Posts que deram origem a uma série enorme de posts.

→ 21/02/2012 @19:42

É pá, eu gosto é de rock (11)

O rock é um vírus. Movimenta-se pelo ar e vai nidificando em cada vibração sonora que encontra. É invisível, mas tem o poder de transformar radicalmente as superfícies em que se deposita – os rostos de Keith Richards e Iggy Pop, por exemplo. A epidemia alastra e surge mesmo onde menos esperamos. Apurem os ouvidos para saberem quando é a vossa vez de sucumbirem…

 

VVV: «Resurrection River» (Mego)

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Os três V que identificam o trio responsável por este «Resurrection River» são os dos apelidos de Alan Vega, Mika Vainio e Ilpo Vaisanen.

Para quem ainda não sabe – haverá quem? -, o primeiro é metade dos lendários Suicide e os dois últimos constituem o projeto Pan Sonic.

A estreia desta formação que combina o punkabilly eletrónico que Vega e Martin Rev “inventaram” na década de 1970 com a presente techno experimental made in Escandinávia aconteceu em 1998 e chamou-se «Endless».

Esta segunda incursão pelo mundo do disco não se distancia muito do que aí propuseram, a não ser, talvez, em termos de aprimoramento desta parceria que não é tão estranha quanto seria de pensar. Que músicos eletrónicos da atualidade não têm os Suicide como referência, ao lado dos Kraftwerk e dos Coil?

Todo o CD volta a abrir-nos as bocas de espanto, e se a faixa que lhe dá título, logo a inicial, tem um enlevo pop que só as estações de rádio mais obtusas – as portuguesas, por exemplo – colocaram fora das suas playlists, o mais incrível que aqui ouvimos é «It Was Her Eyes», com Jimi Tenor como convidado especial no órgão.

Vega transfigura-se, tal como nos tempos áureos, e quase não seria necessário o beat encadeado pelos finlandeses que lhe proporcionaram este regresso em grande para sentirmos a taquicardia rítmica das suas vocalizações.

Esta é uma voz-máquina, fria e implacável, vinda das entranhas do diabo, de um lugar em que as chamas são feitas de gelo – Resurrection, convém assinalar, é o nome de um rio do Alasca cujas águas provêm dos glaciares.

Dir-se-ia que os demónios do autor das letras de «Ghost Rider» são lunares, ao contrário dos nossos, que irrompem das profundezas da Terra e nos abrasam.

A analogia justifica-se com o facto de este trabalho ter temática religiosa – a cover art presenteia-nos, aliás, com a típica iconografia do catolicismo espanhol.

O mais maldito dos vocalistas do rock, a par, está claro, de Iggy Pop, canta os pregos de Cristo no mesmo verso em que alude aos carros de corrida de James Dean e a um crucifixo negro que não parece ser muito cristão.

Mais uma vez, Alan Vega surgiu neste título como o alter-ego de Elvis Presley e a má consciência do rock and roll.

 

Woven Hand & Ultima Vez: «Puur» (Glitterhouse Records)

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Quem gosta de imprevistos tem em «Puur» com que se entreter.

De facto, ninguém poderia imaginar que um cantautor americano do country-folk-rock cristão como David Eugene Edwards, antigo líder dos 16 Horsepower e depois mentor destes Woven Hand, se pudesse associar a uma companhia de dança europeia, a Ultima Vez, dirigida por um coreógrafo com as características avant de Wim Vandekeybus, que de uma das componentes desse formato musical, o rock, o mais que se tinha aproximado foi com os zappianos X-Legged Sally.

E o curioso é que Edwards nunca foi tão pouco folk ou rock como neste contexto. A música que faz é o menos ortodoxa que lhe conhecemos.

As canções surgem apenas enquanto tal em algumas secções da banda sonora, intercaladas por interessantes e surpreendentes – vindas de quem vem – paisagens sonoras.

Além disso, soube enredar os seus préstimos propriamente musicais com os textos falados e os sons de cena do espetáculo.

Seja como for, é da redenção ainda que estava à procura e pelo testemunhado Deus correspondeu às suas preces.

Oiçam isto e fiquem na ideia com a imagem de uma bailarina que se debruça sobre o seu parceiro para lhe dar de beber a água que traz guardada na boca. Puro Vandekeybus… Ler mais »

→ 13/02/2012 @8:54

Janelas Para o Mundo: Grécia [36]

Na «guerra civil global» que se trava na Grécia, os polícias usam gás lacrimogéneo e os manifestantes pedras, pistolas de sinalização e cocktails molotov (Foto: Aris Messinis/AFP/Getty Images)


Pedra contra as forças anti-motim (Foto: Aris Messinis/AFP/Getty Images)


Pedras contra os manifestantes (Foto: Orestis Panagiotou/EPA)


Um manifestante confronta a polícia de choque diante do Parlamento, em Atenas (Foto: Thanassis Stavrakis/AP)


Disparos de uma pistola de sinalização (Foto: Angelos Tzortzinis/ AFP/Getty Images)


Um deputado do Partido Comunista, Giorgos Mavrikos, lança uma cópia do acordo de austeridade negociado com a 'troika' na direção do Ministro das Finanças (Foto: Pantelis Saitas/EPA)


Um polícia anti-motim pontapeia um manifestante (Foto: Michalis Karagiannis/Phasma/Reuters)


Um manifestante pontapeia uma vasilha de gás lacrimogéneo (Foto: Simela Pantzartzi/EPA)


Um velho cinema no centro de Atenas: enquanto se lutava nas ruas, o Parlamento aprovava as medidas de austeridade impostas pela 'troika' como condição para o «salvamento» económico da Grécia (Foto: Simela Pantzartzi/EPA)

Um velho cinema no centro de Atenas: enquanto se lutava nas ruas, o Parlamento aprovava as medidas de austeridade impostas pela 'troika' como condição para o «salvamento» económico da Grécia (Foto: Simela Pantzartzi/EPA)


À entrada do Parlamento grego (Foto: Orestis Panagiotou)


Uma bomba incendiária de fabrico caseiro lançada contra os polícias (Foto: Max Gyselinck/AFP/Getty Images)


Atenas a arder na noite de 12 de Fevereiro (Foto não assinada)

→ 11/02/2012 @4:52

Porque o Jazz é só barulho (5)

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(Dave Brubeck Quartet, Take Five – Bélgica, 1964)

→ 07/02/2012 @16:34

Porque o Jazz é só barulho (4)

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(Senary System, If only)

→ 29/01/2012 @16:01

Não percas a memória (4)

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Repitam comigo: Miles, Miles, Miles, Miles, Miles, Miles… (Miles Davis no Isle of Wight Festival, 1970)

→ 27/01/2012 @19:47

É pá, eu gosto é de rock (10)

Cá vão mais umas flechadas do rock que ando a ouvir. Não, não é rock FM, mas do outro, aquele que para alguns, porventura, não é propriamente rock. Que se lixe. O perfume vem antes da flor, já dizia o outro…

 

Scorch Trio: «Luggumt» (Rune Grammofon)

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(Vídeo: Raoul Bjorkenheim com Krakatau, em 1993)

Raoul Bjorkenheim, o dos Krakatau, um herdeiro de Jimi Hendrix mergulhado no universo torturado e espiritual de Albert Ayler?

Ingebrigt Haker Flaten e Paal Nilssen-Love, a secção rítmica de The Thing, o trio de Mats Gustafsson que se dedica a fazer covers free jazz de temas rock que vão de Led Zeppelin aos White Stripes, entre interpretações improváveis do folclore escandinavo?

Exatamente: são estes mesmos os membros do Scorch Trio. A capa de Kim Hiorthoy para “Luggumt” não deixa ninguém ao engano: uma caveira negra de banda desenhada mira-nos de frente, impassível e ameaçadora.

Isto é free death metal, poderoso como betão, mas também capaz de minúcias eletroacústicas.

Se Ronald Shannon Jackson forneceu tapetes pulsativos funky a Cecil Taylor em “One Too Many Salty Swift And Not Goodbye”, aqui é o contrário que temos: uma sustentação off-tempo às descargas elétricas de uma guitarra (quase) sempre tentada pelo impulso de dar um rosto, uma figura, à energia, a tal caveira imaginada pelo designer de serviço da Rune.

Sonny Sharrock, James Blood Ulmer e até John McLaughlin e Robert Fripp espreitam pelo ombro de Bjorkenheim. Se a fusão jazz-rock bateu rapidamente num muro, o Scorch Trio derrubou esse obstáculo do caminho.

Edward Vesala, com quem Raoul Bjorkenheim se estreou, e Paul Schutze, que teve a sua companhia no projeto electronica meets krautrock Phantom City, não poderiam ter imaginado tal desfecho.

 

TV On The Radio: «Return to Cookie Mountain» (4AD)

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Quem ainda não conhece os TV On The Radio e os ouvir em «Return to Cookie Mountain» tem como primeira impressão a de que se trata de um grupo maioritariamente negro a adotar o estilo de David Bowie no período em que este procurava alinhar com a soul, música afro-americana por natureza e condição – o que não deixa de ser irónico.

Duplamente irónico, pois o próprio Bowie participa no coro de uma das canções, «Province».

Entrando mais no universo do grupo fica-se a perceber melhor o seu fascínio pelo glam (Marc Bolan / T. Rex é outra referência óbvia), a filiação na pop negra da década de 1960, lembrando-nos muitas vezes os Love de Arthur Lee – a figura do vocalista, Tunde Adebimpe, ajuda –, mas também que esta banda não existiria se os Radiohead não tivessem provado com «OK Computer» que a música popular urbana pode ser experimental.

O som dos TV On The Radio e o projeto em si são um claro produto de “engenharia”, ou não fosse o seu mentor, David Sitek, um produtor de renome associado aos Yeah Yeah Yeahs e aos Liars – quando deparamos com um tema que se intitula, precisamente, «A Method», ficamos a perceber tudo, mesmo que na letra se cante «there is hardly a method, you know». Ler mais »

→ 23/01/2012 @3:10

Não percas a memória (3)

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Soul Coughing, «Is Chicago, Is not Chicago». A música que sobreviveu ao tempo áureo (anos 90) do mais especial dos clubes musicais de Nova Iorque, a Knitting Factory. O líder, Mike Doughty, era o porteiro…

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