Angelina Jolie — atriz bonita e famosa, embaixadora da boa-vontade pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados —, revelou ter feito uma dupla mastectomia, ou seja, removeu as mamas.
Uma decisão médica pessoal partilhada publicamente na semana passada coloca-a agora no centro de uma batalha judicial nos EUA travada entre a Associação para a Patologia Molecular e a União Americana de Liberdades Civis, e a empresa Myriad Genetics.
E sob as acusações de um vendedor de banha da cobra sem escrúpulos, Mike Adams.

Angelina Jolie no Paquistão em missão humanitária, setembro de 2010 (Foto: Jason Tanner)
Angelina Jolie aceitou submeter-se a uma cirurgia física e psicologicamente devastadora para qualquer mulher por acreditar no seu valor profilático: tendo descoberto que era portadora de uma mutação do gene BRCA1, e que essa mutação em particular implicava o risco de desenvolver cancro da mama com 87 por cento de probabilidades, Jolie optou por eliminar o risco e cortar o mal pela raiz. Escreveu um artigo no The New York Times, assumindo e justificando a decisão.
Acontece que a patente dos genes BRCA1 e BRCA2 – cuja primeira variação a atriz revelou ser portadora – é detida pela Myriad Genetics. Uma mutação nesses genes está ligada ao desenvolvimento do cancro da mama e do ovário, mas muitos laboratórios têm recusado o desenvolvimento de pesquisas por recear sofrer ações penais por parte da detentora da patente.
Este receio funda-se em factos reais: em 1998, a Myriad Genetics enviou cartas ao Laboratório de Pesquisa Genética da Universidade da Pensilvânia, ameaçando com um processo em tribunal caso o laboratório persistisse nos testes.
Como resultado destas pressões, a Associação para a Patologia Molecular começou a fazer lóbi contra a existência e o licenciamento exclusivo de patentes de genes – essa pressão culminou com um processo no tribunal contra a Myriad Genetics, ao qual se juntou a União Americana de Liberdades Civis, a Universidade da Pensilvânia e vários investigadores universitários que apresentaram queixa a título individual.
A 29 de março de 2010, a Myriad Genetics perdeu a primeira batalha judicial num tribunal em Nova Iorque, mas recorreu e, um ano depois, a 29 de Julho, o tribunal de apelos para o circuito federal deu-lhe razão. «Quando está isolado do corpo, o ADN pode ser patenteado – argumentaram os juízes – uma vez que a sua estrutura química é diferente da existente nos cromossomas de um corpo».
Depois do apelo para o Supremo Tribunal, que reenviou o caso para o circuito federal, com os mesmos resultados, os queixosos conseguiram com que os juízes do Supremo voltassem a analisar o caso.
Turbilhão de dólares
E é este o atual estado do processo: todos esperam uma decisão que poderá revelar-se crucial para o futuro da investigação médica nesta área e, ao mesmo tempo, para a própria economia do país.
O Comité de Assuntos Legais e Direitos Humanos do Conselho da Europa e a Unesco consideram que os genes são património da Humanidade; no outro lado da barricada, encontra-se uma indústria de milhares de milhões de dólares em risco de desaparecer, caso as patentes genéticas sejam considerada ilegais.
O artigo que Angelina Jolie enviou ao The New York Times colocou-a no centro deste enorme turbilhão onde voam, de um lado para o outro, notas de dólar e cópias da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Como escreve o jornalista Cláudio Cordovil no artigo «As patentes genéticas e a cultura do medo», não são de menosprezar os efeitos sobre o grande público sempre que uma celebridade decide partilhar o que considera ser uma boa prática no campo da saúde.
Os testes são caros – entre 2300 e três mil euros –, mas comparticipados desde que o Obamacare, promulgado há três anos, estabeleceu que os contribuintes deviam pagar pela realização de testes genéticos referentes ao BRCA1. Além do caso jurídico em questão, teme-se que o exemplo de Jolie dê origem a uma espécie de corrida à mastectomia nos EUA.
A opção terapêutica de uma mulher tão famosa foi tomada recorrendo precisamente ao trabalho da Myriad Genetics, a detentora da patente do teste que usou. Como resultado, as ações da empresa tiveram um acréscimo de três por cento após a publicação do artigo.
A atriz explicou que as razões que a levaram a tornar pública a sua decisão têm a ver com a necessidade de alertar as mulheres que possam viver na sombra de um cancro e encorajá-las, em caso de risco elevado, a fazer o teste.
Ela tem atualmente 37 anos. A mãe, Marcheline Bertrand, morreu aos 56. Tinha cancro do útero associado ao gene que provoca cancro da mama. Angelina Jolie é uma mulher de sucesso com acesso à melhor operação de reconstrução mamária que o dinheiro pode pagar – assegurando o apoio do marido, como sucedeu, porque não eliminar o risco e afastar o estigma de uma perigosa doença que a persegue há anos?
O guru da desinformação

As teorias da conspiração, contudo, já começaram: Jolie está a ser acusada de conluio com a Myriad Genetics para ajudar a salvar um negócio multimilionário.
Os conspiracionistas de meia-tigela já associam a atriz ao amplo movimento de sombras e entidades que pretendem dominar o mundo, dos Illuminati aos extraterrestres reptilianos de outras galáxias. Para esta visão contribuiu o texto escrito por um dos maiores cromos que esta martirizada Internet já conheceu: Mike Adams, tão financeiramente interessado na história como a própria Myriad Genetics.
Além dos maluquinhos que têm páginas sobre invasões de extraterrestres reptilianos e traduziram o artigo original de Adams no sítio NaturalNews com a consciência crítica de um papagaio, pelo menos duas publicações mainstream portuguesas – Visão e jornal i – noticiaram também a «conspiração».
«Mastectomia de Angelina Jolie parte de campanha milionária?», perguntava o título da Visão, ecoando a teoria segundo a qual a atriz se teria vendido à Myriad Genetics e citando um artigo publicado no sítio NaturalNews.
«Joliegate», revelava o jornal i, desejoso de ganhar o Pulitzer da parvoíce. «Angelina acusada de se ter vendido a uma indústria de milhões». Uma vez mais, é citado o mesmo sítio, NaturalNews, classificado em primeiro lugar no Top10 dos piores sítios anti-científicos da Web.
Acontece que no site em questão é possível fazer-se muita coisa – vomitar, no meu caso, devido à sensação de comer merda às colheradas sempre que avanço um parágrafo; o que nunca será possível fazer-se ali, é encontrar uma notícia isenta ou um pensamento racional.
Para Mike Adams, as doenças são causadas pela indústria farmacêutica com o objetivo de escravizar a população num ciclo perpétuo de doença-cura, doença-cura, com a cumplicidade de toda a gente exceto o próprio melga Mike, aqueles que seguem o melga Mike e todos os outros que eventualmente seguirão o melga Mike.
O corpo, defende ele, tem um processo «natural» de se curar de qualquer doença (seja o que for que natural signifique) – e tudo o que implica a aplicação do conhecimento científico é considerado parte de uma conspiração de empresas maquiavélicas. Defensor de terapêuticas «placebo» como a homeopatia, o melga Mike despreza todas as conquistas da medicina moderna desde que Pasteur estabeleceu os fundamentos da microbiologia; é contra a aplicação de vacinas e de toda e qualquer terapia existente para combater o cancro, o vírus da SIDA ou qualquer outra doença.
E oferece «curas» através de «produtos naturais» que o próprio vende.
É um charlatão — um conspiranóico que faz uso de qualquer acontecimento para partilhar a sua visão distorcida do mundo. E tendo em conta os mais de 300 mil fãs do NaturalNews, é um homem perigoso para a Saúde Pública.
O melga Mike é também uma sanguessuga, deslizando pelo corpo da notícia à procura do sangue dos famosos.
Viu o desaparecimento de Steve Jobs como uma oportunidade de afirmar que fora a quimioterapia a matá-lo; caso tivesse optado pelos tratamentos «naturais» que vende, ainda estaria vivo.
Mal sabia ele que o mentor da Apple, budista, adepto das dietas macrobiológicas, tão brilhante como teimoso, preferira tratar o cancro do pâncreas com sumos de frutas, acupunctura e remédios de medicina tradicional em vez da terapia convencional, recusando-se durante nove meses a procurar auxílio médico por não querer «que abrissem o meu corpo, que me violassem dessa forma».
Quando finalmente cedeu, por pressão da família e por não haver sinais de melhorias, já era demasiado tarde. Foi a ausência de terapêutica convencional que o matou, ao contrário do que defende Adams.
O criador do NaturalNews tentou capitalizar a doença de outro famoso a seu favor, mas o falecido ator Patrick Swayze, que também sofria de cancro do pâncreas, não o permitiu: «Se alguém tivesse uma cura para isto, como algumas pessoas juram ter, esse alguém seria duas coisas: muito rico e muito famoso. Em caso contrário, que se cale.»
Mike não se cala, obviamente — e foi o seu artigo, plenamente refutado por David H. Gorski, professor de cirurgia na Universidade estatal de Wayne e oncologista especializado em cancro da mama, a principal fonte noticiosa dos media portugueses.
Sexossauro
De uma extraterrestre não se podia esperar nada de bom e esta foto prova-o. Que protuberâncias são aquelas no pescoço da atriz?
«Para a reptiliana Angelina Jolie», escreve um dos muitos lunáticos que pulam na rede, «não existe tratamento que possa esconder a sua condição de ser alienígena reptiliano que manipula a consciência humana. Quando a sua real forma se materializar, será impossível remover suas placas ósseas de reptiliana que já começaram a se manifestar».
Sou obrigado a concordar – para certas coisas não existe tratamento possível. E é este tipo de sítio que dissemina as teorias de charlatães como Mike Adams e que os media vendem como meros «defensores das medicinas alternativas».
A foto foi tirada em Veneza, a 17 de fevereiro de 2010, e mostra-nos o resultado de um face-lift. Como explicou Ellie Levine à revista US Magazine, Jolie deve ter colocado «botex no rosto e, provavelmente, pescoço, paralisando os músculos faciais e fazendo com que músculos que não são normalmente usados entrem em ação, como forma de compensação».
Uma estrela de cinema que se submeteu a uma operação plástica para retardar o envelhecimento? Impossível, nunca se viu nada semelhante em Hollywood. Qualquer pessoa com duas unhas bem roídas de testa percebe que a fotografia prova a existência de uma criatura extraterrestre maligna entre nós.
Ellie Levine é cirurgião plástico em Nova Iorque, é verdade, conhece as marcas do ofício, incluindo as mais bizarras, mas é possível que o próprio também seja reptiliano e esteja a proteger a identidade dos da sua espécie com falsas declarações – nunca se sabe.
Um estereótipo do louco é aquele que o define como uma pessoa que se julga Napoleão – mal sabíamos que Napoleão sempre foi um extraterrestre reptiliano e todos aqueles loucos, coitados, têm andado enganados.
A forma como Napoleão colocava a mãozinha no bolso, há que dizê-lo, sempre pareceu suspeita: não estaria a esconder uma manápula extraterrestre? A sorte do imperador foi não ter existido Internet nesses tempos longínquos, pois a farsa do usurpador teria sido logo desmascarada e nem os martírios do inverno russo teria chegado a conhecer.
Napoleão teve sorte por ter vivido offline, mas não Angelina Jolie.