Os posts em que falamos de nós, das nossas vidas e do que nos mais nos toca intimamente.

→ 17/05/2013 @18:53

Foi há dois anos, foi hoje

Ragesoss

Crédito: Ragesoss

Hoje re­cebi a no­tí­cia que du­rante tanto tempo mais temi. Morreu o meu amigo Mário Rocha, o meu com­pa­nheiro de tra­ba­lho e di­ver­ti­mento desde os tem­pos do Diário de Lisboa e do Teatro Nacional D. Maria II até que as cir­cuns­tân­cias nos afastaram…

Foi há dois anos, mas só hoje tive co­ra­gem de per­gun­tar. Para mim, é como se ti­vesse acon­te­cido agora mesmo. O Mário ti­nha aca­bado de fa­zer uma diá­lise no hos­pi­tal (ima­gino que, como ha­bi­tu­al­mente, flir­tando com as en­fer­mei­ras), e ao sair so­freu um co­lapso car­díaco. Mais um, mas este o de­fi­ni­tivo: ficou-se logo ali.

Pelo me­nos um ano an­tes disso algo me pa­ra­li­sava an­tes de pe­gar no te­le­fone para sa­ber dele e com­bi­nar­mos uma saída. O gra­dual pro­cesso de de­ca­dên­cia fí­sica de­cor­rente de uma di­a­be­tes aguda, pi­o­rada por mui­tos anos de con­su­mos uís­qui­cos – gos­tava quase tanto do pro­duto es­co­cês como de mu­lhe­res –, foi-lhe des­truindo o corpo.

Das úl­ti­mas ve­zes que o vi, o Mário es­tava muito de­bi­li­tado, co­xe­ava por lhe te­rem ti­rado parte de um pé e quase não via. Já não con­se­guia tra­ba­lhar e era-lhe di­fí­cil, se­não im­pos­sí­vel, dedicar-se à sua grande pai­xão, a fo­to­gra­fia. Ficava em casa, a ou­vir Nick Cave e Cowboy Junkies.

Se an­tes fa­zía­mos gran­des noi­ta­das, cons­pi­rando até al­tas ho­ras da ma­dru­gada – os meus pri­mei­ros li­vros nas­ce­ram des­ses brain stor­mings em ba­res a meia-luz –, já ele não re­sis­tia a mais de meia-hora de tro­cas de palavras.

Por essa al­tura as coi­sas co­me­ça­vam a cor­rer mal co­migo, e de cada vez que nos en­con­trá­va­mos eu sen­tia dissiparem-se as for­ças que, muito a custo, ia con­se­guindo reu­nir para ul­tra­pas­sar as ad­ver­si­da­des. Ficava hor­ri­vel­mente de­pri­mido com o que se es­tava a pas­sar com este grande jor­na­lista e fo­tó­grafo que tam­bém es­cre­via po­e­sia e tra­du­zia pe­ças de teatro.

Era um vo­raz ou­vinte de bom rock e lia tudo o que es­ti­vesse ao seu al­cance, desde fi­lo­so­fia a li­te­ra­tura, sem­pre atento a no­vas cor­ren­tes de pen­sa­mento e a no­vas ten­dên­cias do ro­mance. Deu-me a co­nhe­cer muita coisa que me pas­sara ao lado e es­tá­va­mos cons­tan­te­mente a tro­car dis­cos e livros.

Livros, so­bre­tudo. Possuía de­ze­nas de mi­lha­res, em­pi­lha­dos num quarto por todo o lado. Estão al­guns dele aqui em casa e agora sei que não os posso de­vol­ver… Olho para as lom­ba­das e vejo au­to­res como Foucault e Eco.

Tinha uma cu­ri­o­si­dade in­sa­ciá­vel pelo sexo fe­mi­nino e a fa­ci­li­dade com que se­du­zia as mu­lhe­res era um mis­té­rio para este de­sa­jei­tado nas ar­tes do amor. Sempre pes­soas fas­ci­nan­tes, be­las, in­te­li­gen­tes. Dei por mim, em al­gu­mas oca­siões, a invejá-lo.

Não es­tive com ele na úl­tima fase da sua do­ença e isso vai assombrar-me até che­gar a mi­nha vez de par­tir. Tive sem­pre re­ceio de que, no ou­tro lado do te­le­fone, sur­gisse não o Mário, mas uma voz a anunciar-me o des­fe­cho que pa­re­cia cada vez mais inevitável.

Pois acon­te­ceu e eu não fiz o que um bom amigo deve fa­zer nas ho­ras más: apoiá-lo, es­tar pre­sente, mesmo que tam­bém mal-amanhado pela vida. Nunca me per­do­a­rei tal cobardia.

→ 17/05/2013 @10:25

5 filmes que nunca mais se esquecem

Todos te­mos fil­mes que nunca mais es­que­ce­mos – às ve­zes por os achar­mos de grande qua­li­dade, ou­tras por os as­so­ci­ar­mos a mo­men­tos im­por­tan­tes da nossa vida. Ocasionalmente, pe­las duas ra­zões. Sem mais de­lon­gas, seguem-se cinco dos fil­mes que nunca es­que­ce­rei na vida — e porquê.

 

The Shining

The ShiningThe Shining

É um clás­sico de ter­ror do mes­tre Kubrik, mas du­rante uns tem­pos foi a me­lhor ma­neira que ar­ran­jei para ex­pli­car por que ra­zão o ci­nema era uma coisa muito fixe. As ca­re­tas ar­tís­ti­cas do Jack Nicholson, a mú­sica, os pla­nos, os tra­vel­lings, a mon­ta­gem, tudo isso os des­gra­ça­dos e des­gra­ça­das sen­ta­dos a meu lado te­riam de re­pa­rar, quer qui­ses­sem ou não. Rituais mas­si­vos de con­ver­são? Bons tempos!

 

Encontros Imediatos do Terceiro Grau

Encontros Imediatos do Terceiro GrauEncontros Imediatos do Terceiro Grau

O meu pri­meiro con­tacto a sé­rio com ex­tra­ter­res­tres! Como po­de­ria eu es­que­cer a cri­ança apon­tando para uma nave es­pa­cial no céu ex­cla­mando «Olha, ge­la­dos!», a con­versa sin­fó­nica com os ET’s — não fa­lando da tre­menda (di­ria: as­tro­nó­mica) dor de ca­beça com que fi­quei de­pois de sair do ci­nema? Ah, ganda Spielberg, que nessa al­tura ainda te achava o su­pras­sumo da cos­te­leta cinematográfica.

E este foi o pri­meiro filme em que fui au­to­ri­zado pe­los meus pais a ver sem su­per­vi­são. Vi-o num ci­nema no Estoril há muito de­sa­pa­re­cido, o Oxford, fa­moso por ter ca­dei­ras tão con­for­tá­veis que me­tade das pes­soas nas ses­sões da meia-noite aca­bava por adormecer.

 

Vem e Vê — Requiem para um Massacre

Vem e vê - Requiem para um massacre

O me­lhor filme de guerra que vi na vida não foi o ex­ce­lente Apocalypse Now (Francis Coppola), Nascido Para Matar (Kubrick), Platoon (Oliver Stone) ou o mí­tico Iron Cross (Sam Peckinpah). O me­lhor de to­dos foi um filme so­vié­tico de Elem Klimov que in­fe­liz­mente mui­tos des­co­nhe­cem: Vem e Vê — Requiem Para um Massacre.

Quando o vi pela pri­meira vez foi em vés­pe­ras de ir para a tropa e é di­fí­cil des­cre­ver o im­pacto que me cau­sou. O filme é um re­lato da in­va­são da Bielorrússia pe­las tro­pas na­zis du­rante a II Guerra Mundial, e das atro­ci­da­des co­me­ti­das con­tra os al­deões e os par­ti­zans que pe­ga­ram em ar­mas para de­fen­der as ter­ras. À su­per­fí­cie, re­trata a guerra como algo obs­ceno e he­di­ondo. Mas es­te­ti­ca­mente é tão belo que, às tan­tas, a vi­o­lên­cia pa­rece ir­rom­per do filme como uma chama glo­ri­fi­ca­dora, quei­mando a face de quem está a as­sis­tir. (Trailer)

 

Asas do Desejo

Asas do Desejo

Se nunca vi­ram este filme vejam-no, por fa­vor. Belíssimo e emo­ci­o­nante, um dos meus fil­mes de ca­be­ceira. E não se dei­xem en­ga­nar pela pin­dé­rica adap­ta­ção que Hollywood fez uns anos mais tarde com o Nicholas Cage… Refiro-me ao ori­gi­nal ale­mão, fil­mado numa Berlim ainda di­vi­dida ao meio pelo Muro e re­pleta de an­jos da guarda — al­guns flu­tu­ando es­toi­ca­mente nas nos­sas cons­ci­ên­cias, ou­tros su­cum­bindo ao amor e caindo à Terra.

Em ví­deo: um «falso» te­le­disco dos Radiohead com as ima­gens deste filme extraordinário.

 

Solaris

Solaris

A his­tó­ria de uma es­ta­ção es­pa­cial or­bi­tando o pla­neta Solaris, onde o único ser vivo é um oce­ano in­te­li­gente, é a mais co­nhe­cida do es­cri­tor de fic­ção ci­en­tí­fica Stanislav Lem e foi adap­tada por Andrei Tarkovski em 1972 (não gosto muito da ver­são de Steven Soderbergh, de 2002).

A forma como esse oce­ano in­te­rage com os ci­en­tis­tas que o ten­tam es­tu­dar re­flete a vi­são de um en­con­tro com uma exis­tên­cia po­de­rosa e quase ina­tin­gí­vel, ca­paz de to­car a alma dos ci­en­tis­tas sem re­le­var qual­quer tipo de mo­ra­li­dade ou juízo hu­mano. A um dos ci­en­tis­tas faz sur­gir um amor per­dido: a mu­lher fa­le­cida há muito, agora uma ré­plica per­feita, es­pe­lho da sua pró­pria me­mó­ria, mas imor­tal e auto-consciente, do­tada de uma força e re­sis­tên­cia sobre-humanas.

Essas ré­pli­cas têm uma exis­tên­cia boa ou má? Qual a sua fi­na­li­dade? A res­posta não se en­con­tra ao al­cance dos con­cei­tos hu­ma­nos — e é essa au­sên­cia de res­posta com sen­tido mo­ral que, a pouco e pouco, vai en­lou­que­cendo toda a tripulação.

 

A vossa lista de fil­mes inesquecíveis

Reduzir esta lista a cinco fil­mes é cruel, claro – po­dia ter in­cluído o Magnolia, os dois pri­mei­ros Padrinhos, Era Uma Vez na América, A Ár­vore da Vida ou Cidade de Deus, en­tre mui­tos ou­tros – o que não fal­tam são bons fil­mes e te­mos uma caixa de co­men­tá­rios pronta a re­ce­ber mais obras para a lista dos inesquecíveis.

Sendo as­sim, meus ca­ros, di­gam lá quais os fil­mes que nunca mais con­se­gui­ram esquecer?

→ 15/05/2013 @14:30

De derrota em derrota até à derrota final

Miguel Riopa

Foto: Miguel Riopa

Quem me co­nhece sabe que não ligo par­ti­cu­lar­mente ao fu­te­bol, tanto as­sim que des­co­nheço a maior parte dos no­mes dos jo­ga­do­res de cada for­ma­ção e que me ar­re­pio face aos fol­clo­res do mundo da bola (as bo­cas cru­za­das dos pre­si­den­tes e dos trei­na­do­res dos clu­bes, o ma­lhanço nos ár­bi­tros e por aí fora).

Além de que há mis­té­rios nas qua­tro li­nhas que con­ti­nuo a não com­pre­en­der, se é que téc­ni­cos e jo­ga­do­res con­se­guem eles próprios.

Afinal, le­vei mui­tos anos a as­si­mi­lar as ló­gi­cas do fora de jogo… Até per­ce­ber que não têm ló­gica ne­nhuma, ape­nas de­pen­dendo do olhar sub­je­tivo do ho­mem da bandeirola.

O certo, po­rém, é que gosto de ver uma boa par­tida. Dou sal­tos e grito quando o que se passa é a va­ler. Infelizmente, não acon­tece mui­tas ve­zes. Face ao té­dio da maior parte das con­ten­das fu­te­bo­lís­ti­cas cá do burgo, acabo por vi­rar a mi­nha aten­ção para ou­tras coisas.

Este des­pren­di­mento pode ter ou­tra ex­pli­ca­ção que não pro­pri­a­mente eu ser um «pe­queno ou mé­dio in­te­lec­tual» e ter plena cons­ci­ên­cia da fun­ção do fu­te­bol na ali­e­na­ção de mas­sas, agora mais, até, do que nos tem­pos da ditadura.

Sou spor­tin­guista, ou seja, a frus­tra­ção está-me bem en­rai­zada no sis­tema. Mas en­quanto ou­tros la­gar­tos têm fé no «de der­rota em der­rota até à vi­tó­ria fi­nal», este vosso amigo habituou-se ao ir de der­rota em der­rota até ao der­ra­deiro fa­lhanço. Não há nada como ser spor­tin­guista para não ali­men­tar ilu­sões quanto à pró­pria vida.

 

Uma ques­tão genética

Não sou spor­tin­guista por es­co­lha mi­nha. Herdei essa con­di­ção. É de fa­mí­lia. Quando nasci, fui tor­nado ime­di­a­ta­mente em só­cio do clube de Alvalade. Possuo o car­tão dos 50 anos, aquele ne­gro com o leão a dourado.

O meu tio-avô Rui Araújo foi mé­dio e de­fesa do Sporting en­tre 1933 e 1942, tendo che­gado a ser ca­pi­tão da equipa. Morreu em 1998, em Oliveira de Azeméis, onde ti­nha um café e foi trei­na­dor do Oliveirense.

O fi­lho dele, o mais ve­lho de to­dos os meus pri­mos, tornou-me só­cio mal vim ao mundo e era ele quem, até fa­le­cer há dois anos, me pa­gava as quo­tas. O cai­xão dele se­guiu para o ce­mi­té­rio com a ban­deira do Sporting em cima – man­teve es­toi­ca­mente a fi­de­li­dade le­o­nina até de­pois do fim.

Bem sei que ele gos­ta­ria que eu ti­vesse con­ti­nu­ado como só­cio, mas a bola re­pre­senta para mim o con­flito da es­pe­rança. Por na­tu­reza es­pero sem­pre muito pouco e o Sporting con­tri­buiu em larga me­dida para este meu per­fil. Pois, não pas­sei eu a pa­gar a mi­nha con­tri­bui­ção clubística…

Lembro-me de o meu Primo Jorge me ter le­vado a um jogo do Sporting quando era ado­les­cente. Foi o único num es­tá­dio a que as­sisti. Naquela época não ha­via ecrãs gi­gan­tes, pelo que só via uns ti­pos de cal­ções quando pas­sa­vam di­ante de mim – não dava para per­ce­ber nada. Só a te­le­vi­são me per­mi­tia ter uma vi­são de con­junto e desde en­tão pre­firo o te­le­vi­sor quando vejo futebol.

Somente as­sim fico com a ideia de que se está a de­sen­ro­lar uma trama, um en­redo, uma in­triga, tal como com um ro­mance, um filme ou uma peça mu­si­cal com di­men­são nar­ra­tiva. Mas uma coisa é Marcel Proust com bola e ou­tra Paulo Coelho com bola – re­gra ge­ral, o que te­mos é este úl­timo e não gosto.

Ver o Sporting jo­gar mal só me é com­pen­sado quando vejo o Porto e o Benfica tam­bém a jo­ga­rem mal, e nos úl­ti­mos tem­pos es­tes deram-me essa sa­tis­fa­ção por di­ver­sas ve­zes, an­tes de, abor­re­cido com a his­tó­ria con­tada, mu­dar de canal.

Ainda vi­rei a aten­ção para a Seleção Nacional, mas tam­bém esta, que tem um mis­ter que até pas­sou pelo Leão, se tem pa­re­cido de­ma­si­ado com o Sporting. Ora perde, ora em­pata, deixando-se fi­car para trás.

Não vi a dis­puta Porto-Benfica de há uns dias, por falta de mo­ti­va­ção, e te­nho evi­tado os jo­gos do Sporting e da Seleção por me lem­brar do meu Tio Rui e do meu Primo Jorge, de quem te­nho tan­tas saudades…

Que tris­tes eles fi­ca­riam com tudo o que se está a pas­sar no Sporting e no fu­te­bol por­tu­guês. Mesmo ha­bi­tu­a­dos a maus re­sul­ta­dos, ti­nham uma fé que eu não con­sigo ter, pelo que, se cá ainda es­ti­ves­sem, tam­bém fi­ca­riam tris­tes comigo.

Sportinguismo e por­tu­gue­sismo ba­te­ram mal em mim. Estão-me nos ge­nes, mas gangrenaram.

→ 13/05/2013 @0:27

Melão servido às talhadas

Melão astronómico

Dizem-me que esta mon­ta­gem é per­feita para re­pre­sen­tar o que sen­ti­mos on­tem à noite, mas um amigo tam­bém ben­fi­quista diz-me que, dado ser esta a ima­gem de um me­lão as­tro­nó­mico, serve mais para re­pre­sen­tar o me­lão spor­tin­guista, que está a trinta e tal pon­tos dos eter­nos ri­vais e nem à Liga Europa vai.

Eu não con­cordo. O me­lão spor­tin­guista é tão as­tro­nó­mico como o nosso, mas foi sendo ser­vido em ta­lha­das ao longo da época. Tiveram tempo mais que su­fi­ci­ente para digeri-lo, en­quanto nós o en­go­li­mos in­teiro, e de uma só vez, em pouco mais de um mi­nuto. Jesus ajoelhou-se quando o FC Porto mar­cou nos des­con­tos, mas te­nho a cer­teza de que o pro­blema dele foi uma re­pen­tina e vi­o­lenta dor de barriga.

Tenho visto mui­tos spor­tin­guis­tas a go­zar o prato, o que é nor­mal. Mas sin­ce­ra­mente não vejo ra­zões para gran­des ri­sa­das. A época do Sporting está re­pleta de pe­que­nas der­ro­tas com equi­pas de me­nor di­men­são como o Rio Ave ou o Vitória de Setúbal, en­quanto a nossa é uma der­rota es­tron­dosa, enorme, ca­tas­tró­fica, uma der­rota só ao al­cance dos campeões.

Olhem, nem se­quer vi o jogo. 10 mi­nu­tos an­tes de co­me­çar, pe­guei no meu cão e levei-o a dar uma volta. Ele pen­sava que era ape­nas um da­que­les pas­seios mija-e-cama, mas o des­gra­çado aca­bou por ir de São João a Cascais pelo pa­re­dão, sem­pre pelo pa­re­dão, longe do re­bu­liço e à beira do mar, que àquela hora da noite nem azul é. Só vol­tei quando o jogo ti­nha aca­bado e o si­lên­cio nas ruas me dava a en­ten­der que o re­sul­tado fora uma derrota.

Nada que me te­nha sur­pre­en­dido, esta der­rota: an­dava com um mau pres­sen­ti­mento e, ao mesmo tempo, ir­ri­tado por o fu­te­bol me ins­pi­rar «pres­sen­ti­men­tos», como se a mi­nha vida pu­desse me­lho­rar com um golo do Lima ou uma gas­tro­en­te­rite aguda do Pinto da Costa.

Não foi só por isso que de­cidi pas­sar ao lado do jogo mais im­por­tante da época, foi so­bre­tudo por causa da pan­ca­da­ria e da in­ti­mi­da­ção à co­mi­tiva do Benfica, à porta de um ho­tel no Porto, e de ter sa­bido, ho­ras de­pois e pro­va­vel­mente como re­pre­sá­lia, que o au­to­carro dos ju­ni­o­res do FC Porto fora ata­cado à pedrada.

Não ver o jogo foi tam­bém uma forma de pro­testo con­tra es­ses ban­di­dos a Norte e a Sul que se di­zem adep­tos do fu­te­bol – um pro­testo es­tú­pido e inó­cuo por não ser­vir a mais nin­guém a não ser a mim, mas pelo me­nos foi bas­tante sau­dá­vel: fiz exer­cí­cio fí­sico, diverti-me com o meu cão, en­chi os pul­mões com es­puma do mar e abati um bo­ca­di­nho de ba­nha na barriga.

Claro, não se pode fu­gir do fu­te­bol quando car­re­ga­mos o fu­te­bol den­tro da mal­dita ca­beça. E o que aquele longo pas­seio me per­mi­tiu foi cor­tar o me­lão em vá­rias ta­lha­das e comê-lo de­va­ga­ri­nho, tão de­va­ga­ri­nho quanto a an­si­e­dade do meu cão o permitiu.

→ 18/04/2013 @19:15

P.J. Harvey, símbolo sexual

P.J. Harvey

Podem ar­gu­men­tar que é coisa de ado­les­cente, mas os íco­nes mu­si­cais com co­no­ta­ção se­xual acompanham-nos por toda a vida… Quem ju­rar que não, mente.

P.J. Harvey é um dos meus sím­bo­los se­xu­ais, e descobri-a já em plena con­di­ção de adulto. Aqui às pa­re­des o confesso.

Bem sei que ela é bai­xota e fran­zina, que os pei­tos, sendo dis­cre­tos, lhe caem com a força da gra­vi­dade, que o na­riz é co­mi­ca­mente pon­ti­a­gudo, que a boca tem-na des­pro­por­ci­o­na­da­mente grande.

Mas oh, que de­li­ci­o­sas pro­mes­sas con­tém uma boca desta lar­gura, que von­tade de lhe mor­dis­car a ponta do na­riz, que pica me dão uns seios a destacarem-se do tronco, como se não fi­zes­sem parte dele.

Nunca me senti atraído por bo­ne­qui­nhas cos­me­ti­za­das e pe­las mu­lhe­res de me­di­das ana­tó­mi­cas per­fei­tas que apa­re­cem nas re­vis­tas. A graça toda da Polly Jean está no facto de, nela, nada ba­ter certo. O corpo como a voz como a mú­sica que toca.

P.J. Harvey é toda ela sexo, mas o sexo da re­a­li­dade real, não a for­jada, ide­a­li­zada, por ci­rur­giões, ar­tis­tas e pu­bli­ci­tá­rios. Enquanto ícone que é, é meio ícone.

Podia vi­ver no pré­dio ao lado do meu, e se as­sim fosse – juro – já eu lhe te­ria ba­tido à porta. Não é inal­can­çá­vel, quero com isto dizer…

Mesmo agora que, mais ve­lha, já não canta so­bre o fogo que se lhe acende no baixo ven­tre e que tro­cou a mor­da­ci­dade do rock pe­los en­le­vos da pop.

 

Ideologia a testosterona


Será inal­can­çá­vel, sim, para a mai­o­ria dos ho­mens que fa­zem da tes­tos­te­rona a base de uma ide­o­lo­gia e de um com­por­ta­mento de ata­que. Não per­tenço a esse grupo de pre­da­do­res, e divirto-me a ima­gi­nar que tal cir­cuns­tân­cia me pro­por­ci­ona uma chance com a can­tora e guitarrista.

Permitam-me que ex­pli­que: P.J. nunca foi ra­pa­riga que se desse à con­fi­ança. Lembro-me de, no iní­cio da car­reira, se in­sur­gir con­tra o gosto que os ho­mens têm de en­gas­gar as suas par­cei­ras, em egoís­tas e in­va­si­vos atos de po­der. Percebem do que ela fa­lava, não?

Ai do ho­mem que se arme em ma­cho com ela. Daí que, ao so­nhar com a sua boca, aceito na mi­nha fan­ta­sia que aque­les lá­bios pin­ta­dos de ver­me­lho vivo, aque­les den­tes, aquela lín­gua semi-oculta é que di­tam as normas.

P.J. HarveyNão as mi­nhas ar­mas, por­que es­sas go­ver­na­ram du­rante mi­lé­nios, com os re­sul­ta­dos que se sabe.

Aliás, dar-me-ia um enorme pra­zer ser con­du­zido pela sua voz, uma das me­lho­res que por aí se ou­vem: os im­pul­sos de ou­trem são sem­pre uma in­cóg­nita e tudo aquilo que se des­co­nhece no que vai re­sul­tar é, à par­tida, aliciante.

Numa al­tura em que tal ainda não era muito co­mum, P.J. Harvey afir­mou a sua se­xu­a­li­dade (mais: o seu de­sejo como força ativa, que não pas­siva, bem exem­pli­fi­cado em «This is Love») de me­nina «feia» que não que­ria abster-se de nada.

As can­ções e a pró­pria ima­gem apon­ta­ram um po­der – o fe­mi­nino, mas de uma fe­mi­ni­li­dade es­tra­nha à do­mi­nante com­pre­en­são mas­cu­lina – con­tra o po­der de sempre.

O tema sado-masoquista «Rid of Me», com a exi­gên­cia de que o com­pa­nheiro lhe lamba as per­nas, é disso que trata, muito explicitamente.

 

Um pa­pel humilhante

P.J. Harvey

Um po­der con­tra o ou­tro, mas não para o vencer.

P.J. Harvey en­ce­nou as suas lu­tas entendendo-as como algo de per­ma­nente e ine­vi­tá­vel, um com­bate eterno en­tre ad­ver­sá­rios indissociáveis.

Em cri­ança brin­cava com ber­lin­des e car­ros e não com bo­ne­cas, recusava-se a ves­tir nada que não fosse cal­ções e cal­ças, não ti­nha ami­gas e exi­gia que lhe cha­mas­sem Paul. Aos 14 anos per­ce­beu que, ape­sar de que­rer ser um ra­paz, tam­bém que­ria fa­zer amor com rapazes.

Começavam os dra­mas: para ela, en­fiar um ves­tido para cha­mar a aten­ção de al­gum moço que a in­te­res­sava foi como re­pre­sen­tar um pa­pel numa peça de te­a­tro. Um pa­pel humilhante.

Acabou por usar ves­ti­dos fre­quen­te­mente desde en­tão, mas mesmo as­sim man­teve uma apa­rên­cia an­dró­gina e in­certa. Umas ve­zes sur­gindo como um ra­pa­zola tra­vesso, ou­tras como uma cute girl. Hoje encontramo-la mais nesta ver­são, com um exa­gero que só pode ser intencional.

Como es­cre­veu uma fã sua, P.J. Harvey é agora uma mu­lher tra­ves­tida de mu­lher, e isso excita-me para além de qual­quer ten­ta­tiva de compreensão.

O que é su­posto que os sím­bo­los se­xu­ais pro­vo­quem, ainda que neste caso de uma ma­neira muito di­fe­rente da ope­rada pe­los de­mais íco­nes que na mú­sica vão surgindo.

→ 17/04/2013 @23:06

Desliga, se puderes

Jared Wickerham

Boston, EUA (Foto: Jared Wickerham)

Dimitar Dilkoff

Aleppo, Síria (Dimitar Dilkoff)

Asif Hassan

Quetta, Paquistão (Asif Hassan)

Banaras Khan

Mashkai, Paquistão (Banaras Khan)

Por esta al­tura já toda a gente sabe ao por­me­nor o que se pas­sou nos Estados Unidos. Vimos as fil­ma­gens das bom­bas a re­ben­tar, o pâ­nico, de­ses­pero e dor das pes­soas, o san­gue der­ra­mado nos pas­seios, ino­cen­tes sem pernas.

Por esta al­tura sa­be­mos quan­tos per­de­ram a vida no aten­tado na ma­ra­tona de Boston. Sabemos quem eram, que idade ti­nham, o que fa­ziam. Conhecemos os ros­tos. Já vi­mos uma mãe ho­me­na­ge­ando a fa­le­cida fi­lha aos mi­cro­fo­nes do mundo. Partilhámos a sua dor por­que so­mos pes­soas co­muns e a nossa ca­pa­ci­dade de criar em­pa­tia com os ou­tros não de­pende de na­ci­o­na­li­da­des. Mas já vi­mos o su­fi­ci­ente, obrigado.

Por isso é al­tura de des­li­gar o te­le­vi­sor. Porque no mesmo dia da ma­ra­tona de Boston, a ex­plo­são de um carro ar­ma­di­lhado ma­tou 30 pes­soas nos ar­re­do­res de Bagdade. Porque no res­caldo do con­tur­bado pro­cesso elei­to­ral na Venezuela mor­re­ram sete pes­soas e de­ze­nas fi­ca­ram fe­ri­das. Porque um ter­ra­moto ocor­rido re­cen­te­mente na fron­teira en­tre o Irão e o Paquistão ma­tou quase 80 e des­truiu cen­te­nas de ha­bi­ta­ções. Porque na Síria mor­re­ram mais de 60 mil e 600 mil per­de­ram as suas ca­sas desde que co­me­çou a Guerra Civil, a ja­neiro de 2011.

E é pre­ciso des­li­gar o te­le­vi­sor por­que não há câ­ma­ras de te­le­vi­são, re­pór­te­res da CNN, ban­dei­ri­nhas en­san­guen­ta­das ou his­tó­rias de he­roísmo que me con­si­gam con­ven­cer de que a morte de uns é mais im­por­tante do que a morte de outros.

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