→ 03/02/2011 @12:57

Victor Afonso e o carrossel de sons

Um mú­sico, um pro­jecto. Kubik: o Sol con­ti­nua a bri­lhar com in­ten­si­dade em Shina-Kak

O se­gundo en­tre­vis­tado desta sé­rie é mú­sico, pro­fes­sor de Música, blog­ger, já foi pro­gra­ma­dor cul­tu­ral e ac­tu­al­mente é res­pon­sá­vel pelo Serviço Educativo do Teatro Municipal da Guarda.

Chama-se Victor Afonso e é dele um dos pro­jec­tos mais ori­gi­nais e em­pol­gan­tes que co­nheço na mú­sica por­tu­guesa: Kubik.

Ele é tam­bém a pes­soa que um dia me en­viou um email garantindo-me que a mi­nha cos­tela zap­pi­ana e ecléc­tica não iria re­sis­tir ao grupo por­tu­guês LUME.

Acompanhava e co­nhe­cia o Victor Afonso blog­ger por ser lei­tor d’O Homem Que Sabia Demasiado, mas não co­nhe­cia a sua fa­ceta como mú­sico e o seu pro­jecto Kubik.

Finalmente, de­pois de vá­rias tro­cas de emails a pro­pó­sito do LUME e de ou­tros as­sun­tos, ca­lhou enviar-me um link para um ví­deo pro­mo­ci­o­nal do seu ter­ceiro ál­bum, Psicotic Jazz Hall.

Fui apa­nhado de surpresa.

Cheguei a pen­sar «Caramba, eu sim­pa­tizo com o tipo; se não gos­tar disto te­rei de lhe di­zer di­rec­ta­mente, o que é uma cha­tice; ou en­tão calar-me para sem­pre, o que é uma cha­tice ainda maior».

Quando co­me­cei a ou­vir Shina-Kak, o tal tema do ví­deo pro­mo­ci­o­nal, o meu in­sig­ni­fi­cante di­lema mo­ral desfez-se em pó. Três mi­nu­tos de­pois, es­tava de queixo caído a pen­sar por onde an­dara este gajo e por que ra­zão ne­nhum CD de Kubik me vi­era pa­rar às mãos.

Um quarto de hora de­pois já lhe es­tava a en­viar um email a pedinchar-lhe dis­cos em MP3. Sou um pi­rata de­sen­ver­go­nhado, eu sei.

Dez dias de­pois, quando pen­sei em fa­zer en­tre­vis­tas no Bitaites e de­cidi que as pes­soas a en­tre­vis­tar per­ten­ce­riam es­pe­ci­fi­ca­mente a três áreas – Ciência, Arte e Tecnologia –, já ti­nha na ca­beça que o pri­meiro mú­sico a en­tre­vis­tar se­ria pre­ci­sa­mente o Victor Afonso.

Victor Afonso es­co­lheu o nome Kubik por ser curto, fi­car no ou­vido e na me­mó­ria, mas a as­so­ci­a­ção com o re­a­li­za­dor Stanley Kubrick ou até o fa­moso cubo de Rubik foi imediata.

Esta as­so­ci­a­ção é ne­gada pelo mú­sico, mas acaba por fa­zer todo o sen­tido, pelo me­nos no que diz res­peito ao cineasta.

Kubrick re­pre­senta o lado ci­ne­ma­to­grá­fico das com­po­si­ções de Kubik: a mú­sica faz sur­gir fil­mes ima­gi­ná­rios, mas os fil­mes já exis­ten­tes tam­bém po­dem fa­zer sur­gir as mú­si­cas. É uma as­so­ci­a­ção en­tre som e ima­gem in­des­tru­tí­vel – essa li­ga­ção é es­sen­cial e tão pro­funda que ra­pi­da­mente o ou­vinte se apro­pria dela, para seu pró­prio deleite.

Por exem­plo, os so­pros ini­ci­ais de «Shina-Kak» soaram-me a uma pe­quena fan­farra psi­có­tica, trans­mi­tindo o mesmo tipo de gozo ar­tís­tico que le­vou Tarantino a fa­zer um zoom su­per­só­nico ao rosto vin­ga­tivo de Uma Thurman em Kill Bill.

E de­pois dançamos.

Outro exem­plo: o pri­meiro tema do EP How Blue Is My SkyHe Is The Voice – é uma brin­ca­deira com a voz sam­plada de um tí­pico cro­o­ner pop/jazz e res­pec­tiva or­ques­tra: a elec­tró­nica insinua-se na in­ter­pre­ta­ção as­sép­tica do can­tor e na mar­ga­rina dos vi­o­li­nos, for­mando um con­tra­ponto sar­cás­tico, de­mente, sub­ver­sivo, à pom­po­si­dade da­quela voz e da­quela orquestra.

E dou por mim trans­por­tado para os cor­re­do­res do Overlook Hotel, de The Shining, quando Jack Nicholson des­liza ao som de uma banda de fan­tas­mas ou a câ­mara ini­cia um lento tra­vel­ling fi­nal em di­rec­ção à foto de Jack emol­du­rada na parede.

Mesmo que Victor Afonso nunca te­nha pen­sado em Tarantino ou Kubrick, a cum­pli­ci­dade fica es­ta­be­le­cida: é fa­bu­lo­sa­mente di­ver­tido criar mú­sica, diz o com­po­si­tor, e é fa­bu­lo­sa­mente di­ver­tido ouvi-la, res­pon­de­mos nós.

Ele criou o seu car­ros­sel de sons e ima­gens, nós ab­sor­ve­mos a di­nâ­mica e se­gui­mos no nosso pró­prio car­ros­sel par­ti­cu­lar – e o que une mú­sico e ou­vinte é o facto de nem um nem ou­tro sa­be­rem re­sis­tir à ten­ta­ção de as­so­ciar mú­sica e ima­gem de forma instantânea.

Depois, Kubik mis­tura to­dos es­tes sons com o de­leite de um co­zi­nheiro ex­pe­ri­men­tando os in­gre­di­en­tes de uma re­ceita secreta.

O sen­tido de hu­mor, o gosto ecléc­tico, a sub­ver­são de gé­ne­ros e con­ven­ções, a apro­pri­a­ção dos cli­chés só por­que dá tanto gozo destruí-los, os mo­men­tos pu­ra­mente abs­trac­tos, ex­pe­ri­men­tais, to­das es­tas ca­rac­te­rís­ti­cas já fa­zem parte do có­digo ge­né­tico mu­si­cal de qual­quer po­ten­cial fã de Kubik, quer goste de elec­tró­nica ou não.

O es­tra­nho soa fa­mi­liar. Próximo. E até o de­sen­vol­vi­mento noise de al­guns te­mas faz sen­tido para mim, mesmo não sendo par­ti­cu­lar­mente atraído por es­sas texturas.

E as­sim, quase um mês de­pois de ter car­re­gado no bo­tão de play do ví­deo, do­mi­nado por pen­sa­men­tos di­plo­má­ti­cos, eis que a his­tó­ria chega fi­nal­mente ao fim com o me­lhor des­fe­cho pos­sí­vel para o blo­gue: eu nas per­gun­tas, ele nas respostas.

Toca a co­me­çar. Objectivo: uma con­versa tão di­nâ­mica e atra­ente como as li­nhas de baixo de Shina-Kak.

Era uma vez em Shina-Kak (um sí­tio se­creto na Guarda)

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Pensas na tua mú­sica como a banda so­nora de um filme ima­gi­ná­rio ou com­pões ban­das so­no­ras para fil­mes que já fo­ram re­a­li­za­dos por outros?

Victor Afonso — É ver­dade que desde o meu pri­meiro ál­bum — Oblique Musique (2001) — a crí­tica atri­buiu à mi­nha mú­sica qua­li­da­des cinematográficas.

Até houve quem fi­zesse re­la­ções en­tre o nome do pro­jecto, Kubik, com Kubrick.


Os crí­ti­cos de mú­sica não per­ce­bem nada. Aposto que che­gaste ao nome do pro­jecto de­pois de pen­sa­res as­sim: «Se o Kubrick ti­vesse in­ven­tado o cubo de Rubik, que nome lhe daria?»

V. A. – Não pen­sei mas é muito bem pen­sado! O cu­ri­oso é que o meu pro­jecto sur­giu no ano em que Kubrick mor­reu (1999). Mais: Kubik fi­cou co­nhe­cido por ter ga­nho 4 «Prémios Maqueta» de um con­curso para no­vos va­lo­res da mú­sica por­tu­guesa, em Março de 1999.

Kubrick mor­reu no dia 7 de Março e a ce­ri­mó­nia de en­trega dos tais pré­mios (no Porto) acon­te­ceu uns dias de­pois. Lembro-me de ter agra­de­cido e de ter in­vo­cado o nome de Kubrick como ins­pi­ra­ção, dedicando-lhe, sim­bo­li­ca­mente, o pré­mio re­ce­bido. Por isso, eu pró­prio con­tri­buí um pouco para essa as­so­ci­a­ção Kubik – Kubrick.

A mú­sica sem­pre foi a ma­té­ria mais im­por­tante para mim, desde miúdo, quando aprendi a to­car gui­tarra. A pai­xão pelo ci­nema veio mais tarde, no fi­nal da ado­les­cên­cia, de­pois de ter visto em sala uma epo­peia cha­mada «Apocalypse Now».

Anos mais tarde, en­tro para a Licenciatura de Educação Musical, que me pos­si­bi­li­tou ter o pri­meiro con­tacto com tec­no­lo­gia MIDI e elec­tró­nica. Foi por essa al­tura que criei a pri­meira banda so­nora ori­gi­nal para te­a­tro, a que se se­gui­ram di­ver­sos tra­ba­lhos para ci­nema mudo: «Un Chien Andalou» (1928), de Luis Buñuel e Salvador Dalí, «Entr’Acte» (1924), de René Clair, ou «A Felicidade» (1932), de Medvedkine.

Sempre me in­te­res­sou o ci­nema en­quanto re­fle­xão so­bre o ho­mem e o mundo, como es­pe­lho da vida e da arte. Fascina-me es­ta­be­le­cer re­la­ções en­tre ima­gens e sons

 

Para com­pen­sar o facto de não ter tido mú­sica nos seus tem­pos ori­gi­nais, o ci­nema mudo ti­nha uma forte com­po­nente vi­sual e plás­tica, que ate­nu­ava a au­sên­cia de som. O que eu fiz com es­tas com­po­si­ções foi en­fa­ti­zar as ima­gens e, ao con­trá­rio, sub­ver­ter o sen­tido des­sas ima­gens por puro pra­zer estético.

É es­ti­mu­lante com­por para fil­mes sur­re­a­lis­tas (como os ci­ta­dos), por­que co­lo­cam per­ma­nen­tes de­sa­fios de lin­gua­gem e de ex­pres­são. Entretanto, fiz ou­tros tra­ba­lhos para di­ver­sas curtas-metragens, te­a­tro e tam­bém para bai­lado con­tem­po­râ­neo. São sem­pre ex­pe­ri­ên­cias di­fe­ren­tes, por­que nes­tas oca­siões a me­to­do­lo­gia de tra­ba­lho é ou­tra, logo, in­flu­en­cia tam­bém o pro­cesso cri­a­tivo. Sempre me in­te­res­sou o ci­nema en­quanto re­fle­xão so­bre o ho­mem e o mundo, como es­pe­lho da vida e da arte. Fascina-me es­ta­be­le­cer re­la­ções en­tre ima­gens e sons, en­tre aquilo que se vê e aquilo que a mú­sica pode po­ten­ciar en­quanto ex­pres­são artística.

Quando faço mú­sica para os meus ál­buns como en­ti­dade Kubik (o ter­ceiro vem a ca­mi­nho), penso sem­pre em ima­gens. Algumas já exis­tem no meu ima­gi­ná­rio (e to­dos os dis­cos têm re­fe­rên­cias ci­né­fi­las) e servem-me de ins­pi­ra­ção; ou­tras ve­zes é a mú­sica que faço que des­po­leta ima­gens de fil­mes ima­gi­ná­rios. No novo disco há um tema que se ins­pira to­tal­mente no uni­verso de Andrei Tarkovski…



Algum filme es­pe­cí­fico de Tarkovski?

V. A. – Para mim to­dos os fil­mes de Tarkovski são «es­pe­cí­fi­cos», na­quele sen­tido de es­pe­ci­ais, úni­cos. Teria uns 17 anos quando um amigo mais ve­lho me in­cu­tiu o gosto pelo ci­nema do re­a­li­za­dor russo: «Tens de ver Tarkovski. Um re­a­li­za­dor me­ta­fí­sico, mís­tico, que faz lon­gos planos-sequência, que re­flecte so­bre o es­pí­rito do ho­mem, a solidão…».

Essa des­cri­ção fascinou-me e fui à pro­cura – num tempo ainda sem Internet – dos fil­mes de Tarkovski. Aos pou­cos fui con­se­guindo vê-los to­dos na te­le­vi­são ou em gra­va­ções nas ve­lhi­nhas VHS (aju­dou o facto de só ter sete longas-metragens) e des­co­bri uma sen­si­bi­li­dade es­té­tica rara, uma ma­neira de fil­mar mi­nu­ci­osa, uma no­tá­vel qua­li­dade plás­tica da fo­to­gra­fia, uma vi­são fi­lo­só­fica e es­pi­ri­tual do mundo e uma ori­gi­nal mú­sica elec­tró­nica (pelo me­nos em me­tade dos seus fil­mes) de Eduard Artemiev.

Para ser mais con­ciso em re­la­ção à per­gunta: «Stalker», «O Espelho» e «O sa­cri­fí­cio» ocu­pam o pó­dio das mi­nhas pre­fe­rên­cias; de­pois, muito perto, «Nostalgia», «A Infância de Ivan» e «Andrei Rubliev».

Vamos imaginar-te num mundo per­feito. Tu numa bo­nita vi­venda em Los Angeles, sa­bo­rando vodka-laranja à beira de uma pis­cina. Estás à es­pera que te ba­tam à porta para te en­co­men­dar a com­po­si­ção de uma banda so­nora. Cinco re­a­li­za­do­res vão tocar-te à cam­paí­nha, mas só po­des acei­tar um tra­ba­lho. Dado que este é um mundo per­feito, não pre­ci­sas de te pre­o­cu­par com por­me­no­res in­sig­ni­fi­can­tes como cer­ti­dões de óbito. Neste mundo só a vida existe. Quais são os cinco re­a­li­za­do­res e, des­tes, quem escolherias?

V. A . – Os cinco re­a­li­za­do­res se­riam Tim Burton, Gus Van Sant, Martin Scorsese, Béla Tarr e Jim Jarmusch (Tarantino se­ria o sexto da lista). Todos eles, à sua ma­neira, são re­a­li­za­do­res que, ape­sar de se­rem muito di­fe­ren­tes en­tre si, de­ram sem­pre uma es­pe­cial aten­ção às ban­das so­no­ras dos seus filmes.

São cinco ci­ne­as­tas com um per­curso sin­gu­lar, com um uni­verso es­té­tico per­so­na­li­zado no qual a mú­sica de­sem­pe­nha um pa­pel pre­pon­de­rante. De to­dos es­tes, te­ria de dei­xar qua­tro re­a­li­za­do­res à porta da vi­venda e con­vi­da­ria para en­trar… hum… Tim Burton.

Desde há mui­tos anos que sou ad­mi­ra­dor do seu ci­nema e do com­po­si­tor ha­bi­tual – Danny Elfman. A mi­nha mú­sica tem uma ver­tente que se adap­ta­ria muito bem ao ima­gi­ná­rio de Tim Burton. Mas claro que esta co­la­bo­ra­ção de­pen­de­ria muito dos va­lo­res do cachet!




Já es­tou aqui todo da­nado con­tigo por não te­res in­cluído o mes­tre Kubrick.
V. A. – Ah, mas eu pen­sei que ti­nham de ser re­a­li­za­do­res… vi­vos! Senão faço-te já uma lista de re­a­li­za­do­res de­sa­pa­re­ci­dos para os quais ado­ra­ria fa­zer mú­sica para os seus fil­mes: Kubrick (claro está), Hitchcock, Eisenstein, Tarkovski e Tati.


Dez mú­si­cos que con­si­de­res ab­so­lu­ta­mente es­sen­ci­ais para a tua saúde ar­tís­tica.
V. A. – Hoje são es­tes, ama­nhã po­de­riam ser ou­tros: Erik Satie, Igor Stravinsky, Pascal Comelade, Mike Patton, Amon Tobin, Aphex Twin, Ornette Coleman, Philip Glass, Brian Eno, Ian Curtis.

A brin­car, a brin­car, vai-se fa­zendo jazz

O mú­sico fran­cês Pascal Comelade e os seus brin­que­dos musicais

O teu ter­ceiro ál­bum – «Psicotic Jazz Hall» — é apre­sen­tado em Maio no Teatro Municipal da Guarda – a tua ci­dade. Escolheste Shina-Kak para tema de apre­sen­ta­ção por ser o teu pre­fe­rido ou por re­co­nhe­ce­res que tem mais po­ten­cial para agu­çar a cu­ri­o­si­dade em re­la­ção ao resto?

V. A. – Precisamente pe­los dois mo­ti­vos: é mesmo um dos meus pre­fe­ri­dos do disco (o que não quer di­zer que o resto do disco não te­nha ou­tros te­mas com o mesmo po­ten­cial) e por­que con­grega, es­ti­lis­ti­ca­mente fa­lando, um con­junto de ca­rac­te­rís­ti­cas do meu tra­ba­lho: a fu­são de re­fe­rên­cias so­no­ras, a sim­bi­ose de es­tí­mu­los e gé­ne­ros (cruza jazz, funk, spoken-word ja­po­nês, gui­tar­ras heavy-metal e can­tos dos bu­dis­tas ti­be­ta­nos) e a des­cons­tru­ção da lin­gua­gem jazz, que é co­mum a (quase) todo o disco.


Como é que te lem­braste desse tí­tulo, «Psicotic Jazz Hall?»

V.A. – «Psicotic Jazz Hall» re­mete para um tí­tulo de um ál­bum do mú­sico fran­cês Pascal Comelade, «Psicotic Music Hall». Comelade é um co­nhe­cido mú­sico que usa ins­tru­men­tos mu­si­cais de brin­car com um sen­tido lú­dico e algo bi­zarro. Adaptei o termo «jazz» no tí­tulo por­que grande parte dos te­mas con­tém re­fe­rên­cias à lin­gua­gem jazz, mas sem­pre com um cu­nho sub­ver­sivo, sem­pre mis­tu­rado com uma abor­da­gem frag­men­tá­ria de es­ti­los e so­no­ri­da­des. O ál­bum tem uma du­ra­ção re­la­ti­va­mente curta, 42 mi­nu­tos.


Nos teus es­pec­tá­cu­los, pas­sam frag­men­tos de ima­gens e fil­mes num ecrã mon­tado no palco. Tens a mesma no­ção de es­pec­tá­culo mul­ti­mé­dia que, por exem­plo, a Laurie Anderson, no qual to­dos os ele­men­tos – mú­sica, ci­nema, te­a­tro, po­e­sia, li­te­ra­tura – se con­jun­gam numa só apresentação?

V.A. – Tenho tido pre­o­cu­pa­ções vi­su­ais com os con­cer­tos, mas não ao ní­vel de uma Laurie Anderson, que cria com­ple­xos es­pec­tá­cu­los mul­ti­mé­dia. O que faço é bem mais sim­ples e trata-se de in­cluir, em de­ter­mi­na­das pas­sa­gens do con­certo, al­guns ví­deos que com­ple­men­tem a com­po­nente mu­si­cal. Certos vi­de­o­clips são con­ce­bi­dos por mim, ou­tros são fei­tos por ami­gos.


O ví­deo de Shina-Kak foi feito por ti?

V. A. — Sim, foi. O nome Soundnest Creator é o meu alter-ego «vi­de­o­grá­fico».


És tu a to­car to­dos os ins­tru­men­tos? São sam­ples de ou­tras mú­si­cas que tu jun­tas, trans­for­mas, cor­tas e co­las para criar algo to­tal­mente novo? É uma mis­tura de am­bos? Qual é o ins­tru­mento em que te sen­tes mais à von­tade? Guitarra, per­cus­são, baixo?

V. A. – Brian Eno lan­çou uma te­o­ria de­pois de fa­zer o se­mi­nal ál­bum (com David Byrne) «My Life in The Bush of Ghosts», em 1981: O fu­turo da mú­sica vai ser 80% de re­ci­cla­gem e 20% oriunda de inspiração.

Queria com isto di­zer que a ideia de re­cons­tru­ção de ma­te­rial pré-concebido se­ria a base para criar no­vas ideias, no­vas for­mas e con­cei­tos mu­si­cais. E bem se viu (e ou­viu) que, em parte, Eno ti­nha razão.

O que eu faço vai ao en­con­tro desse con­ceito de re­ci­clar re­fe­rên­cias mu­si­cais e de re­cons­truir algo de novo. Isto refere-se, so­bre­tudo, à forma como ma­ni­pulo e re­monto os sam­ples de ins­tru­men­tos ou de sequên­cias mu­si­cais. É tudo me­nos um pro­cesso cri­a­tivo ori­gi­nal: saco aqui, saco ali e, se­guindo o meu ins­tinto es­té­tico, re­cons­truo e trans­formo toda essa in­for­ma­ção sonora.

É um pro­cesso frag­men­tá­rio e muito mi­nu­ci­oso, por­que to­dos os de­ta­lhes con­tam para com­ple­tar e dar forma ao corpo fi­nal. Mas tam­bém toco e mis­turo com ins­tru­men­tos re­ais, al­guns to­ca­dos por mim, ou­tros to­ca­dos por mú­si­cos con­vi­da­dos (Old Jerusalem, Adolfo Luxúria Canibal, Bypass, no meu ál­bum anterior).

A mi­nha for­ma­ção desde miúdo é de gui­tarra, mas toco tam­bém te­cla­dos MIDI, baixo e ba­te­ria. E toda uma pa­ra­fer­ná­lia de ou­tros ins­tru­men­tos ao vivo – har­mó­nica, ma­rimba, flau­tas ori­en­tais, con­cer­tina…

As 12 fai­xas de Psicotic Jazz Hall, se­gundo Kubik

1. Damnation – Uma in­tro­du­ção curta que per­mite per­ce­ber qual vai ser o rumo do disco.
2. Shina-Kak – O tal tema do vídeo-promo. Tem a par­ti­ci­pa­ção do ar­tista ja­po­nês Kenji Siratori.
3. Liquid Paper – Começa com um ritmo e uma li­nha de baixo “swin­gada” e de­sem­boca numa vi­a­gem elec­tró­nica quase si­de­ral.
4. Gerry & Gerry – Título re­ti­rado do filme “Gerry” de Gus Van Sant. Primeiro mo­mento mu­si­cal mais con­tem­pla­tivo, com sa­xo­fo­nes a to­mar o rumo da mú­sica.
5. Psicotic Jazz Hall – Tema-título do ál­bum. Beats jaz­zís­ti­cos tra­ta­dos elec­tro­ni­ca­mente com gui­tar­ras as­sa­nha­das.
6. Selatius, 17th Century – Citação de um cé­le­bre per­so­na­gem de um cé­le­bre filme de um cé­le­bre re­a­li­za­dor. Outra vi­a­gem jaz­zís­tica im­pre­vi­sí­vel que co­meça de forma or­to­doxa mas que não se sabe como ter­mina.
7. Imagetica – A pul­são jaz­zís­tica sente-se com a li­nha de con­tra­baixo, mas intromete-se uma voz ét­nica e sons elec­tró­ni­cos di­ver­sos.
8. I Think I Am – Referência di­recta a Tarkovski. É mais rock e o único tema que conta com a mi­nha voz.
9. Shlomo Venezia is Not Dead Yet – Shlomo Venezia é um so­bre­vi­vente de Auschwitz. Li um li­vro onde re­lata as suas ex­pe­ri­ên­cias. A par­tir disto, ima­gi­nem a mú­sica.
10. Children of the Revolution – Um tema que já foge às re­fe­rên­cias do jazz, para en­trar numa ex­pe­ri­ên­cia elec­tro com can­tos de cri­an­ças do Bangladesh.
11. Come and See – Título do filme de guerra de Elem Klimov. Mistura Spiritualized com Sonic Youth. Parece men­tira mas é isso.
12. Dema– Gôd — Tema curto que en­cerra o disco. Um puro de­va­neio jaz­zís­tico com uma voz… des­vai­rada.
 

Kubik na grande terra da Partilha

Enquanto mú­sico, diz-me o que pen­sas so­bre a pi­ra­ta­ria da Net que as­so­ci­a­ções como a ACAPOR ou, nos Estados Unidos, a RIAA, tão de­ses­pe­ra­da­mente pro­cu­ram com­ba­ter. Se des­ses com um disco teu a ser par­ti­lhado na Web, como reagirias?

V.A. — Por acaso já dei com dis­cos meus par­ti­lha­dos na Internet. Não me cho­cou. Pelo con­trá­rio. Seria até mau sin­toma que não hou­vesse mú­sica mi­nha par­ti­lhada na Web. Seria si­nal de in­di­fe­rença para com o meu trabalho.

Eu não vivo da mú­sica, te­nho uma ac­ti­vi­dade pro­fis­si­o­nal. Eu ainda acre­dito na im­por­tân­cia do ob­jecto fí­sico do disco (cada vez me­nos) e no va­lor de com­prar o disco num for­mato de CD ou vi­nil. Mas à ex­cep­ção de um rol re­la­ti­va­mente pe­queno de mú­si­cos e ban­das que con­se­guem vi­ver da venda dos dis­cos, a ver­dade é que a es­ma­ga­dora mai­o­ria dos ar­tis­tas so­bre­vive, hoje, dos con­cer­tos e do merchandising.


O mer­cado das edi­to­ras dis­co­grá­fi­cas e res­pec­ti­vas dis­tri­bui­do­ras con­ti­nua a ser muito mal ge­rido, no afã do lu­cro e pre­ju­di­cando os in­te­res­ses do consumidor

 

Até o Pedro Abrunhosa, que ou­trora ven­dia de­ze­nas de mi­lha­res de dis­cos, veio en­fa­ti­zar esta ideia. Se eu vi­vesse da mú­sica, não po­dia es­pe­rar ter gran­des ren­di­men­tos da venda de dis­cos, por­que te­nho plena cons­ci­ên­cia que, mesmo que fi­zesse mú­sica co­mer­cial, se­ria muito di­fí­cil so­bre­vi­ver por­que a re­a­li­dade da era di­gi­tal impôs, quer se que­ria quer não, no­vas for­mas de con­sumo e de partilha.

A ver­dade é esta: o mp3 e ou­tros fi­chei­ros di­gi­tais es­tão a subs­ti­tuir o disco como su­porte de in­for­ma­ção, e a par­ti­lha des­ses fi­chei­ros na Internet é ab­so­lu­ta­mente im­pos­sí­vel de con­tro­lar. Depois a po­lí­tica de pre­ços dos dis­cos só vem pi­o­rar a si­tu­a­ção: va­mos à Fnac pro­cu­rar um disco re­cente, cons­ta­mos que custa 18 ou 20 eu­ros, mas sa­be­mos que basta che­gar a casa e, à dis­tân­cia de um cli­que e em es­cas­sos mi­nu­tos, con­se­gui­mos o mesmo disco sem gas­tar um cêntimo.

O mer­cado das edi­to­ras dis­co­grá­fi­cas e res­pec­ti­vas dis­tri­bui­do­ras con­ti­nua a ser muito mal ge­rido, no afã do lu­cro e pre­ju­di­cando os in­te­res­ses do consumidor.

Por isso, as me­di­das que a ACAPOR ten­tou im­ple­men­tar (friso: ten­tou) são con­tra­pro­du­cen­tes para com os pró­prios in­te­res­ses co­mer­ci­ais desta as­so­ci­a­ção (ou da con­gé­nere ame­ri­cana). É uma as­so­ci­a­ção com uma vi­são re­du­tora do fe­nó­meno que, de forma de­ses­pe­rada, tenta com­ba­ter a par­ti­lha ile­gal de fi­chei­ros ame­a­çando os uti­li­za­do­res e fa­zendo chan­ta­gem. Medidas com­ple­ta­mente de­sa­jus­ta­das e infrutíferas.


O MP3 e ou­tros fi­chei­ros di­gi­tais es­tão a subs­ti­tuir o disco como su­porte de in­for­ma­ção, e a par­ti­lha des­ses fi­chei­ros na Internet é ab­so­lu­ta­mente im­pos­sí­vel de controlar

 

Músicos como tu são pre­ju­di­ca­dos pela forma como a ca­beça de grande parte das pes­soas está for­ma­tada para re­co­nhe­cer ape­nas o for­mato can­ção. Sem um re­frão, fi­cam per­di­das, sem sa­ber como ab­sor­ver a mú­sica. O jazz, a im­pro­vi­sa­ção, é um corpo es­tra­nho por­que não têm nada a que se agar­rar. A sen­sa­ção de fa­mi­li­a­ri­dade de uma li­nha me­ló­dica de um des­ses su­ces­sos é cap­tada como «me­lo­dia que fica no ou­vido», mas na re­a­li­dade o que fica no ou­vido é a tre­menda falta de ori­gi­na­li­dade des­sas can­ções. Não achas que a car­reira de mú­si­cos como tu é uma luta in­ces­sante e in­gló­ria de se fa­zer ou­vir en­tre todo esse ruído co­mer­cial que ocupa as rá­dios e as te­le­vi­sões? Sentes essa luta ou já es­tás a marimbar-te para o assunto?

V.A. – Compreendo o que que­res di­zer. Por in­crí­vel que pa­reça, já houve mais es­paço para di­vul­gar mú­sica al­ter­na­tiva do que agora, com os pro­gra­mas do António Sérgio ou os pro­gra­mas de te­le­vi­são do tipo “Pop-Off”.

Hoje a for­ma­ta­ção e a di­ta­dura das play­lists do­mi­nam todo o espectro.

Já o pró­prio António Sérgio di­zia, pouco an­tes de fa­le­cer, que nin­guém apren­dia nada a ou­vir a rá­dio ac­tual, por­que a rá­dio já não es­ti­mu­lava no­vas des­co­ber­tas. O mesmo se passa com a te­le­vi­são, ca­bal e in­fe­liz exem­plo de pa­ra­si­tismo e in­du­tor do gosto massificado.

Felizmente que uma ex­tra­or­di­ná­ria fer­ra­menta de co­mu­ni­ca­ção cha­mada Internet re­vo­lu­ci­o­nou a forma de ace­der à in­for­ma­ção. Quem quer ou­vir mú­sica di­fe­rente da­quela que os meios de co­mu­ni­ca­ção trans­mi­tem, basta ir à Internet. É nesta pla­ta­forma que se joga a pro­mo­ção e di­vul­ga­ção de um pro­jecto mu­si­cal. Eu já co­nheci mui­tas ban­das e mú­si­cos na in­ter­net (Last.fm, rá­dio on­line, MySpace…) que nunca vi re­fe­ren­ci­a­dos nas rá­dios ou nos jor­nais. Mas mesmo para pro­cu­rar pro­pos­tas boas na Internet é pre­ciso sa­ber es­co­lher e não se dei­xar con­ta­mi­nar pelo gosto maioritário.

É ver­dade que não é fá­cil, um jo­vem com a ca­beça for­ma­tada, con­se­guir ou­vir, com pra­zer ime­di­ato, um disco de jazz, de mú­sica im­pro­vi­sada, de elec­tró­nica, de rock mais ex­pe­ri­men­tal ou de fu­são. São es­ti­los que fo­gem à pre­vi­si­bi­li­dade, à con­ven­ção da es­tru­tura de can­ção, e que, como re­fe­riste, des­con­cer­tam e desorientam.

A mi­nha mú­sica passa, pre­ci­sa­mente, por esta li­nha­gem de ex­pe­ri­men­ta­ção de no­vas fór­mu­las, de in­ter­sec­ção de gé­ne­ros sem ponto car­deal à vista. Gosto de de­sa­fiar os ou­vi­dos de quem me ouve. Por isso com­pre­endo que, para mui­tos mú­si­cos como eu, haja pouco es­paço de di­vul­ga­ção. Mas tam­bém es­tou cons­ci­ente que, quem gosta deste tipo de mú­sica, a pro­cura pe­los seus pró­prios meios e vai dar de ca­ras, mais cedo ou mais tarde, com a mi­nha mú­sica.


A maior parte das pes­soas ouve mú­sica em for­mato MP3. Na pro­du­ção do teu disco, nunca te pas­sou pela ca­beça qual­quer ideia do gé­nero «Não vale a pena man­ter as sub­ti­le­zas es­pa­ci­ais dos sons – só to­tal­mente per­cep­tí­veis quando es­ta­mos num con­certo ao vivo -, é pre­fe­rí­vel pu­xar ape­nas pe­las frequên­cias so­no­ras que o MP3 su­porta»?

V. A. – Sinceramente, não ligo muita im­por­tân­cia a esse as­pecto. Até por­que não sou um grande co­nhe­ce­dor, em ter­mos téc­ni­cos, das frequên­cias do MP3.

Aliás, não de­dico muito tempo a es­tu­dar ao por­me­nor os ma­nu­ais de uti­li­za­ção de um de­ter­mi­nado soft­ware de edi­ção áu­dio, por exem­plo. Preocupo-me com a ge­ne­ra­li­dade da qua­li­dade do som, da pro­du­ção, gra­va­ção e mas­te­ri­za­ção, mas faço-o de forma in­tui­tiva, sem se­guir cri­té­rios ri­go­ro­sos que um téc­nico de som ex­pe­ri­men­tado seguiria.

Concentro-me so­bre­tudo na cri­a­ção mu­si­cal, no de­sen­vol­vi­mento de ideias cri­a­ti­vas con­cre­tas que pos­sam ir ao en­con­tro do que me pro­po­nho fa­zer. Apesar disso, em ter­mos so­no­ros, a mi­nha mú­sica é re­pleta de por­me­no­res e de­ta­lhes que só ou­vindo di­ver­sas ve­zes se con­se­gue per­ce­ber. Por ve­zes cons­truo te­mas que são ca­ma­das atrás de ca­ma­das de ele­men­tos so­no­ros, mui­tas das ve­zes, em con­fronto, em ebu­li­ção, em per­ma­nente es­tado de des­co­berta de um sen­tido.

E agora, algo com­ple­ta­mente diferente

És ca­sado, tens duas fi­lhas me­no­res. Também pas­saste a fase em que quase ar­ran­ca­vas os ca­be­los por ou­vi­res tan­tas ve­zes a Rihanna ou o pai já está a tratar-lhes da edu­ca­ção musical?

V. A. – É fun­da­men­tal acom­pa­nhar a edu­ca­ção mu­si­cal desde a mais tenra idade. Estudos ci­en­tí­fi­cos com­pro­vam a im­por­tân­cia que a mú­sica tem para o de­sen­vol­vi­mento emo­ci­o­nal e cog­ni­tivo das cri­an­ças. Como mú­sico e pro­fes­sor de mú­sica, sem­pre in­cuti o gosto pela mú­sica, mas não de forma im­po­si­tiva e autoritária.

Acho que há ida­des para ou­vir de tudo e o gosto mu­si­cal bem edu­cado consegue-se com o pas­sar do tempo, em vá­rias fa­ses. As mi­nhas fi­lhas co­me­ça­ram a ou­vir mú­sica ti­pi­ca­mente in­fan­til até aos 5 ou 6 anos de idade. Depois pas­sa­ram a gos­tar de Hannah Montana, Jonas Brothers e ban­das do gé­nero (por acaso Rihanna nunca gos­ta­ram!) e, hoje, com 8 e 11 anos, gos­tam de Arcade Fire e U2. Claro que com uma in­fluên­cia di­recta dos pais, mas tam­bém é im­por­tante dei­xar es­paço para as pró­prias des­co­ber­tas que fa­zem com ami­gos ou que des­co­brem na internet.

Por ou­tro lado, am­bas es­tu­dam for­mal­mente mú­sica no Conservatório: uma toca vi­o­lino e a ou­tra toca pi­ano, facto que con­tri­bui para um de­sen­vol­vi­mento das ca­pa­ci­da­des au­di­ti­vas, o sen­tido es­té­tico, a dis­ci­plina, a con­cen­tra­ção e a auto-estima.


O facto de vi­ve­res na Guarda, tão afas­tado de Lisboa, é uma des­van­ta­gem ou vantagem?

V. A. – É cu­ri­oso que já vá­rias ve­zes me fi­ze­ram esta per­gunta, a qual con­si­dero per­ti­nente. Na ver­dade, acho que vi­ver na Guarda é uma vantagem.

Com a so­ci­e­dade da co­mu­ni­ca­ção glo­bal, não pre­ci­sei de vi­ver em Lisboa para Mike Patton co­nhe­cer o meu tra­ba­lho e me con­vi­dar para to­car na Aula Magna an­tes dos Fantômas. Não pre­ci­sei de vi­ver em Lisboa para que os meus dois dis­cos te­nham sido con­si­de­ra­dos uns dos me­lho­res dis­cos por­tu­gue­ses de cada ano (2001 e 2005). Não pre­ci­sei de vi­ver em Lisboa para ter ga­nho 4 pré­mios de ori­gi­na­li­dade, ter to­cado no Festival Paredes de Coura, ter to­cado com uma or­ques­tra na aber­tura do fes­ti­val de ci­nema Imago, ter feito ban­das so­no­ras para fil­mes mu­dos, ter sido con­vi­dado para fa­zer a mú­sica ori­gi­nal de um bai­lado con­tem­po­râ­neo que es­treou na Culturgest ou para fa­zer a mú­sica para re­a­li­za­do­res da Capital.

A ques­tão, para mim, é me­ra­mente ge­o­grá­fica. E uma vez um crí­tico disse que a mi­nha mú­sica, feita na Guarda, era de tal forma con­tem­po­râ­nea que po­dia ser um mú­sico de Londres ou Nova Iorque. É as­sim que sinto o meu tra­ba­lho: uni­ver­sal. Para além disso, vivo na ci­dade con­ti­nen­tal mais alta, logo o ar é mais puro, logo a ins­pi­ra­ção é mais espontânea.

 

19 comentários

  1. pedro — 03/02/2011 @13:18 (6 comentários)

    tens aqui al­gu­mas fo­tos de um con­certo na zdb:
    http://pedropolonio.fotopic.net/kubik
    8)

  2. Boa :D

  3. Obrigado Marco por esta pos­si­bi­li­dade de mos­trar o meu pro­jecto. Fizeste um ex­ce­lente tra­ba­lho. ;)

    E obri­gado ao Pedro Polónio que ti­rou umas ex­ce­len­tes fo­tos mi­nhas num con­certo, há uns anos, na ZDB.

  4. RSD — 03/02/2011 @15:30 (125 comentários)

    Excelente post e en­tre­vista Marco, tb sou do Distrito da Guarda, mas des­co­nhe­cia o tra­ba­lho do Vitor Afonso.
    Quanto à so­no­ri­dade o con­fesso que a mi­nha au­di­ção está for­ma­tada para boa mu­sica e es­cuto da clás­sica ao pop e do hip-hop ao he­avy me­tal, bem como transe, em to­dos os gé­ne­ros À mu­sica que gosto e ou­tra que não…
    O vi­de­o­clip deixou-me du­pla­mente agra­dado, pela so­no­ri­dade, com um ini­cio pró­ximo do funk, a lem­brar as pe­lí­cu­las dos anos 70 (Shaft, Dirty Harry e claro o bruce lee) e desenvolvendo-se num ritmo co­e­rente, mesmo para quem pode ser mais avesso a so­no­ri­dade ex­pe­ri­men­tais.
    Por ou­tro lado a es­co­lha dos fil­mes de Bruce Lee com o They live do Carpenter com um chei­ri­nho do Taxi Driver de Scorcese ( pelo que me pa­re­ceu, ou es­tou en­ga­nado) con­fe­rem uma fan­ta­sia pó­li­cro­má­tica a este fes­tim de so­no­ri­dade.
    Estranhei até na en­tre­vista não ter re­fe­rido o Carpenter, já que tb é um re­a­li­za­dor que sem­pre es­teve li­gado à mu­sica dos seus fil­mes, sendo se ca­lhar o seu mais co­nhe­cido o Tema a banda so­nora do Hallowwen. Apesar se ser um ad­mi­ra­dor da obra de Carpenter, a ver­dade é que a sua car­reira teve al­tos e bai­xos, tendo no ano que de­ve­ria ser da sua con­sa­gra­ção com o ex­ce­lente Starman sido ofus­cado por ou­tro filme cha­mado ET.
    Termino di­zendo que fi­quei cu­ri­oso em es­cu­tar o res­tante re­por­tó­rio de Vitor Afonso e aguardo com ex­pec­ta­tiva o tema deste novo disco ins­pi­rado em Andrei Tarkovski, já que mais do que a mu­sica sou um amante in­con­di­ci­o­nal da 7ª arte.

  5. Gaspar Garç&a — 03/02/2011 @15:55 (1 comentário)

    Foi com um pra­zer enorme que li a en­tre­vista do “nosso” Kubik, que já tive o pri­vi­lé­gio de tra­zer a Portalegre, atra­vés de uma as­so­ci­a­ção cul­tu­ral a que per­tenço, e que nos deu uma ma­gis­tral per­for­mance do “Chien Andalou” e do “Entre’Acte”, do René Clair. Mas o me­lhor da noite foi mesmo o con­ví­vio a se­guir… :)

    Sou lei­tor as­sí­duo do ex­ce­lente blog do Víctor, já que com­par­ti­lha­mos mui­tos gos­tos mu­si­cais, li­te­rá­rios e ci­ne­ma­to­grá­fi­cos (o grande Tarkovsky), e se ás ve­zes não deixo mais co­men­tá­rios no seu blog, é por­que ge­ral­mente já foi dito o que ti­nha pen­sado di­zer, já que ali par­ti­cipa mesmo pes­soal “Que Sabe Demasiado”…

    Só ou­tra nota cu­ri­osa, já que as coin­ci­dên­cias não se es­ten­dem por aqui: tra­ba­lho no CAEP de Portalegre e ado­ra­ria as­sis­tir a um con­certo dos LUME, mas agora as cir­cuns­tân­cias não são as idei­ais, mas pode ser que no fu­turo, quem sabe… (um dos mú­si­cos é meu amigo e vi­zi­nho desde cri­ança, o Pedro Monteiro, que me fa­lou uma vez em 1ª mão, há mui­tos anos, num pro­jecto que es­tava a apa­re­cer por Lisboa e que de­via ser in­te­res­sante…). :)

  6. Nuno — 03/02/2011 @18:06 (202 comentários)

    Obrigado e pa­ra­béns Marco pela en­tre­vista. Vou até fa­zer um PDF dela e jun­tar ao de­mais ma­te­rial de im­prensa que ve­nho a co­le­ci­o­nar dele desde 2001 (en­tre­vis­tas e crí­ti­cas). Ainda não ca­lhou ver um con­certo dele mais tive a sorte de vê-lo num show­case FNAC penso que na al­tura do lançamento/promoção do “Oblique”. Acho-o um ex­ce­lente e in­te­res­sante mú­sico sendo do me­lhor que Portugal tem para mostrar.

    P.S. Teres nes­tes posts es­pe­ci­ais uma forma de mos­trar tam­bém todo o ar­tigo numa única pá­gina era bestial.

    • Nuno, se fo­res à pá­gina prin­ci­pal na si­de­bar es­tão lá as en­tre­vis­tas sem es­ta­rem di­vi­di­das por pá­gi­nas :-)

    • Nuno — 05/02/2011 @14:19 (202 comentários)

      Erm, pois Marco obri­gado, mas só sei isso mesmo por­que me o di­zes agora. Nunca te­ria pen­sado ter de ir à pá­gina prin­ci­pal para ace­der a tal menu já que essa barra la­te­ral não está pre­sente na nor­mal pá­gina do ar­tigo. Digamos que em ter­mos de “usa­bi­li­dade” an­das a com­pli­car as coi­sas. Seria era na­tu­ral en­con­trar essa op­ção junto a “pá­gina 1 2″. :)

    • Nuno, en­tão mas isso é para es­tar na pá­gina prin­ci­pal. Não vou es­tar a por um link para a en­tre­vista na pró­pria pá­gina da en­tre­vista ;)

      De fu­turo, quando as en­tre­vis­tas saí­rem da pá­gina prin­ci­pal, basta ve­res na si­de­bar e vão lá es­tar to­das :)

  7. nuno pinto — 03/02/2011 @20:23 (146 comentários)

    Gostei muito do som. Desconhecia com­ple­ta­mente. Fiquei a que­rer mais :)

  8. Excelente en­tre­vista, as­sim como o pro­jecto do Vítor.

    Por acaso acom­pa­nho o Homem que sa­bia de­ma­si­ado há al­gum tempo, há mais que o Bitaites, e sem­pre gos­tei da mú­sica do Kubik.

  9. Olha que dois! Parabéns para ambos.

    Pá, a úl­tima pergunta/resposta é duma per­ti­nên­cia ma­luca. Fechou em beleza.

    Boa, boa!!

    • Há muito tempo que não da­vas si­nais de vida, nem aqui nem no teu blo­gue. Andaste afas­tado das in­ter­ne­tes? :-)

  10. Pois, é o raio da “aus­te­ri­dade” 8O .

    Pouco tempo e ener­gias têm so­brado para de­di­car ao que mais se gosta, mas tenta-se acom­pa­nhar, den­tro do possível.

    Abraço.

  11. RubeMicheL — 05/02/2011 @13:43 (21 comentários)

    Já co­nhe­cia, penso que atra­vés do site Jamendo.

    Tenho há muito o ‘How blue was my sky’, que tem uma mú­sica pela qual sou apai­xo­na­dís­simo: a ‘Audition’.

    Desejo ao ‘ar­tista’ a con­ti­nu­a­ção do ex­ce­lente trabalho!

    Kudos

  12. Nuno — 05/02/2011 @15:58 (202 comentários)

    @Marco

    Acredita que não me es­tás a com­pre­en­der e o meu pro­blema te está a pas­sar ao lado, mas en­fim es­tou “can­sado” de ex­pli­car es­tas coi­sas a cli­en­tes e quero re­al­mente abstrair-me des­tas coisa pelo me­nos quando es­tou aqui em la­zer. Um dia vais des­co­brir o que te que­ria di­zer. :)

    • EU não te es­tou a com­pre­en­der e tu não me es­tás a aju­dar a com­pre­en­der.
      Mas pronto, es­pero que um dia es­te­jas me­nos can­sado e me dês uma ajuda.
      Eu não sou web de­sig­ner, sou auto-didacta e de­pendo muito das crí­ti­cas para me­lho­rar. :)

      Edit: mas se bem en­tendi, posso tam­bém co­lo­car o link para as en­tre­vis­tas na si­de­bar dos pró­prios ar­ti­gos, para o caso de al­guém cá vir pa­rar directamente.

    • Nuno — 07/02/2011 @0:25 (202 comentários)

      Oh Marco, des­culpa não ter res­pon­dido logo nessa al­tura e ma­tado a ques­tão. Mas não o fiz por dois mo­ti­vos. Primeiro por­que bem, é can­sa­tivo para quem tra­ba­lha nisto não livrar-nos de con­ti­nuar a fa­lar des­tas coi­sas a toda a hora. Segundo por­que já te es­tava a ver ires numa di­rec­ção com­ple­ta­mente oposta e desviares-te da es­sên­cia do pro­blema e já nem sa­bia como te res­ga­tar no­va­mente para a es­sên­cia da questão.

      Dizes que não és web­de­sig­ner e olha ainda bem. Sabes, nisto da usa­bil­dade con­vém até não o ser ou pelo me­nos se o é devemo-nos abs­trair dessa po­si­ção e pôr-nos na po­si­ção de quem in­te­ressa, o mais co­mum (ou até quem diga do mais burro) dos uti­li­za­do­res. Isto seja para um site, um jor­nal, um micro-ondas ou seja o que for. São sem­pre coi­sas que não de­vem ser ana­li­sa­das por quem os cons­trói mas quem os usa. :)

      Ora re­gres­sando ao problema.

      Pedi-te umq op­ção para ver o ar­tigo numa pá­gina in­teira e não foi mesmo por ca­pri­cho meu. Vou só pri­mei­ra­mente in­di­car por­que se o deve fa­zer. Normalmente as pes­soas gos­tam dessa op­ção por dois mo­ti­vos:
      1) Por que não tem pa­ci­ên­cia para an­dar a mu­dar de pá­gina e às ve­zes perdem-se mesmo em múl­ti­plas pá­gi­nas que não usem “anterior/próxima” (tu não o fa­zes mas fe­liz­ment não tem mui­tas pá­gi­nas) em vez de “1/2/3″. Igualmente é mais fácil/rápido usar a ro­di­lha de rato do que ir cli­cando.
      2) Por ve­zes como me acon­te­ceu a mim, uma só pá­gina é pre­fe­rí­vel para gra­var como fi­cheiro ou para im­pri­mir (sem di­vi­só­rias im­pos­tas que nor­mal­mente não coin­ci­dem com a se­pa­ra­ção real da impressora).

      Ok, mas isto foi um aparte e como tu bem in­di­caste ha­via afi­nal uma pá­gina com todo o ar­tigo. Agora vou eu explicar-te por­que di­abo es­ses links não ser­vem para muito. Simplesmente por­que o modo de ace­der à “página-única” não está onde in­te­ressa e deve.

      q) Repara pri­meiro que quem vem dos RSS ou acede às en­tre­vis­tas cli­cando nos tí­tu­los dos ar­ti­gos acede às ver­sões “multi-páginas”. Só mesmo quem acede via a side-bar tem acesso à ver­são com­pleta. Por isso é muito mais na­tu­ral os uti­li­za­do­res ace­de­rem às en­tre­vis­tas multi-páginas do que em as com­ple­tas na si­de­bar. E que por isso deves-te pre­o­cu­par com isto.

      b) Ora como te disse só se acede a essa pá­gi­nas “com­ple­tas” na ho­me­page por­que re­para que esse bloco de links para en­tre­vis­tas não se en­con­tra no si­de­bar nas pá­gi­nas de ar­tigo onde as en­tre­vis­tas já es­tão re­par­ti­das. Sendo as­sim o uti­li­za­dor não tem se­quer essa op­ção na pá­gina. Mas mesmo se es­ti­ves­sem na si­de­bar como es­tão na ho­me­page não se­ria o lo­cal na­tu­ral e in­di­cado para es­tar um link “pá­gina inteira”.

      Como es­ta­ria bem feito?
      Simplesmente nas pá­gi­nas “re­par­ti­das” onde tens as mu­dan­ças de pá­gina “1 2 3″ de­ve­rias ter tam­bém um “1 2 3 Ver toda a en­tre­vista na mesma pá­gina” para quando o uti­li­za­dor qui­sesse mu­dar de “modo” de vi­su­a­li­za­ção. O uti­li­za­dor nunca vai lá adi­vi­nhar que essa op­ção existe na pá­gina prin­ci­pal! (Tal como eu não o des­co­bri) O que ele es­pera é en­con­trar essa op­ção quando faz es­sas mu­dan­ças de pá­gi­nas. Porque isso é o que pa­rece na­tu­ral (e não adi­vi­nhar que há uma forma para o fa­zer se lar­gar as multi-páginas, ir á pá­gina prin­ci­pal e des­co­brir mais abaixo esse bloco es­pe­cial com as en­tre­vis­tas “integrais”/uma só página).

      Eu que­ria te mos­trar bons exem­plos de ou­tros si­tes mas como sem­pre quando pre­ci­sa­mos das coi­sas elas não apa­re­cem. lol. Ainda pou­cos dias atrás ti­nha visto um bom exem­plo mas com tanto RSS e si­tes que vejo já nem me lem­bra onde.

      Considerações adi­ci­o­nais:
      – A ideia de que tex­tos lon­gos em pá­gi­nas web é uma má coisa já foi um tanto ul­tra­pas­sada e mui­tos de­fen­dem que di­vi­dir em vá­rias pá­gi­nas nem sem­pre é bom http://uxmyths.com/post/654047943/myth-people-don… (se ti­ve­res pa­ci­ên­cia para ler so­bre o as­sunto claro.)
      – Não há nada de er­rado com di­vi­di­res em múl­ti­plas pá­gi­nas. Ora so­mente de­ves é tam­bém dar uma forma fá­cil de ace­der à pá­gina com­pleta também.

      Outra per­gunta para te dei­xar a pen­sar (e a con­tra­di­zer):
      E para quem está a ler a en­tre­vista numa única pá­gina como tem acesso à ver­são multi-página se achar que pre­fere em blo­cos multi-página? ;)

      Espero que te­nhas per­ce­bido o que te que­ria di­zer se­não já nem sei como te ex­pli­car con­fesso! :)

  13. Grande amigo e co­lega. Kubik is the man!