Gerry McCann saiu, fez um sorriso, abanou a cabeça…
Reportagem em directo na SIC NotÃcias, 19.05
A história do desaparecimento de Maddie é um ‘must’ porque abrange vários estilos: inicia-se como perturbante história policial (quem raptou a criança, como aconteceu) e até de guerra (a nossa competência contra o chauvinismo dos ingleses), evolui para uma comovente história de amor (campanha mediática dos pais) e, finalmente, depois de novo intervalo para publicidade e futebol, transforma-se numa chocante história de horror (mãe constituÃda arguida).
«Mas eu sempre desconfiei dela!», dirão algumas pessoas, indignadas com a má da fita.
Mas conheceremos todos os pormenores irrelevantes? Que a televisão nunca se desligue! Os jornalistas correm e atropelam as palavras, as baratas fingem que não são tontas, os espectadores agitam os rabos justiceiros no sofá: o último capÃtulo está quase a chegar.
Estes directos sucessivos em que nada acontece a não ser o próprio frenesim são suficientes para prender a nossa atenção: o que queremos é a nossa dose de Maddie. Mas essa Maddie não é nossa, nunca foi, na realidade nunca esteve viva, é um conceito de entretenimento. Tivesse desaparecido um inglês barrigudo de 50 anos e este caso teria um centésimo da capacidade para nos entreter – portanto, um centésimo do impacto.
Numa telenovela são frequentes as cenas ‘intermédias’ onde personagens secundárias dialogam sobre eventos do enredo principal e fazem um ‘apanhado’ da história. O objectivo é ajudar donas de casa a perceber ou recordar melhor toda a trama que envolve os protagonistas.
Os directos ‘noticiosos’ são assim – entretenimento novelesco, cenas dos próximos capÃtulos. Quando há espectacularidade, faz-se circo; quando não há espectacularidade, faz-se novela.
Já não sabemos o que é o jornalismo – e, se ainda temos uma vaga noção do que significou em tempos ser jornalista, a primeira coisa que um jovem repórter aprende é a esquecê-la, sob pena de cair no desemprego ou ser ridicularizado pelos iluminados pragmáticos.































5 comentários
Bom post
Concordo contigo: o jornalismo morreu e deu lugar à s novelas… o pior é que a maioria dos portugueses assiste a esta merda como se as suas vidas dependessem disto. O governo podia vender Portugal a Espanha e acho que os portugueses nem davam por isso. Dos 5 minutos que consegui ter a televisão num “noticiário” assisti a uma reportagem da TVI sobre as pessoas que foram para o local onde os pais da menina foram ouvidos… Eram dezenas de pessoas que “perderam algumas horas (das suas férias ou não) para ver os pais de Maddie ao vivo”… Desculpem mas é muito triste que estas pessoas não tenham nada melhor para fazer com o tempo delas. Mudei para a SIC na esperança de ouvir algumas noticias decentes, apenas para ouvir “não perca daqui a pouco uma discussão mais alargada sobre o caso de Maddie”… Fodasse, pensei eu, que putas fábricas de encher chouriços que estas televisões devem ter. Enfim, desliguei a televisão e desisti.
Excelente. Concordo a 100%. O jornalismo (televisivo) já está tão adulterado, e há tanto tempo, que pouca gente se dá conta da total falta de qualidade e de critério em que fomos caindo numa “manobra conjunta” das televisões para se ganhar share.
a reportagem do noticiário da meia noite na sic-núticias foi ridÃcula! via-se que estavam à espera que o pai da criança chegasse a casa para transmitirem esse emocionante momento televisivo em directo… mas como o senhor nunca mais aparecia… lá foram enchendo uns chouriços com tudo o que existia nos arquivos da sic mais à mão…
As pessoas querem circo, as televisões audiências. Junta-se o útil ao agradável; as pessoas vêm calmamente a palhaçada e as televisões ganham audiências, que se convertem em maior lucro financeiro, com a venda de publicidade.
Muito pior que a SIC é a TVI, que faz de uma coisa sem nada, uma coisa enorme e cheia de…nada!