O segundo entrevistado desta série é músico, professor de Música, blogger, já foi programador cultural e actualmente é responsável pelo Serviço Educativo do Teatro Municipal da Guarda.
Chama-se Victor Afonso e é dele um dos projectos mais originais e empolgantes que conheço na música portuguesa: Kubik.
Ele é também a pessoa que um dia me enviou um email garantindo-me que a minha costela zappiana e ecléctica não iria resistir ao grupo português LUME.
Acompanhava e conhecia o Victor Afonso blogger por ser leitor d’O Homem Que Sabia Demasiado, mas não conhecia a sua faceta como músico e o seu projecto Kubik.
Finalmente, depois de várias trocas de emails a propósito do LUME e de outros assuntos, calhou enviar-me um link para um vídeo promocional do seu terceiro álbum, Psicotic Jazz Hall.
Fui apanhado de surpresa.
Cheguei a pensar «Caramba, eu simpatizo com o tipo; se não gostar disto terei de lhe dizer directamente, o que é uma chatice; ou então calar-me para sempre, o que é uma chatice ainda maior».
Quando comecei a ouvir Shina-Kak, o tal tema do vídeo promocional, o meu insignificante dilema moral desfez-se em pó. Três minutos depois, estava de queixo caído a pensar por onde andara este gajo e por que razão nenhum CD de Kubik me viera parar às mãos.
Um quarto de hora depois já lhe estava a enviar um email a pedinchar-lhe discos em MP3. Sou um pirata desenvergonhado, eu sei.
Dez dias depois, quando pensei em fazer entrevistas no Bitaites e decidi que as pessoas a entrevistar pertenceriam especificamente a três áreas – Ciência, Arte e Tecnologia –, já tinha na cabeça que o primeiro músico a entrevistar seria precisamente o Victor Afonso.
Victor Afonso escolheu o nome Kubik por ser curto, ficar no ouvido e na memória, mas a associação com o realizador Stanley Kubrick ou até o famoso cubo de Rubik foi imediata.
Esta associação é negada pelo músico, mas acaba por fazer todo o sentido, pelo menos no que diz respeito ao cineasta.
Kubrick representa o lado cinematográfico das composições de Kubik: a música faz surgir filmes imaginários, mas os filmes já existentes também podem fazer surgir as músicas. É uma associação entre som e imagem indestrutível – essa ligação é essencial e tão profunda que rapidamente o ouvinte se apropria dela, para seu próprio deleite.
Por exemplo, os sopros iniciais de «Shina-Kak» soaram-me a uma pequena fanfarra psicótica, transmitindo o mesmo tipo de gozo artístico que levou Tarantino a fazer um zoom supersónico ao rosto vingativo de Uma Thurman em Kill Bill.
E depois dançamos.
Outro exemplo: o primeiro tema do EP How Blue Is My Sky – He Is The Voice – é uma brincadeira com a voz samplada de um típico crooner pop/jazz e respectiva orquestra: a electrónica insinua-se na interpretação asséptica do cantor e na margarina dos violinos, formando um contraponto sarcástico, demente, subversivo, à pomposidade daquela voz e daquela orquestra.
E dou por mim transportado para os corredores do Overlook Hotel, de The Shining, quando Jack Nicholson desliza ao som de uma banda de fantasmas ou a câmara inicia um lento travelling final em direcção à foto de Jack emoldurada na parede.
Mesmo que Victor Afonso nunca tenha pensado em Tarantino ou Kubrick, a cumplicidade fica estabelecida: é fabulosamente divertido criar música, diz o compositor, e é fabulosamente divertido ouvi-la, respondemos nós.
Ele criou o seu carrossel de sons e imagens, nós absorvemos a dinâmica e seguimos no nosso próprio carrossel particular – e o que une músico e ouvinte é o facto de nem um nem outro saberem resistir à tentação de associar música e imagem de forma instantânea.
Depois, Kubik mistura todos estes sons com o deleite de um cozinheiro experimentando os ingredientes de uma receita secreta.
O sentido de humor, o gosto ecléctico, a subversão de géneros e convenções, a apropriação dos clichés só porque dá tanto gozo destruí-los, os momentos puramente abstractos, experimentais, todas estas características já fazem parte do código genético musical de qualquer potencial fã de Kubik, quer goste de electrónica ou não.
O estranho soa familiar. Próximo. E até o desenvolvimento noise de alguns temas faz sentido para mim, mesmo não sendo particularmente atraído por essas texturas.
E assim, quase um mês depois de ter carregado no botão de play do vídeo, dominado por pensamentos diplomáticos, eis que a história chega finalmente ao fim com o melhor desfecho possível para o blogue: eu nas perguntas, ele nas respostas.
Toca a começar. Objectivo: uma conversa tão dinâmica e atraente como as linhas de baixo de Shina-Kak.
Era uma vez em Shina-Kak (um sítio secreto na Guarda)
Pensas na tua música como a banda sonora de um filme imaginário ou compões bandas sonoras para filmes que já foram realizados por outros?
Victor Afonso — É verdade que desde o meu primeiro álbum — Oblique Musique (2001) — a crítica atribuiu à minha música qualidades cinematográficas.
Até houve quem fizesse relações entre o nome do projecto, Kubik, com Kubrick.
Os críticos de música não percebem nada. Aposto que chegaste ao nome do projecto depois de pensares assim: «Se o Kubrick tivesse inventado o cubo de Rubik, que nome lhe daria?»
V. A. – Não pensei mas é muito bem pensado! O curioso é que o meu projecto surgiu no ano em que Kubrick morreu (1999). Mais: Kubik ficou conhecido por ter ganho 4 «Prémios Maqueta» de um concurso para novos valores da música portuguesa, em Março de 1999.
Kubrick morreu no dia 7 de Março e a cerimónia de entrega dos tais prémios (no Porto) aconteceu uns dias depois. Lembro-me de ter agradecido e de ter invocado o nome de Kubrick como inspiração, dedicando-lhe, simbolicamente, o prémio recebido. Por isso, eu próprio contribuí um pouco para essa associação Kubik – Kubrick.
A música sempre foi a matéria mais importante para mim, desde miúdo, quando aprendi a tocar guitarra. A paixão pelo cinema veio mais tarde, no final da adolescência, depois de ter visto em sala uma epopeia chamada «Apocalypse Now».
Anos mais tarde, entro para a Licenciatura de Educação Musical, que me possibilitou ter o primeiro contacto com tecnologia MIDI e electrónica. Foi por essa altura que criei a primeira banda sonora original para teatro, a que se seguiram diversos trabalhos para cinema mudo: «Un Chien Andalou» (1928), de Luis Buñuel e Salvador Dalí, «Entr’Acte» (1924), de René Clair, ou «A Felicidade» (1932), de Medvedkine.
Sempre me interessou o cinema enquanto reflexão sobre o homem e o mundo, como espelho da vida e da arte. Fascina-me estabelecer relações entre imagens e sons
Para compensar o facto de não ter tido música nos seus tempos originais, o cinema mudo tinha uma forte componente visual e plástica, que atenuava a ausência de som. O que eu fiz com estas composições foi enfatizar as imagens e, ao contrário, subverter o sentido dessas imagens por puro prazer estético.
É estimulante compor para filmes surrealistas (como os citados), porque colocam permanentes desafios de linguagem e de expressão. Entretanto, fiz outros trabalhos para diversas curtas-metragens, teatro e também para bailado contemporâneo. São sempre experiências diferentes, porque nestas ocasiões a metodologia de trabalho é outra, logo, influencia também o processo criativo. Sempre me interessou o cinema enquanto reflexão sobre o homem e o mundo, como espelho da vida e da arte. Fascina-me estabelecer relações entre imagens e sons, entre aquilo que se vê e aquilo que a música pode potenciar enquanto expressão artística.
Quando faço música para os meus álbuns como entidade Kubik (o terceiro vem a caminho), penso sempre em imagens. Algumas já existem no meu imaginário (e todos os discos têm referências cinéfilas) e servem-me de inspiração; outras vezes é a música que faço que despoleta imagens de filmes imaginários. No novo disco há um tema que se inspira totalmente no universo de Andrei Tarkovski…
Algum filme específico de Tarkovski?
V. A. – Para mim todos os filmes de Tarkovski são «específicos», naquele sentido de especiais, únicos. Teria uns 17 anos quando um amigo mais velho me incutiu o gosto pelo cinema do realizador russo: «Tens de ver Tarkovski. Um realizador metafísico, místico, que faz longos planos-sequência, que reflecte sobre o espírito do homem, a solidão…».
Essa descrição fascinou-me e fui à procura – num tempo ainda sem Internet – dos filmes de Tarkovski. Aos poucos fui conseguindo vê-los todos na televisão ou em gravações nas velhinhas VHS (ajudou o facto de só ter sete longas-metragens) e descobri uma sensibilidade estética rara, uma maneira de filmar minuciosa, uma notável qualidade plástica da fotografia, uma visão filosófica e espiritual do mundo e uma original música electrónica (pelo menos em metade dos seus filmes) de Eduard Artemiev.
Para ser mais conciso em relação à pergunta: «Stalker», «O Espelho» e «O sacrifício» ocupam o pódio das minhas preferências; depois, muito perto, «Nostalgia», «A Infância de Ivan» e «Andrei Rubliev».
Vamos imaginar-te num mundo perfeito. Tu numa bonita vivenda em Los Angeles, saborando vodka-laranja à beira de uma piscina. Estás à espera que te batam à porta para te encomendar a composição de uma banda sonora. Cinco realizadores vão tocar-te à campaínha, mas só podes aceitar um trabalho. Dado que este é um mundo perfeito, não precisas de te preocupar com pormenores insignificantes como certidões de óbito. Neste mundo só a vida existe. Quais são os cinco realizadores e, destes, quem escolherias?
V. A . – Os cinco realizadores seriam Tim Burton, Gus Van Sant, Martin Scorsese, Béla Tarr e Jim Jarmusch (Tarantino seria o sexto da lista). Todos eles, à sua maneira, são realizadores que, apesar de serem muito diferentes entre si, deram sempre uma especial atenção às bandas sonoras dos seus filmes.
São cinco cineastas com um percurso singular, com um universo estético personalizado no qual a música desempenha um papel preponderante. De todos estes, teria de deixar quatro realizadores à porta da vivenda e convidaria para entrar… hum… Tim Burton.
Desde há muitos anos que sou admirador do seu cinema e do compositor habitual – Danny Elfman. A minha música tem uma vertente que se adaptaria muito bem ao imaginário de Tim Burton. Mas claro que esta colaboração dependeria muito dos valores do cachet!

Já estou aqui todo danado contigo por não teres incluído o mestre Kubrick.
V. A. – Ah, mas eu pensei que tinham de ser realizadores… vivos! Senão faço-te já uma lista de realizadores desaparecidos para os quais adoraria fazer música para os seus filmes: Kubrick (claro está), Hitchcock, Eisenstein, Tarkovski e Tati.
Dez músicos que consideres absolutamente essenciais para a tua saúde artística.
V. A. – Hoje são estes, amanhã poderiam ser outros: Erik Satie, Igor Stravinsky, Pascal Comelade, Mike Patton, Amon Tobin, Aphex Twin, Ornette Coleman, Philip Glass, Brian Eno, Ian Curtis.
A brincar, a brincar, vai-se fazendo jazz
O teu terceiro álbum – «Psicotic Jazz Hall» — é apresentado em Maio no Teatro Municipal da Guarda – a tua cidade. Escolheste Shina-Kak para tema de apresentação por ser o teu preferido ou por reconheceres que tem mais potencial para aguçar a curiosidade em relação ao resto?
V. A. – Precisamente pelos dois motivos: é mesmo um dos meus preferidos do disco (o que não quer dizer que o resto do disco não tenha outros temas com o mesmo potencial) e porque congrega, estilisticamente falando, um conjunto de características do meu trabalho: a fusão de referências sonoras, a simbiose de estímulos e géneros (cruza jazz, funk, spoken-word japonês, guitarras heavy-metal e cantos dos budistas tibetanos) e a desconstrução da linguagem jazz, que é comum a (quase) todo o disco.
Como é que te lembraste desse título, «Psicotic Jazz Hall?»
V.A. – «Psicotic Jazz Hall» remete para um título de um álbum do músico francês Pascal Comelade, «Psicotic Music Hall». Comelade é um conhecido músico que usa instrumentos musicais de brincar com um sentido lúdico e algo bizarro. Adaptei o termo «jazz» no título porque grande parte dos temas contém referências à linguagem jazz, mas sempre com um cunho subversivo, sempre misturado com uma abordagem fragmentária de estilos e sonoridades. O álbum tem uma duração relativamente curta, 42 minutos.
Nos teus espectáculos, passam fragmentos de imagens e filmes num ecrã montado no palco. Tens a mesma noção de espectáculo multimédia que, por exemplo, a Laurie Anderson, no qual todos os elementos – música, cinema, teatro, poesia, literatura – se conjungam numa só apresentação?
V.A. – Tenho tido preocupações visuais com os concertos, mas não ao nível de uma Laurie Anderson, que cria complexos espectáculos multimédia. O que faço é bem mais simples e trata-se de incluir, em determinadas passagens do concerto, alguns vídeos que complementem a componente musical. Certos videoclips são concebidos por mim, outros são feitos por amigos.
O vídeo de Shina-Kak foi feito por ti?
V. A. — Sim, foi. O nome Soundnest Creator é o meu alter-ego «videográfico».
És tu a tocar todos os instrumentos? São samples de outras músicas que tu juntas, transformas, cortas e colas para criar algo totalmente novo? É uma mistura de ambos? Qual é o instrumento em que te sentes mais à vontade? Guitarra, percussão, baixo?
V. A. – Brian Eno lançou uma teoria depois de fazer o seminal álbum (com David Byrne) «My Life in The Bush of Ghosts», em 1981: O futuro da música vai ser 80% de reciclagem e 20% oriunda de inspiração.
Queria com isto dizer que a ideia de reconstrução de material pré-concebido seria a base para criar novas ideias, novas formas e conceitos musicais. E bem se viu (e ouviu) que, em parte, Eno tinha razão.
O que eu faço vai ao encontro desse conceito de reciclar referências musicais e de reconstruir algo de novo. Isto refere-se, sobretudo, à forma como manipulo e remonto os samples de instrumentos ou de sequências musicais. É tudo menos um processo criativo original: saco aqui, saco ali e, seguindo o meu instinto estético, reconstruo e transformo toda essa informação sonora.
É um processo fragmentário e muito minucioso, porque todos os detalhes contam para completar e dar forma ao corpo final. Mas também toco e misturo com instrumentos reais, alguns tocados por mim, outros tocados por músicos convidados (Old Jerusalem, Adolfo Luxúria Canibal, Bypass, no meu álbum anterior).
A minha formação desde miúdo é de guitarra, mas toco também teclados MIDI, baixo e bateria. E toda uma parafernália de outros instrumentos ao vivo – harmónica, marimba, flautas orientais, concertina…
As 12 faixas de Psicotic Jazz Hall, segundo Kubik
1. Damnation – Uma introdução curta que permite perceber qual vai ser o rumo do disco.
2. Shina-Kak – O tal tema do vídeo-promo. Tem a participação do artista japonês Kenji Siratori.
3. Liquid Paper – Começa com um ritmo e uma linha de baixo “swingada” e desemboca numa viagem electrónica quase sideral.
4. Gerry & Gerry – Título retirado do filme “Gerry” de Gus Van Sant. Primeiro momento musical mais contemplativo, com saxofones a tomar o rumo da música.
5. Psicotic Jazz Hall – Tema-título do álbum. Beats jazzísticos tratados electronicamente com guitarras assanhadas.
6. Selatius, 17th Century – Citação de um célebre personagem de um célebre filme de um célebre realizador. Outra viagem jazzística imprevisível que começa de forma ortodoxa mas que não se sabe como termina.
7. Imagetica – A pulsão jazzística sente-se com a linha de contrabaixo, mas intromete-se uma voz étnica e sons electrónicos diversos.
8. I Think I Am – Referência directa a Tarkovski. É mais rock e o único tema que conta com a minha voz.
9. Shlomo Venezia is Not Dead Yet – Shlomo Venezia é um sobrevivente de Auschwitz. Li um livro onde relata as suas experiências. A partir disto, imaginem a música.
10. Children of the Revolution – Um tema que já foge às referências do jazz, para entrar numa experiência electro com cantos de crianças do Bangladesh.
11. Come and See – Título do filme de guerra de Elem Klimov. Mistura Spiritualized com Sonic Youth. Parece mentira mas é isso.
12. Dema– Gôd — Tema curto que encerra o disco. Um puro devaneio jazzístico com uma voz… desvairada.
Kubik na grande terra da Partilha
Enquanto músico, diz-me o que pensas sobre a pirataria da Net que associações como a ACAPOR ou, nos Estados Unidos, a RIAA, tão desesperadamente procuram combater. Se desses com um disco teu a ser partilhado na Web, como reagirias?
V.A. — Por acaso já dei com discos meus partilhados na Internet. Não me chocou. Pelo contrário. Seria até mau sintoma que não houvesse música minha partilhada na Web. Seria sinal de indiferença para com o meu trabalho.
Eu não vivo da música, tenho uma actividade profissional. Eu ainda acredito na importância do objecto físico do disco (cada vez menos) e no valor de comprar o disco num formato de CD ou vinil. Mas à excepção de um rol relativamente pequeno de músicos e bandas que conseguem viver da venda dos discos, a verdade é que a esmagadora maioria dos artistas sobrevive, hoje, dos concertos e do merchandising.
O mercado das editoras discográficas e respectivas distribuidoras continua a ser muito mal gerido, no afã do lucro e prejudicando os interesses do consumidor
Até o Pedro Abrunhosa, que outrora vendia dezenas de milhares de discos, veio enfatizar esta ideia. Se eu vivesse da música, não podia esperar ter grandes rendimentos da venda de discos, porque tenho plena consciência que, mesmo que fizesse música comercial, seria muito difícil sobreviver porque a realidade da era digital impôs, quer se queria quer não, novas formas de consumo e de partilha.
A verdade é esta: o mp3 e outros ficheiros digitais estão a substituir o disco como suporte de informação, e a partilha desses ficheiros na Internet é absolutamente impossível de controlar. Depois a política de preços dos discos só vem piorar a situação: vamos à Fnac procurar um disco recente, constamos que custa 18 ou 20 euros, mas sabemos que basta chegar a casa e, à distância de um clique e em escassos minutos, conseguimos o mesmo disco sem gastar um cêntimo.
O mercado das editoras discográficas e respectivas distribuidoras continua a ser muito mal gerido, no afã do lucro e prejudicando os interesses do consumidor.
Por isso, as medidas que a ACAPOR tentou implementar (friso: tentou) são contraproducentes para com os próprios interesses comerciais desta associação (ou da congénere americana). É uma associação com uma visão redutora do fenómeno que, de forma desesperada, tenta combater a partilha ilegal de ficheiros ameaçando os utilizadores e fazendo chantagem. Medidas completamente desajustadas e infrutíferas.
O MP3 e outros ficheiros digitais estão a substituir o disco como suporte de informação, e a partilha desses ficheiros na Internet é absolutamente impossível de controlar
Músicos como tu são prejudicados pela forma como a cabeça de grande parte das pessoas está formatada para reconhecer apenas o formato canção. Sem um refrão, ficam perdidas, sem saber como absorver a música. O jazz, a improvisação, é um corpo estranho porque não têm nada a que se agarrar. A sensação de familiaridade de uma linha melódica de um desses sucessos é captada como «melodia que fica no ouvido», mas na realidade o que fica no ouvido é a tremenda falta de originalidade dessas canções. Não achas que a carreira de músicos como tu é uma luta incessante e inglória de se fazer ouvir entre todo esse ruído comercial que ocupa as rádios e as televisões? Sentes essa luta ou já estás a marimbar-te para o assunto?
V.A. – Compreendo o que queres dizer. Por incrível que pareça, já houve mais espaço para divulgar música alternativa do que agora, com os programas do António Sérgio ou os programas de televisão do tipo “Pop-Off”.
Hoje a formatação e a ditadura das playlists dominam todo o espectro.
Já o próprio António Sérgio dizia, pouco antes de falecer, que ninguém aprendia nada a ouvir a rádio actual, porque a rádio já não estimulava novas descobertas. O mesmo se passa com a televisão, cabal e infeliz exemplo de parasitismo e indutor do gosto massificado.
Felizmente que uma extraordinária ferramenta de comunicação chamada Internet revolucionou a forma de aceder à informação. Quem quer ouvir música diferente daquela que os meios de comunicação transmitem, basta ir à Internet. É nesta plataforma que se joga a promoção e divulgação de um projecto musical. Eu já conheci muitas bandas e músicos na internet (Last.fm, rádio online, MySpace…) que nunca vi referenciados nas rádios ou nos jornais. Mas mesmo para procurar propostas boas na Internet é preciso saber escolher e não se deixar contaminar pelo gosto maioritário.
É verdade que não é fácil, um jovem com a cabeça formatada, conseguir ouvir, com prazer imediato, um disco de jazz, de música improvisada, de electrónica, de rock mais experimental ou de fusão. São estilos que fogem à previsibilidade, à convenção da estrutura de canção, e que, como referiste, desconcertam e desorientam.
A minha música passa, precisamente, por esta linhagem de experimentação de novas fórmulas, de intersecção de géneros sem ponto cardeal à vista. Gosto de desafiar os ouvidos de quem me ouve. Por isso compreendo que, para muitos músicos como eu, haja pouco espaço de divulgação. Mas também estou consciente que, quem gosta deste tipo de música, a procura pelos seus próprios meios e vai dar de caras, mais cedo ou mais tarde, com a minha música.
A maior parte das pessoas ouve música em formato MP3. Na produção do teu disco, nunca te passou pela cabeça qualquer ideia do género «Não vale a pena manter as subtilezas espaciais dos sons – só totalmente perceptíveis quando estamos num concerto ao vivo -, é preferível puxar apenas pelas frequências sonoras que o MP3 suporta»?
V. A. – Sinceramente, não ligo muita importância a esse aspecto. Até porque não sou um grande conhecedor, em termos técnicos, das frequências do MP3.
Aliás, não dedico muito tempo a estudar ao pormenor os manuais de utilização de um determinado software de edição áudio, por exemplo. Preocupo-me com a generalidade da qualidade do som, da produção, gravação e masterização, mas faço-o de forma intuitiva, sem seguir critérios rigorosos que um técnico de som experimentado seguiria.
Concentro-me sobretudo na criação musical, no desenvolvimento de ideias criativas concretas que possam ir ao encontro do que me proponho fazer. Apesar disso, em termos sonoros, a minha música é repleta de pormenores e detalhes que só ouvindo diversas vezes se consegue perceber. Por vezes construo temas que são camadas atrás de camadas de elementos sonoros, muitas das vezes, em confronto, em ebulição, em permanente estado de descoberta de um sentido.
E agora, algo completamente diferente
És casado, tens duas filhas menores. Também passaste a fase em que quase arrancavas os cabelos por ouvires tantas vezes a Rihanna ou o pai já está a tratar-lhes da educação musical?
V. A. – É fundamental acompanhar a educação musical desde a mais tenra idade. Estudos científicos comprovam a importância que a música tem para o desenvolvimento emocional e cognitivo das crianças. Como músico e professor de música, sempre incuti o gosto pela música, mas não de forma impositiva e autoritária.
Acho que há idades para ouvir de tudo e o gosto musical bem educado consegue-se com o passar do tempo, em várias fases. As minhas filhas começaram a ouvir música tipicamente infantil até aos 5 ou 6 anos de idade. Depois passaram a gostar de Hannah Montana, Jonas Brothers e bandas do género (por acaso Rihanna nunca gostaram!) e, hoje, com 8 e 11 anos, gostam de Arcade Fire e U2. Claro que com uma influência directa dos pais, mas também é importante deixar espaço para as próprias descobertas que fazem com amigos ou que descobrem na internet.
Por outro lado, ambas estudam formalmente música no Conservatório: uma toca violino e a outra toca piano, facto que contribui para um desenvolvimento das capacidades auditivas, o sentido estético, a disciplina, a concentração e a auto-estima.
O facto de viveres na Guarda, tão afastado de Lisboa, é uma desvantagem ou vantagem?
V. A. – É curioso que já várias vezes me fizeram esta pergunta, a qual considero pertinente. Na verdade, acho que viver na Guarda é uma vantagem.
Com a sociedade da comunicação global, não precisei de viver em Lisboa para Mike Patton conhecer o meu trabalho e me convidar para tocar na Aula Magna antes dos Fantômas. Não precisei de viver em Lisboa para que os meus dois discos tenham sido considerados uns dos melhores discos portugueses de cada ano (2001 e 2005). Não precisei de viver em Lisboa para ter ganho 4 prémios de originalidade, ter tocado no Festival Paredes de Coura, ter tocado com uma orquestra na abertura do festival de cinema Imago, ter feito bandas sonoras para filmes mudos, ter sido convidado para fazer a música original de um bailado contemporâneo que estreou na Culturgest ou para fazer a música para realizadores da Capital.
A questão, para mim, é meramente geográfica. E uma vez um crítico disse que a minha música, feita na Guarda, era de tal forma contemporânea que podia ser um músico de Londres ou Nova Iorque. É assim que sinto o meu trabalho: universal. Para além disso, vivo na cidade continental mais alta, logo o ar é mais puro, logo a inspiração é mais espontânea.














tens aqui algumas fotos de um concerto na zdb:
http://pedropolonio.fotopic.net/kubik
8)
Boa
Obrigado Marco por esta possibilidade de mostrar o meu projecto. Fizeste um excelente trabalho.
E obrigado ao Pedro Polónio que tirou umas excelentes fotos minhas num concerto, há uns anos, na ZDB.
Excelente post e entrevista Marco, tb sou do Distrito da Guarda, mas desconhecia o trabalho do Vitor Afonso.
Quanto à sonoridade o confesso que a minha audição está formatada para boa musica e escuto da clássica ao pop e do hip-hop ao heavy metal, bem como transe, em todos os géneros À musica que gosto e outra que não…
O videoclip deixou-me duplamente agradado, pela sonoridade, com um inicio próximo do funk, a lembrar as películas dos anos 70 (Shaft, Dirty Harry e claro o bruce lee) e desenvolvendo-se num ritmo coerente, mesmo para quem pode ser mais avesso a sonoridade experimentais.
Por outro lado a escolha dos filmes de Bruce Lee com o They live do Carpenter com um cheirinho do Taxi Driver de Scorcese ( pelo que me pareceu, ou estou enganado) conferem uma fantasia pólicromática a este festim de sonoridade.
Estranhei até na entrevista não ter referido o Carpenter, já que tb é um realizador que sempre esteve ligado à musica dos seus filmes, sendo se calhar o seu mais conhecido o Tema a banda sonora do Hallowwen. Apesar se ser um admirador da obra de Carpenter, a verdade é que a sua carreira teve altos e baixos, tendo no ano que deveria ser da sua consagração com o excelente Starman sido ofuscado por outro filme chamado ET.
Termino dizendo que fiquei curioso em escutar o restante reportório de Vitor Afonso e aguardo com expectativa o tema deste novo disco inspirado em Andrei Tarkovski, já que mais do que a musica sou um amante incondicional da 7ª arte.
Foi com um prazer enorme que li a entrevista do “nosso” Kubik, que já tive o privilégio de trazer a Portalegre, através de uma associação cultural a que pertenço, e que nos deu uma magistral performance do “Chien Andalou” e do “Entre’Acte”, do René Clair. Mas o melhor da noite foi mesmo o convívio a seguir…
Sou leitor assíduo do excelente blog do Víctor, já que compartilhamos muitos gostos musicais, literários e cinematográficos (o grande Tarkovsky), e se ás vezes não deixo mais comentários no seu blog, é porque geralmente já foi dito o que tinha pensado dizer, já que ali participa mesmo pessoal “Que Sabe Demasiado”…
Só outra nota curiosa, já que as coincidências não se estendem por aqui: trabalho no CAEP de Portalegre e adoraria assistir a um concerto dos LUME, mas agora as circunstâncias não são as ideiais, mas pode ser que no futuro, quem sabe… (um dos músicos é meu amigo e vizinho desde criança, o Pedro Monteiro, que me falou uma vez em 1ª mão, há muitos anos, num projecto que estava a aparecer por Lisboa e que devia ser interessante…).
Obrigado e parabéns Marco pela entrevista. Vou até fazer um PDF dela e juntar ao demais material de imprensa que venho a colecionar dele desde 2001 (entrevistas e críticas). Ainda não calhou ver um concerto dele mais tive a sorte de vê-lo num showcase FNAC penso que na altura do lançamento/promoção do “Oblique”. Acho-o um excelente e interessante músico sendo do melhor que Portugal tem para mostrar.
P.S. Teres nestes posts especiais uma forma de mostrar também todo o artigo numa única página era bestial.
Nuno, se fores à página principal na sidebar estão lá as entrevistas sem estarem divididas por páginas
Erm, pois Marco obrigado, mas só sei isso mesmo porque me o dizes agora. Nunca teria pensado ter de ir à página principal para aceder a tal menu já que essa barra lateral não está presente na normal página do artigo. Digamos que em termos de “usabilidade” andas a complicar as coisas. Seria era natural encontrar essa opção junto a “página 1 2″.
Nuno, então mas isso é para estar na página principal. Não vou estar a por um link para a entrevista na própria página da entrevista
De futuro, quando as entrevistas saírem da página principal, basta veres na sidebar e vão lá estar todas
Gostei muito do som. Desconhecia completamente. Fiquei a querer mais
Excelente entrevista, assim como o projecto do Vítor.
Por acaso acompanho o Homem que sabia demasiado há algum tempo, há mais que o Bitaites, e sempre gostei da música do Kubik.
Olha que dois! Parabéns para ambos.
Pá, a última pergunta/resposta é duma pertinência maluca. Fechou em beleza.
Boa, boa!!
Há muito tempo que não davas sinais de vida, nem aqui nem no teu blogue. Andaste afastado das internetes?
Pois, é o raio da “austeridade”
.
Pouco tempo e energias têm sobrado para dedicar ao que mais se gosta, mas tenta-se acompanhar, dentro do possível.
Abraço.
Já conhecia, penso que através do site Jamendo.
Tenho há muito o ‘How blue was my sky’, que tem uma música pela qual sou apaixonadíssimo: a ‘Audition’.
Desejo ao ‘artista’ a continuação do excelente trabalho!
Kudos
@Marco
Acredita que não me estás a compreender e o meu problema te está a passar ao lado, mas enfim estou “cansado” de explicar estas coisas a clientes e quero realmente abstrair-me destas coisa pelo menos quando estou aqui em lazer. Um dia vais descobrir o que te queria dizer.
EU não te estou a compreender e tu não me estás a ajudar a compreender.
Mas pronto, espero que um dia estejas menos cansado e me dês uma ajuda.
Eu não sou web designer, sou auto-didacta e dependo muito das críticas para melhorar.
Edit: mas se bem entendi, posso também colocar o link para as entrevistas na sidebar dos próprios artigos, para o caso de alguém cá vir parar directamente.
Oh Marco, desculpa não ter respondido logo nessa altura e matado a questão. Mas não o fiz por dois motivos. Primeiro porque bem, é cansativo para quem trabalha nisto não livrar-nos de continuar a falar destas coisas a toda a hora. Segundo porque já te estava a ver ires numa direcção completamente oposta e desviares-te da essência do problema e já nem sabia como te resgatar novamente para a essência da questão.
Dizes que não és webdesigner e olha ainda bem. Sabes, nisto da usabildade convém até não o ser ou pelo menos se o é devemo-nos abstrair dessa posição e pôr-nos na posição de quem interessa, o mais comum (ou até quem diga do mais burro) dos utilizadores. Isto seja para um site, um jornal, um micro-ondas ou seja o que for. São sempre coisas que não devem ser analisadas por quem os constrói mas quem os usa.
Ora regressando ao problema.
Pedi-te umq opção para ver o artigo numa página inteira e não foi mesmo por capricho meu. Vou só primeiramente indicar porque se o deve fazer. Normalmente as pessoas gostam dessa opção por dois motivos:
1) Por que não tem paciência para andar a mudar de página e às vezes perdem-se mesmo em múltiplas páginas que não usem “anterior/próxima” (tu não o fazes mas felizment não tem muitas páginas) em vez de “1/2/3″. Igualmente é mais fácil/rápido usar a rodilha de rato do que ir clicando.
2) Por vezes como me aconteceu a mim, uma só página é preferível para gravar como ficheiro ou para imprimir (sem divisórias impostas que normalmente não coincidem com a separação real da impressora).
Ok, mas isto foi um aparte e como tu bem indicaste havia afinal uma página com todo o artigo. Agora vou eu explicar-te porque diabo esses links não servem para muito. Simplesmente porque o modo de aceder à “página-única” não está onde interessa e deve.
q) Repara primeiro que quem vem dos RSS ou acede às entrevistas clicando nos títulos dos artigos acede às versões “multi-páginas”. Só mesmo quem acede via a side-bar tem acesso à versão completa. Por isso é muito mais natural os utilizadores acederem às entrevistas multi-páginas do que em as completas na sidebar. E que por isso deves-te preocupar com isto.
b) Ora como te disse só se acede a essa páginas “completas” na homepage porque repara que esse bloco de links para entrevistas não se encontra no sidebar nas páginas de artigo onde as entrevistas já estão repartidas. Sendo assim o utilizador não tem sequer essa opção na página. Mas mesmo se estivessem na sidebar como estão na homepage não seria o local natural e indicado para estar um link “página inteira”.
Como estaria bem feito?
Simplesmente nas páginas “repartidas” onde tens as mudanças de página “1 2 3″ deverias ter também um “1 2 3 Ver toda a entrevista na mesma página” para quando o utilizador quisesse mudar de “modo” de visualização. O utilizador nunca vai lá adivinhar que essa opção existe na página principal! (Tal como eu não o descobri) O que ele espera é encontrar essa opção quando faz essas mudanças de páginas. Porque isso é o que parece natural (e não adivinhar que há uma forma para o fazer se largar as multi-páginas, ir á página principal e descobrir mais abaixo esse bloco especial com as entrevistas “integrais”/uma só página).
Eu queria te mostrar bons exemplos de outros sites mas como sempre quando precisamos das coisas elas não aparecem. lol. Ainda poucos dias atrás tinha visto um bom exemplo mas com tanto RSS e sites que vejo já nem me lembra onde.
Considerações adicionais:
– A ideia de que textos longos em páginas web é uma má coisa já foi um tanto ultrapassada e muitos defendem que dividir em várias páginas nem sempre é bom http://uxmyths.com/post/654047943/myth-people-don… (se tiveres paciência para ler sobre o assunto claro.)
– Não há nada de errado com dividires em múltiplas páginas. Ora somente deves é também dar uma forma fácil de aceder à página completa também.
Outra pergunta para te deixar a pensar (e a contradizer):
E para quem está a ler a entrevista numa única página como tem acesso à versão multi-página se achar que prefere em blocos multi-página?
Espero que tenhas percebido o que te queria dizer senão já nem sei como te explicar confesso!
Grande amigo e colega. Kubik is the man!