Ainda lembro os tempos em que se falava de futebol no Benfica: discutÃamos as jogadas, os golos, os falhanços, os jogadores, as contratações, a sorte e a falta dela – episódios anacrónicos porque, à luz do que temos assistido nas últimas horas, chamar um nome feio à mãezinha do árbitro já me parece relativamente saudável.
Ontem, na televisão, acompanhei um debate sobre a actual situação do Benfica onde estiveram presentes três advogados. O quarto convidado foi um jornalista do Record que se assumiu como leigo na matéria e pouco participou na conversa. Depois de 45 minutos a ouvi-los falar em despachos judiciais, interpretações, providências cautelares, citações de solicitadores, artigos do Código Civil, impugnações, actos executivos, acórdãos, assembleias, cópias, actas, plenários, senhores doutores, ilustres juÃzes, caros colegas, vilarinhos, vieiras e carvalhos, só consegui afundar-me ainda mais no sofá, já completamente derrotado, e dizer para mim próprio:
– Caralhos ma fodam se percebo alguma coisa do que estes gajos estão a dizer.
Um adepto de futebol não precisaria de perceber estas conversas – abnegado e dedicado como é, acabará eventualmente por queimar as pestanas só para conseguir acompanhar a actualidade do clube.
Estão a pedir-nos demasiado: ao longo dos anos, os benfiquistas aprenderam tudo e mais alguma coisa sobre jogadores, tácticas, treinadores e métodos de treino; agora pedem-nos para sermos especialistas em Direito, Economia e Gestão. Um dia haveremos de conseguir ser advogados, economistas e gestores de bancada, mas por agora já ficaria satisfeito em concentrar-me no que se passa naquele espaço verde entre duas balizas, nos 22 jogadores, no árbitro com a mãe de reputação duvidosa e no mais importante de todos os intervenientes: a bola, que desafia as leis da gravidade à custa da conjugação perfeita entre força e inteligência.
Hoje de manhã estava a tomar café quando ouvi um velhote mencionar, com voz desiludida, o futebol e o Benfica. Deixei-me ficar sentado a cuscar a conversa e ele disse algo que me pareceu importante:
«O futebol foi criado por pessoas simples, com regras simples. Dás uma sarrafada no adversário e és expulso. Mas depois chegaram os advogados e vieram dizer ‘Esperem lá, antes de nos decidirmos pela expulsão é preciso analisar a intenção com que deu a sarrafada, as circunstâncias do jogo e da jogada’, por aà fora».
Levantei-me com a sensação de ter sido, durante alguns segundos, tocado pela sabedoria. Também eu tenho saudades desse futebol.































14 comentários
Há muitos advogados importantes e que fazem falta na nossa sociedade. Precisamos deles para nos ajudar a usar a lei para nos proteger.
E depois há uma infinidade deles que só servem para nos foder a vida!
@Marco
Dia desses escrevi uma coisa, num sÃtio qualquer (para não me veres a propagandear), que contava uma história interessante de um sábio destes que nos provocam desconcerto. Escrevi assim:
“Noutro dia, num documentário muito bom acerca de uma pequenÃssima povoação no Tibete, feito por uma investigadora francesa, numa conversa entre a ela e o homem da famÃlia que a acolhera durante o tempo da pesquisa sobre a vida daquela gente, lá pelas tantas ele pergunta, mais ou menos assim:
- Ano passado você foi para o povoamento de nossos vizinhos?
- Sim – respondeu a investigadora.
- Mas por que não veio pra cá?
- Não sei. Nem sabia que existia este pequeno povoamento.
- Deveria ter vindo para cá… Aqui é muito melhor. Lá eles estudaram. Discutem muito… Aqui não. Tudo é mais tranquilo… Nós somos todos iguais…”
Tenho saudades da inocência.
Nao há nada como ser Portista até á medula para nao ter que aturar disso.
Dois amigos se encontram depois de muito anos.
- Casei, separei e já fizemos a partilha dos bens.
- E as crianças?
- O juiz decidiu que ficariam com aquele que mais bens recebeu.
- Então ficaram com a mãe?
- Não, ficaram com nosso advogado.
Bem, o velhote do café era um grande filósofo.
Subscrevo o Paulo Jacob.
Edgard:
Muito bom!
É o ecletismo do Benfica levado ao extremo! As eleições para Presidente da Républica são quase tão impotantes como as do Benfica.
O importante é que com tanta trapalhada, o Benfica continuará, para que todos possamos discutir futebol (ir)racionalmente.
Agora que falas nisso, sinto a mesma coisa.
Qualquer dia para determinarem se um cartão foi bem mostrado ou não vão avaliar a situação psicológica dos jogadores e dos arbitros, ver se existem precedentes entre eles, comparar o estado de fadiga para então dizerem que as suas ondas cerebrais estavam elevadas e que o facto de ter feito uma entrada por trás de carrinho não foi pensado mas sim uma acção automatizada e gerada pela emoção e situação naquele preciso instante e como errar é humano e perdoar é divino, Exmos, Srs, da comissão de arbitragem façam favor de retirar o cartão ao jogador.
Basta eu ouvir os comentários de um LuÃs Freitas Lobo, para ver que não tenho formação suficiente para ver um Naval x Paços!
A democracia dá trabalho.
Joana, e o teu comentário no contexto do post quer dizer o quê, concretamente?
Concordo que haja uma intelectualização excessiva hoje em dia em muitas áreas onde antigamente não havia mas acho que a democracia tal como está estruturada em Portugal( e assim entendo que o principio se deve aplicar a qualquer verdadeira democracia)requer a participação dos cidadãos na vida das instituições.E nesse sentido considero importante e útil que as pessoas saibam um pouco de tudo.Não quero com isto dizer que ache que toda a gente deve estudar a fundo a dogmática do Direito Civil ou do Direito Administrativo ou ter o Samulson como livro de cabeceira.Mas é desejável que haja conhecimento de algumas figuras juridicas por exemplo que estão presentes no quotidiano de qualquer instituição de que a pessoa seja associado.Resumidamente considero que os sócios se devem inteirar do que está em causa no destino do Clube neste caso-Só assim podendo decidir esclarecidamente.
Também me parece que tendo tomado o futebol as proporções que tomou (e que não são as mesmas de há uns anos)seja necessário maior rigor na aplicação das regras(isto relativamente ao comentário do senhor no café).
De resto obviamente que entendo o sentido do post e até concordo em parte,só digo que é preciso acompanhar as mudanças socias e politicas.acho que não há escolha….