Os factos: uma dona-de-casa brasileira, Elisângela Rosa Camargo, de 25 anos, residente em Jundiaí, no bairro Almerinda Chaves, matou os dois filhos (um rapaz de seis anos e uma menina de 19 meses) com uma serra eléctrica.
Quando o pai, Gilmar Oliveira, chegou a casa do trabalho, encontrou as cabeças das crianças praticamente separadas dos corpos.
Capturada pela Polícia Militar no Terminal Rodoviário de Bauru – cidade localizada a 345 quilómetros de São Paulo – a mulher confessou os crimes mas não os soube explicar de forma coerente. Depois de matar os filhos, contou ela, foi tomar banho, juntou as economias da família e apanhou um autocarro para Bauru. Afirmou que estava «nervosa» e então «fiz isso com as crianças». Ela descreveu à polícia exactamente o que fez e o que aconteceu enquanto matava as crianças. Os pormenores são sórdidos, não os repito aqui. Segundo a família, Elisângela mostrava sinais de depressão e chegaram-lhe a marcar consulta com um psicólogo, mas ela julgava que era suficiente a orientação que recebia do seu pastor da igreja Deus é Amor.
Mais vale tentar colocar as emoções de parte: horror pela violência, raiva contra a assassina, compaixão pelas pobres crianças. Tentar compreender o que leva uma pessoa a fazer uma coisa destas é mais difícil. Uma mãe matar os próprios filhos não é considerado natural: mais natural é imaginar uma situação em que podemos sacrificar as nossas vidas pelos filhos – e não o contrário.
Mesmo aqueles que não têm filhos podem sentir, perante as crianças, sobretudo as mais pequenas, um sentimento de protecção que é reflexo, suponho eu, da nossa cultura, do nosso sentido moral e de um imperativo biológico que consiste em dar continuidade à nossa espécie.
Lembro-me de ter visto um vídeo qualquer de apanhados em que era colocado sobre o tejadilho de um carro um carrinho de bebé com um bonequinho muito realista lá sentado. A reacção de grande parte das pessoas foi de pânico, pois julgavam que o dono do carro se tinha esquecido da criança e queriam impedir que ela se magoasse. Algumas pessoas chegaram a colocar em risco a sua própria integridade física, colocando-se diante do carro e obrigando-o a travar a fundo. Esta é a atitude que esperamos de pessoas que partilham o mesmo estilo de vida que nós.
Já uma vez escrevi aqui, não me lembro quando, que uma tragédia é sempre uma tragédia, quer ela envolva uma pessoa ou milhares. A morte daquelas crianças deixa-me uma pedra no estômago, mas todos os dias, em nome de razões de Estado ou da Real Politik (no fundo vai dar ao mesmo), morrem muitas mais. A dor é sempre dor, e não é a sua multiplicação que a torna maior. Mas penso que, de alguma forma, existe um processo de distanciação artificial que opera entre seres humanos – um processo agindo nas sombras de um assassínio ou de uma guerra. E é precisamente por isso que eu digo que as mortes de crianças inocentes – às mãos de uma mãe ou de um general – estão relacionadas porque são ambas contra a natureza humana – embora, no caso da guerra, nos queiram convencer do contrário.
Numa luta mortal de seres contra seres da mesma espécie, a distanciação imposta aos soldados tem nas fardas o seu símbolo mais vistoso. Cada nação, ou grupo de nações, tem a sua própria farda – e vesti-la permite distanciar seres humanos e criar, de forma artificial, uma subespécie de homens mentalizados para destruir outras subespécies que também são criadas artificialmente.
Pensem naquelas lutas semi-organizadas entre claques de futebol de clubes diferentes: andariam eles todos à pancada se não usassem as camisolas e os cachecóis, ou seja, as fardas? O princípio é o mesmo.
Esta distanciação é conseguida à força da disciplina e de conceitos abstractos como “patriotismo” e “justiça” ou seja lá o que for que aos falcões der jeito inventar. George Bush invoca Deus e a Democracia, por exemplo. Os fundamentalistas islâmicos invocam Deus e o Islão.
Mas como dizia um soldado americano que combatia no Vietname, no filme Nascido Para Matar, de Kubrick, «Democracia é apenas uma merda de uma palavra. Se andamos aqui a combater por uma palavra, então eu prefiro combater pela palavra Foder, que é a minha preferida».
O objectivo das fardas é colocar sucessivos obstáculos ao nosso sentido moral que nos diz que o soldado inimigo é um ser humano como nós e que, em circunstâncias diferentes, não nos passaria pela cabeça matá-lo. Se nos recusarmos a usar fardas, visíveis ou invisíveis, é mais difícil que os Donald Rumsfeld deste mundo convençam os povos de que a guerra faz todo o sentido. Porque não faz. Não faz mesmo.
Quando a guerra se propaga de tal forma que não é possível fazer uso da Razão, então estamos perdidos. É assim que se sente o rapaz do filme de Elem Klimov, Vem e Vê: Requiem para um Massacre, quando lhe é feita a pergunta fundamental: Conseguirias matar Hitler, mesmo que ele fosse um bebé? [ver post]
Neste episódio da mãe que matou os filhos, seria importante que os jornalistas – além de fazerem eco do «choque» que as pessoas sentiram com a notícia (o óbvio) – tentassem investigar de que forma vivem essas pessoas, qual o grau de pobreza, educação, a que cultura têm acesso e de que maneira as ilusões da televisão e das telenovelas lhes moldam os sonhos e as expectativas.
Dizer – como li algures num fórum brasileiro – que aquela mulher estava possuída pelo Demónio pode até ser um bom ponto de partida, desde que não seja um demónio bíblico. Invocar este tipo de demónio é o mesmo que dar o assunto por encerrado, pois ninguém precisa de questionar as razões do demónio – ele é simplesmente mau, pronto, e por isso está no Inferno à espera daquela mãe e de todos os outros maus.
Se os jornalistas brasileiros fizerem essa investigação, é possível que descubram o Demónio e vejam que este, afinal, nem sempre tem cornos e cauda.
Edward Bond escreveu um texto sobre a natureza humana.
Ele defende que a natureza humana é um vazio que espera ser preenchido pela cultura. Eu identifico-me com esta visão: não confio nos deuses, nos capitalistas ou nos comunistas para a preencher – e os restantes políticos parecem gostar mais de votos que de Povo.
Resta a cultura. Não digo cultura naquele sentido chato, demasiado académico, vicioso ou pseudo-intelectual, mas como uma forma bem porreira de não perdermos contacto com os outros e com o que nós somos e nos podemos tornar. Ou seja, dar importância às palavras e ao que elas significam. Ler, aprender, perguntar, ler, aprender e perguntar outra vez, recolher informação, ser um apaixonado da informação, interpretá-la, seleccioná-la – e aplicar o conhecimento adquirido nos temas que interessam. Um ciclo infinito de assimilação e partilha. O desenvolvimento de software Open Source é resultado desse ciclo, só para dar um exemplo dentro da área privilegiada do Bitaites. E fazer um blogue também, já agora.
Se não têm pachorra para ler o texto na íntegra – compreensível, pois nem sempre temos tempo para fazer tudo o que queremos – pensem ao menos no significado deste excerto:
Nós não temos uma natureza fixa do mesmo modo que os outros animais têm. Nós temos um ‘espaço’ reservado pela liberdade que temos em relação à natureza prisioneira dos animais, ao controle apertado dos seus instintos. Este espaço é preenchido pela cultura. A natureza humana é de facto cultura humana. O grau de cultura é medido pela sua racionalidade. A racionalidade é a base da discriminação entre culturas boas e más. E como a natureza humana é a cultura humana, a natureza humana é social. Os homens que vivem numa sociedade irracional são conduzidos a uma espécie de loucura, porque essa sociedade não vive num estado fixo e estático, deteriora-se e acaba por cultivar activamente a ignorância e combater o conhecimento. Tal sociedade não pode ser estabilizada pela tecnologia, por muito brilhante que seja. Pelo contrário, a tecnologia pode ser um perigo. A negligência das instituições sociais (…) afecta-nos de muitos modos. Não apenas separa os indivíduos uns dos outros, como separa o indivíduo de si próprio e o despedaça por dentro.
A Natureza Humana, Edward Bond
Louca, assassina, mas primeiro despedaçada por dentro. Só pode ser.































3 comentários
É íncrível como Portugal e Brasil estão ligados por um cordão umbilical desde a época do “descobrimento”.
É ainda mais surpreendente o fato de tudo de polêmico ser tão repercutido em teu blog.
Me sinto feliz pela “notoriedade” brasileira e demais triste por tudo de ruim que sempre está a acontecer cá.
Ninguém nunca se preocupa, como disses, da condição física e psicológica de um ser humano diante de tantas dificuldades. Ninguém compreende que a miséria não é encarada da mesma forma por todos; da mesma maneira, o poder pode ser uma saída ou o fim.
É incrível como eu estou sempre a me surpreender com as atrocidades humanas e os grandes gestos de bondade, ainda mais agora que estagio num órgão jurídico: sinto o grande peso das coisas mais terríveis ao ler cada inquerito policial como se fossem um ataque cardíaco; se for exagerado, exagero eu na dor mas não na decepção.
Tento compreender a alma humana indecodificável como a idéia de que o universo é ou não infinito.
Será tão complexo como nós?
Mesmo assim, ainda me surpreendo com os atos mais belos e índoles mais honestas que vejo, às vezes me faz pensar que eu sou apenas uma observadora.Um mero observador.
Conheço o teu blog à vários meses e agradeço por me oferecer leituras não para vestibulares mas para a vida. Tenho-lhe como um “maturidificador”. Deves entender isto, já que escreves tão bem e eu apenas me delicio em magníficas leituras.
Tenho inveja de tua escrita. Uma inveja oriunda da cobiça.
Sou Kadyana, brasileira, bahiana, 16 anos.
Kadyana, não tenhas inveja nem cobiça. Tens 16 anos. Eu tenho 43. São mais 27. E posso garantir-te que aos 16 anos eu não escrevia com metade da tua maturidade.
Nunca percas a confiança em ti própria. Estás a escrever muito bem. E vais sempre melhorar. Segredo: ler muito e viver ainda mais. Um beijo.
Tenho cetreza que sim. Busco aprimorar-me sempre.
muito obrigada