→ 11/04/2008 @19:42

O espancamento de Victoria Lindsay

Às oito e meia da noite de 30 de Março, em Lakeland, pequena cidade localizada no centro da Florida, uma cheerleader de 16 anos (Victoria Lindsay) foi espancada por seis outras cheerleaders com idades entre os 14 e os 17 (da esquerda para a direita, de cima para baixo: April Cooper, Britney Mayes, Cara Murphy, Brittini Hardcastle, Kayla Hassell e Mercades Nichols) enquanto dois rapazes (Zachary Ashley e Stephen Schumaker) montavam guarda à porta de casa.

Os murros, pontapés e agressões verbais duraram meia-hora, embora apenas uma sequência de três minutos tenha aparecido no YouTube (entretanto removida pelos responsáveis do site). O massacre foi organizado por turnos: ora espancas tu, ora espanco eu. A rapariga acabou por desmaiar quando bateu com a cabeça na parede devido aos murros e empurrões que levou, mas recuperou os sentidos e as agressões recomeçaram, sem dó nem piedade.

Finalmente, meteram-na num carro. Ao abandoná-la numa intersecção da estrada a poucos quilómetros dali, prometeram-lhe «mais um enxerto de porrada» caso contasse o que se passou à polícia. Victoria Lindsay foi parar ao hospital e quebrou esta omertà entre cheerleaders, entregando um bilhete à mãe no qual escreveu os nomes dos envolvidos. Estava tão maltratada que não conseguia falar. Ficou com numerosas marcas no corpo, sérios problemas de audição e sofreu uma contusão cerebral.

O xerife encarregue do caso, Grady Judd, apareceu aos jornalistas da NBC com uma expressão perturbada e afirmou que «aquilo» tinha sido «um ataque animalesco» e «a vítima fora atraída àquela casa com o propósito de filmar o espancamento e colocar o vídeo na Internet».

Percebe-se a intenção de classificar o acto como «animalesco», mas o espancamento é um acto profundamente humano: numa luta entre rivais da mesma espécie, nenhum animal mantém a agressão se o adversário se der por vencido. Um lobo chega a oferecer ao adversário o seu ponto mais vulnerável – a garganta – para transmitir a «mensagem» de que perdeu a luta, paradoxalmente impedindo o vencedor de prosseguir os seus ataques.

A adolescente nunca tentou sequer defender-se: se as raparigas se portassem como animais, como afirmou o xerife Grady Judd, teriam cessado imediatamente as agressões.

Filmar actos de violência com o propósito de os divulgar é prática tão antiga como filmar actos sexuais e, tal como estes, um sucesso garantido. Basta recordar o que aconteceu em Portugal, quando no primeiro reality show Big Brother um dos participantes agrediu outro – o famoso «pontapé do Marco». O mesmo Marco já fora protagonista de outro grande «momento de televisão», uma cena de sexo com outra concorrente.

Segundo contam os artigos publicados na altura, «todo o país parou para ver» a cena de porrada na «casa mais vigiada do mundo». Um site chamado Nostalgia apresenta hoje o pontapé como um dos momentos mais marcantes da TVI.

Nesse «marcante» momento, verificou-se também um facto óbvio: um homem agrediu com um pontapé à karateca uma mulher fisicamente indefesa. Mas a condenação moral deste acto foi incorporada no próprio mecanismo do concurso: seguiram-se cenas telenovelescas de arrependimento, lágrimas e, por fim, a expulsão do concorrente. No entanto, esta cena é recordada como aquela que «lançou o Marco e a Sónia para o estrelato». Neste contexto a decência é um valor ultrapassado, arcaico, é a avó chata do entretenimento.

Se o xerife ficou chocado com a intenção das raparigas, devia consultar o número de visionamentos que o infame pontapé do Marco já teve no YouTube: mais de 85 mil.

Se o mesmo xerife perder mais uns minutinhos a pesquisar o site com as palavras adequadas – «girls fight» ou simplesmente «fight» – encontrará centenas de vídeos onde adolescentes filmam outros adolescentes à porrada. Tudo aquilo é um gozo enorme tanto para quem filma como para a maioria dos que assistem, ao vivo ou sentados diante dos monitores. Às vezes essas lutas são combinadas, já a pensar na futura transmissão do evento; outras surgem de forma espontânea.

O YouTube tem um sistema de avaliação («rating») para os vídeos. Os de porrada são geralmente bem avaliados. Quando recebem uma fraca pontuação, é porque «os tipos são uma porcaria, lutam como meninas». Se as meninas «lutam como meninas», puxando os cabelos umas às outras, é o grau de comicidade da luta que é avaliado. Mas até elas estão a «evoluir», como se vê.

A diferença entre os vídeos de pancadaria que surgem uns atrás dos outros no YouTube e a do vídeo do espancamento de Victoria Lindsay é o desequilíbrio entre os adversários em contenda. Este desequilíbrio abala os próprios códigos morais de quem se delicia a ver porrada pois, afinal de contas, aquilo não foi um one-on-one, uma luta justa, foi uma batalha de seis contra um.

Tantas vezes se falou na «banalização da violência» que a expressão corre o risco de ser vista como um cliché de intelectuais, mas não são apenas os filmes americanos ou a miséria nos telejornais que nos deixam anestesiados: esta variação grotesca do «jornalismo de cidadão», com as suas reportagens «sujas» e mais «realistas», está a tomar-lhes o lugar nas «preferências dos espectadores».

Poder-se-ão escrever tratados psicológicos e sociais sobre o que está a acontecer aos jovens. Poder-se-ão culpar pais, professores, autoridades, a Tecnologia, o Diabo, o que se quiser, mas dificilmente se poderá explicar esta violência sem ter em conta que tudo é possível de ser transformado em entretenimento, logo, não necessariamente sujeito às considerações morais do nosso dia-a-dia.

A fúria das outras seis teve origem numa série de discussões no MySpace. Lindsay escreveu várias mensagens insultando algumas das raparigas – um fenómeno tão vulgar na Web que até já recebeu um nome: «cyberbullying».

Terá portanto exagerado nos insultos que escreveu. Embora a sua página do MySpace esteja indisponível há vários dias, muitas pessoas em fóruns de discussão recordam as constantes provocações às futuras agressoras e frases como «Dou-te uma carga de porrada se for preciso». Toda aquela violência terá sido uma forma de a colocar «no seu devido lugar», humilhando a arrogante.

Para tornar esta história ainda mais trivial, Lindsay tinha também muitos problemas fora do pequeno mundo que construiu à volta do computador: uma violenta discussão com a mãe levou-a a sair de casa. Nem a mãe nem o padrasto conseguiram impedir que a menor saísse. Estava a viver temporariamente em casa da avó de uma das agressoras, Mercades Nichols, que também planeou vingar-se do «cyberbullying» e colaborou na «armadilha».

Na base da agressividade verbal de Lindsay estava a suspeita de que o namorado a traía com uma das outras seis, com a cumplicidade silenciosa das outras. Uma trama digna de uns Morangos com Açúcar. Aliás, em Portugal podemos assistir a confrontos com novelas semelhantes: basta ver o vídeo da «lendária» e ciumenta Pita Marília, estrela do YouTube, que se trava de razões com uma rival por causa do namorado.

Este caso obviamente foi um acto criminoso. O problema é que essas considerações não fazem sentido quando as cabeças dos putos estão dominadas apenas pela necessidade de entretenimento e sem nenhum sentido de responsabilidade. Sabem o que uma das agressoras perguntou aos polícias que a detiveram? O seguinte: «Então isso quer dizer que amanhã vou ter de faltar ao treino das cheerleaders?»

14 comentários

  • 1
    Antonio
    com Firefox 2.0.0.13 Firefox 2.0.0.13 em Ubuntu 7.10 Ubuntu 7.10
    11 de Abril de 2008 - 20:13 | Link permamente

    Excelente. Infelizmente nem nos meios de comunicação, ditos de “referência”, conseguimos ser tão bem elucidados.

  • 2
    a. almeida
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    11 de Abril de 2008 - 21:13 | Link permamente

    Está tudo dito. O texto é longo mas tinha que ser. Nú e crú.
    Já não há muito a fazer. Isto está mesmo podre, por isso as borbulhas e os tumores porulentos rebentam agora minuto a minuto.
    A miúda vai ter que faltar ao ensaio, e isso é que a chateia. Por cá os criminosos apresentam-se de manhã na esquadra para dar cumprimento ao termo de identidade e residência e reservam a tarde e a noite para continuarem naquilo que sabem e gostam de fazer.
    Continuo a dizer que esta é a sociedade que nós modelamos, porque os valores cívicos e morais, sejam eles quais forem, há muito que foram para o cara….
    Agora há que aguentar.

  • 3
    a. almeida
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    11 de Abril de 2008 - 21:14 | Link permamente

    Opps…queria dizer purulentos.

  • 4
    Vítor Araújo
    com Firefox 2.0.0.13 Firefox 2.0.0.13 em Windows XP Windows XP
    11 de Abril de 2008 - 21:49 | Link permamente

    Basta olhar para a popularidade que o wrestling tem vindo a ganhar nos últimos anos para ver que a violência e principalmente o seu visionamento estão demasiado integrados nesta sociedade.
    Quanto ao tal pontapé, as situações são diferentes. Não estou, nem quero estar a defender ninguém, mas uma coisa é uma agressão no calor do momento e que ficou por ali (além de que nem foi nada de muito grave, se ele quisesse tinha-lhe dado uma bem dada) e outra coisa é a violência prolongada e bem planeada, com dois marmanjos a vigiar e tudo.

    Algo está muito mal, quando jovens tão novos agem assim (já pareço um velho a falar, mas é bem verdade)

  • 5
    com BonEcho 2.0.0.15pre BonEcho 2.0.0.15pre em Windows XP Windows XP
    11 de Abril de 2008 - 22:42 | Link permamente

    Caro Vítor, como é óbvio não estou a fazer nenhuma comparação directa entre um caso e outro.

  • 6
    António
    com Firefox 2.0.0.13 Firefox 2.0.0.13 em Windows XP Windows XP
    11 de Abril de 2008 - 23:08 | Link permamente

    Sou da colheita de 46, fiz as minhas asneirolas, mas nenhumas comparáveis às mais “inocentes” dos actuais jovens. Vivo junto a uma EB 2+3 e das traseiras da minha casa assisto a cenas inacreditáveis. Uma delas foi registada pela minha máquina fotográfica, 25 fotos que entreguei na secretaria da escola. Desde urinar e defecar junto ao pavilhão desportivo, até passar “erva” e sexo ao vivo, tenho visto de tudo um pouco. Ah, não há bairros sociais/problemáticos numa área de 6/7 quilómetros! E que dizer dos papás que vão esperar os filhos de automóvel e os chamam, bem alto, “ó f… da p…, entra depressa ou dou-te cabo dos cornos”? São estes os monstros que estão a ser criados. Enfim, o futuro é risonho!

  • 7
    Alexandre
    com Firefox 2.0.0.13 Firefox 2.0.0.13 em Windows XP Windows XP
    11 de Abril de 2008 - 23:23 | Link permamente

    Bom post. Vivemos tempos em que a violência (nem sempre física) está a banalizar-se. E porquê? Cada vez mais a Internet faz parte da vida das pessoas; cada vez mais facilmente encontramos violência na internet. Exposição contínua: banalização – aceitação.

    A vida lenta, pacata e, em muitas situações, mais nobre, de “antigamente” tinha essa vantagem: as pessoas propensas a serem estúpidas e a terem comportamentos descontrolados não espalhavam a sua influência a tanta gente nem tão rápido. No fundo, a “doença” estupidez encontrou um novo meio para se difundir em massa e rapidamente.

    P.S.: É “cyberbullying” e não “cyberbulling”.

  • 8
    com BonEcho 2.0.0.15pre BonEcho 2.0.0.15pre em Windows XP Windows XP
    11 de Abril de 2008 - 23:26 | Link permamente

    Oops. Claro que é cyberbullying. Obrigado pela correcção, Alexandre :smile:

    E concordo completamente com o teu comentário.

  • 9
    com Firefox 2.0.0.13 Firefox 2.0.0.13 em Windows XP Windows XP
    12 de Abril de 2008 - 00:14 | Link permamente

    Mas e não há ninguém que veja, avalie e corrija e trave estes comportamentos? Pais, tutores, ninguém?
    Que raio de valores é transmitido a estes jovens?
    Tudo isto não pode nem deve ser “justificado” com: é fruto dos tempos que correm! Tem que haver um modo de emendar um mau comportamento. Que seja correcto mas que também seja firme. Eu acho!

  • 10
    com Firefox 2.0.0.13 Firefox 2.0.0.13 em Windows XP Windows XP
    12 de Abril de 2008 - 00:16 | Link permamente

    Ah, e que não venha por aí um qualquer “pensador” afirmar que a culpa é da Internet. Admirar-se-iam?

  • 11
    Doomsday
    com Firefox 2.0.0.13 Firefox 2.0.0.13 em Windows Vista Windows Vista
    12 de Abril de 2008 - 20:18 | Link permamente

    Discordo totalmente na referência a um animal nobre como o lobo. É que o lobo caça quando tem necessidade. Exerce um comportamento para defender o seu território, para ganhar a confiança da fémea, para ser o macho dominante. A questão é se devemos chamar o ser humano de animal. Penso que devemos auto classificar-nos como o dejecto de todas as espécies. Sermos considerados animais é uma ofensa à mais comum das minhocas. E estas notícias só confirmam o que somos: uma espécie de espécie claramente em vias de extinção. Vejam o 12 Macacos…

  • 12
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    12 de Abril de 2008 - 22:24 | Link permamente

    Save the cheerleader, save the world!

  • 13
    mf«
    com Internet Explorer 6.0 Internet Explorer 6.0 em Windows Millennium Edition (Windows Me) Windows Millennium Edition (Windows Me)
    14 de Abril de 2008 - 23:33 | Link permamente

    Não são estes os filhos das novas pedagogias em que é quase proibido dar uma chapada à coitadinha e indefesa criança , independentemente do comportamento desses adoráveis seres poder ser do piorio? Creio até que nos USA são fundamentalistas nestas questões , não é? Um paradoxo que devia ser muitissimo bem investigado. Nada de correctivos parentais parece estar a ter consequências assaz estranhas.

  • 14
    Lala
    com Firefox 2.0.0.14 Firefox 2.0.0.14 em Windows XP Windows XP
    20 de Abril de 2008 - 01:05 | Link permamente

    :arrow: :arrow: :arrow: Essas meninas são doidas,e os meninos tapados! :shock:

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