Esta é a história de um homem que há nove anos vive sem gastar dinheiro: não tem, não pede, não aceita. Não é doido, mas a coerência absoluta com que colocou em prática as suas convicções fez dele, aos olhos do mundo exterior, um eremita vagabundo que não bate bem da cabeça. Uma curiosidade – versão mais benevolente de exclusão. E ele orgulha-se de vagabundear, indiferente aos julgamentos dos civilizados, pois vive em paz consigo próprio.
David Suelo, 48 anos, um americano criado numa família evangélica cristã, levava a religião muito a sério. À medida que foi crescendo, apercebeu-se de que os cristãos não colocavam em prática os ensinamentos da religião que professavam. Suelo evocava, sobretudo, o sermão da montanha através do qual Jesus Cristo exortou os seguidores a abdicar de qualquer tipo de possessões terrenas.
Suelo sentia-se deprimido e desonesto por fazer parte da sociedade consumista. Como o próprio explica, uma simples ida ao supermercado para comprar uma banana deprimia-o, pois sentia o manuseamento de dinheiro um acto maligno. Cansado de se sentir deprimido com a vida que levava, despediu-se do emprego em Denver, no Colorado, e iniciou uma vida de vagabundo que o levou ao Alasca, por onde ficou dois anos sobrevivendo do trabalho que conseguia arranjar.
Pensou muito enquanto esteve no Alasca. Afinal não existia qualquer diferença entre endividamento físico e endividamento espiritual, pois eram irmãos siameses, duas faces do mesmo problema. O amor ao dinheiro, o apego a um sistema capitalista de dívida e crédito eram a raiz de todos os males, doenças e desconfortos deste mundo.
Dois anos depois de ter saído do Alasca conseguiu fazer uma viagem à Índia. Estava fascinado pela vida dos sadhus, místicos hindus, praticantes de ioga, ascetas que rejeitavam o dinheiro e qualquer tipo de possessão terrena.
Depois de alguns meses vagueando pelo país, Suelo descobriu uma povoação montanhosa chamada McLeod Ganj, conhecida por aí viverem muitos refugiados tibetanos.
O Dalai Lama estava na povoação quando Suelo chegou. O que ouviu do chefe espiritual tibetano teve um profundo efeito na decisão que acabaria por tomar.
Na sua prelecção, o Dalai Lama começou por considerar admirável que pessoas de todos os cantos do mundo estivessem ali para estudar o Budismo tibetano; mas a Verdade, notou, podia ser encontrada em qualquer religião. Tal Verdade podia ser encontrada no nosso próprio quintal, ao invés de se procurar erva mais verde no outro lado da vedação.
Um verdadeiro teste de fé, pensou então Suelo, seria regressar às nações mais materialistas e adoradoras de dinheiro do planeta; regressar aos autênticos e profundos princípios espirituais escondidos na hipocrisia das religiões. «Eu podia ser um sadhu na América. Vaguear, ser um vagabundo, fazer disso uma arte – a ideia encantou-me. Para dizer a verdade, a ideia pareceu-me simplesmente divertida.»
Desde 2000 – já lá vão nove anos, portanto – Davi Suelo nunca mais tocou em dinheiro. Vive em comunhão com a Natureza, aceitando o que ela lhe oferece: plantas, frutos e, ocasionalmente, animais. Farto do sistema monetário e de uma sociedade consumista que considera maligna, Suelo escolheu ficar completamente de fora – é um vagabundo solitário, mas também alguém com uma integridade de ferro, incapaz de trair as suas convicções em nome do conforto.
Mantém um sítio na Web, pois claro. Living without Money contém longas páginas de texto onde justifica as suas opções e responde às perguntas mais frequentes. Tem também um blogue – Moneyless World – onde conta alguns pormenores do seu dia-a-dia e interage com os visitantes.
De vez em quando frequenta locais públicos com computadores e acesso à Internet para comunicar com o mundo que rejeitou.
Vive numa caverna – «a minha casa principal» – numa zona desértica de Moab, Utah. Tem mais saúde agora do que quando tinha dinheiro pois, segundo ele, o sistema imunitário é «um músculo que precisa de ser exercitado para funcionar melhor.» Assume-se um ser totalmente livre: «Não sou pobre nem rico, estou para além disso.»































7 comentários
Fica aqui a entrevista dele à BBC
http://www.bbc.co.uk/worldservice/programmes/2009/09/090929_outlook_caveman.shtml
Obrigado, Pedro
Marco, eu leio sempre estas histórias com respeito e mantenho a devida distância. Torço no entanto o nariz quando vejo associada a palavra “notável”, ou comentários que apontam essas mesmas histórias como modelos a seguir. Sobretudo quando surgem comentários inspirados, feitos com o coração, destacando que isso sim, é a forma de ver a vida e que nós todos é que estamos presos a este sistema capitalista, reféns do consumo.
Li esta história e não posso deixar de a comparar à de Christopher McCandless, até porque, ambos estiveram no Alasca, local que parece reunir as condições perfeitas para pensar melhor na vida, em perfeita comunhão com a natureza. A diferença é que o McCandless já não conseguiu voltar do Alasca.
Se não te importas, cito o que escrevi sobre a história de McCandless, que também reflecte no geral a minha opinião sobre este tipo de histórias
«Lamento, mas eu não o consigo ver como um modelo ou inspiração a seguir. Nem aceito que argumentem que a sua atitude Franciscana possa ter mais valor, p.e., do que alguém que lutou uma vida para ter posses e bens materiais que lhe permitam gozar a vida de uma forma diferente. Num idealismo ingénuo e sem qualquer tipo de preparação para desafiar a Mãe Natureza, ele deu cabo do bem mais precioso que tinha à face da Terra, a sua vida.
Christopher McCandless nasceu em 1968, uns meses antes mim. Tentou viver melhor, com simplicidade, e tirando partido das pequenas coisas da vida. Terá ele vivido mais em dois anos do que eu durante toda a minha vida? Talvez.
Só que eu ainda cá estou, e ele não.» (link)
O link corrigido (link)
Prometo experimentar o Firefox em breve
Não consigo fazer a edição
É um testemunho de vida que dá que pensar, pois na maior parte das vezes deixamo-nos escravizar pelo consumo supérfluo e quando damos conta disso já é demasiado tarde…