No processo de selecção de fotos para a série «Janelas para o mundo» já me acontece ver uma determinada imagem e pensar
Pá, esta não.
Porque é mais uma foto violenta entre as centenas captadas todos os dias por fotógrafos em todo o mundo. E assim, a pouco e pouco, os bonecos tornam-se pessoas.
Eu não sou impressionável, mas à s tantas estou a ver uma grande foto de mais uma pobre mãe que chora um filho despedaçado pelo milionésimo bombista suicida no Iraque ou pelo fogo das milÃcias na Somália ou à conta dos danos colaterais e penso
Foda-se, estou farto, tão cedo não volto a fazer esta merda
E até me sinto mal em mostrar-me afectado, pois continuo de rabo sentado na cadeira, a milhares de quilómetros de distância de todas as tragédias que os fotógrafos nos mostram. Qualquer dessas pessoas vÃtimas da guerra, da fome, da pobreza, do despotismo e da injustiça, trocaria de bom grado comigo e assumiria o meu incómodo como o doce e confortável isolamento que na realidade é. Somos uns privilegiados com tendência para abusar das queixinhas.































8 comentários
Tal e qual. Geralmente sou um bocado frio nesse capÃtulo. Mas quando me ponho a pensar nisso, ganho a noção da real merda que sou em queixar-me da Vida que tenho, só por não ter o desafogo que queria para os meus luxos. Torno-me num materialista de coração frio, que não liga ao sofrimento, mas sim ao material. É chato tomar consciência desta maneira de pensar de todos os dias.
Mas é também verdade que, se por acaso nos formos a preocupar com tudo e com todos, ganhamos uma depressão como bónus. A minha cara-metade é tal e qual isto, preocupa-se com tudo e com todos, até nas mais pequenas coisas. Só ainda não ganhou a depressão.
Somos uns privilegiados com tendência para abusar das queixinhas.
Isso é uma grande verdade.
Às vezes penso agir, mas o comodismo é mais forte
E a verdade é que se não fizermos nada depois não haverá ninguém para fazer por nós quando chegar cá. Porque vai chegar. Faz-me lembrar aquele poema de Brecht/Weill cantado por Christy Moore, “Yellow triangle”: http://www.youtube.com/watch?v=g7y-9FqLluQ
Bom, triste triste é, tantos de nós, das notÃcias vermos apenas a parte do desporto ou das pequenas/grandes tristezas à nossa porta. E não termos sequer consciência de toda a miséria que existe no mundo.
Marco Santos,
ou poderemos ser uns privilegiados que, no conforto do nosso lar e envoltos na nossa paz, vamos assistindo com maior ou menor indiferença a todas as desgraças que acontecem diariamente pelo mundo fora, que nos são transmitidas por muitos jornalistas e fotógrafos que têm de lidar com essa realidade no terreno, sem poder fugir aos gritos, à dor ou à sujidade, ou, podemos largar tudo e partir por tempo indeterminado para uma missão humanitária no terreno, ou ainda, largar tudo e fugir para o Alasca profundo, como fez o Christopher McCandless, esquecendo tudo e todos.
Ainda sobre essa distância de milhares de Kms que nos separa das desgraças, o que dizer daqueles que a essa distância, contribuem para que essas imagens aconteçam? Faz pouco tempo que deu uma reportagem no ’60 Minutos’ (creio) sobre aqueles que pilotam à distância os Drones americanos que têm despejado mÃsseis sobre no Paquistão, junto à fronteira do Afeganistão, provocando bastantes baixas civis ou colaterais. Qual será o sentimento desses pilotos, que carregam num botão para disparar um mÃssil, olhando apenas para uma imagem vÃdeo de infravermelhos, onde os seres humanos são apenas umas manchas brancas?
Ainda sobre as queixinhas, nem é preciso pensar nessas fotos. Não é à toa que uma das perguntas de ocasião é: Então como vai essa saúde?
Só damos valor a ela quando estamos bons.
Haaa como é tão bom estarmos aconchegados na nossa “beautifull shell”
…Mas será mesmo?
Será que somos da famìlia das Avestruzes?
É que me tenho cruzado com tipos que tem um pescoço anormalmente comprido….
Básicamente,o que quero dizer é que muita gentinha tá-se *agando para as des graças humanitárias que ocorrem diáriamente no Mundo
Que saudades que tenho da idade da pedra: a única informação multimédia que tÃnhamos eram desenhadas nas paredes das cavernas, nada sabÃamos nem dos felizes contratos dos privilegiados nem das infelizes desgraças alheiras. Mantinha-nos ocupados somente com a preservação de nossas próprias vidas. SabÃamos que se fossemos nos manifestar em passeata contra os leões que comeram nosso avô, serÃamos todos comidos também. TÃnhamos o direito de ficar quieto no fundo da caverna, a espera que nenhum outro animal resolvesse fazer-nos de janta. O lÃder era o mais velho experiente e não o mais novo graduado. O Benfica nem existia. Acho que éramos mais feliz.
O teu post e os comentários lembraram-me de pessoas piores do que as que nada fazem e que tão bem descritas estão nesta música:
-Letra: http://www.azlyrics.com/lyrics/tool/vicarious.html
-Video: http://www.youtube.com/watch?v=UUXBCdt5IPg