoras ou estúdios de Hollywood por «distribuir conteúdo protegido por direitos de autor de forma ilegal», segundo o texto, o ISP teria de demonstrar ter tomado medidas para prevenir «o abuso». Um exemplo das medidas propostas para essa política de prevenção seria «cortar o fornecimento do acesso à Web daqueles que repetissem a ofensa», semelhante à política de «resposta gradual» francesa.

Embora elementos ligados ao ACTA garantam que «cada país atuará de acordo com a própria legislação e que a solução da resposta gradual é apenas uma das possibilidades», é impossível não pensar nestas medidas como mais uma tentativa de controlar a Web.

Com o ACTA, o fornecedor de acesso à Web poderá ser transformado num corpo policial que vigia os movimentos dos próprios clientes. Essa força policial responderá perante as grandes multinacionais do entretenimento, não perante os cidadãos.

 

Uma utopia chamada Internet

John Perry Barlow

O reconhecimento da Internet como um meio de comunicação «revolucionário» capaz de afetar a própria estrutura da sociedade já fora previsto há muito tempo pelos seus próprios fundadores.

Num documento intitulado «Uma Breve História da Internet», Vinton G. Cerf e alguns dos responsáveis pela sua criação viam a rede como uma revolução no mundo dos computadores e das comunicações – algo que nunca antes tinha acontecido em tão grandes dimensões.

«A invenção do telégrafo, telefone, rádio e computador lançaram as bases para esta integração de capacidades sem precedentes. A Internet é, ao mesmo tempo, uma aptidão para emissão a nível mundial, um mecanismo de disseminação da informação e um meio através do qual é possível a colaboração e interação entre os indivíduos, sem olhar à sua localização geográfica», escreveram.

O criador da World Wide Web, Tim Berners-Lee, já referiu várias vezes este sonho primordial da Internet: «Um espaço universal de informação», escreveu em Realising the Full Potential of the Web, de 1997; «a universalidade é essencial à Web: esta perderá o seu poder se existirem certo tipo de coisas em relação às quais nós não pudermos estabelecer uma ligação. O que a Web deve ser é um meio de comunicação entre pessoas: comunicação através do conhecimento partilhado».

Tentativas de controlo sobre a Internet, como o Telecommunications Reform Act, de 1996, já tinham levado a declarações ‘libertárias’ que deverão ter deixado os representantes das indústrias do copyright de cabelos em pé.

No mesmo ano em que o Telecommunications Reform Act era discutido e aprovado – permitindo a cavalheiros como Rupert Murdoch a construção de um império multimédia –, John Perry Barlow proclamou a utópica Declaração de Independência do Ciberespaço.

Na declaração de Barlow, o ciberespaço era um «mundo diferente» onde todos podiam entrar sem privilégios ou preconceitos concedidos pela raça, poder económico, força militar ou local de nascimento, um mundo onde existia total liberdade de expressão e em que tudo o que era criado podia ser reproduzido e distribuído de forma infinita, sem qualquer custo.

Juntamente com Mitch Kapor, fundador da Lotus, John Perry Barlow viria a criar a Electronic Frontier Foundation com o objetivo de lutar por essa visão idílica da Internet.

Com a utopia de Barlow e a ação fiscalizadora do ACTA, duas visões opostas da Internet estão em confronto: a que defende a rede como um mecanismo global de partilha e a que deseja transformá-la num mecanismo global de repressão. Ler mais »

→ 02/02/2012 @16:35

Doente e injustiçado

Desde ontem que tenho estado de molho, com gripe e febre. Não me lembrava da última vez que tinha tido 38 graus. Aliás, já nem lembrava o que era usar um termómetro.

Como podem imaginar, ter febre é sempre um acontecimento muito importante na vida de um homem. Nem sei se lhe devia chamar febre; venerável febre parece-me mais apropriado.

Infelizmente, certas mulheres aproveitam a ocasião para desvalorizar o nosso estado deplorável, chamando-nos «mariquinhas» ou «piegas». Uma certa pessoa do sexo feminino cujo nome agora prefiro não nomear chegou a dizer, cheia de segundas intenções, «trinta e oito graus, ui, isso em vocês é mesmo terrível».

O portador dessa coisa venerável– e acho que estou a ser muito razoável – deve ser digno de culto, não de sarcasmo. A sua pobre condição deve ser respeitada e o portador deve ser apaparicado de manhã à noite.

As mulheres podem ser muito cruéis quando um pobre doentinho é assolado por uma gripe terrível que lhe deixa todos os músculos do corpo a doer, incapaz de se mexer.

Depois de tanto sofrimento, acho que já mereço um suminho de laranja.

→ 01/02/2012 @1:07

ACTA e nós (I)

«O rebelde desconhecido» na Praça da Paz Celestial, em Pequim (Foto: Jeff Widener)

Os que combatem o ACTA (acrónimo de Anti-Counterfeiting Trade Agreement – Acordo Comercial Anti-Contrafação, em português) dizem que a ratificação pelo Parlamento Europeu do acordo permitirá às grandes corporações da indústria do copyright e das patentes policiar e censurar a Internet, ferindo mortalmente o direito à privacidade e à liberdade de expressão. Também consideram que o acordo irá impedir que milhares de pessoas recebam ajuda médica.

A Comissão Europeia nada informa sobre a questão médica, mas afirma que o ACTA não restringe liberdades, não censura ou fecha sites nem «prevê» desligar o acesso à Net a ninguém; todos continuarão a usar as suas redes sociais como têm feito até agora; computadores, iPad’s e iPhones não serão monitorizados – «O ACTA não é o Big Brother».

Ao contrário do SOPA, prossegue a Comissão Europeia, este acordo «não implica mudanças na legislação dos países que o ratificarem»: é um esforço de globalização na luta contra o «crime organizado» que «rouba» a «propriedade intelectual» e provoca, na Europa, «prejuízos anuais de oito mil milhões de euros».

As declarações reconfortantes da Comissão Europeia sobre as boas intenções do Acordo Comercial Anti-Contrafação não foram capazes de convencer mais de um milhão e trezentas mil pessoas – o número provisório de subscritores de um abaixo-assinado, tão global como o ACTA pretende ser, exigindo aos deputados do Parlamento Europeu a não-ratificação do acordo.

O abaixo-assinado ainda decorre: é intenção da entidade organizadora – a Avaaz, «uma comunidade de mobilização online que leva a voz da sociedade civil à política global» – chegar aos dois milhões de assinaturas e apresentá-las aos legisladores da União Europeia, em Bruxelas.

 

Uma ‘trip’ de direitos

A vida do ACTA poderia ter continuado como até aqui: crescendo de forma saudável e sem chamar muito a atenção para o seu tamanho.

Teve bastante tempo para germinar, este acordo. Nasceu de uma longa e penosa história de amor pelo dinheiro. É também a história de como os Direitos de Propriedade Intelectual (DPI) foram progressivamente ganhando mais relevância na relação entre Estados e entre pessoas que nos deveriam representar (mas não representam), prejudicando todos os outros direitos.

O ACTA é uma digitalização desta mudança, uma excrescência legislativa destinada a ter sob controlo uma rede global descentralizada, pródiga em partilhas e interações não comerciais, embora algumas vezes à margem da Lei – é esta a principal desculpa para agir.

Foi em outubro de 2007 que se iniciaram negociações sigilosas entre Estados Unidos, Japão, Suíça e União Europeia para criar um complemento ao acordo TRIPs – Agreement on Trade-Related Aspects of Intellectual Property Rights, ratificado em janeiro de 1995 e obrigatório para todos os países membros da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O TRIPs estabeleceu os padrões atuais de proteção da propriedade intelectual no mundo, mas as regras eram já mais rígidas do que as que estavam em vigor em muitos países em desenvolvimento.

Antes de o Acordo TRIPs ser adotado, as questões internacionais que envolviam os direitos de propriedade intelectual eram tratadas pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Em 1986 tudo mudou: um pequeno grupo de países liderados pelos Estados Unidos e que incluía o Japão e os membros da Comunidade Económica Europeia (CEE, futura União Europeia), conseguiu incluir os DPI nas negociações comerciais multilaterais que dariam origem à Organização Mundial do Comércio (OMC).

 

Acima de Deus, só a propriedade

Thou Shall Not Steal, de Nina Paley

O objetivo desta inclusão foi o de proteger as indústrias de alta tecnologia dos países desenvolvidos da concorrência dos países em desenvolvimento. Estes foram convencidos a aceitar as regras mais rígidas do DPI em troca de compensações nas áreas agrícolas e dos produtos têxteis.

O Direito da Propriedade Intelectual transformou-se numa arma de dissuasão importante para os países mais ricos, uma vez que o Mecanismo de Solução de Controvérsias da OMC previa a utilização de severas sanções comerciais aos mais pobres.

O primeiro sinal de que uma mudança eticamente questionável estava em marcha foi sentido na área da Saúde. O acordo TRIPs passou a obrigar todos os membros da OMC a proteger o DPI, mesmo em patentes de produtos farmacêuticos como, por exemplo, medicamentos. Ler mais »

→ 30/01/2012 @13:22

Sétimo ano, a caminho da pré-adolescência

Sete anos é muito tempo para um blogue, mas não é nada de especial tendo em conta muitos outros que por cá andam há mais tempo e com a mesma consistência.

Sete aniversários depois, pouco tenho a acrescentar ao que já escrevi anteriormente sobre o que quero para este blogue. Estou muito mais preocupado em derrotar a lei extorsionária do consórcio SPA/Canavilhas do que em comemorar seja o for.

Quem mantém uma presença online tem hoje em dia poucos motivos para celebrar. A maior ameaça à liberdade de expressão e partilha na Internet alastra-se pelo mundo como uma doença infecciosa e acaba de chegar à Europa: o nefasto acordo ACTA, sobre o qual tenciono escrever em breve.

Porque não tenham qualquer tipo de ilusões: a Web transformou-se num campo de batalha e o despojo de guerra pretendido é a nossa liberdade.

A atitude a tomar é clara: escolher entre a alienação e a luta.

→ 30/01/2012 @8:56

Muito importante: uma nova petição anti-118

Já falei sobre o projeto de lei n° 118/XII muitas vezes: é um projeto extorsionário que procura, em nome dos direitos de autor e com a falsa desculpa da pirataria, taxar os cidadãos que comprem qualquer tipo de dispositivo de armazenamento, independentemente do uso que lhe quiserem dar. Esta lei corrupta foi concebida pelas associações que dela vão beneficiar e durante a sua elaboração não foi consultada nenhuma que representasse os consumidores.

É uma golpada tão inacreditável, um roubo tão evidente e uma proposta tão aberrante que fico a pensar que ela só foi possível porque os seus autores e mentores já contavam com a nossa habitual passividade. Enganaram-se! Ainda vamos a tempo de estragar os planos à Sociedade Portuguesa de Autores e aos seus amiguinhos extorsionários.

Uma crónica de Pedro Esteves fornece o panorama geral. Oiçam-na:

Não permitas que te roubem sem dar luta. Partilha o link para a petição. E assina-a.

 

Entretanto, mais um conspirador com interesses obscuros

Subscritor nº 2879 da petição contra o projeto de lei 118/XII: Miguel Vicente Esteves Cardoso.
Subscritores até agora: 5720. É oficial: já não cabemos todos dentro do piano de Canavilhas.

→ 28/01/2012 @19:22

Sobre as ameaças

As ameaças, diretas ou veladas, só enervam nos primeiros minutos. Enervam porque crescemos convencidos de que Portugal é uma Democracia e a nossa liberdade de expressão se encontra constitucionalmente protegida.

Existem várias formas de limitar esta liberdade sem passar por déspota aos olhos da opinião pública: uma delas, talvez a mais usada, é tentar convencer a voz incómoda a calar-se. Quando não se tem poder para o fazer de forma direta, procura-se fazê-lo de forma indireta.

Nesse processo de domesticação de vozes incómodas não se ouvem gritos ou palavras agressivas, apenas amigáveis e polidas sugestões. Às vezes a estratégia resulta, outras falha redondamente; quando resulta, nunca se chega a conhecer a origem da ameaça – faz parte do acordo; quando falha, ficamos a saber um bocadinho mais sobre a natureza dos cavalheiros que combatemos.

A liberdade de expressão é terrível de aceitar para os velhos do Restelo e os parasitas que os apoiam, sobretudo quando é exercida online. Graças à Internet e à sua extraordinária vocação para diluir fronteiras, classes e géneros, todos podemos participar na grande conversação, como lhe chamou o jornalista Giuseppe Granieri, e esperar que uma única voz seja ouvida por milhares.

Para que isso aconteça não é necessário, sequer, o encantamento de uma voz famosa: basta que a causa seja válida e justa, e muitas outras pessoas se identifiquem com as posições defendidas.

Sem que os cretinos consigam compreender o fenómeno, a não ser quando é demasiado tarde, uma voz pequena multiplica-se por milhares de outras vozes pequenas até formar um coro insuportável e impossível de silenciar que os mesmos cretinos acabarão por interpretar como «campanhas orquestradas».

E chega invariavelmente o momento em que uma pessoa – ou várias, ou milhares – se vê forçada a responder às ameaças da forma mais simples que lhe é possível: «Enganaram-se outra vez, idiotas! Não é medo que temos, é razão».

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