→ 25/07/2011 @15:06

Júlio Resende: sentir tudo de todas as maneiras

Júlio Resende (Foto: não-assinada)

Algumas lu­fa­das de ar fresco têm sur­gido no jazz de pro­du­ção na­ci­o­nal e uma de­las é-nos pro­por­ci­o­nada por Júlio Resende. À ter­ceira apa­ri­ção dis­co­grá­fica, o jo­vem mú­sico al­gar­vio troca o for­mato de quar­teto pe­las ló­gi­cas ine­ren­tes ao trio de piano.

«You Taste Like a Song» (Clean Feed), o novo tí­tulo do pi­a­nista e com­po­si­tor, in­tro­duz uma in­fle­xão de rumo na fór­mula que an­tes pro­pu­sera em «Da Alma» e «Assim Falava Jazzatustra»: «Esta é, com cer­teza, uma nova etapa. Com uma he­rança vasta na his­tó­ria do jazz, o piano-trio exige uma abor­da­gem di­fe­rente, pois os te­mas são pen­sa­dos para se­rem to­ca­dos pelo pi­ano, em vez de pelo sa­xo­fone. Este tem um som cor­tante, que não se in­co­moda tanto com o vo­lume da ba­te­ria»

Já o pi­ano «pre­cisa de ter mais es­paço so­noro para se fa­zer ou­vir».

Assim, o pró­prio con­ceito passa por en­con­trar esse es­paço… «Também in­ter­firo com o li­rismo pi­a­nís­tico e dou-lhe um lado mais “bruto”, mais “agreste”, quando sinto que tal é ne­ces­sá­rio.»

Como con­fessa Júlio, «este é um for­mato que muito exige do pi­a­nista – dá-lhe mais tempo para ex­plo­rar as ideias, mas para isso é pre­ciso que haja ideias».

«Também é um de­sa­fio maior para o con­tra­bai­xista, que não só con­quista mais ter­reno para agir como é cha­mado mais ve­zes a so­lar.» Essa res­pon­sa­bi­li­dade foi dada a Ole Morten Vagan.

 

Às ve­zes não se per­cebe o quão di­fí­cil é es­cre­ver uma boa can­ção, e nesse par­ti­cu­lar devo muito a Chico Buarque, Radiohead, Pink Floyd, Jorge Palma e Pedro Esteves

 

Como o pró­prio nome deste pro­jeto in­dica, Júlio Resende adota por in­teiro o mo­delo da can­ção. A esse ní­vel, não he­sita mesmo em pe­gar em te­mas pop de con­fi­gu­ra­ção es­pe­ci­al­mente bem con­se­guida, como de resto tem sido ha­bi­tual no seu percurso.

No novo ál­bum, en­tre ori­gi­nais seus e uma ver­são de um no­bre exem­plar do song­book norte-americano con­ti­nu­a­mente re­pe­gado por vá­rias ge­ra­ções de mú­si­cos de jazz,  «Straight No Chaser», de Thelonious Monk, a es­co­lha re­cai so­bre «Airbag», dos Radiohead.

«Às ve­zes não se per­cebe o quão di­fí­cil é es­cre­ver uma boa can­ção, e nesse par­ti­cu­lar devo muito a Chico Buarque, Radiohead, Pink Floyd, Jorge Palma e Pedro Esteves. Uma boa can­ção tem de ser muito só­lida e al­ta­mente ins­pi­ra­dora, e a ver­dade é que o uni­verso pop-rock tem desde sem­pre cul­ti­vado essa ac­ção.»

É, por­tanto, uma área mu­si­cal so­bre a qual Júlio se de­bruça re­pe­ti­da­mente. «Airbag” acompanha-me desde os tem­pos em que fre­quen­tava as au­las de pi­ano do Conservatório de Faro e é a pri­meira faixa de um disco ma­ra­vi­lhoso cha­mado “OK Computer”, que eu li­te­ral­mente de­vo­rei», elu­cida.

Se, no que res­peita à can­ção, o es­pó­lio dos stan­dards do jazz muito tem para ofe­re­cer, o facto de Júlio Resende ra­ra­mente re­cor­rer a essa fonte (o mesmo, para to­dos os efei­tos, aplicando-se em re­la­ção ao pa­tri­mó­nio da pop), tem um sig­ni­fi­cado com o re­levo de um sta­te­ment.

«É prá­tica cor­rente no jazz in­ter­pre­tar os stan­dards, mas acho que to­car as mi­nhas pró­prias com­po­si­ções diz mais so­bre mim do que pe­gar em par­ti­tu­ras de ter­cei­ros. Tocar os meus te­mas re­vela a mi­nha iden­ti­dade de modo mais agudo e acho que isso dá à mi­nha per­sona ar­tís­tica um cu­nho muito mais vin­cado. Mas é claro que não pro­curo isolar-me no meu mundo e re­tiro grande pra­zer em to­car pe­ças de gran­des mú­si­cos que muito ad­miro e muito me ensinaram.»

 

Sítios bem agradáveis

Foto: Hélio Gomes

Tenham sido es­cri­tas por si ou pe­di­das em­pres­ta­das a ou­tros, as can­ções jazz de Júlio Resende têm duas ca­rac­te­rís­ti­cas bem vin­ca­das e ime­di­a­ta­mente per­cep­tí­veis: são me­lo­di­ca­mente su­ges­ti­vas e es­tão su­por­ta­das num beat ir­re­qui­eto e intenso.

«Gosto, sem dú­vida, de me­lo­dias for­tes, o que, como já disse, não é fá­cil de ob­ter. No que res­peita ao ritmo, o gro­ove vem das mi­nhas cos­te­las la­tina e afri­cana. Sempre ouvi mú­sica afri­cana e a mãe-África não dá hi­pó­te­ses. É, de qual­quer modo, e so­bre­tudo, na har­mo­nia que torno as coi­sas mais den­sas. Gosto da ubi­qui­dade en­tre sim­ples e com­plexo, pois nada na vida é de ape­nas uma cor.»

Na mú­sica de Júlio, a sim­pli­ci­dade es­tru­tu­ral da can­ção mistura-se com a com­ple­xi­dade das im­pro­vi­sa­ções, e é esse jogo que o atrai. «Aprecio os de­sa­fios e a es­pon­ta­nei­dade e neste ál­bum de­cidi mesmo que­brar a or­dem de tra­ba­lhos para ve­ri­fi­car onde po­día­mos che­gar – fi­ze­mos uma im­pro­vi­sa­ção sem pré-texto em cada dia das gra­va­ções e um re­gisto disso surge no ali­nha­mento do CD. Conseguimos che­gar a um sí­tio bem agra­dá­vel…»

É este tipo de abor­da­gem que «des­pen­teia» a mú­sica de Resende e a torna or­gâ­nica, afastando-a das prá­ti­cas mais con­for­mis­tas do trio de pi­ano: «Dou um grande es­paço aos so­los, fa­zendo com que os mú­si­cos in­ter­ve­ni­en­tes co­mu­ni­quem en­tre si de modo muito atento, em su­ces­si­vas perguntas-respostas, com apreço pela li­ber­dade dos ou­tros e res­peito pela co­mu­nhão que se pode atin­gir neste as­cen­dente diá­logo.»

 

O que faz do meu jazz um jazz vivo é o facto de es­tar ali­nhado co­migo, de ser au­tên­tico no sen­tido de que res­pira atra­vés de mim. Aprendeu tudo o que ha­via à volta para apren­der, mas é da mi­nha ca­beça e das mi­nhas mãos que sai

 

O con­tra­bai­xista Morten Vagan tem «a vir­tude de im­pul­si­o­nar a li­ber­dade per­for­ma­tiva sem es­que­cer a forma». Pelo seu lado, Joel Silva é «um ba­te­rista su­pe­ra­lerta que, com grande sen­si­bi­li­dade, re­força e in­cre­menta as su­ges­tões dos so­lis­tas, para além de ele mesmo ser um óp­timo so­lista».

Em con­junto, «ten­ta­mos fa­zer da mú­sica com­posta por mim algo que não es­teja amar­rado a uma ideia pri­mor­dial, dei­xando a per­for­mance de­ci­dir o ca­mi­nho, ou os ca­mi­nhos, a tri­lhar».

Procuram abor­dar cada tema de ma­neira di­fe­rente, e boas sur­pre­sas acon­te­cem quando se faz isso. «Abandonar pre­con­cei­tos é ou­tra ta­refa di­fí­cil que ten­ta­mos co­lo­car em exe­cu­ção.»

Por essa or­dem de ra­zões, o tra­ba­lho de Júlio Resende vem agra­dando tanto aos apre­ci­a­do­res do jazz mains­tream como aos que pre­fe­rem as  pro­pos­tas mais pro­gres­si­vas deste idi­oma musical.

Afirma o mú­sico a pro­pó­sito que qual­quer es­forço que faça para se ca­ta­lo­gar é «uma perda de ener­gia.

Fernando Pessoa disse-o bem: “Sentir tudo de to­das as ma­nei­ras / Ser a mesma coisa de to­dos os mo­dos pos­sí­veis ao mesmo tempo.”

Este é um bom “slo­gan” para o jazz que se clama como uma mú­sica li­vre e como uma lin­gua­gem uni­ver­sal. O me­lhor mesmo é ser­mos mais au­to­crí­ti­cos e ser­mos nós a re­ti­rar con­clu­sões so­bre o que fa­ze­mos, em vez de nos dei­xar­mos guiar por ca­tá­lo­gos ou por juí­zos alheios.»

A for­ma­ção do pi­a­nista em Filosofia ajudou-o a co­lo­car tudo em ques­tão, «e in­clu­sive a mim mesmo acho que essa é uma ati­tude que ne­nhum ar­tista de­via dis­pen­sar».

«O que faz do meu jazz um jazz vivo é o facto de es­tar ali­nhado co­migo, de ser au­tên­tico no sen­tido de que res­pira atra­vés de mim. Aprendeu tudo o que ha­via à volta para apren­der, mas é da mi­nha ca­beça e das mi­nhas mãos que sai. Ao con­trá­rio do que se faz muito ac­tu­al­mente, não se­gue qual­quer re­ceita co­mer­cial, nem re­pro­duz os pa­drões de ou­tros su­jei­tos ar­tís­ti­cos.»

Apenas os seus, com a sal­va­guarda de que, diz, não é «um ere­mita»…