Hoje recebi a notícia que durante tanto tempo mais temi. Morreu o meu amigo Mário Rocha, o meu companheiro de trabalho e divertimento desde os tempos do Diário de Lisboa e do Teatro Nacional D. Maria II até que as circunstâncias nos afastaram…
Foi há dois anos, mas só hoje tive coragem de perguntar. Para mim, é como se tivesse acontecido agora mesmo. O Mário tinha acabado de fazer uma diálise no hospital (imagino que, como habitualmente, flirtando com as enfermeiras), e ao sair sofreu um colapso cardíaco. Mais um, mas este o definitivo: ficou-se logo ali.
Pelo menos um ano antes disso algo me paralisava antes de pegar no telefone para saber dele e combinarmos uma saída. O gradual processo de decadência física decorrente de uma diabetes aguda, piorada por muitos anos de consumos uísquicos – gostava quase tanto do produto escocês como de mulheres –, foi-lhe destruindo o corpo.
Das últimas vezes que o vi, o Mário estava muito debilitado, coxeava por lhe terem tirado parte de um pé e quase não via. Já não conseguia trabalhar e era-lhe difícil, senão impossível, dedicar-se à sua grande paixão, a fotografia. Ficava em casa, a ouvir Nick Cave e Cowboy Junkies.
Se antes fazíamos grandes noitadas, conspirando até altas horas da madrugada – os meus primeiros livros nasceram desses brain stormings em bares a meia-luz –, já ele não resistia a mais de meia-hora de trocas de palavras.
Por essa altura as coisas começavam a correr mal comigo, e de cada vez que nos encontrávamos eu sentia dissiparem-se as forças que, muito a custo, ia conseguindo reunir para ultrapassar as adversidades. Ficava horrivelmente deprimido com o que se estava a passar com este grande jornalista e fotógrafo que também escrevia poesia e traduzia peças de teatro.
Era um voraz ouvinte de bom rock e lia tudo o que estivesse ao seu alcance, desde filosofia a literatura, sempre atento a novas correntes de pensamento e a novas tendências do romance. Deu-me a conhecer muita coisa que me passara ao lado e estávamos constantemente a trocar discos e livros.
Livros, sobretudo. Possuía dezenas de milhares, empilhados num quarto por todo o lado. Estão alguns dele aqui em casa e agora sei que não os posso devolver… Olho para as lombadas e vejo autores como Foucault e Eco.
Tinha uma curiosidade insaciável pelo sexo feminino e a facilidade com que seduzia as mulheres era um mistério para este desajeitado nas artes do amor. Sempre pessoas fascinantes, belas, inteligentes. Dei por mim, em algumas ocasiões, a invejá-lo.
Não estive com ele na última fase da sua doença e isso vai assombrar-me até chegar a minha vez de partir. Tive sempre receio de que, no outro lado do telefone, surgisse não o Mário, mas uma voz a anunciar-me o desfecho que parecia cada vez mais inevitável.
Pois aconteceu e eu não fiz o que um bom amigo deve fazer nas horas más: apoiá-lo, estar presente, mesmo que também mal-amanhado pela vida. Nunca me perdoarei tal cobardia.

















