Por cada blogue que acompanha a luta pré-eleitoral nos Estados Unidos aparece sempre alguém que vem criticar o ênfase dado ao tema. Essa malta acha que ao ficarmos interessados por determinado assunto corremos o risco de anular qualquer possibilidade de nos interessarmos por outro. Parece que só nos podemos interessar por um assunto de cada vez; se coexistirem três ou quatro, estes devem estar sujeitos a uma rÃgida hierarquia que obedece a critérios de proximidade.
Vá lá que neste assunto das primárias americanas estamos mais ou menos safos: não corremos o risco de atraiçoar critérios de proximidade porque o destino do nosso planeta depende em grande parte das pessoas que ocuparem a Casa Branca.
Portanto é natural que tenhamos interesse em saber se o futuro Presidente da maior potência militar do mundo será democrata ou republicano, liberal ou conservador, culto ou ignorante, tolerante ou violento, se é gajo para discutir segredos de Estado enquanto a secretária lhe faz um broche na Sala Oval, se é tipo para bombardear o Irão por ser um eixo do Mal e o aiatolá o Darth Vader ou, finalmente, se é rapaz (ou rapariga, desculpem) para deixar poluir a terra, a atmosfera e os oceanos por razões exclusivamente económicas.
Adorável, adorável, adorável
Dito isto, posso agora garantir-vos que o actual menino querido dos democratas, Barack Obama, não pega. Talvez seja pela extraordinária capacidade que o homem tem de nos convencer de que é mesmo aquilo que parece. Não há nada que eu queira ouvir que o tipo não diga. Caramba, às vezes só depois de o ouvir é que eu fico a saber que eram precisamente aquelas frases e aquelas palavras que eu queria ouvir.
Deixem-me explicar melhor: Barack Obama tem uma pose de pregador benevolente e idealista mais reconfortante do que o falcão amestrado que ocupa a Casa Branca actualmente, mas há ali uma óbvia fabricação que provoca ressonâncias no meu cérebro e me leva a interpretá-lo com desconfiança.
O Obama é um DJ que actua sempre com dois gira-discos no palanque: de um lado, um 45 rotações com o famoso sermão de Martin Luther King, I Have a Dream (vÃdeo); do outro, um disco com o histórico discurso de John F. Kennedy quando se encostou ao muro de Berlim para proclamar um comovente e inesquecÃvel Ich Bin Ein Berliner (vÃdeo). Samples empolgantes de Kennedy recriados com a voz arrebatadora de Luther King.
Às vezes o computador falha: no discurso que proferiu na consequência dos resultados da chamada Super Tuesday, saiu-se com um «Ordinary people can do ordina… Extraordinary things.» Chamem-me cÃnico, se quiserem, mas não há nada pior para um polÃtico americano deste calibre do que tropeçar quando acabou de calçar os seus sapatinhos Kennedy.
Obama é um homem de plástico embrulhado em papel de celofane. E é tão preto como eu. Dado que as suas fontes de inspiração são Kennedy e Luther King, não tenho dúvidas de que é um produto da maior qualidade e que o plástico é obviamente reciclável – mas será ele de facto o corajoso homem de convicções que a Humanidade precisa?































23 comentários
mas quem é o homem com convicções sérias que consegue chegar ao topo da polÃtica em qualquer paÃs do mundo?
Bom questionamento, Marco. A eleição do dirigente da maior nação do planeta interessa sim, ao mundo. Não temos mais a “guerra fria”, quando o angelical Kennedy mandou invadir Cuba ou quando o demonÃaco Nixon abriu conversações com China e URSS.
Por alÃ,nos USA, não temos anjos ou demônios como presidentes. Temos momentos da nação americana. E, o momento, é que eles próprios estão pagando um alto preço pelas alterações climáticas.
Se estiverem dispostos a suportar o preço disso por mais um mandato, seja qual for o presidente, a polÃtica externa pouco modificará: expansionismo sobre fontes vitais graças ao eufemÃstico “combate ao terror”, providencialmente fornecido por Osama Bin Laden.
Acho mesmo, que só conseguiremos vislumbrar alguma nuance de comportamento quando dos debates entre os candidatos à eleição que elegerá o presidente.
De qualquer forma, como eles estão metidos numa enrascada econômica (e que podem arrastar o mundo consigo…) eu acredito que essa será a prioridade. E dane-se o mundo.
E também, não sei onde os americanos vêm “preto” no Obama. Isso ai, no Brasil, não tem nada de preto.
Excelente texto, Marco!
E o broche, ao cair-nos no colo, salvo seja, de forma tão inesperada, deixa-nos completamente desarmados.
Concordo que Obama não parece ter estofo para a função mas… quem terá?
Estive lá terra do tio Sam, o ano passado, e tive oportunidade de discutir a questão com um nativo que respeito e admiro. E dizia-me ele que, além de Bill Clinton, não via, nesta altura, um único americano com qualidades para tal.
Todos farinha do mesmo saco. Venha o diabo e escolha
Provavelmente não é nenhum salvador do mundo. Em comparação com os adversários? Certamente melhor que o Républicano. Em relação à Hillary, bem acho que lhe faz falta o carisma do Obama. Tem concerteza mais ideias de como resolver os problemas dos EUA mas para levar a cabo essas ideias é necessário ser capaz de mostrar espÃrito de liderança. Aqui entre nós que ninguém nos houve . A única hipótese dos Republicanos ganharam é contra a Hillary….
Ui que séria que vai por aqui a discussão. Ora bem, poucas duvidas restam sobre se desta feita serão os republicanos ou os democratas a ganhar a presidência. Acho que o próximo republicano a ocupar a sala oval será o Arnold mas até lá ainda deve haver uma ou outra alteração à Constituição… Por enquanto, é quase certa a posse da cadeira pelos democratas. Ora, que democrata é a pergunta que se levanta. Será que a mui poderosa América vai sofrer do sÃndroma Republica Portuguesa ou seja, serão os dois maus e o povo irá votar no menos mau?
Um artigo bastante interessante sobre um assunto actual e premente nos EUA: Health Insurance (Seguro de Saúde).
Aqui.
Prefiro a Hillary.
Pessoalmente não acho que nenhum democrata tenha habilidade para ser o novo presidente americano, quer o Obama que a Hillary, especialmente esta ultima, é quase “uma Hitler simpática e calculista”. Mas os republicanos também não andam famosos, ora o unico candidato que seria capaz de votar nele se fosse americano era o Rudy Giuliani, como saiu da corrida, é para esquecer. Só para dizer que era o unico candidato a ter um recorde no livro do Guinness, nomeadamente «Maior queda da criminalidade» como presidente da camara de Nova Iorque, os homicidios diminuiram 67%, violações cairam 50%, e os assaltos 67,5%. De todos eles parece o unico que fez qualquer coisa de util.
O problema é que os polÃticos são tão ordinários que dificilmente deixam transparecer algo de extraordinário.
Concordo no geral com a análise do Marco quanto ao homem Obama e ao seu discurso. Depois parece-me demasiado inverbe para poder vir a ocupar tão importante cargo. Sim, porque por ali para além da presidência da América aspira-se a governar o mundo.
Mas, pronto, vamos a ver como termina mais esta produção hollywodesca. Para já o “filme” vai percorrendo a América.
Uau, só de pensar que ainda à pouco tempo li neste blog um post sobre trolls. Em primeiro lugar deixa-me explicar melhor: Barak Obama está mal escrito, o correcto é Barack Obama…
Depois encontro aqui alguem que sugere apoiar o Rudy Giuliani. Esse tipo é um fascista da pior espécie. Ele é pró-guerra, e anti-liberdade para o bem da segurança nacional face ao terrorismo. Ele não percebe nada de foreign policy, enfim, seria um desastre total se fosse eleito. Ser presidente da câmara não é nada comparável a presidente da nação. Já para não falar das ligação a lobbies pela sua empresa de segurança.
Obviamente não estão informados sobre a campanha do Barack Obama, sugiro apenas que se informem em http://www.barackobama.com/ . Os discursos dele são fonte de inspiração para esta geração que apesar de já ter idade para votar nunca teve esperanças no sistema eleitoral que, para a maioria dos cidadãos até agora, era determinado pelos media e interesses corporativos (btw, desde quando é que imitar Kennedy e Luther King se tornou algo tão desprezável?).
E obviamente tambem não percebem nada da plataforma republicana. De novo, sugiro apenas que se informem sobre o único republicano na corrida que reflecte as origens e ideais do partido que se encontram hoje deturpadas pelos neoconservadores (e algo totalmente diferente, mas igualmente péssimo, no caso do McCain) Ron Paul, em http://www.ronpaul2008.com/ .
Se não sabem do que estão a falar por que é que não ficam calados ? C’um catano.
Daniel: obrigado pela correcção. Há muitos sites noticiosos a escrever Barak, mas de facto a forma correcta é Barack.
Quanto ao que escreveste, não estou a desprezá-lo. Só não me deixo é levar por falinhas mansas.
Obrigado, Daniel, pela tua assertividade. Por nos teres “explicado melhor” como se escreve Barack e pelas dicas para combatermos a nossa ignorância nesta matéria. Já agora, deixa-me retribuir a tua gentileza e explicar-te também que o vocábulo “à ” que escreveste em “…à pouco tempo …” é uma forma do verbo haver e escreve-se há, com H.
O tua mensagem, para mim, não é muito clara, ainda serei mais ignorante do que dizes e deveria, se calhar, seguir o teu conselho e ficar calado mais uma vez. Percebi muito bem a caracterização que fazes de Giuliani e das pessoas que comentaram este post mas algumas coisas que dizes deixam-me um bocado baralhado. Fico sem saber se achas que Obama é o melhor por causa dos discursos. Se for apenas esse o seu mérito, deveria ser substituÃdo pela pessoa que lhos escreve. E sim, na minha humilde opinião, imitar Kennedy, Luther King ou seja quem for, é algo desprezável. Podemos admirar e identificarmo-nos com os ideais de alguém mas imitar… não chegará a ser desprezÃvel mas desprezável é.
Daniel,
pormenor eu não sugeri apoiar ninguém só dei a minha “modesta” opinião,visto que ele está fora da corrida já nem valia a pena sugerir, coisa que não fiz.
A meu ver a questão até não é essa, pois primeiro, vê-se que não sabes o que é o fascismo, as caracterÃsticas de um estado fascista são:
- Corporativismo
- Totalitarismo
- Nacionalismo
- Idealismo
- Anti-Intelectualismo
- Militarismo
Ora, vamos lá ver, apoia o militarismo, sim, pela segurança nacional, que admito que esta desculpa da segurança nacional, já não representa grande realidade, pois a Al-Qaeda, está em maus lençóis, mas sabemos que para os americanos o que não faltam são inimigos, género Irão. Anti-liberal, por acaso não faz parte de um regime fascista, é verdade, isso é mais do género Monárquico, agora por favor, não me venhas dizer, que um presidente americano, seja ele qual for, consegue impor um verdadeiro anti-liberalismo.
Mas que falta de respeito ao bom e velho português vem a ser esta? Faz o favor de dizer “Politica Estrangeira”, eu sei que não é o termo exacto, mas a ideia não é muito diferente.
Exagero, é tudo o que tenho a dizer, raio, o Bush é bem pior e não arrebentou com o mundo.
Nisso tens toda a razão, mas não será ele que ocupou o cargo mais importante de entre todos os candidatos? (Estou mesmo a perguntar, pois não faço a menor ideia…) Parecendo que não Presidente da Câmara da Cidade mais rica e importante do mundo, é algo a considerar.
Então tu preocupado com os lobbies, deixa-me que eu te diga, todos os presidentes americanos tiveram lobbies, os candidatos que dizem que não vão ser “influenciados” pelos lobbies das duas uma, não sabem o que dizem (Barack Obama) ou estão claramente a mentir (Hillary Clinton).
Essa passou me aqui ao lado com uma força… Vá lá não me faças ignorante no que toca a politica, posso não andar muito informado como tu ao ponto de lhes apanhar as manias “foreign policy”, mas ainda sei ver o que apoiam cada um, pois digo-te que quem apoia mais ideais fascistas é a senhora Clinton, e ainda se diz democrata, também, a liberdade americana é uma trampa, porque raio só existem dois partidos e nenhum é comunista? E não me venham falar dos Democratas se aquilo é esquerda eu devo ter os braços trocados. O Barack, hum… ainda tem muito que aprender, não está apto.
GOBAMA GO!
trolls!?
Onde?
Ai que coisa tão desprezÃvel!
(ou será desprezável?)
Tens cá um analista polÃtico versado nas eleições dos E.U.A. de truz.
Bem, além de analista ainda é corrector…
Bem, como eu não percebo nada da polÃtica daqueles Estados, que se dizem Unidos, para mim são todos iguais e nem sequer me atrevo a dizer em que consiste essa igualdade…
Gostei deste teu post.
Fiquei muito mais elucidado.
Também gostei daquela do DJ.
@braço.
O legado do Bush é preciso ser deixado a alguém e os Clinton sempre foram amigos da familia, não se admirem que a Hilary ganhar, não será por ser mulher…
Marco,
É absolutamente óbvio que a referência a Martin Luther King e ao JFK é propositada. O motivo é simples de perceber, mas requer ter vivido nos EUA e conhecer melhor os americanos (e eu tive essa oportunidade). Os Americanos gostam de individualidades que os inspiram. Gostam destes discursos que podem tanto ser ôcos como não. Em suma, ligam muito à fachada. Como tal, Obama, consciente que está em desvantagem por ser preto (os conservadores são claramente xenófobos, e estes ainda têm muita influência na polÃtica americana) ele tinha de recorrer a algum truque. Se MLK teve sucesso, porque não repetir a dose?
Agora, a questão que realmente se coloca é, se não for Obama, quem será? Hillary é uma incógnita para mim. Apoiou a invasão do Iraque, agora critica. Como Senadora, votou sim para mais financiamento do Iraque e ainda diz que a invasão foi motivada pelo facto dos Iraquianos terem “bad things”. Afinal, em que lado da barricada está?
Do lado dos republicanos, nem me atrevo a falar. São o grupo neoconversador, fanático religioso e warmonger dos EUA. O equivalente ao PNR cá do tasco. O problema, grave, é que conseguem 50% dos votos e o PNR consegue 0.002%.
E se o discurso de Obama for mais do que fachada — e, sinceramente, a mim parece-me mais do que fachada — não será de todo um mau Presidente. E o mundo depende disso.
P.S. – Quanto ao Giuliani, já muito foi dito, mas mais poderá ser. Basta ler notÃcias sobre ele. Ele é uma vergonha a todos os nÃveis. Corrupto, warmonger, neoconservador, etc..
And i say it again…Gobama,Go!
E olha que,se o grande Frank fosse vivo…Ilianois enema bandit. Marco…dont be afraid.Aproveita.The change don`t come from the top down,just grow from the bottom up.
Marco, quando ouço a Scarlet Johansson cantar “yes we can, heal this nation” eu acredito. link
Vejamos se não sou moderado outra vez…
Entre republicanos e democratas, escolho democratas, claro.
Entre a mulher de um ex-presidente e um negro, prefiro o negro.
Lembro também, embora não esteja tão informado como alguns, que Barack Obama não é só discursos. Ele esteve associado a causas louváveis, como o apoio aos mais desprotegidos, e, embora embarque em alguma retórica suspeita, não tenho dúvida que é o melhor de todos os candidatos para assumir os destinos de um paÃs que está em plena recessão económica, no meio de uma guerra que se prevê longa e com um crescente sentimento de hostilidade a crescer em todo o mundo.
Se este negro fosse eleito seria uma bela maneira de os E.U.A. mostrarem finalmente a todo o mundo que os tempos de imperialismo passaram, que a desonestidade deixou de ser a polÃtica de fundo, que a mesquinhez dos seus negócios trapaceiros é coisa do passado.
Creio que o paÃs melhoraria. Só que não podemos desprezar as forças contrárias que não só podem fazer com que ele não ganhe, como podem fazer com que ele, depois de ganhar, seja entalado do mesmo modo que o Clinton. Não digo que ele se deixe seduzir por secretárias menos escrupulosas pagas a peso de ouro por republicanos ávidos, mas que de alguma maneira terá de lutar com um paÃs de ignorância republicana.
Para onde quer que olhe, não vejo melhor alternativa.
Eu, sinceramente, depois de ler este post fiquei com dúvidas acerca daquilo que eu pensava sobre os candidatos, principalmente sobre Obama, que, na minha opinião, me parecia ser aquele mais correcto para presidente dos EUA.
Mas, depois de ler isto, fico a pensar, se calhar fui na “cantiga” dele e assumi que, apenas ele ou a senhora Clinton seriam os candidatos mais credÃveis (se é que, na polÃtica se pode falar de credÃvel).
Não faço a mÃnima ideia sobre qual deles será o ideal para mandar no paÃs.
E para todos, o ideal seria alguém que deixasse de se fazer senhor e Dono do Mundo, como o senhor Bush. Mas isto nos EUA é complicado, sei lá, se a Clinton ganhar ou o Obama (porque certamente um deles irá ganhar), vai preocupar-se menos com as idas ao petróleo e coisas que o senhor Bush já nos habituou, infelizmente.
Abraço.. bom post.. e que me deixou a pensar..
Um gajo é preso por ter cão, e preso por não ter
Eu cá não vou na cantiga do open-source, por exemplo; é precisamente aquilo que eu pretendo ouvir. Bom demais, enfim.