Algumas lufadas de ar fresco têm surgido no jazz de produção nacional e uma delas é-nos proporcionada por Júlio Resende. À terceira aparição discográfica, o jovem músico algarvio troca o formato de quarteto pelas lógicas inerentes ao trio de piano.
«You Taste Like a Song» (Clean Feed), o novo título do pianista e compositor, introduz uma inflexão de rumo na fórmula que antes propusera em «Da Alma» e «Assim Falava Jazzatustra»: «Esta é, com certeza, uma nova etapa. Com uma herança vasta na história do jazz, o piano-trio exige uma abordagem diferente, pois os temas são pensados para serem tocados pelo piano, em vez de pelo saxofone. Este tem um som cortante, que não se incomoda tanto com o volume da bateria…»
Já o piano «precisa de ter mais espaço sonoro para se fazer ouvir».
Assim, o próprio conceito passa por encontrar esse espaço… «Também interfiro com o lirismo pianístico e dou-lhe um lado mais “bruto”, mais “agreste”, quando sinto que tal é necessário.»
Como confessa Júlio, «este é um formato que muito exige do pianista – dá-lhe mais tempo para explorar as ideias, mas para isso é preciso que haja ideias».
«Também é um desafio maior para o contrabaixista, que não só conquista mais terreno para agir como é chamado mais vezes a solar.» Essa responsabilidade foi dada a Ole Morten Vagan.
Às vezes não se percebe o quão difícil é escrever uma boa canção, e nesse particular devo muito a Chico Buarque, Radiohead, Pink Floyd, Jorge Palma e Pedro Esteves
Como o próprio nome deste projeto indica, Júlio Resende adota por inteiro o modelo da canção. A esse nível, não hesita mesmo em pegar em temas pop de configuração especialmente bem conseguida, como de resto tem sido habitual no seu percurso.
No novo álbum, entre originais seus e uma versão de um nobre exemplar do songbook norte-americano continuamente repegado por várias gerações de músicos de jazz, «Straight No Chaser», de Thelonious Monk, a escolha recai sobre «Airbag», dos Radiohead.
«Às vezes não se percebe o quão difícil é escrever uma boa canção, e nesse particular devo muito a Chico Buarque, Radiohead, Pink Floyd, Jorge Palma e Pedro Esteves. Uma boa canção tem de ser muito sólida e altamente inspiradora, e a verdade é que o universo pop-rock tem desde sempre cultivado essa acção.»
É, portanto, uma área musical sobre a qual Júlio se debruça repetidamente. «Airbag” acompanha-me desde os tempos em que frequentava as aulas de piano do Conservatório de Faro e é a primeira faixa de um disco maravilhoso chamado “OK Computer”, que eu literalmente devorei», elucida.
Se, no que respeita à canção, o espólio dos standards do jazz muito tem para oferecer, o facto de Júlio Resende raramente recorrer a essa fonte (o mesmo, para todos os efeitos, aplicando-se em relação ao património da pop), tem um significado com o relevo de um statement.
«É prática corrente no jazz interpretar os standards, mas acho que tocar as minhas próprias composições diz mais sobre mim do que pegar em partituras de terceiros. Tocar os meus temas revela a minha identidade de modo mais agudo e acho que isso dá à minha persona artística um cunho muito mais vincado. Mas é claro que não procuro isolar-me no meu mundo e retiro grande prazer em tocar peças de grandes músicos que muito admiro e muito me ensinaram.»
Sítios bem agradáveis
Tenham sido escritas por si ou pedidas emprestadas a outros, as canções jazz de Júlio Resende têm duas características bem vincadas e imediatamente perceptíveis: são melodicamente sugestivas e estão suportadas num beat irrequieto e intenso.
«Gosto, sem dúvida, de melodias fortes, o que, como já disse, não é fácil de obter. No que respeita ao ritmo, o groove vem das minhas costelas latina e africana. Sempre ouvi música africana e a mãe-África não dá hipóteses. É, de qualquer modo, e sobretudo, na harmonia que torno as coisas mais densas. Gosto da ubiquidade entre simples e complexo, pois nada na vida é de apenas uma cor.»
Na música de Júlio, a simplicidade estrutural da canção mistura-se com a complexidade das improvisações, e é esse jogo que o atrai. «Aprecio os desafios e a espontaneidade e neste álbum decidi mesmo quebrar a ordem de trabalhos para verificar onde podíamos chegar – fizemos uma improvisação sem pré-texto em cada dia das gravações e um registo disso surge no alinhamento do CD. Conseguimos chegar a um sítio bem agradável…»
É este tipo de abordagem que «despenteia» a música de Resende e a torna orgânica, afastando-a das práticas mais conformistas do trio de piano: «Dou um grande espaço aos solos, fazendo com que os músicos intervenientes comuniquem entre si de modo muito atento, em sucessivas perguntas-respostas, com apreço pela liberdade dos outros e respeito pela comunhão que se pode atingir neste ascendente diálogo.»
O que faz do meu jazz um jazz vivo é o facto de estar alinhado comigo, de ser autêntico no sentido de que respira através de mim. Aprendeu tudo o que havia à volta para aprender, mas é da minha cabeça e das minhas mãos que sai
O contrabaixista Morten Vagan tem «a virtude de impulsionar a liberdade performativa sem esquecer a forma». Pelo seu lado, Joel Silva é «um baterista superalerta que, com grande sensibilidade, reforça e incrementa as sugestões dos solistas, para além de ele mesmo ser um óptimo solista».
Em conjunto, «tentamos fazer da música composta por mim algo que não esteja amarrado a uma ideia primordial, deixando a performance decidir o caminho, ou os caminhos, a trilhar».
Procuram abordar cada tema de maneira diferente, e boas surpresas acontecem quando se faz isso. «Abandonar preconceitos é outra tarefa difícil que tentamos colocar em execução.»
Por essa ordem de razões, o trabalho de Júlio Resende vem agradando tanto aos apreciadores do jazz mainstream como aos que preferem as propostas mais progressivas deste idioma musical.
Afirma o músico a propósito que qualquer esforço que faça para se catalogar é «uma perda de energia.
Fernando Pessoa disse-o bem: “Sentir tudo de todas as maneiras / Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo.”
Este é um bom “slogan” para o jazz que se clama como uma música livre e como uma linguagem universal. O melhor mesmo é sermos mais autocríticos e sermos nós a retirar conclusões sobre o que fazemos, em vez de nos deixarmos guiar por catálogos ou por juízos alheios.»
A formação do pianista em Filosofia ajudou-o a colocar tudo em questão, «e inclusive a mim mesmo – acho que essa é uma atitude que nenhum artista devia dispensar».
«O que faz do meu jazz um jazz vivo é o facto de estar alinhado comigo, de ser autêntico no sentido de que respira através de mim. Aprendeu tudo o que havia à volta para aprender, mas é da minha cabeça e das minhas mãos que sai. Ao contrário do que se faz muito actualmente, não segue qualquer receita comercial, nem reproduz os padrões de outros sujeitos artísticos.»
Apenas os seus, com a salvaguarda de que, diz, não é «um eremita»…












