→ 09/04/2008 @18:34

O cãozinho não morreu, está bem? Irra!

Os posts que escrevi acerca do caso Guillermo Habacuc Vargas – o tal artista que supostamente deixou morrer à fome um cão numa exposição na Nicarágua – têm recebido uma enormíssima quantidade de visitas nas últimas semanas. Sobretudo este: Tu és o que lês, publicado a 2 de Novembro do ano passado.

Este acréscimo de visitas deve-se ao facto de estar a circular nos emails (outra vez?) a petição organizada no ano passado: a polémica reacendeu-se com as pessoas que ainda não tinham tomado conhecimento do boato. Muitas deixaram-se levar pela gritaria histérica, assinando sem pesquisar um assunto tão sensível.

A maior parte dos visitantes chega agora com a mesma disposição com que aterrara em Novembro de 2007: um enorme frenesim justiceiro. Depois de lerem o meu post, os netinquisidores sentem-se mortalmente ofendidos por eu gozar com quem assina petições e crucifica um artista com meia-dúzia de cliques. Se o assunto é assim tão importante, mais um motivo para não se assinar petições com essa leviandade.

Depois de passar mais de duas horas no Google a remover o lixo sensacionalista que o caso produziu, contei a verdade do que realmente aconteceu: o cão não morreu na exposição, foi alimentado pelo próprio artista e escapou-se do recinto na manhã do terceiro dia.

A verdade pode ser um enorme inconveniente para quem deseja, em primeiro lugar, o sangue de Guillermo Habacuc Vargas. Algumas reacções que li nos blogues foram tão violentas que pergunto se um desmentido categórico os deixaria aliviados ou decepcionados: sem a morte do cão, que fariam eles à violência que carregam dentro de si?

As visitas têm sido tantas que pensei em voltar a escrever sobre o caso, recolhendo o máximo de elementos possível de forma exaustiva, perder dois ou três dias se fosse preciso, desmontar esta comédia.

Não foi preciso. Outra pessoa já o fez por mim: Carlos Almiron, licenciado em História e apresentador do programa Mundo Caos, na PunkRadio, escreveu um artigo desmontando a cabala dos amigalhaços dos animais (é verdade: também escrevi um post dedicado a esses). Aconselho-vos a leitura integral do texto – inteligente, oportuno e com a lucidez que tem faltado a tanta gente. Mas sempre vos revelo uma conclusão importante: Marta Leonor González, a jornalista que supostamente denunciou a morte do cão no suplemento cultural La Prensa Literaria, nunca esteve sequer na exposição – quem o afirma é um dos artistas que lá expôs e com quem o autor do texto falou. Mais: até agora nunca ninguém conseguiu descobrir o raio do artigo que ela terá escrito. Chega?

20 comentários

  • 1
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    9 de Abril de 2008 - 21:12 | Link permamente

    Olá Marco,

    Vou-te confessar que cada vez que recebo um email deste tipo perco tempo a:
    1) Investigar se é verdade ou não (quando não me lembro já do caso ou do esquema)
    2) Enviar um email a quem mo envia (e não a toda a lista que muitas vem aberta) a explicar que o caso é falso e como deve proceder. Dá muito trabalho, já me valeu algumas respostas mal educadas, mas vale a pena. se cada um de nós que sabe destes esquemas fizer o mesmo então há esperança de educar as pessoas …

    Ainda nbem que já percebi que não estou sozinho.

  • 2
    com BonEcho 2.0.0.15pre BonEcho 2.0.0.15pre em Windows XP Windows XP
    9 de Abril de 2008 - 21:14 | Link permamente

    Fernando, definitivamente não estás sozinho. Mas estamos em minoria, claro.

  • 3
    com Firefox 3.0b5 Firefox 3.0b5 em Windows XP Windows XP
    9 de Abril de 2008 - 21:51 | Link permamente

    mas muitas vezes, quando nos damos ao trabalho de verificar e confirmar esses casos, e avisamos as pessoas, somos mesmo mal-tratados :|

    muitos mails correntes acabam quando chegam a mim, mas isso não impede que receba o mesmo mail passadas 2 semanas ou 2 meses.
    e os temas são os mais variados:
    crianças horrivelmente queimadas (a mesma foto circula há pelo menos 4 anos); pedidos de sangue/medula óssea (rara é a vez em que é real!); aviso de crianças desaparecidas com contactos telefónicos inexistentes; avisos sobre produtos de higiene que contém componentes cancerígenos (mais um hoax e até é importado); petições on-line variadas – não me lembro que alguma tenha funcionado; …

    só reenvio mesmo os vídeos e powerpoints mais engraçados :D

    mas há muita falta de … conhecimentos na utilização deste serviço de comunicação que é o e-mail…

  • 4
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    10 de Abril de 2008 - 01:23 | Link permamente

    Devo confessar-vos que:
    1) Nem ligo à maioria dos e-mails, somente àqueles provenientes de endereços pertencentes a gente que usa o email para comunicar e não apenas reenviar emails;
    2) Mesmo que ligue a um desses emails não reenvio para ninguém. Sou o que se pode chamar de anti-social. Em termos de email, claro.
    3)Continuo a ter uma péssima opinião das pessoas que se revoltam porque alguém lhe disse que aconteceu uma maldade qualquer sem primeiro verificar as veracidade das razões da sua revolta.

    É isto que eu acho. Se é que isso importa.

    Bons textos, como sempre.

  • 5
    com Firefox 2.0.0.13 Firefox 2.0.0.13 em Windows XP Windows XP
    10 de Abril de 2008 - 10:49 | Link permamente

    felizmente existem pessoas que desmontam estes carroceis justiceiros. será isto um exemplo de serviço público?
    :)
    a esmagadora maioria (ou “esmagadoria” como disse um ex-presidente do slb…) dos utilizadores da net limita-se a reenviar toda a porcaria que recebe… sem sequer se dar ao trabalho de ver/ler/pensar o que raio está a reenviar. há uns anos o medo era que as máquinas dominassem o ser humano, parece-me que hoje em dia, cada vez mais, os seres humanos agem como máquinas, parecem programados para determinada função & executam-na.
    :(

    :(

  • 6
    David
    com Firefox 2.0.0.13 Firefox 2.0.0.13 em Windows XP Windows XP
    10 de Abril de 2008 - 15:54 | Link permamente

    Uma das razões pela nova vaga de hits ao post do cãozinho é capaz de ser esta:

    http://forum.ptgamers.com/index.php?showtopic=20910&st=0

    (ver post de user “carteiro_pat” depois de uma série de posts imbecis)

  • 7
    com BonEcho 2.0.0.15pre BonEcho 2.0.0.15pre em Windows XP Windows XP
    10 de Abril de 2008 - 16:39 | Link permamente

    Obrigado, David, já me tinha apercebido, mas a maior parte tem vindo do Brasil de uma comunidade no Orkut.

  • 8
    Eliza
    com Internet Explorer 6.0 Internet Explorer 6.0 em Windows XP Windows XP
    10 de Abril de 2008 - 17:27 | Link permamente

    Penso que toda a discussão está equivocada: não importa quem fez, mister observar o que foi feito e o que poderia ter sido feito. Se o cão estava a sofrer na rua, qual o mérito que se pode atribuir a alguém que o mantém a sofrer numa exposição de arte? Mérito poderia ter se o encaminhasse a um abrigo seguro, confortável, com outros cães, com pessoas que lhe dessem a devida atenção. Milhares de organizações não-governamentais existem que auxiliam não só cães, como todo tipo de animais… poderia até dizer que auxiliam humanos, ao mostrar-lhes como é um relacionamento de respeito entre os seres. Conscientização política se pode fazer de várias maneiras, mas é demasiado reprovável demonstrar o que não se quer que se faça, fazendo.

  • 9
    com BonEcho 2.0.0.15pre BonEcho 2.0.0.15pre em Windows XP Windows XP
    10 de Abril de 2008 - 17:57 | Link permamente

    Eliza, compreendo o que quer dizer e em parte concordo – e digo «em parte» porque, apesar de tudo, Habacuc alimentou o cão enquanto ele lá esteve.
    Discutir o «mérito» do artista neste caso é uma discussão lateral ao meu post, mas uma discussão interessante.
    Habacuc é conhecido na Costa Rica sobretudo por usar a Arte como uma forma de intervir politicamente ou, melhor ainda, como uma forma de confrontar as pessoas. Isto em si não é nada de novo porque uma arte que não te confronte não é arte, é entretenimento.
    Se queremos falar em «mérito», não podemos esquecer-nos da mensagem que ele procura passar. Isto leva-nos a outra discussão ainda mais complicada, que é a de procurar definir quais são os limites da Arte. Naturalmente que não me passaria pela cabeça defender esse artista se, de facto, ele tivesse deixado o cão morrer à fome só para marcar uma posição. Mas defendo-o contra a horda de fanáticos que, baseados em boatos e mensagens de email, o trataram como um assassino. O que me revolta é isto: como é tão fácil, em nome da justiça ou da moral, criar dentro de uma pessoa um espírito da inquisição.

  • 10
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    11 de Abril de 2008 - 14:51 | Link permamente

    A entrada que puseste para a Zona Punk revela um artigo deveras excelente. Boa nota. Vai por aí que vais descansado! :grin:

  • 11
    com BonEcho 2.0.0.15pre BonEcho 2.0.0.15pre em Windows XP Windows XP
    11 de Abril de 2008 - 15:01 | Link permamente

    Sem dúvida, Rui, é um excelente artigo. :smile:

  • 12
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    13 de Abril de 2008 - 17:21 | Link permamente

    O que é absolutamente paradoxal são os hate-emails que recebo após ter escrito um artigo sobre isso. As pessoas querem a protecção do animal, mas enviam emails dizendo que eu é que deveria morrer.

    Restam-me poucas mais palavras que um enfim.

  • 13
    com Internet Explorer 6.0 Internet Explorer 6.0 em Windows 2000 Windows 2000
    21 de Abril de 2008 - 15:47 | Link permamente

    Caro Marco Santos

    Poucos mas bons… estar em minoria não é pecado.
    Subscrevo a opinião de Fernando Vasconcelos… de crianças raptadas a peditórios, quantas vezes não esbarramos em aldrabices montadas com outros fins.

    Não quero comparar, mas de facto a prudência e o bom senso são muitas vezes apanhados pela precipitação e a boa fé…
    Já quanto aos amigalhaços dos animais (propositadamente pejorativo, mas não ofensivo… vai-se ver porquê), e tal como aqui disse, tantas vezes sustentando as suas opiniões não em princípios científicos, mas na antropomorfização das situações, gostava de saber o que pensam de um boi amarrado pelos cornos.

  • 14
    com BonEcho 2.0.0.10pre BonEcho 2.0.0.10pre em Windows XP Windows XP
    21 de Abril de 2008 - 16:57 | Link permamente

    Caro Clint,
    fico contente por verificar que um veterinário como você não se deixou levar pela histeria e, sendo concerteza alguém que gosta e respeita os animais, concorda na generalidade com o que escrevi.

    O que ainda me impressiona nesta história são os comentários insultuosos que fui forçado a apagar e, posteriormente, ignorar; gente sem cérebro incapaz de ver para além do esterco da sua raiva.
    Se por acaso esse artista tivesse deixado o cão morrer à fome, eu seria o primeiro a subscrever a petição e a indignar-me. Mas as pessoas adoptam uma causa como esta, por precipitação ou boa fé, concordo, e depois têm uma dificuldade enorme em aceitar quem lhes contraponha a verdade. É contra estas que me insurjo: estão cegos e querem furar-me os olhos. São tão violentas quanto o carrasco Habacuc que julgam combater e nem se dão conta disso: como acham que têm razão, acham-se também no direito de retaliar como quiserem.
    E depois partem do princípio de que a pessoa que se recusa a assinar essa petição é alguém que não gosta de animais, tão moralmente baixo como o artista que procuram crucificar. No meu caso, que sempre tive cães e gatos a vida toda, é um disparate completo. Já fechei os comentários nos dois posts que escrevi sobre o assunto porque sinceramente já não tenho paciência para aturar gente mal-educada e que não pára um segundo para pensar.
    Bom post, o seu. Concordo a 100 por cento.

  • 15
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    26 de Abril de 2008 - 10:48 | Link permamente

    Pois, sem me sentir ofendida, eu fui uma daquelas pessoas que acreditou piamente que o cão tinha morrido, isto porque vi no telejornal e li nos jornais!
    Se me diz e prova que o cão não morreu, óptimo! Nem imagina o quanto fico feliz!!! :wink:
    Não quero crucificar o artista, mas verdade seja dita achei-o cruel e a todas as pessoas que viram e nada fizeram também!!! Se vou atrás das multidões, não sei, mas que detesto injustiças com animais e corro a defendê-los da maneira que posso, ai corro… :mad:

    Obrigada

  • 16
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    30 de Abril de 2008 - 21:59 | Link permamente

    Caro Marco,
    o Ocidente (e respectivos “filhos”) é por excelência o espaço histórico onde se demonta a tutela absoluta da cultura e onde se dá a descontrução (Derrida) dessa mesma cultura. Se é verdade que a arte abala um conjunto de dados adquiridos, não é menos verdade que na contemporaneidade há uma tomada de consciência de que a radicalidade pode não surtir efeito, ou seja, que não é axiomática. Independentemente do cão ter morrido (como eu pensava que tinha acontecido), concordo com Bourriaud quando este diz que em Arte olha-se e escuta-se o que abre o pensamento e que os artistas produzem imagens “magras” sem “efeitos especiais”, sem palha, contrariamente ao crash perceptivo proporcionado pela propaganda e pela publicidade para surpreender rapidamente, limitando o espaço de tempo necessário ao olhar perante uma imagem. A arte contemporânea opera como uma estrutura micropolítica, que se situa no interior das diversas esferas da vida, que cria novos dispositivos para habitar o mundo, que reinventa percursos no mundo e que se ocupa de um posicionamento crítico não objectivo do mundo. Esta instalação polémica, no meu ponto de vista, situa-se mais na esfera da publicidade/propaganda do que na da Arte.
    Cumprimentos

  • 17
    MARIA HELENA ALMEIDA
    com Internet Explorer 6.0 Internet Explorer 6.0 em Windows XP Windows XP
    1 de Maio de 2008 - 18:10 | Link permamente

    AMIGO MARCO;
    Apesar de me mandarem ainda hoje e-mails sobre o caso, já contactei e falo tantas vezes com Guilhermo Vargas, e ele já me mostrou o cão que ele sempre o alimentou. Lamneto imenso é estas associações amigas dos animais virem a público, na internet, em jormnais, na comunicação social, dizendo que o Senhor praticou um crime, quando afinal o pobre animal era um cão vadio a quem ele acudiu tratou-o e só porque o expôs numa exposição foi logo motivo para tantas controversias. Já alguém se interrogou do sofrimento que é numa tourada, da tortura, sim toutura que fazem aos touros na arena para gáudia de muitos? A mim causa-me uma tristeza imensa, imagino aqueles animais apesar de irracionais mas sentem. AI NINGUÉM RECLAMA E SOMOS POUCOS A RECLAMAR E QUANDO RECLAMAMOS LÁ TEMOS A POILICIA ATRÁS DE NÓS. CHAMO AS ESTAS PESSOAS POBRES DE ESPÍRITO.
    Um bem haja Carlos pelos seus textos
    maria helena almeida

  • 18
    Ana
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    8 de Maio de 2008 - 15:08 | Link permamente

    Também vim aqui parar por causa desse mail e por ter o hábito de verificar a verecidade dos factos… e de facto ioi optimo ter encontrado este blog!

    Ainda bem que o bicho não morreu… e se tivesse morrido? Se fosse no meio da nossa rua ninguém lhe ligava nehuma…

  • 19
    com Firefox 3.0.5 Firefox 3.0.5 em Windows Vista Windows Vista
    22 de Dezembro de 2008 - 14:42 | Link permamente

    já agora, e passando a pub à minha página, era de ler o texto

    http://www.teamkali.com/latest/somos-o-que-lemos-ou-pelo-menos-acreditamos-em-tudo-o-que-est-n.html

    isto porque nem todos os amigos dos animais são do clube disney :-)

    • 20
      com GranParadiso 3.0.6pre GranParadiso 3.0.6pre em Windows XP Windows XP
      22 de Dezembro de 2008 - 15:03 | Link permamente

      Rodolfo, com certeza que não. Eu tenho um cão, adoro animais (excepto melgas e mosquitos :P ) e também não me considero um membro do clube Disney.

  • Dizer NÃO à taxa