
Ao que tudo indica, esta capa da edição portuguesa da Playboy ditará o fim da revista em Portugal: a casa-mãe não gostou.
Jesus Cristo nasceu na Terra e escolheu sacrificar-se por nós, morrendo para salvar a Humanidade dos seus pecados. Quem passou pelo tormento da cruz e cometeu a proeza de ressuscitar três dias depois não se deixa chocar ou impressionar facilmente com miudezas terrestres, muito menos uma sessão de fotografias da Playboy portuguesa. Brincar com Cristo é óptimo para gerar falatório, como qualquer estudante de Marketing e Publicidade sabe. Não havendo dinheiro para despir celebridades, arranja-se uma que chame a atenção pela forma como está vestida.
A Playboy americana, que despe mulheres em nome da Declaração Universal dos Direitos do Punheteiro mas não gosta de misturar assuntos sérios no mesmo plano de realidade – dinheiro e religião –, desaprovou a ideia. «Devido a esta e a outras questões com os editores portugueses, estamos em vias de rescindir o nosso acordo», afirmou ao sÃtio de mexericos Gawker a vice-presidente do departamento de relações públicas da Playboy Entertainment, Theresa Hennessy.
A Playboy americana considerou que meter um Cristo ali no meio transmitia ao leitor a desagradável sensação de estar a ser observado enquanto peca.
A capa é uma homenagem a outro grande pecador, José Saramago – «O Evangelho Segundo Jesus Cristo» – e as fotos dizem-nos que Cristo, na sua bondade e sabedoria, não faz distinções entre mulheres putas e virtuosas, heterossexuais e lésbicas, com ou sem mamas de silicone, com ou sem camadas de Photoshop, emancipadas, guerreiras ou submissas, para ele tanto faz.
A sessão de fotos não potencia um profeta lutador, dinâmico e interventivo: alguém acredita que este Cristo da Playboy seria capaz de arrasar os vendilhões do templo? Este Cristo veio directamente de um salão do cabeleireiro. Meteram-lhe aquela faixa à volta da túnica e só falta realmente estar lá escrito Miss Jesus Cristo 2010.
Cristo está ali entre as mulheres nuas, mas realmente para ele tanto faz. Não há uma relação directa entre a simbologia da sua figura e o cenário em que é colocado. Mesmo quando abre os braços naquela santa pose que todos conhecemos dos livros de catequese não parece realmente Cristo, mas um chulo com problemas de identidade que durante toda a vida quis ser polÃcia sinaleiro. «Chica, tu viras à direita com aquele cliente ali… E vamos a despachar, que eu não quero engarrafamentos.» Até a estátua do Cristo-Rei tem mais vivacidade.
Na foto com as meninas na cozinha, o profeta ergue os braços porque está a pedir às raparigas para lhe passarem os pratos: hoje é o dia dele lavar a loiça.
Na outra foto com as meninas lésbicas, Cristo lembra os tarados que se escondiam entre as rochas do São Pedro do Estoril da minha infância a observar miúdas em topless.
Aliás, a sua atitude é de tal forma passiva e estática que uma pessoa fica a pensar que ele lhes estará dizer qualquer coisa como «Irmãs, quando acabarem de se comer uma à outra sentamo-nos os três ali no sofá porque há uma passagem da BÃblia que eu quero que vocês oiçam. Não se incomodem, eu fico aqui especado a olhar enquanto vocês desfrutam daqueles orgasmos múltiplos que o meu Pai vos deu».































22 comentários
Bah. É o que se me oferece dizer.
Nem comento sobre a justiça, injustiça ou hipocrisia desta decisão, mas devo dizer que esta ideia de misturar Cristo com sexo é uma merda. Mais velha que o Manoel de Oliveira e mais gasta do que a orelha esquerda do Sócrates. Por isso, parece-me uma tentativa criativamente barata e fraquinha de vender mais exemplares da revista (e de papel higiénico por tabela). E ainda conseguiram meter o finado Saramago ao barulho…
Mas as moças parecem ser boas como o milho.
Ri-me a bom rir ao ler este artigo
simplesmente uma das piores playboys portuguesas de sempre.
«A Playboy americana considerou que meter um Cristo ali no meio transmitia ao leitor a desagradável sensação de estar a ser observado enquanto peca.»
Mas aqui a culpa não é da playboy portuguesa, é do cristianismo, que defende que cristo está no meio de nós. Eles é que transmitem a ideia de que o tipo é um rebarbado controlador que está constantemente a micar toda a gente.
Um texto e um humor perfeito.
(tivesse a Playboy essa qualidade e as “outras questões com os editores portugueses” talvez não existissem)
Nobody fucks with the Jesus.
Cá eu acho delicioso o fecho da PB por esta razão. Delicioso. Diria mesmo: poético. Contra a PB nada tenho, senão achar que a revista é um flop. Pecador me confesso! Mas a associação que fizeram parece-me de profundo mau gosto. E se o canal para isto foi, ainda por cima, saramago, duplamente poético.
Olhem, estou contente, até.
@Joao
Eu gostei. Junta uma homenagem a um homem que admiro, polémica (a que durante meses se ouviu queixas de faltar nesta versão portuguesa), e claro está mulheres nuas, que parecendo que não é sempre agradável de ver
… E a forma como juntaram a homenagem, ao tipo de revista, até é engraçada.
Quanto à polémica, os editores já a esperavam com certeza…
Concordo duplamente com o comentário do João!
pareceu-me a melhor capa da edição lusitana da playboy… jesus, gaja tatuada, josé saramago, julião sarmento & legendary tigerman! tudo ao molho! lindo!
foi a única vez que tive vontade de a comprar…
deve ser a única revista masculina com a mania de por homens ao barulho, que merda é esta de porem humoristas e pregadores numa revista de TETAAAS.
A censura que quis silenciar Saramago e não conseguiu talvez desta feita consiga escurecer esta publicação. Não sou leitor da revista, como não sou leitor de nenhuma revista em particular, mas tenho acompanhado as polémicas e os comentários e parece-me que ao contrário de Saramago, esta não deixará grandes saudades.
Quanto ao post está muito divertido, obrigado Marco.
O mais interessante é que numa época de crise económica e de despedimentos massivos o director da Playboy portuguesa conseguiu fazer o que ninguém até hoje tinha feito, cavar a sua própria sepultura (mesmo sabendo que o mesmo vai ficar no grupo empresarial como sempre acontece com este tipo de directores) e despedir toda a sua equipa de colaboradores sem sequer ter feito a carta de despedimento colectivo… é obra!
Agora vamos ter mais jornalistas no desemprego, tudo por causa do anormal que se lembrou de colocar Jesus Cristo ao lado de putas. Brilhante!
Ò Andrade, mas Jesus e putas é história com dois mil anos. Lembras-te da Maria Madalena?
Esta capa é muito boa, provavelmente a melhor da Playboy portuguesa e melhor do que 90% das americanas sem sal.
A primeira capa da Playboy portuguesa, essa sim foi uma coisa horrÃvel e uma vergonha de edição de estreia. Depois a capa com o RAP, a primeira da história da Playboy sem uma gaja, essa sim foi um atentado à casa mãe.
Cá para mim esta história é uma desculpa para fechar a revista por outras razões. Se for mesmo por causa de Jesus, perdi toda a consideração pela marca Playboy.
P.S. – A revista no geral é boa, os artigos são bons, do melhor conteúdo original publicado em revista que se encontra em Portugal.
Jesus é tramado…
O ano passado despediu o Jesualdo Ferreira e o Carvalhal…este ano, os jornalistas todos da Playboy…
Ninguém pára o Jesus…
O texto está delicoso. E sinceramente, o fim dessa “coisa” até me apraz. Uma vez que a qualidade da revista estava muitas vezes ao nÃvel da auto-estima de quem a compra.
Não sabia que existia uma edição playboy pt.
Segundo observei na capa ( acima exposta ) tem poucos meses de vida. Pessoalmente, nunca entendi muito bem a proliferação do número de revistas em Portugal. Um mercado de 10 milhões de pessoas onde, infelizmente, há uma percentagem importante de iletrados ( em França igual, só que há 70 milhões. O que muda os dados ).
E são revistas que, quanto a mim, não são mais que um copiar colar. Deste ponto de vista, talvez seja interessante pensar no sucesso da imprensa regional em Portugal que, apesar de muitos poucos meios, vai-se, tão bem que mal se mantendo.
Público será o primeiro diário a tentar tirar a imprensa da regionalidade. Terá êxito no inÃcio, mas depressa se irá submeter à lei da “Terrinha”, abrindo uma edição Porto e uma edição Lisboa. Seguirão outros jornais.
Para quem vê de fora, e talvez esteja totalmente errado, pouco espaço deixa de existir para outra imprensa. Tal & Qual não é mais que um “Canard Enchainé”. Só que este último existe no âmbito duma tradição histórica que tem ligações com o passado. Não me parece que seje o caso de Tal & Qual. E aqui talvez resida a questão que os portugueses não querem aceitar : Portugal é um paÃs recente. Muito recente.
Nossa : Tudo isto a propósito da capa da playboy.
Eu sou contra qualquer censura ( salvo o que diz respeito à pedofilia, homofobia e racismo ).
Dum posto de vista gráfico, a capa está um horror. Aquilo são estátuas e a cama é digna duma publicidade dos anos 50.
Mas pouco importa : Não é uma razão para censurar, etc.
O que mais me incomoda é ver o tÃtulo da obra de Saramago na cabeceira ( ou em cabeçalho ? ) . Creio que quem faz a capa nunca leu Saramago. Isso é incomodativo.
E Saramago sempre recusou que as suas obras fossem transcitas para o cinema. Apenas Fernando Meirelles, o autor de “A cidade de Deus” teve o privilégio de levar à tela , “A Cegueira “.
Haveriam muitas mais criticas.
Mas fica também bem expresso que estou disposto a assinar em defesa da ” Playboy pt” .
Um tÃtulo de imprensa que morre é um machadela na democracia.
Nuno
Penso que a próxima pessoa a manifestar-se serão os “pilares”: Será a Pillar pois, como banda de rock cristão, fica mal saber que no mundo uniram duas coisas que se tornam até ofensivas para um leitor, unirem fotografias de raparigas ao natural e Jesus Cristo, o seu ganha pão, lá no meio, é de loucos. Que o digam todas as pessoas que recebem freneticamente esta banda e rezam enquanto “abanam o capacete” com os braços no ar. E será Pilar Del Rio pois incluir o seu falecido amado no meio do assunto, entre seios e Cristo, parece mais algo a roçar a linha da orgia do que uma homenagem. De reparar também que, a senhora espanhola (mesmo de acordo com os gostos deste escritor) podia também querer dar a sua participação na festa onde estava o principal arqui-inimigo do seu falecido.
Estes editores, redactores e fotógrafos que aguentam o seu instinto de procriação entre as pernas enquanto trabalham são uns marotos, uns ingénuos que só queriam homenagear o pobre escritor que tinha “acabado” de falecer e ao mesmo tempo fazer algo ao estilo “Saramaguiano” e fazer qualidade e polémica, o que infelizmente só saiu a segunda.
É mais do que obvio que a revista ja estava para acabar de qualquer das formas e então usaram isto como desculpa….
Sem duvida espectacular, vai ser a edição mais vendida de sempre…
não estou a ver qual o mal em ver Jesus enquadrado no pecado original.,.,
espero que a igreja utilize esta edição de uma forma pedagógica nos seminários
pois vai evitar muitos padres pedófilos………………..