Tenho feito os possÃveis por ignorar os últimos romances policiais que envolvem Benfica e FC Porto, mas o tÃtulo de um artigo do Jornal O Público fez-me mudar de opinião.
Diz O Público que o futebol português está em «guerra civil».
Como as duas batatas que o Sá Pinto espetou no Liedson só dizem respeito ao Sporting, o que está a provocar esta «guerra civil» deve ser o confronto entre o meu clube e o FC Porto.
É natural que a expressão sirva para definir de forma resumida a situação – eu preferia chamar-lhe estupidez aguda. Não sei se «estupidez aguda» é a expressão mais correcta do ponto de vista jornalÃstico, mas pelo menos tem o mérito de dar aos protagonistas da contenda – os dirigentes dos dois clubes – a importância que ambos merecem.
Não é isso que sucede – eles estão em «guerra civil».
Os clubes e respectivos dirigentes têm tanta importância e são tão representativos na nossa sociedade que até têm o poder de provocar uma «guerra civil». Deviam ser envergonhados e ridicularizados até à exaustão, mas são analisados com toda a seriedade. Têm o tempo de antena que pessoas que fazem de facto alguma coisa de útil neste paÃs nunca sonharão ter.
Se estamos mesmo em guerra e não podemos evitá-la, então sugiro que os clubes tomem medidas. Se as camisolas e os sÃmbolos através dos quais Benfica e FC Porto sustentam a sua honra desportiva já não são adequados à situação actual, então que os substituam pelas fardas. Dá-se mais um passo na direcção errada.
Aliás, acho até que os adeptos dos clubes não deviam ser sócios apenas por pagar as quotas. Todos os candidatos a sócios entre os 18 e os 40 anos deviam cumprir um serviço militar obrigatório dentro dos próprios clubes. A recruta podia ser dada em campos de futebol adaptados para o efeito.
Em vez de aprenderem a jogar à bola (que interesse tem isso, afinal?) podiam ser ensinados a lançar – bem, não digo granadas, porque somos um povo pacÃfico, mas umas pedras; vá, uns pedregulhos para as situações mais apertadas, pois é importante afinar a pontaria perante as formações inimigas, como se viu há uns tempos num jogo entre juniores do Benfica e do Sporting.
A recruta também podia ser usada para os sócios aprenderem a dar cacetadas como deve ser, com os pés e as mãos. Umas técnicas para mandar pauladas nas costelas inimigas à maneira do Corpo de Intervenção também seriam bem-vindas.
Finalmente, chegaria o Dia do Juramento de Bandeira. Os recrutas – agora prestes a fazerem-se sócios – receberiam os seus cartões de sócio e cantariam a plenos pulmões o seu hino nacional: Contra os dragões marchar, marchar ou Contra os lampiões, marchar, marchar.
Enfim, é uma guerra. Que pode fazer um gajo que gosta de futebol? Talvez um movimento de desportistas do FC Porto e do Benfica se pudesse reunir, marcar uma conferência de imprensa e, com o microfone ligado, mandar os seus respectivos dirigentes e toda a corja do futebol português para o caralho que os foda.
Eu proponho outra solução para evitar uma guerra em grande escala.
Os dois chefes das tribos rivais podiam encontrar-se para um duelo. Uma cena à moda antiga. Que escolhessem as armas à vontade: pistolas, espadas, punhos, pés, dentes ou unhas – mas resolvessem essa merda de uma vez por todas. Que Pinto da Costa e LuÃs Filipe Vieira se matem à porrada nos túneis dos ratos de Mafra, se quiserem, mas deixem o futebol e quem gosta de futebol em paz.
Eu ainda tenho a esperança de poder ir à bola ver o meu clube jogar contra o seu principal rival sem estar preocupado com o que possa acontecer ao meu filho. Com o ambiente actual não é possÃvel – numa guerra há sempre baixas entre os inocentes.































7 comentários
Mais uma bela análise do Marco, gostei especialmente de:
“Que Pinto da Costa e LuÃs Filipe Vieira se matem à porrada nos túneis dos ratos de Mafra”
Fantástica!!!
Boas Marco!
Eu fui ver o ultimo Benfica-Porto com o meu filho e não aconteceu nada de mal nem a nós nem a ninguém. Acho que se os jornalistas se preocupassem mais em dar tempo de antena a quem merece e não a quem vende mais, tudo melhorava…
Se não comprares nenhum jornal, vais ver que não existe guerra nenhuma…
A malta quer é circo. O problema é que atrás desse circo vai gente com responsabilidade que devia ter a competência para não ir nestas palhaçadas, e depois são gastos dinheiros públicos para sustentar esquemas corruptos.
É verdade, isto é uma treta.
Sou portista e penso que isto está para lá do aceitável.
O pior é mesmo a questão da segurança, o futebol actual serve para descarregar a fúria do sentimento de insignificância que os portugueses em geral sentem ….
Temo que o sarcasmo, por mais útil que possa ser, não se adeque a tópicos tão obscuros como o ópio do povo. Concerteza terás milhares de adeptos dispostos a seguir alegremente a tua observação à letra, provavelmente os mesmos que se ririam à gargalhada se fizesses o mesmo tipo de comentário num contexto polÃtico, deliciando-se com o efeito da ironia.
Às vezes fico mesmo desmotivado. Obrigado Marco pelo teu esforço de continuares a chamar atenção para aquilo que devia ser evidente de forma gritante.
Protesto.
Os coitados dos pobres ratos de Mafra nao merecem ser assim tao castigados, raticida ainda vá, mas com esse dois ja era abusar.
Sabe que imaginei uma guerra civil entre o PS e o PSD quando vi (pra pegar de um ponto qualquer, mas poderia começar antes) o garoto propagando fo PS, mais o lÃder do partido e mais um promissor jovem polÃtico serem envolvidos no caso da Casa Pia? Depois de outros casos menores e depois de tentarem envolver o 1º ministro no caso Freeport (duas vezes antes de duas eleições) vi toda a estrutura financeira do PSD ruir com o caso do BPN (depois disso não se ouviu falar mais em Freeport e o PSD ficou este caco que está)!!!
Será que estamos condenados a viver num paÃs de guerras civis? Será que a única forma inteligente de um poderoso confrontar interesses com outro poderoso é através de sua completa destruição utilizando técnicas de guerrilha, como foi feito com os Loureiros (Valentins e cia.)? Será que não conseguem distinguir a diferença entre inimigo e adversário?
A única vez que gostei de uma atuação do Cavaco Silva foi agora em suas palavras pré-negociação do OE. Parece que conseguiu evitar mais uma guerra civil.
Será que a polÃtica partidária aprendeu com a polÃtica clubÃstica ou foi ao contrário? Já existe alguma guerra civil entre bloggers?
Saúde e paz a todos!